{"id":20455,"date":"2008-02-18T17:24:39","date_gmt":"2008-02-18T17:24:39","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20455"},"modified":"2008-02-18T17:24:39","modified_gmt":"2008-02-18T17:24:39","slug":"liberdade-e-autonomia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20455","title":{"rendered":"Liberdade e autonomia"},"content":{"rendered":"<div class=\"fonte_preta\">\n<p>Manuel Castells &eacute; um dos soci&oacute;logos internacionais que mais estuda a sociedade da informa&ccedil;&atilde;o. Sua trilogia A era da informa&ccedil;&atilde;o: economia, sociedade e cultura j&aacute; foi traduzida para 23 l&iacute;nguas. Depois de ter lecionado por 24 anos na Universidade da Calif&oacute;rnia, em Berkeley, desde 2001 ele dirige o departamento de pesquisa da Universidade Aberta da Catal&uacute;nia. Seu estudo mais recente chama-se Projeto Internet Catal&uacute;nia. Durante seis anos, por meio de 15 mil entrevistas pessoais e 40 mil via internet, Castells analisou as mudan&ccedil;as que a internet produziu na cultura e na organiza&ccedil;&atilde;o social. O pesquisador acaba de publicar, com Marina Subirats, a obra &#39;Mulheres e homens: um amor poss&iacute;vel?&#39;, onde aborda o impacto da web. Nesta entrevista concedida ao Jornal El Pa&iacute;s, Castells revela os principais pontos da pesquisa.<\/p>\n<p>* <\/p>\n<p><strong>Esta pesquisa mostra que a internet n&atilde;o favorece o isolamento, como muitos acreditam. Pelo contr&aacute;rio, ela revela que as pessoas que usam, por exemplo, as salas de bate-papo s&atilde;o as mais sociais.<br \/>Manuel Castells<\/strong> &ndash; Exatamente, o que para n&oacute;s n&atilde;o &eacute; nenhuma surpresa. A surpresa &eacute; que esse resultado tenha sido recebido com espanto. H&aacute;, pelo menos, 15 estudos importantes no mundo que revelam o mesmo resultado.<\/p>\n<p><strong><br \/>Por que acredita-se exatamente ao contr&aacute;rio?<br \/><\/strong>Manuel Castells &#8211; Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o tem muito a ver com isso. Todos sabemos que, para a m&iacute;dia, o que &eacute; mais not&iacute;cia &eacute; a not&iacute;cia negativa. Voc&ecirc; utiliza a internet e seus filhos tamb&eacute;m. Mas &eacute; mais interessante acreditar que ela est&aacute; cheia de terroristas, de pornografia&#8230; Pensar que ela &eacute; um fator de aliena&ccedil;&atilde;o &eacute; mais interessante do que dizer que a web &eacute; a extens&atilde;o de nossas vidas. Se voc&ecirc; &eacute; soci&aacute;vel, ser&aacute; mais soci&aacute;vel. Se n&atilde;o &eacute;, a internet lhe ajudar&aacute; um pouquinho, mas n&atilde;o muito. De certa forma, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o expressam o que a sociedade pensa. A quest&atilde;o &eacute;: por que a sociedade pensa assim?<\/p>\n<p><strong><br \/>Por que tem medo do novo?<br \/><\/strong>Manuel Castells &#8211; Exatamente. Mas medo de quem? A velha sociedade tem medo da nova. Os pais dos seus filhos. As pessoas que t&ecirc;m o poder ancorado num mundo tecnol&oacute;gico, social e culturalmente antigo do poder que pode destabiliz&aacute;-las, do poder que n&atilde;o entendem, controlam e que percebem como perigoso. A internet &eacute; um instrumento de liberdade e de autonomia. O fato &eacute; que o poder sempre foi baseado no controle das pessoas, por meio do controle do acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Mas isto, com a web, acaba. A internet n&atilde;o pode ser controlada.<\/p>\n<p><strong><br \/>Vivemos numa sociedade onde a gest&atilde;o da visibilidade na esfera p&uacute;blica midi&aacute;tica, como define John J. Thompson, se converteu na principal preocupa&ccedil;&atilde;o de qualquer institui&ccedil;&atilde;o, empresa ou organismo. Mas o controle da imagem p&uacute;blica requer meios que sejam control&aacute;veis. Mas nesse sentido, e se a internet n&atilde;o &eacute; &#8230;<br \/><\/strong>Manuel Castells &ndash; N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; control&aacute;vel. E isso explica porque os poderes t&ecirc;m medo da internet. Participei de v&aacute;rias comiss&otilde;es que assessoravam governos e institui&ccedil;&otilde;es internacionais nos &uacute;ltimos 15 anos. A primeira pergunta que os governos faziam era: como podemos controlar a internet? A resposta &eacute; sempre a mesma: n&atilde;o se pode. Pode se vigiar, mas n&atilde;o controlar.<\/p>\n<p><strong><br \/>Se a internet &eacute; t&atilde;o determinante na vida social e econ&ocirc;mica das pessoas, seu acesso pode ser o principal fator de exclus&atilde;o?<br \/><\/strong>Manuel Castells &#8211; N&atilde;o. O mais importante ainda &eacute; o acesso ao trabalho e &agrave; carreira profissional, bem como o acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o. Sem educa&ccedil;&atilde;o, a tecnologia n&atilde;o serve para nada. Na Espanha, a chamada exclus&atilde;o digital &eacute; uma quest&atilde;o de idade. Os dados s&atilde;o bem claros: entre os maiores de 55 anos, somente 9% s&atilde;o usu&aacute;rios da internet. Mas entre os menores de 25 anos, 90% navegam regularmente.