{"id":20361,"date":"2008-02-07T15:27:39","date_gmt":"2008-02-07T15:27:39","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20361"},"modified":"2008-02-07T15:27:39","modified_gmt":"2008-02-07T15:27:39","slug":"comunicacoes-no-brasil-conhecimento-por-onde-comecar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20361","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00f5es no Brasil: conhecimento, por onde come\u00e7ar?"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Qual resposta voc&ecirc; daria se confrontado(a) com a pergunta: que leitura introdut&oacute;ria recomenda para que se tenha uma vis&atilde;o de conjunto sobre as comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil? Apesar de simples e recorrente, essa n&atilde;o &eacute; uma pergunta de f&aacute;cil resposta.<\/p>\n<p><\/span><span>Seria poss&iacute;vel ter um &uacute;nico livro que desse conta do recado, talvez uma colet&acirc;nea de textos que servisse de introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria, &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o, &agrave; economia pol&iacute;tica, ao mercado, aos principais atores, &agrave; converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, &agrave; pol&iacute;tica p&uacute;blica, &agrave; programa&ccedil;&atilde;o etc. etc., do setor?<\/p>\n<p><\/span><span>Acredito que o locus primeiro para a produ&ccedil;&atilde;o de um eventual livro como esse deveria ser os cursos de Comunica&ccedil;&atilde;o, sobretudo aqueles que funcionam junto a programas de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o que, necessariamente, est&atilde;o vinculados a linhas e projetos de pesquisa. Embora tentativas nesse sentido j&aacute; tenham sido feitas, algo tem impedido que elas flores&ccedil;am no diversificado ambiente acad&ecirc;mico da Comunica&ccedil;&atilde;o . O que poderia ser indicado provisoriamente para introduzir algu&eacute;m na problem&aacute;tica do setor tem surgido em outros endere&ccedil;os.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Evidente ilegalidade<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Dois exemplos recentes &ndash; nem livro, nem journal acad&ecirc;mico &ndash; s&atilde;o o Informativo da ONG Intervozes sobre &quot;Concess&otilde;es de R&aacute;dio e TV &ndash; Onde a democracia ainda n&atilde;o chegou&quot; (novembro de 2007, <a href=\"http:\/\/www.intervozes.org.br\/publicacoes\/revistas-cartilhas-e-manuais\/revista_concessoes_web.pdf\">dispon&iacute;vel aqui<\/a>) e a Revista da Adusp, a associa&ccedil;&atilde;o sindical dos docentes da Universidade de S&atilde;o Paulo, sobre &quot;M&iacute;dia no Brasil&quot; (<a href=\"http:\/\/www.adusp.org.br\/revista\/42\/\">n&ordm; 42, janeiro 2008, dispon&iacute;vel aqui<\/a>).<\/p>\n<p><\/span><span>No Informativo escrito pelo coletivo Intervozes, 12 textos e uma lista de propostas tratam da quest&atilde;o cr&iacute;tica das concess&otilde;es p&uacute;blicas de r&aacute;dio e televis&atilde;o. A hist&oacute;ria da (des)regulamenta&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea, os crit&eacute;rios de renova&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es, o coronelismo eletr&ocirc;nico, as programa&ccedil;&otilde;es predominantemente comerciais e\/ou religiosas, as concess&otilde;es de emissoras educativas, a venda de concess&otilde;es e os processos de digitaliza&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio e da televis&atilde;o s&atilde;o discutidos do ponto de vista da democratiza&ccedil;&atilde;o e do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Dois desses temas, nem sempre tratados na literatura dispon&iacute;vel, merecem ser lembrados aqui: os &quot;supermercados eletr&ocirc;nicos&quot; e a &quot;invas&atilde;o&quot; das religi&otilde;es nas telas de TV. Selecionei breves passagens dos textos que revelam quais quest&otilde;es s&atilde;o tratadas &ndash; e como. No primeiro, &quot;No vale tudo, vende-se tudo&quot;, afirma-se:<\/p>\n<p><\/span><span><em>&quot;A legisla&ccedil;&atilde;o brasileira &eacute; clara: o limite de publicidade para as emissoras de televis&atilde;o &eacute; de 25% do tempo de programa&ccedil;&atilde;o (art. 28, Decreto 52.795). Apesar disso, como qualquer brasileiro ou brasileira pode facilmente notar, alguns canais veiculam exclusivamente programas cuja inten&ccedil;&atilde;o &eacute; vender produtos. Por meio destas emissoras, vendem-se tapetes, brincos, an&eacute;is, carros, casas e apartamentos, material de constru&ccedil;&atilde;o, roupas e instrumentos de culin&aacute;ria&#8230; Quem nunca viu a chapa do ex-boxeador norte-americano George Foreman sendo testada `ao vivo&acute;? A lista &eacute; grande. Al&eacute;m da evidente ilegalidade no abuso do limite de conte&uacute;do publicit&aacute;rio, tais concession&aacute;rios exploram um bem p&uacute;blico (o ar por onde trafegam os sinais de r&aacute;dio e TV) sem que a contrapartida estabelecida pela legisla&ccedil;&atilde;o brasileira seja cumprida.&quot;<br \/><\/em><br \/><\/span><span><strong>Informa&ccedil;&otilde;es sobre faturamento<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>J&aacute; no segundo, &quot;O Show da f&eacute;&quot;, discute-se a presen&ccedil;a de algumas religi&otilde;es nas emissoras de TV. O texto diz:<\/p>\n<p><\/span><span><em>&quot;A presen&ccedil;a das religi&otilde;es na televis&atilde;o &eacute; um tema complexo (&#8230;). Por um lado, &eacute; preciso considerar que a religi&atilde;o &eacute;, em certa medida, uma manifesta&ccedil;&atilde;o cultural. Isso, em tese, faz com que sua presen&ccedil;a na televis&atilde;o seja justific&aacute;vel. Por outro lado, trata-se de uma manifesta&ccedil;&atilde;o essencialmente privada, o que faz com que as outras pessoas tenham o direito de que este conte&uacute;do n&atilde;o invada a sua casa. A quest&atilde;o se torna ainda mais complexa quando lembramos que a Constitui&ccedil;&atilde;o define o Estado brasileiro como laico, ou seja, n&atilde;o-religioso. Sendo as concess&otilde;es de radiodifus&atilde;o p&uacute;blicas, outorgadas pelo Estado, em tese elas n&atilde;o poderiam ser utilizadas para o proselitismo religioso. (&#8230;) Algumas religi&otilde;es, com ampla maioria para os evang&eacute;licos e cat&oacute;licos, possuem suas pr&oacute;prias emissoras ou compram hor&aacute;rio na grade de programa&ccedil;&atilde;o de outras. Tal ocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel gra&ccedil;as ao poder pol&iacute;tico de algumas destas religi&otilde;es (que conseguem pressionar o Estado a conceder as outorgas) ou ao seu poder econ&ocirc;mico (que permite a compra de hor&aacute;rio em outros canais). Desta forma, as religi&otilde;es desprovidas destes poderes n&atilde;o conseguem ocupar o espa&ccedil;o televisivo. (Religi&otilde;es) de matrizes africanas, por exemplo, est&atilde;o fora das telas.&quot;<\/em><\/p>\n<p><\/span><span>A Revista da Adusp n&ordm; 42, por outro lado, est&aacute; organizada em torno de quatro subtemas: a m&iacute;dia na economia; m&iacute;dia, poder e cultura; n&oacute;s e a rede mundial (web) e jornalismo e democracia, compreendendo 11 textos que oferecem um painel bastante amplo dos principais problemas do setor. Destaco tr&ecirc;s desses textos:<\/p>\n<p><\/span><span>** O primeiro, &quot;Terra de Gigantes&quot;, assinado por Antonio Biondi e Cristina Char&atilde;o, traz um levantamento b&aacute;sico (e que precisa sempre estar sendo atualizado) sobre os principais grupos que controlam as comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s: sua composi&ccedil;&atilde;o, seu faturamento, sua participa&ccedil;&atilde;o no mercado e quem s&atilde;o seus donos. A pesquisa nessa seara n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil por um motivo simples: a maioria das informa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o est&aacute; dispon&iacute;vel. E agora n&atilde;o foi diferente. Dizem os autores:<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;A edi&ccedil;&atilde;o 2007 de `Valor Grandes Grupos&acute;, anu&aacute;rio do jornal Valor Econ&ocirc;mico, lista os grupos S&iacute;lvio Santos (na 97&ordf; posi&ccedil;&atilde;o), Abril (105&ordf;), RBS (178&ordf;) e Estado (183&ordf;). Outros