{"id":20615,"date":"2008-03-05T18:02:38","date_gmt":"2008-03-05T18:02:38","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20615"},"modified":"2008-03-05T18:02:38","modified_gmt":"2008-03-05T18:02:38","slug":"a-deterioracao-etica-e-moral-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20615","title":{"rendered":"A deteriora\u00e7\u00e3o \u00e9tica e moral do jornalismo"},"content":{"rendered":"<p><span><em>Em entrevista ao Vermelho, Luis Nassif revela como e por que resolveu desmascarar a farsa, atrav&eacute;s do &ldquo;dossi&ecirc; Veja&rdquo;, publicado em cap&iacute;tulos no blog Luis Nassif Online.<\/p>\n<p><\/em><\/span><span><em>*<\/em><\/p>\n<p><\/span><span><strong>Voc&ecirc; j&aacute; escreveu um livro (O Jornalismo dos Anos 90) para tentar explicar mudan&ccedil;as paradigm&aacute;ticas da imprensa na &uacute;ltima d&eacute;cada. Ap&oacute;s as elei&ccedil;&otilde;es 2006, soltou o artigo &ldquo;A longa noite de S&atilde;o Bartolomeu&rdquo;, que &eacute; quase um ap&ecirc;ndice do livro, com um resumo e atualiza&ccedil;&otilde;es a respeito dessas transforma&ccedil;&otilde;es. O que houve nesse per&iacute;odo? Como e por que a grande m&iacute;dia mudou?<br \/><\/strong><\/span><span>O livro terminava relativamente otimista. Eu achava que, com o avan&ccedil;o do discernimento por parte dos leitores, a imprensa seria mais seletiva e mais rigorosa na apura&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias. Mas nos anos 90 e nesta d&eacute;cada entre 2000 e 2010, ao menos at&eacute; agora, ocorreu uma conflu&ecirc;ncia de fatores que piorou muito o ambiente midi&aacute;tico.<\/p>\n<p><\/span><span>Tivemos, de um lado, a crise das empresas jornal&iacute;sticas, que cometeram o que chamamos de ato de fraqueza como forma de n&atilde;o s&oacute; sa&iacute;rem da crise como tamb&eacute;m de enfrentarem um outro cen&aacute;rio adverso que viria pela frente. Cederam &agrave; m&iacute;dia internacional, com grandes grupos entrando e um novo padr&atilde;o sendo introduzido &mdash; e nossos homens da m&iacute;dia eram sempre acostumados com um ambiente fechado, sem uma vis&atilde;o estrat&eacute;gica para sobreviver num ambiente de competi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Isso levou a um pacto de autodefesa entre esses grupos, porque eles precisariam fazer parcerias tamb&eacute;m com grandes investidores. &Eacute; a&iacute; que aparece a figura dos banqueiros dos anos 90, alguns bem barra-pesada, que passam a ser uma das b&oacute;ias de salva&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. E a&iacute; voc&ecirc; vende a alma. Quando voc&ecirc; vende a alma e tem essa falta de crit&eacute;rio jornal&iacute;stico em algumas publica&ccedil;&otilde;es, voc&ecirc; d&aacute; tanto poder para seus diretores que eles saem do pr&oacute;prio controle da organiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Nessa s&eacute;rie da Veja que estou fazendo, h&aacute; muitos epis&oacute;dios que n&atilde;o t&ecirc;m Abril no meio. A Abril perdeu o controle. A compara&ccedil;&atilde;o que faria &eacute; a de uma empresa que usa o caixa 2 e sistemas n&atilde;o-formais para poder conseguir neg&oacute;cios &mdash; e que perde o controle de quem est&aacute; fazendo as coisas. Na Veja, voc&ecirc; tem mat&eacute;rias que s&atilde;o muito estranhas. Voc&ecirc; olha e diz: que justificativa tem para isso? &Eacute; a Abril que est&aacute; pedindo isso? S&atilde;o os diretores?