{"id":20444,"date":"2008-02-18T11:27:36","date_gmt":"2008-02-18T11:27:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20444"},"modified":"2008-02-18T11:27:36","modified_gmt":"2008-02-18T11:27:36","slug":"pl-29-e-tv-por-assinatura-um-debate-que-precisa-crescer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20444","title":{"rendered":"PL-29 e TV por Assinatura: um debate que precisa crescer"},"content":{"rendered":"<p><span><\/p>\n<p><span>Est&aacute; em discuss&atilde;o, no Congresso Nacional, um projeto de lei que poder&aacute; provocar algumas importantes altera&ccedil;&otilde;es, para melhor, no modus operandi do mercado de TV por assinatura. O projeto &eacute; conhecido pela alcunha &quot;PL-29&quot;. No momento, ele est&aacute; entrando na fase de discuss&atilde;o do substitutivo do relator, no caso, o deputado Jorge Bittar, do PT do Rio de Janeiro. &Eacute; poss&iacute;vel que, emendado e remendado, ele seja votado na Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia da C&acirc;mara e enviado direto &agrave; discuss&atilde;o no Senado. &Eacute; poss&iacute;vel, tamb&eacute;m, que os deputados prefiram submet&ecirc;-lo ao voto do Plen&aacute;rio. Sendo otimista, at&eacute; o final do ano, o projeto poder&aacute; estar sendo enviado &agrave; san&ccedil;&atilde;o presidencial.<\/p>\n<p><\/span><span>Como em outros casos similares, a sociedade n&atilde;o toma conhecimento do assunto, at&eacute; porque sequer &eacute; informada sobre o tema. O m&aacute;ximo que a sociedade soube, o foi atrav&eacute;s de uma propaganda enganosa da ABTA (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Televis&atilde;o por Assinatura) dirigida exclusivamente aos assinantes de suas operadoras associadas. O mais estranho, por&eacute;m, &eacute; que aquela parcela politicamente mobilizada da sociedade, embora sabendo da exist&ecirc;ncia dessa PL, at&eacute; agora, salvo melhor ju&iacute;zo, tamb&eacute;m pouco se manifestou a respeito.<\/p>\n<p><\/span><span>O projeto substitutivo apresentado pelo deputado Bittar &eacute; um documento muito mais avan&ccedil;ado e consistente do que os projetos iniciais que motivaram o processo. Estes eram propostas desavergonhadamente a servi&ccedil;o dos diferentes lobbies empresariais. O projeto de Bittar tenta organizar o marco normativo dessa &aacute;rea, introduzindo-lhe boa dose de racionalidade, tratando do tema de um modo abrangente, defendendo melhor os interesses dos consumidores mas, tamb&eacute;m, n&atilde;o podendo deixar de atender a alguns dos poderosos grupos de interesse envolvidos na quest&atilde;o. E, ao longo dos debates que agora se seguir&atilde;o, esses interesses dever&atilde;o ser melhor atendidos cada vez mais, exceto se os outros segmentos sociais se mobilizarem para contra-pressionar a favor de uma legisla&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica, nacionalista e cidad&atilde; nesse setor.<\/p>\n<p><\/span><span>O primeiro ponto muito positivo do substitutivo de Bittar &eacute; desagregar a cadeia produtiva. Ele identifica as diversas atividades que contribuem para o servi&ccedil;o, estabelecendo, para cada uma delas, algumas regras espec&iacute;ficas. A partir de agora, estamos sabendo que, para a oferta da TV por assinatura, contribuem, pelo menos, quatro diferentes setores econ&ocirc;micos-empresariais: produ&ccedil;&atilde;o, programa&ccedil;&atilde;o, empacotamento e distribui&ccedil;&atilde;o\/transporte. Pode acontecer, claro, de essas atividades estarem &quot;verticalizadas&quot; no interior de uma&nbsp; mesma&nbsp; organiza&ccedil;&atilde;o empresarial. O caso consp&iacute;cuo &eacute; a NET que produz os seus conte&uacute;dos atrav&eacute;s de diversas subsidi&aacute;rias das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo; programa-os atrav&eacute;s dos muitos canais Globosat (uma dessas subsidi&aacute;rias); empacota-os atrav&eacute;s da pr&oacute;pria NET Brasil; e transporta os pacotes para a casa dos assinantes, atrav&eacute;s da NET Servi&ccedil;os. A gente pensa que &eacute; tudo uma coisa s&oacute;, mas n&atilde;o &eacute; bem assim. Al&eacute;m dos canais Globosat, a NET Brasil tamb&eacute;m empacota os v&aacute;rios canais da Turner, da Fox, da HBO, da ESPN, de muitas outras que, por sua vez, s&atilde;o, elas tamb&eacute;m produtoras de si mesmas e compradoras de produtos de terceiros, num vasto e diversificado mercado de produ&ccedil;&atilde;o audiovisual. Mas, claro, a NET Servi&ccedil;os apenas transporta para a minha e sua casa, os pacotes da NET Brasil. Se eu ou voc&ecirc; quisermos assistir a algum canal que n&atilde;o esteja no pacote da NET, teremos que assinar, se existir no meu bairro