{"id":20555,"date":"2008-02-27T14:35:48","date_gmt":"2008-02-27T14:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20555"},"modified":"2008-02-27T14:35:48","modified_gmt":"2008-02-27T14:35:48","slug":"radios-comunitarias-os-10-anos-de-uma-lei-troncha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20555","title":{"rendered":"R\u00e1dios Comunit\u00e1rias: os 10 anos de uma lei troncha"},"content":{"rendered":"<p><span>No dia 28 de janeiro de 1998, a triste figura de Antonio Carlos Magalh&atilde;es, absolutamente tranq&uuml;ilo, presidia o Senado. O ex-coronelz&atilde;o baiano, ex-governador bi&ocirc;nico, ex-ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es no governo Sarney, ex-Arena, PFL convicto, &agrave;s 19h33 aprovou o projeto que regulamenta o Servi&ccedil;o de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria. Por que ACM n&atilde;o bradou aos c&eacute;us e aos infernos contra essa proposta? Porque era a lei que ele queria. Na forma da Lei 9.612\/98, ela foi sancionada no dia 19 de fevereiro de 1998 pelo ent&atilde;o presidente da Rep&uacute;blica, Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p><\/span><span>A lei come&ccedil;ou a brotar no in&iacute;cio de 1996 no Congresso Nacional, quando alguns parlamentares apresentaram projetos de lei, atendendo &agrave;s queixas &agrave; repress&atilde;o aos que atuavam com comunica&ccedil;&atilde;o. Dizia a l&oacute;gica: se n&atilde;o havendo lei h&aacute; repress&atilde;o, vamos fazer uma lei e acabar com isso. Mas em pol&iacute;tica a l&oacute;gica &eacute; outra. E os militantes das r&aacute;dios comunit&aacute;rias tiveram que encarar um problema t&atilde;o s&eacute;rio quanto a repress&atilde;o: aqueles que faziam as leis no pa&iacute;s. <\/p>\n<p><\/span><span>Dava para confiar nos parlamentares para se construir uma boa proposta? Evidente que n&atilde;o. O Congresso Nacional era dominado por uma direita animad&iacute;ssima, empolgad&iacute;ssima, felic&iacute;ssima com o novo presidente, um intelectual que sonhava grande para o mercado, Fernando Henrique Cardoso. Ele come&ccedil;ava a p&ocirc;r em pr&aacute;tica os ensinamentos mais conservadores ditados pelo FMI, OMC etc. O Estado era destro&ccedil;ado, as empresas p&uacute;blicas se tornavam privadas, e para que ningu&eacute;m aperreasse o mercado, criavam-se as tais ag&ecirc;ncias reguladoras &ndash; institui&ccedil;&otilde;es transg&ecirc;nicas, mantidas pelo er&aacute;rio p&uacute;blico, para cuidar do mercado.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Igreja acima da lei<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O impasse dos militantes da comunica&ccedil;&atilde;o era este: continuar apanhando da Pol&iacute;cia Federal por n&atilde;o existir regulamenta&ccedil;&atilde;o; ou fazer uma lei ruim para a maioria da popula&ccedil;&atilde;o. Valeu a segunda op&ccedil;&atilde;o: decidiu-se brigar por uma lei, depois se cuidaria de consert&aacute;-la.<\/p>\n<p><\/span><span>Na &eacute;poca, embora existisse uma onda na Europa e Estados Unidos, o conceito de r&aacute;dio comunit&aacute;ria ainda era uma novidade no Brasil. Tanto que os muitos debates realizados tratavam de r&aacute;dios &quot;livres e comunit&aacute;rias&quot;, misturando as coisas. V&aacute;rias entidades entraram na luta pela aprova&ccedil;&atilde;o do projeto, conforme seus interesses. Estava l&aacute; o F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o (FNDC), Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria (Abra&ccedil;o), fundada em agosto daquele ano; F&oacute;rum Democracia na Comunica&ccedil;&atilde;o (FDC), uma entidade que mant&eacute;m o mesmo presidente h&aacute; pelo menos 10 anos; Associa&ccedil;&atilde;o Paulista dos Proponentes de Emissoras de Radiodifus&atilde;o local (Aperloc), Associa&ccedil;&atilde;o Paranaense de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria (Apercom), Associa&ccedil;&atilde;o de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (Radiocom), Simprocom, Conselho Regional do ABC paulista, CNBB, parlamentares (a maioria, do PT). <\/p>\n<p><\/span><span>A CNBB estava de olho no novo espa&ccedil;o. Ainda em 1996 (dia 24\/10), muito espertamente, a Igreja Cat&oacute;lica criou a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional Cat&oacute;lica das R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (Ancarc). Dois anos depois, com a lei aprovada, afastou-se dos mortais comuns e, discretamente, montou seu monop&oacute;lio de &quot;r&aacute;dios comunit&aacute;rias&quot;. Hoje, ela det&eacute;m o poder sobre mais de 300 r&aacute;dios comunit&aacute;rias, devidamente legalizadas. De acordo com a lei, r&aacute;dio comunit&aacute;ria n&atilde;o pode estar nas m&atilde;os dos padres, mas a Igreja Cat&oacute;lica, como se sabe, sempre foi um poder acima das leis terrenas.