<\/p>\n<p><\/span><span><br \/><strong>Voc&ecirc; est&aacute; nos dizendo que a &ldquo;hierarquia militar&rdquo; da Abril foi violada? Ou o Roberto Civita (presidente da Editora Abril) poderia intervir e n&atilde;o interveio?<br \/><\/strong><\/span><span>O Roberto Civita foi alvo, em momentos passados, de ataques pessoais pesados. E a&iacute; vem um pessoal pistoleiro de reputa&ccedil;&atilde;o e oferece a chance de fazer com eles o que antes fizeram com o Civita. E ent&atilde;o ele libera esses mastins para sair atacando todo mundo. O que acontece? Ele n&atilde;o &eacute; um cara ideol&oacute;gico. Esse neg&oacute;cio de dizer que os s&oacute;cios sul-africanos &eacute; que est&atilde;o levando a essa posi&ccedil;&atilde;o da Veja &eacute; mentira. O Civita &eacute; um sujeito que se guia pelo mercado e que se baseia muito no que acontece nos Estados Unidos.<\/p>\n<p><\/span><span>E nos Estados Unidos tem in&iacute;cio esse movimento neocon, de agressividade na linguagem. Ele pensou: &ldquo;Vamos trazer isso para c&aacute;&rdquo;. E entregou essa fun&ccedil;&atilde;o para as piores m&atilde;os poss&iacute;veis &mdash; um pessoal jornalisticamente incompetente e inescrupuloso no trato da informa&ccedil;&atilde;o. Come&ccedil;aram a radicaliza&ccedil;&atilde;o, a grosseria, os ataques contra todo mundo e os beneficiamentos pessoais. O que aconteceu com o livro do M&aacute;rio Sabino? Ele usou todo o ferramental dispon&iacute;vel inclusive para mudar crit&eacute;rios dos livros mais vendidos e, assim, se beneficiar. Isso a&iacute; n&atilde;o &eacute; coisa da Abril. &Eacute; inacredit&aacute;vel um neg&oacute;cio desses.<\/p>\n<p><\/span><span>Se essa s&eacute;rie tivesse sa&iacute;do no ano passado, o que eles alegariam? S&atilde;o os inimigos pol&iacute;ticos da Veja, s&atilde;o os chapas-brancas E atr&aacute;s desse discurso, dessa blindagem, eles faziam tudo. A qualquer cr&iacute;tica que surgisse, eles diziam: &ldquo;Ah, s&atilde;o os chapas-brancas&rdquo;. O Diogo Mainardi foi usado pelo M&aacute;rio Sabino, &eacute; um doente. Foi utilizado para isso: se algu&eacute;m chegar perto, cria a marca &ldquo;&eacute; da equipe do governo&rdquo;, &ldquo;&eacute; chapa-branca&rdquo;. Com isso, voc&ecirc; libera a dire&ccedil;&atilde;o para fazer o que desse na telha.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Foi o que fizeram com o Franklin Martins, com a Tereza Cruvinel&#8230; <br \/><\/strong><\/span><span>Voc&ecirc; pega o Franklin Martins. Eles conseguiram jogar nos bra&ccedil;os do governo o melhor jornalista pol&iacute;tico do pa&iacute;s: &ldquo;Ah, agora est&aacute; provado que o Franklin era governista&rdquo;. Provado coisa nenhuma! O Franklin ficou fora do mercado e foi trabalhar no governo. A Tereza Cruvinel era uma das melhores colunistas que havia. Come&ccedil;aram com esses ataques baixos, desqualificadores, e ela foi trabalhar no governo.<\/p>\n<p><\/span><span>A quest&atilde;o toda n&atilde;o &eacute; somente os ataques, mas a maneira como os jornais reagiram a isso. No Globo, o (diretor-executivo de jornalismo) Ali Kamel fechou com eles. O que o Ali Kamel fez com o Franklin quando foi atacado? Rompeu contrato com ele. Isso foi uma deslealdade que intimidou todos os demais colunistas do O Globo. Na Folha, o Otavinho (Ot&aacute;vio Frias Filho, diretor de Reda&ccedil;&atilde;o) n&atilde;o saiu em defesa quando seus colunistas foram atacados. N&atilde;o digo nem a mim &mdash; mas ao Kennedy Alencar, ao Marcelo Coelho e a outros.