{"id":20563,"date":"2008-02-28T14:00:08","date_gmt":"2008-02-28T14:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20563"},"modified":"2008-02-28T14:00:08","modified_gmt":"2008-02-28T14:00:08","slug":"sem-independencia-nao-ha-tv-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20563","title":{"rendered":"Sem independ\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 TV p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p><span>H&aacute; um discreto avan&ccedil;o administrativo na Medida Provis&oacute;ria (MP) 398 de 2007, que autorizou o Poder Executivo a criar a Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o, a EBC, estatal respons&aacute;vel pela TV Brasil. A fus&atilde;o de duas antigas institui&ccedil;&otilde;es &#8211; a TVE do Rio de Janeiro e a Radiobr&aacute;s &#8211; em uma terceira, totalmente nova, traz racionalidade &agrave; gest&atilde;o das emissoras federais, al&eacute;m de economia de recursos e ganhos de escala. Nesse sentido, o governo acertou: superou diverg&ecirc;ncias e formulou uma proposta m&iacute;nima para a moderniza&ccedil;&atilde;o do setor.<\/p>\n<p><\/span><span>Ocorre que, como alertei h&aacute; duas semanas neste mesmo espa&ccedil;o, a MP &eacute; t&iacute;mida diante do que precisa ser feito. Se representa uma evolu&ccedil;&atilde;o administrativa, est&aacute; longe, muito longe, de avan&ccedil;ar em mat&eacute;ria de independ&ecirc;ncia &#8211; e, sem independ&ecirc;ncia, sobretudo independ&ecirc;ncia ante o governo, n&atilde;o h&aacute; TV p&uacute;blica de verdade. Agora, quando a mat&eacute;ria tramita no Congresso Nacional, os parlamentares t&ecirc;m a oportunidade de corrigir a falha, ao menos em parte.<\/p>\n<p><\/span><span>Segundo estabelece a MP 398, a EBC &eacute; uma empresa p&uacute;blica semelhante &agrave; velha Radiobr&aacute;s: ainda &eacute; vulner&aacute;vel a interfer&ecirc;ncias governamentais. Quanto a isso, as altera&ccedil;&otilde;es do relator, deputado Walter Pinheiro (PT-BA), n&atilde;o trouxeram maiores novidades. Mas ainda h&aacute; tempo. Por pelo menos dois caminhos, o Congresso poderia tentar elevar o grau de autonomia pol&iacute;tica e editorial da EBC.<\/p>\n<p><\/span><span>O primeiro caminho passa por aumentar o poder do Conselho Curador. Embora inteiramente nomeado pelo presidente da Rep&uacute;blica, esse conselho tem o compromisso declarado de reunir representantes da sociedade e de agir com altivez. Pois bem, se isso &eacute; mesmo para valer, cabe perguntar: por que ele nem sequer participa, nem mesmo de modo indireto, da elei&ccedil;&atilde;o dos dirigentes da empresa? Por que apenas o presidente da Rep&uacute;blica e o Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o, composto unicamente de representantes do governo, podem decidir sobre quem ser&atilde;o os diretores? Se quiser alterar esse quadro, o Legislativo deve encontrar formas de envolver o Conselho Curador na escolha dos diretores-executivos e, com isso, reduzir um pouco a potencial influ&ecirc;ncia do Pal&aacute;cio do Planalto sobre as decis&otilde;es da nova empresa. A forma para se viabilizar essa altera&ccedil;&atilde;o depender&aacute;, por certo, da legisla&ccedil;&atilde;o que disciplina o funcionamento das empresas p&uacute;blicas, mas alguma sa&iacute;da h&aacute; de existir. Est&aacute; nas m&atilde;os do Congresso.<\/p>\n<p><\/span><span>A segunda modifica&ccedil;&atilde;o tem ainda mais urg&ecirc;ncia. A prevalecer o que disp&otilde;e a MP &#8211; em dispositivos mantidos pelo relator -, a EBC ficar&aacute; vinculada &agrave; Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, cujo ministro conservar&aacute; a prerrogativa de indicar o presidente do Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o, &oacute;rg&atilde;o superior de dire&ccedil;&atilde;o da estatal. Sejamos claros: esse v&iacute;nculo institucional da EBC com a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica vai na contram&atilde;o dos melhores princ&iacute;pios da comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Nos Estados democr&aacute;ticos, emissoras p&uacute;blicas t&ecirc;m muito mais afinidade com a &aacute;rea da cultura do que com &aacute;reas encarregadas da agenda da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. Isso significa que devem ser tratadas como entidades culturais, n&atilde;o como postos avan&ccedil;ados da comunica&ccedil;&atilde;o de governo.