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Inconstitucional, mas v&aacute;lida<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O primeiro Projeto de Lei, n&ordm; 1.521\/96, foi apresentado pelo deputado Arnaldo Faria de S&aacute; (PTB-SP). Como outros, tratava da cria&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dio e TV comunit&aacute;ria. Mas televis&atilde;o era demais. Numa audi&ecirc;ncia dos militantes das r&aacute;dios com S&eacute;rgio Motta, ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es no governo FHC e um dos principais c&eacute;rebros do projeto neoliberal, ele foi claro: &quot;R&aacute;dio, tudo bem; televis&atilde;o, nem pensar.&quot; Antes do final de 1996, outros sete projetos foram apresentados, juntando-se ao de Arnaldo Faria de S&aacute;, incluindo a proposta do governo Fernando Henrique Cardoso, a mais med&iacute;ocre e restritiva &ndash; estabelecia um alcance de 400 metros!<\/p>\n<p><\/span><span>A inten&ccedil;&atilde;o do governo FHC e seus aliados era de que a lei fosse a pior poss&iacute;vel. Em 20\/3\/20006, a Abert (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira das Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o), por interm&eacute;dio do seu presidente na &eacute;poca, Joaquim Mendon&ccedil;a, em reuni&atilde;o com um grupo de parlamentares, externou como queria a lei. Curiosamente, ela ficou como a Abert prop&ocirc;s.<\/p>\n<p><\/span><span>O projeto foi aprovado na Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia da C&acirc;mara dos Deputados no dia 4\/12\/1996. Como o relat&oacute;rio final, apresentado pelo deputado Koyu Ira (PSDB-SP), j&aacute; trazia uma proposta que n&atilde;o servia &agrave; maioria da popula&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o havia como torn&aacute;-la pior. O deputado Arolde Oliveira (PFL-RJ), por&eacute;m, evang&eacute;lico e dono de emissoras, prop&ocirc;s emenda, limitando o alcance a 1 quil&ocirc;metro. Felizmente, ela foi rejeitada. E o texto na Lei 9.612\/98 manteve a pot&ecirc;ncia &ndash; 25 watts &ndash; como limite. Ocorre que o Executivo n&atilde;o gostou e, no Decreto 2.615\/98, publicado no Di&aacute;rio Oficial de 4\/06\/1998, tacou l&aacute;: o alcance &eacute; de 1 quil&ocirc;metro! Isto &eacute;, o Executivo fez a lei! &Eacute; inconstitucional, mas est&aacute; valendo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>STF posiciona-se favor&aacute;vel<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A lei, que completou 10 anos de idade no &uacute;ltimo 19 de fevereiro, nasceu troncha, portanto. Ela existe para inviabilizar as r&aacute;dios comunit&aacute;rias. Como assim? Impede a publicidade, impede a forma&ccedil;&atilde;o de redes, impede o atendimento &agrave; comunidade; estabelece um &uacute;nico canal para o munic&iacute;pio; n&atilde;o protege contra interfer&ecirc;ncias de outros servi&ccedil;os; remete &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o arcaica e repressiva (Lei 4.117\/62). Atrav&eacute;s do Decreto e da Norma regulamentadora, o Executivo fez a legisla&ccedil;&atilde;o (modificada no governo Lula), se tornar pior do que j&aacute; era. Ela burocratiza, faz exig&ecirc;ncias estranhas (por exemplo, os diretores devem morar num c&iacute;rculo com raio de 1 quil&ocirc;metro), e define de forma confusa o que &eacute; &quot;apoio cultural&quot;. Uma defini&ccedil;&atilde;o suficiente, por&eacute;m, para que os eficientes agentes da Anatel multem aqueles que n&atilde;o obedecem &agrave; lei. Ali&aacute;s, multar, com valores acima de R$ 2 mil (o que &eacute; tr&aacute;gico para uma comunidade pobre), foi mais uma das formas encontradas