<\/p>\n<p><\/span><span>Isso criou uma inseguran&ccedil;a geral nos colunistas. Nos anos 90, havia diversidade jornal&iacute;stica dada por eles. Quando se cria essa guerra e essa unanimidade para derrubar o Lula &mdash; e se permite que os seus jornalistas sejam atacados &mdash;, voc&ecirc; induz todos eles a fazerem discurso &uacute;nico por uma quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia profissional. Eu pulei fora.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Nos anos 50, havia um jornalismo bastante carregado de opini&otilde;es. Isso voltou tal como era antes ou voc&ecirc; v&ecirc; diferen&ccedil;as?<br \/><\/strong><\/span><span>Voltou com tudo, inclusive com os planos Cohen da vida. Toda aquela manipula&ccedil;&atilde;o, inclusive dossi&ecirc;s falsos, passou a ser usada. Isso &eacute; uma loucura! Estamos na era da internet, da comunica&ccedil;&atilde;o, e a Veja passa a usar dossi&ecirc;s falsos, passa a misturar a not&iacute;cia com fantasia.<\/p>\n<p><\/span><span>Aquele neg&oacute;cio de d&oacute;lares de Cuba &eacute; um exemplo. A qualidade da not&iacute;cia deveria ser melhor at&eacute; por uma quest&atilde;o de cautela. Se hoje n&atilde;o h&aacute; mais aquele controle da informa&ccedil;&atilde;o que se tinha antes, voc&ecirc; n&atilde;o pode se dar &agrave; imprud&ecirc;ncia de sair inventando hist&oacute;ria, porque vai ser desmascarado. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>H&aacute; um cap&iacute;tulo do dossi&ecirc; em que voc&ecirc; diz que, a cada sucess&atilde;o no comando da Veja, entram jornalistas cada vez mais desqualificados e incompetentes&#8230;<br \/><\/strong><\/span><span>&Eacute;. A Veja est&aacute; num processo de deteriora&ccedil;&atilde;o moral. Recebo v&aacute;rios e-mails de jornalistas que trabalharam l&aacute;, e h&aacute; um que fala que, a cada edi&ccedil;&atilde;o, morria de medo de involuntariamente fuzilar alguma reputa&ccedil;&atilde;o. Porque eles pegam as mat&eacute;rias e alteram tudo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Existem v&aacute;rios exemplos de jornalistas que faziam parte de um grande ve&iacute;culo e que, agora, t&ecirc;m seus sites e blogs, est&atilde;o &ldquo;nadando contra a corrente&rdquo;. Temos o Paulo Henrique Amorim e o Luiz Carlos Azenha, que eram da Globo. H&aacute; voc&ecirc;, que saiu da Folha. A internet virou uma v&aacute;lvula de escape?<br \/><\/strong><\/span><span>Vou falar da minha experi&ecirc;ncia. Na Folha, sempre procurei jogar no contrafluxo. Um exemplo foi a Escola Base. Esse neg&oacute;cio de n&atilde;o seguir a manada, para mim, sempre foi um oxig&ecirc;nio. Qualquer forma de restri&ccedil;&atilde;o ao pensamento, para mim, &eacute; um terror. E a restri&ccedil;&atilde;o ao pensamento pode vir da empresa, pode vir do governo ou pode vir do leitor. <\/p>\n<p><\/span><span>Ao longo dos anos 90, um grande fator de restri&ccedil;&atilde;o &agrave; imprensa foram essas pesquisas de opini&atilde;o. Os jornais criavam um esc&acirc;ndalo, o leitor queria mais daquele esc&acirc;ndalo, e o jornal ficava prisioneiro daquela opini&atilde;o do leitor que ele mesmo tinha criado. Era um c&iacute;rculo vicioso.