<\/p>\n<p><\/span><span>A Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica n&atilde;o &eacute; um organismo com finalidades culturais. Basta ver do que ela se ocupa. Em primeiro lugar, gerencia a publicidade do governo, ou seja, compra espa&ccedil;o publicit&aacute;rio nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o privados. Al&eacute;m disso, cuida da assessoria de imprensa da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, trabalhando para promover uma imagem favor&aacute;vel do presidente. Faz comunica&ccedil;&atilde;o de governo, n&atilde;o comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Nada tem que ver com cultura em sentido amplo &#8211; ou com a atividade jornal&iacute;stica em sentido estrito. Ali&aacute;s, pelos c&acirc;nones da &eacute;tica jornal&iacute;stica, um organismo dedicado &agrave; assessoria de imprensa n&atilde;o deveria supervisionar uma empresa p&uacute;blica encarregada de informar com objetividade. Simples assim. Se se quer de fato uma EBC jornal&iacute;stica, n&atilde;o se pode querer uma EBC vinculada &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p><\/span><span>As incompatibilidades s&atilde;o claras. Fiquemos apenas num exemplo. No in&iacute;cio de fevereiro, a Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social organizou e conduziu uma coletiva em que tr&ecirc;s ministros de Estado &#8211; cujos gabinetes funcionam dentro do Pal&aacute;cio do Planalto &#8211; sustentaram que a divulga&ccedil;&atilde;o dos gastos com cart&otilde;es corporativos da Presid&ecirc;ncia poria em risco a seguran&ccedil;a nacional. Trata-se de uma linha de racioc&iacute;nio que se op&otilde;e ao direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e, portanto, ao esp&iacute;rito do jornalismo. Como poderia ent&atilde;o o jornalismo, mesmo em uma empresa p&uacute;blica, submeter-se a essa l&oacute;gica?<\/p>\n<p><\/span><span>A verdade &eacute; que os prop&oacute;sitos e os m&eacute;todos da assessoria de imprensa &#8211; em &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos ou privados &#8211; n&atilde;o s&atilde;o compat&iacute;veis com os prop&oacute;sitos e m&eacute;todos do jornalismo. Pretender o contr&aacute;rio &eacute; confundir a opini&atilde;o p&uacute;blica, tentando lev&aacute;-la a crer que n&atilde;o h&aacute; oposi&ccedil;&atilde;o natural entre o papel de difundir vers&otilde;es oficiais e o papel de informar o cidad&atilde;o com objetividade. &Eacute;, de resto, muito improv&aacute;vel que um jornalismo independente possa prosperar &agrave; vontade dentro de uma estrutura funcionalmente t&atilde;o pr&oacute;xima &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p><\/span><span>Alegam que, na condi&ccedil;&atilde;o de empresa p&uacute;blica, a EBC desfrutar&aacute; de autonomia administrativa. &Eacute; fato. Entretanto, vinculada ao Planalto, ela estar&aacute; mais exposta ao risco da confus&atilde;o de pap&eacute;is. Para baixar riscos dessa natureza, emissoras p&uacute;blicas &#8211; dedicadas, por defini&ccedil;&atilde;o, &agrave; diversidade cultural e &agrave; informa&ccedil;&atilde;o apartid&aacute;ria &#8211; ficam mais confort&aacute;veis e mais livres quando se relacionam com o Poder Executivo por meio da &aacute;rea da Cultura. Em s&iacute;ntese, &eacute; ao Minist&eacute;rio da Cultura que a EBC deveria se vincular. Emissoras p&uacute;blicas s&atilde;o mais p&uacute;blicas quando sabem guardar dist&acirc;ncia da comunica&ccedil;&atilde;o de governo.<\/p>\n<p><\/span><span>* Eug&ecirc;nio Bucci, integrante do Conselho Curador da Funda&ccedil;&atilde;o Padre Anchieta (TV Cultura de S&atilde;o Paulo), foi presidente da Radiobr&aacute;s de 2003 a 2007<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; um discreto avan&ccedil;o administrativo na Medida Provis&oacute;ria (MP) 398 de 2007, que autorizou o Poder Executivo a criar a Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o, a EBC, estatal respons&aacute;vel pela TV Brasil. 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