{"id":20530,"date":"2008-02-25T15:27:57","date_gmt":"2008-02-25T15:27:57","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20530"},"modified":"2008-02-25T15:27:57","modified_gmt":"2008-02-25T15:27:57","slug":"livro-denuncia-colaboracao-de-jornalistas-e-veiculos-com-a-ditadura-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20530","title":{"rendered":"Livro denuncia colabora\u00e7\u00e3o de jornalistas e ve\u00edculos com a ditadura militar"},"content":{"rendered":"<p>Beatriz Kushnir escreveu um livro &quot;inc&ocirc;modo&quot; para a m&iacute;dia brasileira. &Eacute; a edi&ccedil;&atilde;o de sua tese de doutorado, C&atilde;es de Guarda &#8211; Jornalistas e Censores do AI-5 &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 (Boitempo). Revela a postura colaboracionista de jornalistas e &oacute;rg&atilde;os de imprensa durante a ditadura militar. Est&aacute; explicado, portanto, o motivo pelo qual esse livro quase n&atilde;o foi resenhado. <\/p>\n<p>Mestre em Hist&oacute;ria pela Universidade Federal Fluminense, Beatriz Kushnir hoje &eacute; diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que tem um dos maiores acervos da imprensa alternativa que floresceu durante o regime militar. A tese que gerou o livro j&aacute; foi defendida &#8211; com sucesso &#8211; no Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). <\/p>\n<p>Para realizar seu trabalho acad&ecirc;mico, ela privilegiou o per&iacute;odo do AI-5 &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, mas recuou a mar&ccedil;o de 64 e &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o cens&oacute;ria no per&iacute;odo republicano. O alvo foi para os jornalistas de forma&ccedil;&atilde;o e atua&ccedil;&atilde;o, que trocaram as reda&ccedil;&otilde;es pela burocracia e fizeram parte do DCDP (Departamento de Censura de Divers&otilde;es P&uacute;blicas), &oacute;rg&atilde;o subordinado ao Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, cargo de T&eacute;cnicos de Censura. <\/p>\n<p>Outro foco da pesquisa foram os policiais de carreira que atuaram como jornalistas, colaborando com o sistema repressivo e censor do p&oacute;s-64. Para encontrar esse grupo, Beatriz pesquisou a trajet&oacute;ria do jornal Folha da Tarde (FT), do Grupo Folha da Manh&atilde;, de 1967 a 1984. Ela teve acesso ao Banco de Dados da Folha, ao Dedoc da Editora Abril, aos arquivos pessoais do jornalista Jos&eacute; Silveira (Jornal do Brasil) e da jornalista Ana Maria Machado (R&aacute;dio JB). <\/p>\n<p>Foram entrevistados 19 jornalistas que passaram pela FT, 11 censores (s&oacute; dois autorizaram a divulga&ccedil;&atilde;o de seus nomes) e um grupo de 26 jornalistas, entre eles Bernardo Kucinski, Mino Carta e Jorge Miranda Jord&atilde;o. Feita a apura&ccedil;&atilde;o, Beatriz deixa claro que n&atilde;o apenas existia uma a estreita rela&ccedil;&atilde;o naquele per&iacute;odo entre jornalistas e policiais. Tamb&eacute;m havia uma linha de estratagemas da dire&ccedil;&atilde;o das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, ao aceitarem praticar a autocensura, como &quot;sugeria&quot; o governo militar. <\/p>\n<p>Nesse sentido, C&atilde;es de Guarda conta hist&oacute;rias interessantes sobre os bastidores de jornais e emissoras de televis&atilde;o. Fala do funcion&aacute;rio que Victor Civita despachou para &quot;treinar&quot; censores em Bras&iacute;lia. Fala dos censores que foram trabalhar dentro da TV Globo. Fala dos policiais que se tornaram &quot;jornalistas&quot; e dos jornalistas que fizeram papel de policiais. Fala dos bastidores da Folha da Tarde, o jornal do grupo Folha que prestou servi&ccedil;os &agrave; repress&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Os casos mais expl&iacute;citos <\/p>\n<p><\/strong>O relato sobre jornalistas-policiais &eacute; particularmente interessante. A autora demonstra como esses profissionais &#8211; escrevendo nos jornais ou riscando o que n&atilde;o poderia ser dito ou impresso &#8211; colaboraram com o sistema autorit&aacute;rio. &quot;Assim como nem todas as reda&ccedil;&otilde;es eram de esquerda, nem todos os jornalistas fizeram do of&iacute;cio um ato de resist&ecirc;ncia ao arb&iacute;trio.