<\/p>\n<p><\/span><span>O que aconteceu nos &uacute;ltimos anos foi que voc&ecirc; n&atilde;o podia mais jogar no contrafluxo por conta dessa frente que se formou contra o governo. Uma das caracter&iacute;sticas do jornalismo &eacute; que a capacidade que voc&ecirc; tem de fazer um elogio &eacute; que te garante credibilidade e a efici&ecirc;ncia quando voc&ecirc; faz a cr&iacute;tica. Se for sistematicamente a favor ou sistematicamente contra, n&atilde;o se faz jornalismo.<\/p>\n<p><\/span><span>S&oacute; que quando, come&ccedil;ou aquela campanha maluca contra o Lula, voc&ecirc; tinha que ficar sistematicamente contra. Tinha den&uacute;ncia verdadeira? Tinha. Mas tamb&eacute;m havia den&uacute;ncias falsas. O jornalismo coerente tinha que separar o falso do verdadeiro. S&oacute; que o patrulhamento foi um neg&oacute;cio t&atilde;o intenso &mdash; e essa frente da m&iacute;dia foi t&atilde;o emburrecedora &mdash; que acabou essa diferencia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Quando fomos para a internet, o p&uacute;blico que estava l&aacute; era o p&uacute;blico dos jornais. Mas a internet tamb&eacute;m &eacute; uma armadilha; voc&ecirc; tem que tomar cuidado para n&atilde;o ficar prisioneiro dela tamb&eacute;m. Meu p&uacute;blico &eacute; 80% a favor do Lula. Mas, se voc&ecirc; cede a esse p&uacute;blico, voc&ecirc; perde a liberdade.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Que press&otilde;es voc&ecirc; sofreu na Folha?<br \/><\/strong><\/span><span>Ali foram desgastes internos, que j&aacute; vinha h&aacute; algum tempo. Quando entrou a &ldquo;guerra santa&rdquo; e eu comecei a fazer o contraponto, gerei insatisfa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o teve jeito.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Existe na blogosfera um &ldquo;ativismo jornal&iacute;stico&rdquo; cujos principais nomes seriam o seu, o do Paulo Henrique Amorim?<br \/><\/strong><\/span><span>Isso a&iacute; &eacute; malandragem desse pessoal da Veja. Quando a Veja resolveu montar a blindagem para a revista, o &aacute;libi encontrado contra as cr&iacute;ticas foi dizer que se formou uma frente contra ela. Quando comecei minha s&eacute;rie, o Paulo Henrique ligou me apoiando. E eu falei: &ldquo;N&atilde;o me ap&oacute;ia&rdquo;. Da&iacute;, quando eu lancei o primeiro cap&iacute;tulo, ele fez um carnaval l&aacute;, e eu publiquei uma coluna at&eacute; deselegante com ele, mas n&atilde;o tive outro jeito. Falei que n&atilde;o tenho nada a ver com Paulo Henrique &mdash; s&oacute; para deixar bem claro que n&atilde;o havia essa liga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Voc&ecirc; pega esses blogs da Veja e tem l&aacute;: &ldquo;Porque o iG tem o Paulo Henrique, o Mino, o Nassif&#8230;&rdquo;. Isso &eacute; malandragem. Qualquer cr&iacute;tica que voc&ecirc; faz, eles dizem: &ldquo;Voc&ecirc; est&aacute; fazendo a cr&iacute;tica porque existe uma frente&rdquo;. Ent&atilde;o a maior precau&ccedil;&atilde;o que eu tomei quando comecei a escrever foi deixar bem claro que n&atilde;o havia essa liga&ccedil;&atilde;o.Trabalhei com o Paulo Henrique h&aacute; alguns anos e, nos &uacute;ltimos dois ou tr&ecirc;s anos, encontrei com ele em uma ou outra palestra. N&atilde;o tenho intimidade com ele, nem ele comigo. Fazemos tipos diferentes de jornalismo. Esse neg&oacute;cio de frente foi malandragem da Veja.