<\/p>\n<p><strong>O acesso integral &eacute;, portanto, uma quest&atilde;o de tempo?<br \/><\/strong>Manuel Castells &#8211; Quando minha gera&ccedil;&atilde;o desaparecer n&atilde;o haver&aacute; mais esta exclus&atilde;o digital no que diz respeito ao acesso. Mas na sociedade da internet, o complicado n&atilde;o &eacute; saber navegar, mas saber onde ir, onde buscar o que se quer encontrar e o que fazer com o que se encontra. Isso requer educa&ccedil;&atilde;o. Na realidade, a internet amplifica a velha exclus&atilde;o social da hist&oacute;ria: que &eacute; a educa&ccedil;&atilde;o. A verdadeira exclus&atilde;o digital &eacute; o fato de que 55% dos adultos n&atilde;o tenham completado, na Espanha, a educa&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria.<\/p>\n<p><strong><br \/>Nesta sociedade que tende a ser t&atilde;o l&iacute;q&uuml;ida, na express&atilde;o de Zygmunt Bauman, em que tudo muda constantemente e que &eacute; cada vez mais globalizada, o senhor acredita que a sensa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a vem aumentando?<br \/><\/strong>Manuel Castells &#8211; H&aacute; uma nova sociedade que busquei definir teoricamente com o conceito de sociedade-rede e que n&atilde;o est&aacute; distante da que define Bauman. Creio que, mais que l&iacute;q&uuml;ida, &eacute; uma sociedade em que tudo est&aacute; articulado de forma transversal e onde h&aacute; menos controle das institui&ccedil;&otilde;es tradicionais.<\/p>\n<p><strong>Em que sentido?<br \/><\/strong>Manuel Castells &ndash; Admite-se a id&eacute;ia de que as institui&ccedil;&otilde;es centrais da sociedade, o Estado e a fam&iacute;lia tradicional j&aacute; n&atilde;o funcionam. Ent&atilde;o, o ch&atilde;o se move sob os nossos p&eacute;s. Primeiro, as pessoas pensam que seus governos n&atilde;o as representam e que n&atilde;o s&atilde;o confi&aacute;veis. Come&ccedil;amos mal. Segundo, elas pensam que o mercado &eacute; bom para os que ganham e mau para os que perdem. Como a maioria perde, h&aacute; uma desconfian&ccedil;a para o que a l&oacute;gica pura e dura do mercado pode proporcionar &agrave;s pessoas. Terceiro, estamos globalizados. Isso significa que nosso dinheiro est&aacute; no fluxo global que n&atilde;o controlamos, que a popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; submetida &agrave;s press&otilde;es migrat&oacute;rias muito fortes, de modo que &eacute; cada vez mais dif&iacute;cil aglutinar as pessoas numa cultura ou nas fronteiras nacionais.<\/p>\n<p><strong>Qual &eacute; o papel da internet neste processo?<br \/><\/strong>Manuel Castells &#8211; Por um lado, ao nos permitir acessar toda informa&ccedil;&atilde;o, ela aumenta a incerteza, mas, ao mesmo tempo, &eacute; um instrumento chave para a autonomia das pessoas, e isto &eacute; algo que demonstramos pela primeira vez na nossa pesquisa. Quanto mais aut&ocirc;noma &eacute; uma pessoa, mas ela utiliza a internet. Em nosso trabalho definimos seis dimens&otilde;es de autonomia e comprovamos que quando uma pessoa tem um forte projeto de autonomia, em qualquer uma dessas dimens&otilde;es, ela utiliza internet com muito mais freq&uuml;&ecirc;ncia e intensidade. E o uso da internet refor&ccedil;a, por sua vez, a sua autonomia. Mas, claro, quanto mais uma pessoa controla a sua vida, menos ela se fia nas institui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>E maior ent&atilde;o pode ser a frustra&ccedil;&atilde;o da pessoa pela dist&acirc;ncia que h&aacute; entre as possibilidades te&oacute;ricas de participa&ccedil;&atilde;o (o voto, por exemplo) e as que exerce na pr&aacute;tica?<br \/><\/strong>Manuel Castells &#8211; Sim, h&aacute; um descompasso entre a capacidade tecnol&oacute;gica e a cultura pol&iacute;tica. Muitos munic&iacute;pios colocaram Wi-Fi de acesso. No entanto, se ao mesmo n&atilde;o s&atilde;o capazes de articular um sistema de participa&ccedil;&atilde;o, servem para que as pessoas organizem melhor as suas pr&oacute;prias redes, mas n&atilde;o para participar da vida pol&iacute;tica. O problema &eacute; que o sistema pol&iacute;tico n&atilde;o est&aacute; aberto &agrave; participa&ccedil;&atilde;o, ao di&aacute;logo constante com os cidad&atilde;os, &agrave; cultura da autonomia. Portanto estas tecnologias contribuem para distanciar ainda mais a pol&iacute;tica da cidadania.<\/p>\n<p><em>* Tradu&ccedil;&atilde;o de Marcus Tavares, do Rio M&iacute;dia (<a href=\"http:\/\/www.multirio.rj.gov.br\/riomidia\/\">http:\/\/www.multirio.rj.gov.br\/riomidia\/<\/a>).<br \/><\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;O poder sempre foi baseado no controle da comunica\u00e7\u00e3o, mas a internet n\u00e3o pode ser controlada&#8217; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[650],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20455"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20455"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20455\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20455"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20455"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20455"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}