{"id":20613,"date":"2008-03-05T17:38:13","date_gmt":"2008-03-05T17:38:13","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20613"},"modified":"2008-03-05T17:38:13","modified_gmt":"2008-03-05T17:38:13","slug":"democracia-midia-e-formacao-do-cidadao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20613","title":{"rendered":"Democracia, m\u00eddia e forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span>Na d&eacute;cada de 80, Norberto Bobbio analisou algumas das promessas n&atilde;o cumpridas da democracia, ao apresentar um contraste entre os ideais democr&aacute;ticos e seus resultados reais. Dentre essas promessas, a forma&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o sempre mereceu destaque. Praticamente todas as obras apolog&eacute;ticas da democracia moderna proclamam que s&oacute; a educa&ccedil;&atilde;o poderia transformar um s&uacute;dito num cidad&atilde;o. N&atilde;o por meio de uma prepara&ccedil;&atilde;o escolar pr&eacute;via, mas por um processo educativo resultante da pr&oacute;pria pr&aacute;tica da cidadania democr&aacute;tica. As institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas formariam cidad&atilde;os ativos e comprometidos com os valores republicanos. <br \/><\/span><span><br \/>No entanto, mesmo em pa&iacute;ses onde a democracia representativa parece estar consolidada, a promessa moderna n&atilde;o se cumpriu. Ao contr&aacute;rio, assistimos a um processo generalizado de desinteresse pelas institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e de crescente apatia pol&iacute;tica. O que dizer, ent&atilde;o, de um pa&iacute;s como o Brasil, onde menos de 15% da popula&ccedil;&atilde;o tem uma imagem positiva do Congresso Nacional! Haveria ainda sentido em se pensar a pr&aacute;tica pol&iacute;tica institucional como principal inst&acirc;ncia de forma&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o?<\/span><span><\/p>\n<p>A constata&ccedil;&atilde;o de uma incapacidade cr&ocirc;nica da vida pol&iacute;tica moderna para formar o cidad&atilde;o ativo levou outras institui&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es sociais a adotarem o discurso da cidadania. Esse ideal passou a ser proclamado de uma forma t&atilde;o ampla e difusa que parece ter se transformado num princ&iacute;pio &eacute;tico-pol&iacute;tico capaz de congregar as for&ccedil;as sociais mais antag&ocirc;nicas &#8211; sindicatos, m&iacute;dia, escolas, ongs, igrejas. &Eacute; nesse contexto que as emissoras televisivas privadas, p&uacute;blicas e estatais passaram, em maior ou menor grau, a se identificar com esse esfor&ccedil;o educativo. <\/span><span><\/p>\n<p>&Eacute; claro que tanto a responsabilidade educativa da m&iacute;dia como a amplia&ccedil;&atilde;o da preocupa&ccedil;&atilde;o com a forma&ccedil;&atilde;o cidad&atilde; devem ser louvadas. N&atilde;o obstante, h&aacute; um ponto crucial que merece exame cr&iacute;tico. Trata-se do risco de transforma&ccedil;&atilde;o da express&atilde;o &ldquo;forma&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o&rdquo; num slogan com forte apelo ret&oacute;rico, mas destitu&iacute;do de qualquer sentido claro e historicamente fundamentado. Em campanhas midi&aacute;ticas e programas televisivos, &lsquo;cidadania&rsquo; passou a ser a express&atilde;o comum dos mais diversos des&iacute;gnios: &lsquo;consumidor consciente&rsquo; ou &lsquo;jovem altru&iacute;sta&rsquo;, trabalhador disciplinado ou volunt&aacute;rio caridoso, em suma, de toda sorte de condutas cuja reprodu&ccedil;&atilde;o deva ser incentivada. Ser cidad&atilde;o transforma-se, assim, num tra&ccedil;o de personalidade ou numa caracter&iacute;stica moral, em geral concebida como resultante da &lsquo;consci&ecirc;ncia&rsquo; individual.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/span><span><\/p>\n<p>Ora, o termo &lsquo;cidad&atilde;o&rsquo; &eacute; poliss&ecirc;mico e permite conceitua&ccedil;&otilde;es alternativas. Contudo, o que n&atilde;o pode ficar obscurecido, seja qual for a perspectiva que se tome, &eacute; seu car&aacute;ter pol&iacute;tico. Car&aacute;ter impresso, ali&aacute;s, em sua proced&ecirc;ncia hist&oacute;rica, j&aacute; que o termo do qual se origina &ndash; civitas &ndash; &eacute; a tradu&ccedil;&atilde;o romana para polis, essa experi&ecirc;ncia pol&iacute;tica singular que foi a cidade grega e que deu origem ao termo &lsquo;pol&iacute;tica&rsquo;.<\/span><span>Numa polis, identificar algu&eacute;m como &lsquo;cidad&atilde;o&rsquo; implicava afirmar seu pertencimento a uma esfera p&uacute;blica e pol&iacute;tica, em que compartilhava com seus iguais o exerc&iacute;cio da liberdade e a gest&atilde;o da coisa p&uacute;blica. Como sintetiza Hannah Arendt, o surgimento da cidade-estado [polis] significava que o homem recebera, al&eacute;m de sua vida privada, uma esp&eacute;cie de segunda vida, o seu &lsquo;bios politikos&rsquo;. Agora cada cidad&atilde;o pertence a duas ordens de exist&ecirc;ncia; e h&aacute; uma grande diferen&ccedil;a em sua vida entre aquilo que lhe &eacute; pr&oacute;prio (idion) e o que lhe &eacute; comum (koinon).<br \/><\/span><span><br \/>Da&iacute; porque a necess&aacute;ria vincula&ccedil;&atilde;o entre a forma&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o e a exist&ecirc;ncia de uma esfera p&uacute;blica (bios politikos) por oposi&ccedil;&atilde;o e complementaridade &agrave; dimens&atilde;o individual e privada de sua exist&ecirc;ncia. Ora, paradoxalmente &eacute; esta dimens&atilde;o necessariamente p&uacute;blica e pol&iacute;tica do cidad&atilde;o que parece tender ao desaparecimento na maior parte das iniciativas das m&iacute;dias radiof&ocirc;nicas e televisivas que se identificam como esfor&ccedil;os para a forma&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o.<\/span><span><\/p>\n<p>Uma educa&ccedil;&atilde;o comprometida com os ideais da cidadania n&atilde;o resulta da mera difus&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es pretensamente capazes de &lsquo;despertar a consci&ecirc;ncia moral&rsquo; para que &lsquo;cada um fa&ccedil;a a sua parte&rsquo;. Ao contr&aacute;rio, ela deve afirmar por seus atos, imagens e palavras o compromisso incessante para com a institui&ccedil;&atilde;o e a preserva&ccedil;&atilde;o de uma esfera p&uacute;blica, de um mundo simb&oacute;lico e material compartilhado, no qual o cidad&atilde;o n&atilde;o seja concebido como um indiv&iacute;duo cumpridor de deveres exteriormente concebidos e comunicados, mas como agente respons&aacute;vel pela cria&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o da coisa (res) p&uacute;blica, ou como diriam os gregos, da bios politikos. <\/p>\n<p><span>* Jos&eacute; S&eacute;rgio Carvalho &eacute; professor de Filosofia da Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade de S&atilde;o Paulo FE USP e autor de Educa&ccedil;&atilde;o, Cidadania e Direitos Humanos (Vozes, 2004)<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na d&eacute;cada de 80, Norberto Bobbio analisou algumas das promessas n&atilde;o cumpridas da democracia, ao apresentar um contraste entre os ideais democr&aacute;ticos e seus resultados reais. 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