{"id":20594,"date":"2008-03-04T00:00:00","date_gmt":"2008-03-04T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20594"},"modified":"2008-03-04T00:00:00","modified_gmt":"2008-03-04T00:00:00","slug":"governo-volta-atras-e-admite-inclusao-de-mecanismos-anticopia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20594","title":{"rendered":"Governo volta atr\u00e1s e admite inclus\u00e3o de mecanismos antic\u00f3pia"},"content":{"rendered":"<p><span>A inclus&atilde;o dos mecanismos antic&oacute;pia nos conversores e aparelhos de TV digital est&aacute; a um passo de ser permitida pelo governo federal. Fontes pr&oacute;ximas ao grupo destacado pelo Planalto para decidir os rumos da digitaliza&ccedil;&atilde;o confirmam que o governo estuda a forma jur&iacute;dica ideal para regulamentar a instala&ccedil;&atilde;o dos bloqueadores nos aparelhos de alta-defini&ccedil;&atilde;o (HDTV). O uso de softwares bloqueadores (conhecidos como DRM &ndash; Digital Rights Management) nos conversores convencionais, que criam imagens em baixa-defini&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o seria permitido.<\/p>\n<p><\/span><span>Com a ado&ccedil;&atilde;o desta f&oacute;rmula, o governo cede &agrave; press&atilde;o das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, que desde o in&iacute;cio das discuss&otilde;es sobre a TV digital pedem que todo tipo de c&oacute;pia do conte&uacute;do transmitido seja proibida. Os empres&aacute;rios dizem que visam combater a pirataria, mas especialistas e mesmo representantes do governo afirmam que os interesses s&atilde;o outros. Incluem a quest&atilde;o dos custos para transmiss&atilde;o de grandes eventos (como as Olimp&iacute;adas), cujo pre&ccedil;o aumentaria com a possibilidade de transmiss&atilde;o simult&acirc;nea do conte&uacute;do pela internet, e at&eacute; a possibilidade de, no futuro, realizar servi&ccedil;os pay-per-view tamb&eacute;m na TV aberta.<\/p>\n<p><\/span><span>O acordo entre empres&aacute;rios e ministros foi selado em reuni&atilde;o realizada em Bras&iacute;lia no dia 19 de mar&ccedil;o. No dia seguinte, os jornais Folha de S. Paulo e O Globo publicaram not&iacute;cias contradit&oacute;rias. O primeiro afirmava que o governo iria permitir as c&oacute;pias, tornando n&atilde;o-obrigat&oacute;ria a inclus&atilde;o do DRM, o que afetaria os interesses dos empres&aacute;rios. O segundo, que o governo liberaria o bloqueio nos aparelhos receptores ou na transmiss&atilde;o, como as empresas solicitavam.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Extin&ccedil;&atilde;o de direitos<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Apesar de o resultado ser o mesmo &ndash; &quot;liberar&quot; e &quot;n&atilde;o tornar obrigat&oacute;rio&quot; significam, afinal, que o DRM poder&aacute; ser usado &ndash;, a diferen&ccedil;a de &ecirc;nfase causou certo ru&iacute;do. Para especialistas em direito autoral e direitos do consumidor, independente dos termos, a inclus&atilde;o de mecanismos antic&oacute;pia seria um atentado ao car&aacute;ter aberto e gratuito da radiodifus&atilde;o no Brasil. <\/p>\n<p><\/span><span>Pedro Mizukami, pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-Rio, afirma que qualquer medida neste sentido seria &quot;ilegal e inconstitucional&quot; exatamente porque as caracter&iacute;sticas da radiodifus&atilde;o est&atilde;o previstas na lei maior do pa&iacute;s, a Constitui&ccedil;&atilde;o. Segundo ele, h&aacute; ainda outros conflitos de direitos. &quot;&Eacute; preciso pensar nos danos diretos e colaterais que sistemas como o proposto poderiam causar, implicando s&eacute;rias ofensas &agrave; livre iniciativa, defesa da concorr&ecirc;ncia, autonomia tecnol&oacute;gica, possibilidades de inova&ccedil;&atilde;o e direitos do consumidor, sem falar em viola&ccedil;&otilde;es a usos permitidos de conte&uacute;do protegido por normas de direito de autor&quot;, comenta.<\/p>\n<p><\/span><span>Esta tem sido tamb&eacute;m a posi&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio da Cultura, segundo explica S&eacute;rgio Vaz, especialista da Coordena&ccedil;&atilde;o-geral de Direito Autoral do MinC. &quot;O que o minist&eacute;rio tem defendido &eacute; que nenhum cidad&atilde;o seja privado do direito de escolher quando e como vai assistir um conte&uacute;do que, por princ&iacute;pio constitucional, &eacute; aberto&quot;, afirma Vaz.