dois gigantes, Organiza&ccedil;&otilde;es Globo e Grupo Folha &ndash; exatamente os que compartilham a propriedade de Valor Econ&ocirc;mico &ndash; n&atilde;o s&atilde;o citados no anu&aacute;rio, e conseguir informa&ccedil;&otilde;es sobre o faturamento de ambos n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil, apesar de se organizarem como sociedades an&ocirc;nimas (S\/A), o que teoricamente exige transpar&ecirc;ncia nos balan&ccedil;os financeiros. S&oacute; foi poss&iacute;vel localizar informa&ccedil;&otilde;es da Folha pelo notici&aacute;rio. &Agrave;s vezes, do pr&oacute;prio grupo. J&aacute; a Globo, apesar de fechar o acesso a seus relat&oacute;rios financeiros, foi mais sol&iacute;cita e enviou seu &uacute;ltimo balan&ccedil;o.&quot;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Bom proveito<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Um segundo texto que vale a pena mencionar discute &quot;Os desafios da governan&ccedil;a da internet&quot;. Nele, Gustavo Gindre nos lembra que:<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;Ao contr&aacute;rio do que o senso comum indica, a internet n&atilde;o &eacute; uma rede an&aacute;rquica e sem controle. De fato, existe um complexo, multifacetado e muitas vezes contradit&oacute;rio sistema internacional que garante a chamada `governan&ccedil;a da internet&acute;. Este modelo se constituiu historicamente mediante processos que ocorreram em paralelo, alguns em &acirc;mbito nacional (em especial nos Estados Unidos) e sem coordena&ccedil;&atilde;o entre si. Os desdobramentos desta governan&ccedil;a determinar&atilde;o como ser&aacute; aquilo que as futuras gera&ccedil;&otilde;es chamar&atilde;o pelo nome de internet.&quot;<\/p>\n<p><\/span><span>E, finalmente, vale mencionar o texto de Bernardo Kucinski que faz &quot;Um balan&ccedil;o da campanha pela democratiza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o&quot; e sugere uma agenda m&iacute;nima fact&iacute;vel em torno da qual se deveria pautar a luta por uma nova regula&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica das comunica&ccedil;&otilde;es, independente da forma como se complete a atual transi&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. Essa agenda teria os seguintes pontos:<br \/><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>&quot;(a) controle p&uacute;blico do processo de concess&otilde;es do espectro; <\/p>\n<p><\/span><span>(b) abertura do espectro a entidades da sociedade civil;<\/p>\n<p><\/span><span>(c) impedir por normas claras o monop&oacute;lio regional e o monop&oacute;lio cruzado;<\/p>\n<p><\/span><span>(d) subordinar a concess&atilde;o &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o de projetos editoriais harm&ocirc;nicos com pol&iacute;ticas p&uacute;blicas previamente acordadas em f&oacute;runs leg&iacute;timos e democr&aacute;ticos;<\/p>\n<p><\/span><span>(e) regras claras de opera&ccedil;&atilde;o, limitando tempo de propaganda, obrigando tempo m&iacute;nimo de notici&aacute;rio e taxa m&iacute;nima de ocupa&ccedil;&atilde;o com produ&ccedil;&atilde;o nacional e regional.&quot;<\/p>\n<p><\/span><span>Como se v&ecirc; por essa pequena amostra, embora a pergunta inicial continue sem resposta, existem algumas poucas publica&ccedil;&otilde;es externas ao ambiente acad&ecirc;mico da Comunica&ccedil;&atilde;o que podem servir de introdu&ccedil;&atilde;o &agrave;s comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil. At&eacute; que se tenha uma refer&ecirc;ncia consolidada, &eacute; a elas que devemos nos recorrer.<br \/><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Para aqueles que estiverem interessados, bom proveito.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual resposta voc&ecirc; daria se confrontado(a) com a pergunta: que leitura introdut&oacute;ria recomenda para que se tenha uma vis&atilde;o de conjunto sobre as comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil? Apesar de simples e recorrente, essa n&atilde;o &eacute; uma pergunta de f&aacute;cil resposta. 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