<\/p>\n<p><\/span><span>A discuss&atilde;o que quero ter &eacute; jornal&iacute;stica. A Veja tem o direito de ser de direita ou de esquerda &mdash; quem define &eacute; o dono. N&atilde;o tenho a pretens&atilde;o de achar que tenha que haver uma assembl&eacute;ia de jornalistas definindo isso. O jornalista, quando quer ter opini&atilde;o, vem para a internet. Minha cr&iacute;tica &eacute; que a Veja n&atilde;o obedeceu aos princ&iacute;pios jornal&iacute;sticos. Manipulou, jogou, assassinou reputa&ccedil;&otilde;es, atropelou a lei.<\/p>\n<p><\/span><span><strong><br \/>Quando foi entrevistado por n&oacute;s, em outubro de 2006, voc&ecirc; j&aacute; dava ind&iacute;cios de que havia esses problemas na Veja, mas apenas passava de rasp&atilde;o. Falava nos superpoderes do Eur&iacute;pedes, comentou tamb&eacute;m da rela&ccedil;&atilde;o entre a revista e o Daniel Dantas. Por que voc&ecirc; resolveu abrir a tampa e ir a fundo s&oacute; agora, chegando ao dossi&ecirc;?<br \/><\/strong><\/span><span>Olha, eu teria assunto para mais uns 15 dossi&ecirc;s, se eu tivesse tempo. O meu m&eacute;todo de trabalho &eacute; um pouco diferente do da Veja. Quando, l&aacute; atr&aacute;s, sofri o ataque da Veja, fui procurar entender o que estava por tr&aacute;s daquilo. Estava na cara que era o Mainardi atuando na defesa do Daniel Dantas, mas n&atilde;o estavam claras as liga&ccedil;&otilde;es e quem era quem no jogo. Passei esse per&iacute;odo todo tentando entender.<\/p>\n<p><\/span><span>Depois que voc&ecirc; coloca as pe&ccedil;as no lugar, basta pegar todas as mat&eacute;rias que est&atilde;o l&aacute; e ir encaixando. H&aacute; uns oito meses, comecei a dar uns cutuc&otilde;es na Veja e o blog desse rapaz ficou oito meses me atacando, dizendo que eu era ladr&atilde;o. Dizia coisas inacredit&aacute;veis. Sabe aquela coisa de voc&ecirc; encontrar o cara de madrugada, b&ecirc;bado, e ele vem xingar sua m&atilde;e, seu pai (risos). Depois que voc&ecirc; fecha a l&oacute;gica, &eacute; s&oacute; encaixar as mat&eacute;rias.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Voc&ecirc; levanta quatro nomes &agrave; frente dessa linha na Veja &ndash; Eur&iacute;pedes, Sabino, Jardim e Mainardi. Por que o Reinaldo Azevedo, outro radical, n&atilde;o entra nessa lista? <br \/><\/strong><\/span><span>O Azevedo &eacute; menor. Voc&ecirc; tem o M&aacute;rio Sabino, certo? E o Reinaldo Azevedo &eacute; um Sabininho. Pegue o &uacute;ltimo cap&iacute;tulo da s&eacute;rie que foi publicado, sobre os livros &mdash; que tem o Azevedo escrevendo resenha. Aquilo l&aacute; &eacute; s&oacute; Sabino. Voc&ecirc; pega o texto do Azevedo, pega um professor de literatura, e compara. S&atilde;o as impress&otilde;es e as marcas do Sabino.<\/p>\n<p><\/span><span>O que o Mario Sabino faz na Veja? Ele tem dois ou tr&ecirc;s ali que ele usa para atacar: o S&eacute;rgio Martins, o Jer&ocirc;nimo Teixeira, por exemplo. Ele altera os textos deles. No caso do Reinaldo, o Sabino d&aacute; o texto pronto. O Reinaldo &eacute; apenas uma caricatura. E isso &eacute; importante porque, sendo uma caricatura, ele deixa mais &agrave; mostra o que &eacute; esse jogo. Outro dia, ele escreveu sobre o Obama (Barack Obama, pr&eacute;-candidato do Partido Democrata &agrave; Presid&ecirc;ncia dos Estados Unidos), descendo o cacete, e de repente a Veja sai com uma vis&atilde;o diferente. Ele entrou em p&acirc;nico, porque ele n&atilde;o representa nada. Como caricatura, todos os defeitos da Veja ficam mais evidentes com ele. Mas ele &eacute; apenas um Sabininho.