<\/p>\n<p><\/span><span>A Lei de Direito Autoral permite a c&oacute;pia de conte&uacute;dos para uso considerado privado, o que inclui a c&oacute;pia para uso dom&eacute;stico, para fins educacionais ou de cr&iacute;tica. O advogado do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Luiz Moncau, lembra que nenhum instrumento jur&iacute;dico de regulamenta&ccedil;&atilde;o (como portarias ou decretos) pode extinguir um direito. &quot;Se uma portaria proibir a c&oacute;pia dom&eacute;stica, ser&aacute; uma portaria ilegal&quot;, afirma.<\/p>\n<p><\/span><span>A edi&ccedil;&atilde;o de uma portaria &eacute; a op&ccedil;&atilde;o que vem sendo estudada pelo governo para definir a quest&atilde;o do DRM. O uso deste instrumento teria sido, inclusive, parte do acerto entre ministros e empres&aacute;rios. A explica&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel para tal exig&ecirc;ncia por parte das TVs estaria na fragilidade jur&iacute;dica e pol&iacute;tica de uma portaria. Como pode ser revogada a qualquer instante, basta uma troca de governo para se liberar completamente a aplica&ccedil;&atilde;o at&eacute; agora parcial do DRM. <\/span><span>&Eacute; justamente esta a aposta que fazem os radiodifusores: permite-se a instala&ccedil;&atilde;o da tecnologia bloqueadora (mas sem a autoriza&ccedil;&atilde;o&nbsp;para sua &#39;ativa&ccedil;&atilde;o&#39;), na esperan&ccedil;a que o pr&oacute;ximo governo&nbsp;libere sua utiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>A Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e TV (Abert) disse que n&atilde;o ir&aacute; se pronunciar sobre o acordo at&eacute; que uma medida efetiva seja anunciada pelo governo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Outras justificativas<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Nos textos publicados pela Folha e por O Globo, a justificativa para o acordo atribu&iacute;da ao governo era a do baratemento dos conversores convencionais. O software para a proibi&ccedil;&atilde;o da c&oacute;pias usado pelo sistema japon&ecirc;s, escolhido para ser o padr&atilde;o no Brasil, &eacute; propriet&aacute;rio. Ou seja, seu uso gera custos para o fabricante, que os repassa ao consumidor. <\/p>\n<p><\/span><span>O pre&ccedil;o dos conversores tem sido apontado como o grande respons&aacute;vel pela baix&iacute;ssima ades&atilde;o dos usu&aacute;rios &agrave; nova tecnologia. O n&uacute;mero de conversores e TVs sendo usados &eacute; t&atilde;o pequeno que j&aacute; se aventa a possibilidade de um novo &quot;lan&ccedil;amento&quot; da TV digital no pa&iacute;s.<\/p>\n<p><\/span><span>Por&eacute;m, os especialistas ouvidos pelo Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o lembram que o custo dos aparelhos deve cair naturalmente. Seu pre&ccedil;o tende a baixar &agrave; como acontece com toda tecnologia rec&eacute;m-lan&ccedil;ada: os consumidores tendem a diminuir sua desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; inova&ccedil;&atilde;o e, ao mesmo tempo, ocorre o constante aprimoramento dos aparelhos e das formas de produ&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Em outras palavras, o pre&ccedil;o final do conversor seria apenas uma desculpa para o acordo, assim como o pr&oacute;prio discurso sobre a pirataria. Os empres&aacute;rios da comunica&ccedil;&atilde;o, tanto radiodifusores quanto grandes produtores de conte&uacute;do, dizem que a inclus&atilde;o do mecanismo antic&oacute;pia nos aparelhos convencionais n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria porque a qualidade apenas regular de imagem n&atilde;o serviria aos &quot;piratas&quot;. Apenas as imagens em alta defini&ccedil;&atilde;o poderiam ser usadas para boas reprodu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><\/span><span>De um lado, a diferencia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se sustenta legalmente. Como lembram Moncau, do Idec, e Vaz, do MinC, a legisla&ccedil;&atilde;o atual de direito autoral n&atilde;o diferencia os conte&uacute;dos pela sua qualidade. &quot;Em vers&atilde;o convencional ou em alta-defini&ccedil;&atilde;o, segue sendo uma &uacute;nica obra audiovisual e, portanto, segue sendo permitida a c&oacute;pia para uso privado&quot;, diz o assessor do minist&eacute;rio.