{"id":20672,"date":"2008-03-13T13:35:57","date_gmt":"2008-03-13T13:35:57","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20672"},"modified":"2008-03-13T13:35:57","modified_gmt":"2008-03-13T13:35:57","slug":"duas-caras-se-alinha-a-ali-kamel-e-mostra-brasil-sem-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20672","title":{"rendered":"Duas Caras se alinha a Ali Kamel e mostra Brasil sem racismo"},"content":{"rendered":"<div id=\"artigo\">\n<p>A dramaturgia da Globo &eacute; como o Carnaval: provoca paix&otilde;es e &oacute;dios com a mesma intensidade exacerbada. Mas as novelas e &quot;miniss&eacute;ries&quot; da emissora carioca, h&aacute; que reconhecer, apaixonam pessoas de todas as partes do Brasil e do mundo.<\/p>\n<p>Essa receita de sucesso &eacute; baseada numa f&oacute;rmula que transforma modelos em &quot;atores&quot; gra&ccedil;as a uma edi&ccedil;&atilde;o e a um ritmo das cenas que minimizam a falta de intimidade da maioria amadora dos elencos globais com os palcos. Tudo isso, regado a or&ccedil;amentos hollywoodianos, faz da dramaturgia global um dos produtos mais exportados pelo Brasil.&nbsp;<\/p>\n<p>Durante d&eacute;cadas a fio, essa dramaturgia de &ecirc;xito &#8211; e de mentira &#8211; moldou a mentalidade nacional. A Globo est&aacute; acostumada a vender todo tipo de comportamento &#8211; modismos, conceitos e at&eacute; pr&eacute;-conceitos &#8211; com seus folhetins encenados. <\/p>\n<p>Mesmo sabendo disso tudo, fiquei surpreso na noite da &uacute;ltima ter&ccedil;a-feira (11\/03) ao ver uma personagem da novela Duas Caras, a mulata e ex-BBB Juliana Alves (Gislaine), lendo um livro que denuncia a estrat&eacute;gia da emissora naquela trama. A mo&ccedil;a estava lendo N&atilde;o Somos Racistas, de Ali Kamel.&nbsp;<\/p>\n<p>Antes de voc&ecirc;, leitor, criticar o fato de eu assistir a nada mais, nada menos do que a uma das est&uacute;pidas novelas que a tev&ecirc; brasileira imp&otilde;e a um p&uacute;blico sequioso por lixo televisivo, e de dar seu depoimento de que jamais assistiria a tal porcaria, quero lembr&aacute;-lo de que ignorar uma arma de difus&atilde;o de comportamentos e de mentalidades obtusas como &eacute; uma novela das oito da Globo n&atilde;o mudar&aacute; o fato de que essa arma vem sendo muito efetiva no sentido de falsear a realidade nacional e imbecilizar as pessoas.<\/p>\n<p>Enquanto se torce o nariz &agrave; mera possibilidade de levar a s&eacute;rio qualquer coisa que saia do Projac, a Globo vai fazendo a festa. Essa novela, por exemplo, a tal Duas Caras, vem fazendo um dos trabalhinhos mais sujos que j&aacute; vi na vida. &Agrave;s vezes fico me perguntando o que sente um favelado que v&ecirc; uma novela na qual brancos ricos s&atilde;o habitu&eacute;s de favela chamada &quot;Portelinha&quot;, a qual, &agrave; diferen&ccedil;a de qualquer gueto como s&atilde;o as favelas, n&atilde;o abriga tr&aacute;fico de drogas e adota padr&otilde;es de organiza&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria quase n&oacute;rdicos, com ruas limpas, casas bem cuidadas etc.<\/p>\n<p>No Brasil fict&iacute;cio da Globo, brancos ricos est&atilde;o doidos para se casar com favelados negros. Em Duas Caras, Barretinho (Dudu Azevedo) e J&uacute;lia (D&eacute;bora Falabella), filhos do riqu&iacute;ssimo e ultra-racista advogado Barreto (St&ecirc;nio Garcia), derretem-se, respectivamente, por Sabrina (Cris Vianna) e Evil&aacute;sio Ca&oacute; (L&aacute;zaro Ramos), e Claudius (Caco Ciocler) por Solange (Sheron Menezes).<\/p>\n<p>No mentiroso folhetim da Globo, favelas t&ecirc;m mais brancos do que negros, e alguns negros s&atilde;o riqu&iacute;ssimos. Favelados pobres chegam a estudar nas mesmas universidades que brancos ricos. A mesma institui&ccedil;&atilde;o abriga as negras da portelinha Gislaine e Solange, a perua Maria Eva (Let&iacute;cia Spiller) e o negro mau-car&aacute;ter Rudolf Stenzel (Diogo Almeida), que fala a favor de cotas para negros e sobre discrimina&ccedil;&atilde;o racial e, naturalmente, &eacute; cabalmente desmentido pela realidade dramatol&oacute;gica global. <\/p>\n<p>A imagem &#8211; e a propaganda descarada &#8211; do livro de Ali Kamel tem um prop&oacute;sito. Negros e brancos de Duas Caras interagem de acordo com cada v&iacute;rgula contida na odiosa obra do manda-chuva do jornalismo da Globo.<\/p>\n<p>Na verdade, a sensa&ccedil;&atilde;o que tive foi a de uma pretendida afronta a quem se revolta com o cinismo de N&atilde;o Somos Racistas. &Eacute; como se a Globo dissesse: podem falar mal, mas n&oacute;s temos a televis&atilde;o que entra em 90% dos lares brasileiros a referendar nossa teoria sobre como amamos nossos irm&atilde;os negros.&nbsp;<\/p>\n<p>Eles (a elite branca e sua m&iacute;dia) dizem que n&atilde;o s&atilde;o racistas. E, como prova, disseminam pelo mundo um pa&iacute;s em que n&atilde;o se v&ecirc; mis&eacute;ria, em que n&atilde;o se v&ecirc; os indicadores sociais dram&aacute;ticos dos negros ante os indicadores muito melhores dos brancos, ou os sal&aacute;rios inferiores dos negros ante os dos brancos, ou a maior mortalidade infantil dos negros ante a muito menor dos brancos.<\/p>\n<p>Eles s&atilde;o racistas, sim, porque tentam frear a luta por oportunidades iguais para os negros no mercado de trabalho e nas universidades afirmando descaradamente que essas oportunidades existem. Al&eacute;m de racistas, s&atilde;o mentirosos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dramaturgia da Globo &eacute; como o Carnaval: provoca paix&otilde;es e &oacute;dios com a mesma intensidade exacerbada. Mas as novelas e &quot;miniss&eacute;ries&quot; da emissora carioca, h&aacute; que reconhecer, apaixonam pessoas de todas as partes do Brasil e do mundo. 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