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>E quem &eacute; Daniel Dantas? Como ele aparece na hist&oacute;ria?<br \/><\/strong><\/span><span>Nos anos 90, voc&ecirc; teve o avan&ccedil;o dessas colunas de neg&oacute;cios, que passaram a ser utilizadas como ferramentas de lobbies empresariais. N&atilde;o estou generalizando. Isso come&ccedil;a a ficar muito pesado mesmo nos anos 90, e esses lobistas maiores passam a recorrer aos servi&ccedil;os de assessorias de imprensa barras-pesadas. Com o tempo, eles passam a entrar direto com seus jornalistas. A Isto&Eacute; &eacute; um caso cl&aacute;ssico de uso de jornalistas para jogadas comerciais. S&oacute; que quando se chega na maior revista do pa&iacute;s, quando se atinge e coopta o seu centro, a&iacute; &eacute; demais.<\/p>\n<p><\/span><span>O Daniel Dantas &eacute; o maior exemplo de como degringolou pol&iacute;tica no pa&iacute;s. No dia em que ele contar suas hist&oacute;rias, n&atilde;o sobrar&atilde;o grandes pr&oacute;ceres tucanos e n&atilde;o sobrar&atilde;o grandes figuras petistas tamb&eacute;m, nem jornalistas expressivos, Poder Judici&aacute;rio. Ele conseguiu montar uma rede de influ&ecirc;ncia inacredit&aacute;vel. Nos Estados Unidos, talvez no s&eacute;culo passado houve esses abusos &mdash; mas a sociedade americana criou formas de autodefesa. Aqui n&atilde;o. Aqui se fecha em torno dos novos homens do dinheiro. Esse &eacute; um grande mal que o Fernando Henrique deixou para o pa&iacute;s, um mal que vai ter &mdash; ali&aacute;s, j&aacute; est&aacute; tendo &mdash; desdobramentos terr&iacute;veis. E com a m&iacute;dia se dispondo a fechar com eles, voc&ecirc; tem uma parte relevante dos poderes institucionais que v&atilde;o pro vinagre.<\/p>\n<p><\/span><span>A m&iacute;dia &eacute; muito poderosa, cria mitos inacredit&aacute;veis. O Mainardi &eacute; um exemplo. Come&ccedil;ou-se a criar um mito de que ele seria o novo Paulo Francis. Mas quando voc&ecirc; v&ecirc; as coisas que ele escreve&#8230; E n&atilde;o estou entrando em ju&iacute;zo de valor, mas em ju&iacute;zo de qualidade. De repente, voc&ecirc; o transforma num personagem. E, nesses grupos de autodefesa, voc&ecirc; tem o Sabino elogiando o Ali Kamel, que elogia o Mainardi, etc. Ou seja, cria-se dentro da imprensa um neg&oacute;cio fora das estruturas de controle dos jornais, grupos de autopromo&ccedil;&atilde;o que s&atilde;o uma coisa mafiosa. Destr&oacute;i-se pessoa que n&atilde;o seja do grupo e passa-se a tentar criar reputa&ccedil;&otilde;es intelectuais.<\/p>\n<p><\/span><span>Foi o que o Sabino faz na Veja, com essas manipula&ccedil;&otilde;es com rela&ccedil;&atilde;o ao livro dele. Ele escreve e assina sobre o Otavinho, sobre o Ali Kamel. Mas, na hora de tentar destruir o Davi Arrigucci, o Silviano Santiago (cr&iacute;ticos liter&aacute;rios e professores acad&ecirc;micos), ele coloca outros para assinar. Tentaram destruir o (tamb&eacute;m cr&iacute;tico Jos&eacute; Miguel) Wisnik, o Santiago, o Arrigucci. E quem s&atilde;o as novas personalidades intelectuais que surgem? Ali Kamel, M&aacute;rio Sabino, Mainardi. &Eacute; inacredit&aacute;vel! Mainardi! Duas das maiores organiza&ccedil;&otilde;es do pa&iacute;s &mdash; Abril e Globo &mdash; passaram a ser manipuladas por tr&ecirc;s ou quatro pessoas, criando esses mitos. &Eacute; uma loucura.