<\/p>\n<p><\/span><span>Por&eacute;m, qualquer men&ccedil;&atilde;o &agrave; pirataria parece n&atilde;o fazer sentido no atual modelo de neg&oacute;cio da televis&atilde;o aberta, que &eacute; a ponta final da cadeia de exibi&ccedil;&atilde;o das produ&ccedil;&otilde;es de interesse para a pirataria, os filmes. Ou seja, antes de chegar &agrave; TV, um filme j&aacute; foi exibido no cinema, j&aacute; chegou &agrave;s locadoras, j&aacute; foi para a TV paga, e o com&eacute;rcio ilegal s&oacute; faz sentido quando h&aacute; interesse dos consumidores. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Outros interesses<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O verdadeiro interesse dos radiodifusores estaria nas mudan&ccedil;as que a tecnologia digital pode trazer aos contratos de cess&atilde;o de direitos de transmiss&atilde;o. Hoje, os contratos exigem exclusividade e pro&iacute;bem o chamado &quot;simulcasting&quot;, ou a transmiss&atilde;o simult&acirc;nea por outra plataforma. Para que o simulcasting seja permitido, cobra-se mais.<\/p>\n<p><\/span><span>Ocorre que a qualidade da imagem HD e a pr&oacute;pria forma de transmiss&atilde;o do conte&uacute;do permite que qualquer usu&aacute;rio com um m&iacute;nimo de recursos possa conectar seu receptor de TV &agrave; internet e fazer a transmiss&atilde;o simult&acirc;nea. Esta possibilidade aumentaria o pre&ccedil;o dos contratos.<\/p>\n<p><\/span><span>Mizukami, da FGV, vai al&eacute;m da descri&ccedil;&atilde;o do interesse imediato dos radiodifusores. &quot;Prote&ccedil;&atilde;o antic&oacute;pia faz parte de sistemas de DRM, evidentemente, mas coibir reprodu&ccedil;&atilde;o &eacute; apenas uma dentre outras fun&ccedil;&otilde;es exercidas, a servi&ccedil;o de um objetivo maior. Este objetivo, resumidamente, n&atilde;o &eacute; combater a pirataria, mas estabelecer uma infra-estrutura tecnol&oacute;gica que permita a titulares de direitos autorais praticar discrimina&ccedil;&atilde;o de pre&ccedil;os de forma abusiva&quot;, afirma.<\/p>\n<p><\/span><span>Ou seja, a tecnologia DRM permite todo tipo de controle e monitoramento do conte&uacute;do. Isso permite, como explica o pesquisador da FGV, detalhar h&aacute;bitos de consumo e ajustar os pre&ccedil;os do conte&uacute;do oferecido conforme estes perfis. &quot;Se um consumidor est&aacute; disposto a pagar cinco reais por uma m&uacute;sica, e outro est&aacute; disposto a pagar 15, cobra-se conforme uma faixa de consumo condizente com a disposi&ccedil;&atilde;o de cada consumidor em pagar determinada quantia, escondendo-se varia&ccedil;&otilde;es d&iacute;spares de pre&ccedil;o por tr&aacute;s de promo&ccedil;&otilde;es, pacotes ou planos.&quot;<\/p>\n<p><\/span><span>Esta n&atilde;o &eacute; a realidade de hoje do modelo de neg&oacute;cios da TV aberta, cujo faturamento est&aacute; baseado na venda de audi&ecirc;ncias medidas numericamente, com perfis apenas estimados. A tecnologia DRM, no entanto, permite a subvers&atilde;o deste modelo, que pode passar a ser baseado na modalidade pay-per-view. &quot;Os radiodifusores podem at&eacute; negar que essa seja a inten&ccedil;&atilde;o, mas estudando-se alguns dos padr&otilde;es t&eacute;cnicos estabelecidos internacionalmente, &eacute; imposs&iacute;vel chegar a uma conclus&atilde;o diversa do que a de que algumas infra-estruturas existentes de DRM s&atilde;o concebidas exatamente para este tipo de uso&quot;, conclui Mizukami.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fontes pr\u00f3ximas ao Planalto confirmam que o governo cedeu \u00e0 press\u00e3o das empresas de comunica\u00e7\u00e3o e estuda a forma ideal para regulamentar a instala\u00e7\u00e3o dos mecanismos antic\u00f3pia nos aparelhos de alta-defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[79],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20594"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20594"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20594\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}