ou na sua cidade, um pacote, junto com o servi&ccedil;o, oferecido por outra distribuidora, isto &eacute;, por outra operadora de infra-estrutura. <\/p>\n<p><\/span><span>O segundo ponto positivo do projeto &eacute;, a partir disso, trazer a Ancine para tamb&eacute;m cuidar do neg&oacute;cio TV por assinatura, agora rebatizado &quot;servi&ccedil;o de acesso condicionado&quot;. Caber&aacute; &agrave; Anatel regulamentar e fiscalizar apenas o segmento de distribui&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, a infra-estrutura de transporte (cabo, sat&eacute;lite ou MMDS). Toda a parte relativa a conte&uacute;do, da produ&ccedil;&atilde;o ao empacotamento, ficar&aacute; sob a responsabilidade da Ancine. Tamb&eacute;m s&atilde;o dados poderes ao Cade para monitorar a concorr&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><\/span><span>O terceiro ponto positivo do projeto &eacute; a promo&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do nacional. Aqui, Bittar inovou ao importar um conceito existente nas regras da Comunidade Europ&eacute;ia para a televis&atilde;o: o &quot;espa&ccedil;o qualificado&quot;. Trata-se do tempo de transmiss&atilde;o atribu&iacute;do a filmes, document&aacute;rios, s&eacute;ries de televis&atilde;o, novelas, tudo que n&atilde;o for jornalismo, programa de audit&oacute;rio, transmiss&atilde;o esportiva, televendas etc. Dentro desse &quot;espa&ccedil;o qualificado&quot;, cada canal fica obrigado a transmitir, no m&iacute;nimo, 10% de conte&uacute;dos nacionais (filmes, document&aacute;rios etc). Um canal que s&oacute; transmite 100% de programa&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica esportiva estar&aacute;, obviamente, exclu&iacute;do dessa obriga&ccedil;&atilde;o. J&aacute; um canal que, entre tantos programas, dedica algumas horas a filmes ou s&eacute;ries, ter&aacute; que cumpr&iacute;-la na propor&ccedil;&atilde;o dessas horas. Um canal 100% cinematogr&aacute;fico, ter&aacute; que transmitir 10% de horas, em hor&aacute;rio diurno (Bittar n&atilde;o &eacute; bobo!), de filmes nacionais. E isso valer&aacute; tanto para canais brasileiros, quanto estrangeiros.<\/p>\n<p><\/span><span>Bittar prop&otilde;e tamb&eacute;m que 30% dos canais transmitidos em qualquer &quot;pacote&quot; comprometam-se em oferecer, pelo menos, 50% de conte&uacute;dos &quot;qualificados&quot; nacionais. Por fim, mas n&atilde;o por &uacute;ltimo, prop&otilde;e que metade dos canais oferecidos em um pacote sejam controlados por empresas de capital nacional.<\/p>\n<p><\/span><span>Essa defesa e promo&ccedil;&atilde;o do audiovisual brasileiro j&aacute; se tornou o ponto mais pol&ecirc;mico do projeto (vide a rea&ccedil;&atilde;o da <em>eibitiei<\/em>). No entanto, o que a proposta sustenta &eacute; justo o contr&aacute;rio do que apresenta a propaganda falaciosa dessa entidade: se a PL for aprovada assim como est&aacute;, permitir&aacute; reduzir um pouco a monocultura american&oacute;fila da TV por assinatura e, portanto, diversificar, com um tanto de produ&ccedil;&otilde;es brasileiras, inclusive as ditas &quot;regionais&quot;, o que poderemos assistir por cabo ou sat&eacute;lite. O projeto de lei do deputado Bittar d&aacute; forte &ecirc;nfase &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente e cont&eacute;m todo um cap&iacute;tulo sobre o fomento financeiro a essa produ&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>O quarto ponto positivo do projeto &eacute; liberar a atividade de distribui&ccedil;&atilde;o para todo o tipo de operadora de telecomunica&ccedil;&otilde;es e, ao mesmo tempo, uniformizar o tratamento regulat&oacute;rio do setor: as regras ser&atilde;o as mesmas para o cabo (hoje regulado por lei) e para o sat&eacute;lite (hoje regulado por meras portarias ministeriais). Se o projeto de Bittar n&atilde;o vier a ser emasculado, as operadoras de sat&eacute;lite (ou melhor, a operadora&#8230;) ser&atilde;o tamb&eacute;m obrigadas a transmitir os canais abertos e outros canais p&uacute;blicos, inclusive a TV Comunit&aacute;ria. Em outras palavras, o projeto, tal como est&aacute; hoje, promete introduzir cidadania, por um lado, e competi&ccedil;&atilde;o, por outro, no setor.<\/p>\n<p><\/span><span>Pode melhorar? Sim, claro. Mas isto, reconhe&ccedil;amos, estar&aacute; al&eacute;m das for&ccedil;as do deputado Bittar que, inclusive, assumiu essa tarefa sem que o governo e, tamb&eacute;m, o seu partido tenham claras posi&ccedil;&otilde;es a respeito. Nem um, nem outro, discutem muito o assunto.