pelo governo Lula para impedir a opera&ccedil;&atilde;o das r &aacute;dios, legalizadas ou n&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>O presidente Lula j&aacute; se apresentou como um aliado das r&aacute;dios comunit&aacute;rias. Depois que chegou ao poder, todavia, embora ainda se apresente como aliado, as medidas que tem adotado servem apenas para inviabilizar as r&aacute;dios. Ele ampliou o quadro da Anatel, principal agente repressor; equipou a ag&ecirc;ncia com instrumentos modernos de repress&atilde;o &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o ilegal; e encaminhou ao Congresso proposta que se tornaria a Lei 10.871\/04, regulamentando a carreira dos agentes. Tal lei, em vigor hoje, atribui o poder de pol&iacute;cia aos agentes da Anatel &ndash; isto &eacute;, eles podem fazer a apreens&atilde;o de equipamentos sem necessidade de mandado judicial. &Eacute; evidente que o ato &eacute; inconstitucional. Tanto que em 1998, o PT, PDT e PCdoB, entraram com uma A&ccedil;&atilde;o Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o Art. 19, Inciso XV, da Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (LGT), n&ordm; 9.472\/97, porque dava o poder de apreender equipamentos pelos agentes da Anatel. O Supremo Tribunal Federal se p osicionou favor&aacute;vel a ADIN, acatando a posi&ccedil;&atilde;o do PT.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Poder de pol&iacute;cia<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Portanto, o que o PT antes tratava como inconstitucional, seis anos depois transformou em lei. A pol&iacute;tica tem dessas coisas: as pessoas mudam de id&eacute;ia, os partidos mudam de id&eacute;ia, os dirigentes mudam de id&eacute;ia. O que n&atilde;o faz o poder e a gan&acirc;ncia pelo poder?<\/p>\n<p><\/span><span>Mas o arsenal de maldades contra as r&aacute;dios comunit&aacute;rias n&atilde;o se esgota numa legisla&ccedil;&atilde;o nascida num Congresso contr&aacute;rio a ela. No final de 2007, a Anatel botou no ar consulta p&uacute;blica para levar as r&aacute;dios comunit&aacute;rias para fora do dial! Se o espectro de radiodifus&atilde;o vai de 88 a 108 MHz, a Anatel, atendendo naturalmente aos interesses das emissoras comerciais, quer as r&aacute;dios operando nas freq&uuml;&ecirc;ncias 87,5 MHz, 87,7MHz ou 87,9 MHz. Todas, em todo Brasil. Ocorre que os aparelhos de r&aacute;dio dispon&iacute;veis no mercado n&atilde;o est&atilde;o preparados para receber sinais nestas freq&uuml;&ecirc;ncias &ndash; est&atilde;o preparados para receber na faixa de 88 a 108 MHz. Portanto, para ouvir r&aacute;dio comunit&aacute;ria o brasileiro ter&aacute; que ir a um centro esp&iacute;rita, onde se captam sinais anormais.<\/p>\n<p><\/span><span>O fato &eacute; que a legisla&ccedil;&atilde;o brasileira para as r&aacute;dios comunit&aacute;rias atenta contra os direitos humanos. Ela envergonha o pa&iacute;s. &Eacute; uma lei criada para reprimir os direitos leg&iacute;timos da maioria da popula&ccedil;&atilde;o &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, uma tentativa de impedir que tenha voz esse povo historicamente segregado dos bens nacionais. E para quem ousar desobedecer &agrave;s suas determina&ccedil;&otilde;es, o aparato repressor do governo Lula faz uso &ndash; hoje! &ndash; de dispositivo criado pela ditadura militar (Decreto 236\/67 aplicado &agrave; Lei 4.117\/62).<\/p>\n<p><\/span><span>Quem pretende atuar em r&aacute;dios comunit&aacute;rias, tem duas op&ccedil;&otilde;es perigosas: submeter-se a uma lei cruel, discricion&aacute;ria, restritiva, que praticamente inviabiliza a opera&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias; ou partir para desobedi&ecirc;ncia civil e botar a r&aacute;dio no ar sem autoriza&ccedil;&atilde;o, sendo sujeito &agrave; a&ccedil;&atilde;o policial (muitas vezes sem mandado judicial) ou dos agentes da Anatel, imbu&iacute;dos desse poder de pol&iacute;cia atribu&iacute;do por lei.