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Ent&atilde;o voc&ecirc; tinha uma clara dimens&atilde;o de onde estava se metendo quando iniciou o dossi&ecirc;?<br \/><\/strong><\/span><span>Quando entrei, me preparei para o pior. Vamos pegar um exemplo. H&aacute; oito meses, esse rapaz (Reinaldo Azevedo) me ataca. H&aacute; oito meses, o Reinaldo escrevia baixaria contra os professores da USP. Dava no Jornal Nacional e dava na Veja. A&iacute; percebi que, quando come&ccedil;asse a s&eacute;rie, eles usariam esse cara para me fazer ataques. Minha reputa&ccedil;&atilde;o continua a mesma. Estava at&eacute; esperando coisa pior, que deve vir ainda.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas usei esses oito meses para preparar minha fam&iacute;lia. Dizia: &ldquo;Olha, v&atilde;o lendo isso aqui. Essa baixaria vai estar ampliada quando eu come&ccedil;ar a cutucar esse pessoal&rdquo;. Minha preocupa&ccedil;&atilde;o maior era com os meus familiares. Cada vez que minha mulher ficava mais horrorizada com os ataques, eu dizia: &ldquo;Maravilha &mdash; est&atilde;o se enforcando na pr&oacute;pria corda&rdquo;. Desse pessoal, eu esperava tudo. Acho que a Abril est&aacute; um pouco mais cuidadosa do que eles. Mas, se dependesse deles, estariam falando da minha m&atilde;e, das minhas filhas. Eles n&atilde;o t&ecirc;m limites.<\/p>\n<p><\/span><span>Por outro lado, para mim era terr&iacute;vel, como jornalista, essa hist&oacute;ria de ver um grupo que conseguia ficar inc&oacute;lume com superpoderes para inj&uacute;rias e difama&ccedil;&otilde;es. No jornalismo, em qualquer lugar democr&aacute;tico, toda vez que voc&ecirc; v&ecirc; manifesta&ccedil;&otilde;es de superpoder, ou essa arrog&acirc;ncia, &eacute; um desafio para a gente. Mas ningu&eacute;m queria desafiar por que? Porque os jornais foram covardes na hora de defender os seus profissionais.<\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o tem nenhum jornalista neste pa&iacute;s que respeite o jornalismo da Veja. Eles temem. Temem porque a Veja tem autoriza&ccedil;&atilde;o para atirar em cima deles, e seus jornais n&atilde;o v&atilde;o defend&ecirc;-los. Foi o que aconteceu comigo na Folha. Quando eu sa&iacute; de l&aacute;, eu falei: &ldquo;Bom, agora estou por minha conta&rdquo;. Esperei um tempo para o blog pegar e para a radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica diminuir, e a&iacute; comecei. Vamos ver no que vai dar.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Se bem que, logo depois do artigo do Leonardo Attuch contra voc&ecirc; (&ldquo;Nassif: o fracasso lhe subiu &agrave; cabe&ccedil;a&rdquo;), o Otavinho deu uma declara&ccedil;&atilde;o a seu favor&#8230;<br \/><\/strong><\/span><span>Esse neg&oacute;cio de que fui demitido da Folha porque eu recebia propina &mdash; o blog deles estava h&aacute; oito meses falando sobre isso. Os meus leitores vinham e diziam: &ldquo;Voc&ecirc; n&atilde;o vai responder?