&quot; <\/p>\n<p>A historiadora conta, em uma passagem da tese, que os dez primeiros censores que estiveram em Bras&iacute;lia, quando da mudan&ccedil;a da capital, eram jornalistas. Eram profissionais que foram transferidos para as reda&ccedil;&otilde;es de Bras&iacute;lia &#8211; e l&aacute; acumularam cargos na burocracia do Estado, situa&ccedil;&atilde;o comum &agrave; &eacute;poca. Mas eles preferiram ficar com apenas uma atividade. <\/p>\n<p>Assim, dez jornalistas optaram pelo trabalho no Departamento de Censura, onde se ganhava mais. Dois deles escreveram um livro explicando aos censores como se deve censurar e quais os artigos que se deve cortar. <\/p>\n<p>Um dos epis&oacute;dios destacados pela tese de Beatriz Kushnir narra a trajet&oacute;ria da Folha da Tarde. Segundo a tese, o jornal foi o reduto, entre 1967 e 1984, de um grupo de jornalistas colaboracionistas &#8211; os chamados &quot;c&atilde;es de guarda&quot; -, que dirigiram a reda&ccedil;&atilde;o como uma delegacia de pol&iacute;cia. <\/p>\n<p>Na &eacute;poca, a FT era chamada no meio jornal&iacute;stico como o jornal de maior &quot;tiragem&quot;, uma ironia &agrave; grande presen&ccedil;a de &#39;tiras&#39; na reda&ccedil;&atilde;o. Durante uma d&eacute;cada e meia, o jornal ficou sob o comando da direita, e muitos dos seus jornalistas tinham cargos na Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do Estado de S&atilde;o Paulo. <\/p>\n<p>Alguns fatos marcaram a reda&ccedil;&atilde;o. A pris&atilde;o de Frei Betto, em 11 de novembro de 1969, foi minimizada pelo jornal, que n&atilde;o citou uma importante passagem em sua biografia: Frei Betto foi chefe de reportagem da Folha da Tarde. No epis&oacute;dio Vladimir Herzog, assassinado nos por&otilde;es da Oban (Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirantes) em 25 de outubro de 1975, a FT ignorou por completo a missa ecum&ecirc;nica realizada na Catedral da S&eacute;, alguns dias depois da sua morte. <\/p>\n<p><strong>Os &quot;gansos&quot; <\/p>\n<p><\/strong>Outra pr&aacute;tica, que se estendeu a outros &oacute;rg&atilde;os de imprensa, mas ganhou exemplaridade na FT, foi a de transmitir integralmente a vers&atilde;o do Estado para desaparecimentos e assassinatos. Caso de uma manchete de abril de 1971 que anunciava a morte do guerrilheiro Roque, em confronto com a pol&iacute;cia de S&atilde;o Paulo. <\/p>\n<p>Roque era o codinome do metal&uacute;rgico Joaquim Seixas, que havia sido preso com o filho Ivan Seixas, hoje jornalista. Os dois eram militantes do MRT (Movimento Revolucion&aacute;rio Tiradentes), e tinham sido acusados de matar o industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da Oban. Foram presos e torturados. <\/p>\n<p>Num certo dia, Ivan foi levado pelos policiais para um &quot;volta&quot; fora da Oban e leu em uma banca de jornal a not&iacute;cia da morte do pai. Quando voltou do &quot;passeio&quot;, ainda encontrou seu pai vivo. Joaquim Seixas viria a morrer horas depois. Os jornais do dia seguinte reproduziram friamente a nota oficial dos &oacute;rg&atilde;os de repress&atilde;o, mas a Folha da Tarde havia publicado a not&iacute;cia um dia antes, com detalhes. Muitos atribuem &agrave; FT a legaliza&ccedil;&atilde;o de mortes em tortura. <\/p>\n<p>Al&eacute;m do caso FT, a tese mostra como reda&ccedil;&otilde;es, entre 1972 e 1975, &quot;acatavam&quot; os bilhetinhos do Sigab (Servi&ccedil;o de Informa&ccedil;&atilde;o do Gabinete), que notificavam diariamente os jornais sobre o que se podia e o que n&atilde;o se podia publicar. &Eacute; o professor Bernardo Kucinski que lembra: &quot;A maior parte da grande imprensa brasileira aceitou, ou se submeteu a esse pacto. Para M&eacute;dici, era melhor que o pr&oacute;prio jornalista se autocensurasse&quot;. <\/p>\n<p>As empresas escolheram seus &quot;quadros de confian&ccedil;a&quot;. Por abrigar jornalistas colaboracionistas, algumas reda&ccedil;&otilde;es ficaram conhecidas como &quot;ninhos de gansos&quot;. Os jornalistas de confian&ccedil;a que cobriam o Deops, por exemplo, n&atilde;o passavam pela revista e seguiam direto por uma entrada lateral, reservada aos policiais, apelidada &quot;passagem dos gansos&quot;. <\/p>\n<p>&quot;Quem tem mais culpa? &Eacute; o dono do jornal, &eacute; o jornalista? S&atilde;o circunst&acirc;ncias que se dialogam&quot;, comenta Beatriz Kushnir, em entrevista ao jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de S&atilde;o Paulo. &quot;Esse termo do colaboracionismo &eacute; um termo que d&oacute;i de ouvir. Isso reflete muito do pa&iacute;s, da forma&ccedil;&atilde;o, dos processos econ&ocirc;micos.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beatriz Kushnir escreveu um livro &quot;inc&ocirc;modo&quot; para a m&iacute;dia brasileira. &Eacute; a edi&ccedil;&atilde;o de sua tese de doutorado, C&atilde;es de Guarda &#8211; Jornalistas e Censores do AI-5 &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 (Boitempo). 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