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Fuzis e metralhadoras<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Submeter-se &agrave; lei n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. A burocracia &eacute; lerda, burra, complexa e, pior, submissa aos humores pol&iacute;ticos. Deputados, prefeitos e vereadores mandam no Executivo, conforme provou estudo realizado pelo professor Ven&iacute;cio A. de Lima e o consultor da C&acirc;mara Cristiano Lopes para o Instituto Projor, mantenedor deste Observat&oacute;rio . H&aacute; algo de podre no reino da Dinamarca. E, pelo visto, vai continuar. Estudiosos fazem uma acusa&ccedil;&atilde;o s&eacute;ria como esta (distribui&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es para os amigos pol&iacute;ticos) e nada acontece no governo.<\/p>\n<p><\/span><span>Se a r&aacute;dio consegue ser aprovada no Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, antes de ser encaminhada ao Congresso, &eacute; submetida a uma nova avalia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica na Casa Civil. Se n&atilde;o tiver apadrinhamentos pol&iacute;ticos, o processo trava.<\/p>\n<p><\/span><span>Por conta dessa pol&iacute;tica de censura &agrave; liberdade de express&atilde;o, expressa por uma legisla&ccedil;&atilde;o restritiva e uma repress&atilde;o eficiente, em 2004 o governo Lula foi denunciado &agrave; Comiss&atilde;o de Direitos Humanos da OEA. Na ocasi&atilde;o, a representante do governo enviada aos Estados Unidos afirmou que o governo apresentaria uma nova proposta de legisla&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o cumpriu. Em novembro de 2004, o governo montou um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) para estudar o caso e apresentar propostas. Era o segundo GT no governo Lula para tratar do mesmo assunto. O relat&oacute;rio do GTI foi conclu&iacute;do em agosto do ano seguinte. &Eacute; muito ruim e expressa a covardia deste governo. Ele faz um diagn&oacute;stico real da situa&ccedil;&atilde;o, mas as propostas apresentadas s&atilde;o med&iacute;ocres, frouxas, covardes. Por isso, o governo nunca o considerou um documento p&uacute;blico &ndash; n&atilde;o se fala dele no Planalto, de onde deveria ser deflagrado o processo de debate para encaminhamento das propostas.<\/p>\n<p><\/span><span>Os dez anos da Lei 9.612\/98 est&atilde;o associados a um recorde de r&aacute;dios n&atilde;o autorizadas fechadas pela Anatel e Pol&iacute;cia Federal em 2007 &ndash; 2 mil emissoras. Isso d&aacute; uma m&eacute;dia de mais de 5 r&aacute;dios por dia, incluindo s&aacute;bados e domingos! &Eacute; muita efici&ecirc;ncia do sistema. O fechamento se d&aacute;, muitas vezes, com a ocupa&ccedil;&atilde;o da emissora por agentes da Pol&iacute;cia Federal armados de fuzis e metralhadoras, nem sempre com apresenta&ccedil;&atilde;o de mandado judicial.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Amea&ccedil;a constante de fechamento<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Pior que isso talvez seja a censura da grande m&iacute;dia &ndash; essa que cobra para si a liberdade de express&atilde;o &ndash; quanto ao que est&aacute; acontecendo. Maria da Concei&ccedil;&atilde;o Oliveira teve uma ataque do cora&ccedil;&atilde;o e faleceu horas depois de uma a&ccedil;&atilde;o policial sobre uma r&aacute;dio n&atilde;o legalizada em Teresina, Piau&iacute;, em dia 30\/8\/2005. O assunto n&atilde;o foi mat&eacute;ria em nenhum jornal deste pa&iacute;s! A den&uacute;ncia chegou &agrave; Comiss&atilde;o de Direitos Humanos da C&acirc;mara dos Deputados e ao Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a e foi motivo de inqu&eacute;rito na PF e na Anatel&#8230; E a imprensa? Nada! A grande imprensa divulga que r&aacute;dios comunit&aacute;rias derrubam avi&atilde;o, atrapalham a pol&iacute;cia, servem para distribuir drogas. Compreende-se essa sataniza&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias: afinal, elas constituem o melhor contraponto a essa imprensa tendenciosa e pasteurizada.<\/p>\n<p><\/span><span>A grande imprensa n&atilde;o costuma apresentar as boas r&aacute;dios, mas as picaret&aacute;rias, aquelas que o movimento nacional das r&aacute;dios comunit&aacute;rias condena. S&atilde;o r&aacute;dios de pol&iacute;ticos, empres&aacute;rios, igrejas; r&aacute;dios que imitam a programa&ccedil;&atilde;o comercial, emissoras que visam unicamente ao lucro, r&aacute;dios que reproduzem unicamente os interesses da igreja cat&oacute;lica ou evang&eacute;lica. Estas n&atilde;o s&atilde;o comunit&aacute;rias.