&rdquo;. N&atilde;o. Se responder, voc&ecirc; vai dar muni&ccedil;&atilde;o para um cara desqualificado. Voc&ecirc; vai desviar toda a discuss&atilde;o para se defender de maluquices.<\/p>\n<p><\/span><span>O Attuch &eacute; conhecido. A Veja, no come&ccedil;o, o atacava &mdash; at&eacute; que fizeram um acordo. Quando veio o ataque do Attuch, foi bom, porque a&iacute; o Comunique-se e a Imprensa procuraram o Ot&aacute;vio Frias Filho, e ele esclareceu tudo. Agora, voc&ecirc; v&ecirc;: foram oito meses em que os caras ficaram falando isso a&iacute; no portal da Veja, que &eacute; maior revista do pa&iacute;s. Quer dizer, ser&aacute; que n&atilde;o tem nada de errado com a m&iacute;dia? Se isso n&atilde;o for uma deforma&ccedil;&atilde;o completa, eu n&atilde;o sei o que &eacute;.<\/p>\n<p><\/span><span><br \/><strong>Sobre a Globo&#8230;<br \/><\/strong><\/span><span>A Globo n&atilde;o tem a mesma baixaria da Veja. A Globo &eacute; Ali Kamel. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Mas tem essa quest&atilde;o da superexplora&ccedil;&atilde;o da febre amarela, das crises&#8230;<br \/><\/strong><\/span><span>Isso &eacute; coisa do Ali Kamel. O jornal O Globo caminhava para ser o melhor do pa&iacute;s. A&iacute; entrou o Ali Kamel com essas maluquices dele: o caso da TAM, da febre amarela, apag&atilde;o, atletas cubanos, etc. O Globo tinha tudo para ocupar o espa&ccedil;o que a Folha deixou e foi comprometido pelo Ali Kamel. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Essa situa&ccedil;&atilde;o tem a ver com a quest&atilde;o da concentra&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia?<br \/><\/strong><\/span><span>Tem tudo a ver, mas a internet j&aacute; est&aacute; democratizando a m&iacute;dia. Eu recebi aqui alguns e-mails que falam do M&aacute;rio Sabino brigando com a Folha. A caracter&iacute;stica desse pessoal &eacute; que s&atilde;o todos puxa-sacos. Eles elogiam suas empresas de um tal jeito&#8230; Qualquer ser humano com um m&iacute;nimo de pudor teria vergonha. Faz parte desse perfil.<\/p>\n<p><\/span><span>E &eacute; interessante quando voc&ecirc; pega o Sabininho. Como ele &eacute; caricatura, fica ele todo dia falando do Victor Civita (fundador da Editora Abril), comovido. &Eacute; inacredit&aacute;vel. Fico vermelho por eles. A&iacute; tinha o Kamel mandando carta toda semana para a Folha, para atacar a Folha e defender O Globo. A Folha era o grande agente de tens&atilde;o e exerceu um papel de equil&iacute;brio muito importante. Num determinado momento, a Folha deixa de exercer esse papel, e cria-se um pacto t&aacute;cito entre os jornais.<\/p>\n<p><\/span><span>E eles acham que, com esse pacto fechando a atua&ccedil;&atilde;o deles, nada do que n&atilde;o quisessem viraria not&iacute;cia. N&atilde;o se deram conta do fen&ocirc;meno da internet. Esse foi o grande engano. Aquela entrevista que a gente fez, acho que foi a primeira que rompeu com essa cortina de sil&ecirc;ncio. Isso &eacute; resultado do fen&ocirc;meno da internet.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Veja manipulou, jogou, assassinou reputa\u00e7\u00f5es e atropelou a lei&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[666],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20615"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20615"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20615\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}