&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Um ponto que mereceria melhor discuss&atilde;o trata do empacotamento. O projeto n&atilde;o cria condi&ccedil;&otilde;es para que o consumidor tenha maiores op&ccedil;&otilde;es de escolha, exceto se trocar de operadora (distribuidora). Acaba, assim, tornando-se um tanto vago quanto &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es de concorr&ecirc;ncia, exceto, talvez, se a concorr&ecirc;ncia se der entre operadoras. Como n&atilde;o veda, explicitamente, contratos de exclusividade entre a empacotadora e a distribuidora (operadora), admite essa simbiose que obriga o consumidor a, para assistir a UM espec&iacute;fico canal n&atilde;o oferecido no &quot;pacote&quot; vendido por uma operadora, assinar um outro servi&ccedil;o, de outra operadora, ou trocar de servi&ccedil;o, com todas as atribula&ccedil;&otilde;es que isto lhe causa!&nbsp; Ser&aacute; que entidades que defendem os interesses dos consumidores e fazem a apologia da competi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o teriam sugest&otilde;es a dar a&iacute;? Por que a distribuidora n&atilde;o pode ser obrigada a oferecer uma gama diversificada de &quot;pacotes&quot; organizados por diferentes empacotadores concorrentes? <\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; poss&iacute;vel que, do ponto de vista do neg&oacute;cio, aquela simbiose seja necess&aacute;ria: temos que pensar, tamb&eacute;m, no interesse do investidor, afinal o nosso mundo &eacute; capitalista&#8230; Mas se isto for verdade, &eacute; necess&aacute;rio assegurar algum grau de independ&ecirc;ncia para o consumidor, na montagem do seu &quot;pacote&quot;. O debate desse projeto de lei seria uma boa oportunidade para oferecer ao assinante, caso queira, a possibilidade de acrescentar ou substituir canais, num &quot;pacote&quot; convencional. Digamos que o assinante pudesse, at&eacute; um limite de, por exemplo, 20% do n&uacute;mero total de canais, substituir certos canais por outros. Esta proposta, inclusive, iria ao encontro da propaganda da <em>eibitiei<\/em>, j&aacute; que, neste caso, eu estaria pagando e decidindo, de fato, o que quero ver na minha TV por assinatura. Hoje, eu pago e vejo o que me empurram retina acima&#8230;<\/p>\n<p><\/span><span>Outro ponto a melhor debater trata da natureza da outorga. Hoje, no cabo, &eacute; concess&atilde;o. No sat&eacute;lite, autoriza&ccedil;&atilde;o. Infelizmente, Bittar prop&otilde;e reduzir tudo a autoriza&ccedil;&atilde;o. Uma concess&atilde;o &eacute; um contrato rigoroso entre o Estado e uma empresa prestadora de servi&ccedil;o de interesse p&uacute;blico. Define direitos e deveres de ambas as partes, logo &eacute; mais seguro para ambos. Estabelece um prazo: logo permite peri&oacute;dicas reavalia&ccedil;&otilde;es das condi&ccedil;&otilde;es de presta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o. E estamos falando de infra-estrutura: se tudo correr bem, como gostar&iacute;amos que corresse, daqui a alguns poucos anos, o cabo e o sat&eacute;lite estar&atilde;o sustentando as comunica&ccedil;&otilde;es em alta velocidade por todo o pa&iacute;s e servindo ao acesso aos mais distintos conte&uacute;dos jornal&iacute;sticos, educativos, culturais, art&iacute;sticos, de lazer etc. A explora&ccedil;&atilde;o de estradas de rodagem se faz por concess&atilde;o. Por que a explora&ccedil;&atilde;o de infovias, na sociedade da informa&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m n&atilde;o deve ser uma concess&atilde;o? Ser&atilde;o as infovias assim t&atilde;o desimportantes quanto a banca de jornal que fica na esquina da rua onde moro, que funciona por mera autoriza&ccedil;&atilde;o do prefeito?<\/p>\n<p><\/span><span>A tramita&ccedil;&atilde;o da PL-29 ser&aacute;, certamente, um assunto a mobilizar interessados e especialistas ao longo deste ano de 2008. Oxal&aacute; possa aparecer mais gente interessada em ampliar esse debate, nele introduzindo quest&otilde;es cruciais para a nossa democracia e nossa identidade nacional.<\/span><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><\/p>\n<p align=\"left\"><span><em>* Marcos Dantas &eacute; professor do Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da PUC-Rio. Foi secret&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o a Dist&acirc;ncia do MEC&nbsp; e membro do Conselho Consultivo da Anatel. E-mail: mdantasloureiro@yahoo.com.br<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est&aacute; em discuss&atilde;o, no Congresso Nacional, um projeto de lei que poder&aacute; provocar algumas importantes altera&ccedil;&otilde;es, para melhor, no modus operandi do mercado de TV por assinatura. O projeto &eacute; conhecido pela alcunha &quot;PL-29&quot;. 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