<\/p>\n<p><\/span><span>O fato &eacute; que a grande maioria das 3 mil emissoras autorizadas hoje n&atilde;o s&atilde;o r&aacute;dios comunit&aacute;rias. Portanto, o papel pregado na parede n&atilde;o garante que ela &eacute; comunit&aacute;ria. Esse papel, como prova estudo feito pelo professor Ven&iacute;cio, foi obtido por m&eacute;todos suspeitos junto ao Executivo. Isto j&aacute; foi denunciado ao governo, mas ele &eacute; incapaz de mexer nessa sujeira. A Abra&ccedil;o j&aacute; pediu uma revis&atilde;o dos processos e a proposta n&atilde;o foi aceita. A verdade &eacute; que existem muitas r&aacute;dios comunit&aacute;rias de qualidade atuando sem a autoriza&ccedil;&atilde;o oficial. Estas r&aacute;dios d&atilde;o aula de jornalismo, cidadania, solidariedade, democracia&#8230; Por isso mesmo vivem sob a amea&ccedil;a constante de fechamento.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Boa not&iacute;cia e esperan&ccedil;a<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Felizmente, o Judici&aacute;rio, em v&aacute;rias inst&acirc;ncias, tem percebido a injusti&ccedil;a que se comete hoje &ndash; por tantos setores &ndash; contra quem faz r&aacute;dio comunit&aacute;ria. S&atilde;o muitas as decis&otilde;es pela devolu&ccedil;&atilde;o dos equipamentos da r&aacute;dio apreendidos. Certamente, estes ju&iacute;zes conhecem um princ&iacute;pio alardeado por um antigo defensor da causa, o juiz federal aposentado Paulo Fernando Silveira, de Uberaba, Minas Gerais. Ele afirma que a fun&ccedil;&atilde;o do Judici&aacute;rio n&atilde;o &eacute; cumprir a lei, mas fazer justi&ccedil;a. &Eacute; verdade. A maioria do povo brasileiro precisa mais de Justi&ccedil;a que de leis.<\/p>\n<p><\/span><span>A Lei 9.612 faz anivers&aacute;rio e quem atua com r&aacute;dio comunit&aacute;ria continua apanhando. Porque era esta a inten&ccedil;&atilde;o dos que a fizeram. Bater nos que ousassem desobedec&ecirc;-la.<\/p>\n<p><\/span><span>Talvez s&oacute; agora, em 2008, a lei possa ser reformada. A deputada Maria do Carmo Lara (PT-MG) est&aacute; apresentando proposta neste sentido (ao relatar mais de uma dezena de projetos em tramita&ccedil;&atilde;o) junto &agrave; Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia da C&acirc;mara. Hoje tramitam no Congresso Nacional pelo menos 60 propostas de modifica&ccedil;&atilde;o da Lei 9.612\/98. No ano passado, foi criada uma subcomiss&atilde;o na Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia &ndash; presidida pela deputada Luiza Erundina (PSB-SP) e relatada pela deputada Maria do Carmo Lara &ndash; com o objetivo de avaliar as dificuldades existentes na legisla&ccedil;&atilde;o. Muitas dessas dificuldades foram criadas exatamente para garantir a manuten&ccedil;&atilde;o do poder dos concession&aacute;rios de r&aacute;dio e televis&atilde;o. As duas fizeram um grande trabalho e o relat&oacute;rio final, com uma s&eacute;rie de propostas de mudan&ccedil;as na legisla&ccedil;&atilde;o existente, est&aacute; dispon&iacute;vel no site da C&acirc;mara. <\/p>\n<p><\/span><span>O surgimento desta subcomiss&atilde;o e o bom trabalho desenvolvido por ela em 2007 colocam uma esperan&ccedil;a no caminho de quem faz r&aacute;dio comunit&aacute;ria. Foi a melhor not&iacute;cia nos &uacute;ltimos dez anos. Quanto &agrave; Lei 9.612\/98, enquanto ela existir o pa&iacute;s continuar&aacute; como nos idos de 1500. Para felicidade de uns poucos, e desespero da popula&ccedil;&atilde;o brasileira.<\/p>\n<p>* Diocl&eacute;cio Luz &eacute; jornalista, autor do livro <em>A arte de pensar e fazer r&aacute;dios comunit&aacute;rias<\/em>, coordenador do Coletivo de Forma&ccedil;&atilde;o da Abra&ccedil;o <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 28 de janeiro de 1998, a triste figura de Antonio Carlos Magalh&atilde;es, absolutamente tranq&uuml;ilo, presidia o Senado. O ex-coronelz&atilde;o baiano, ex-governador bi&ocirc;nico, ex-ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es no governo Sarney, ex-Arena, PFL convicto, &agrave;s 19h33 aprovou o projeto que regulamenta o Servi&ccedil;o de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria. 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