{"id":20359,"date":"2008-02-07T15:19:51","date_gmt":"2008-02-07T15:19:51","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20359"},"modified":"2008-02-07T15:19:51","modified_gmt":"2008-02-07T15:19:51","slug":"cursos-de-jornalismo-o-dificil-caminho-da-sociedade-da-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20359","title":{"rendered":"Cursos de Jornalismo: o dif\u00edcil caminho da &#8220;sociedade da informa\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A prop&oacute;sito do F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial em Davos, &eacute; curiosa, para se dizer o m&iacute;nimo, a informa&ccedil;&atilde;o de que um jornal financeiro su&iacute;&ccedil;o tenha ouvido e repercutido declara&ccedil;&otilde;es &quot;quentes&quot; do escritor Paulo Coelho. Certo, o &quot;mago&quot; liter&aacute;rio e financeiro &eacute; habitu&eacute; do F&oacute;rum. Desta vez, por&eacute;m, ele aventa uma hip&oacute;tese deveras interessante: o esoterismo seria melhor para prever o futuro da economia do que os especialistas. &quot;Diante do desencontro dos especialistas e dos erros de previs&atilde;o, os rituais esot&eacute;ricos t&ecirc;m capacidade de atuar at&eacute; com mais efic&aacute;cia do que medidas t&eacute;cnicas&quot;, conforme relata o jornalista Merval Pereira, citando Coelho (O Globo, 24\/1\/2008).<\/p>\n<p>Os &quot;especialistas&quot; constituem, em Davos, uma elite internacional de 2.500 altos empres&aacute;rios, pol&iacute;ticos e economistas. Haveria entre eles um consenso manifesto quanto &agrave; incapacidade do Federal Reserve &ndash; o banco central norte-americano, outro reduto de grandes &quot;especialistas&quot; ou economistas &ndash; em detectar a atual crise das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos, com suas alarmantes perspectivas de estagfla&ccedil;&atilde;o. &Eacute; verdade que o notici&aacute;rio subseq&uuml;ente atribui a um desses economistas a previs&atilde;o, desde o ano passado, da crise. Seu discurso, por&eacute;m, &eacute; t&atilde;o especulativo quanto o de um esot&eacute;rico, com met&aacute;foras nosol&oacute;gicas: os EUA estariam financeiramente gripados, com risco de pneumonia.<\/p>\n<p>O jornal esquiva-se de assinalar o evidente mal-estar cognitivo subjacente a tudo isso, que bem poderia suscitar uma quest&atilde;o de fundo sobre a inteireza da &quot;ci&ecirc;ncia&quot; econ&ocirc;mica. O que dizer, assim, das faculdades de excel&ecirc;ncia, dos luminares de econometria, dos Pr&ecirc;mios Nobel de Economia? Valeria para a Economia a afirma&ccedil;&atilde;o, por muitos repetida acerca da Comunica&ccedil;&atilde;o, de que talvez devessem ser fechadas as escolas de forma&ccedil;&atilde;o dos jornalistas?<\/p>\n<p><strong>Paradigma compreensivo<\/p>\n<p><\/strong>Esta introdu&ccedil;&atilde;o parece-nos oportuna para retomar a tem&aacute;tica dos cursos de Jornalismo, recentemente abordada neste Observat&oacute;rio por Carlos Castilho a prop&oacute;sito de um coment&aacute;rio que sugeria o fechamento da maioria das escolas diante da precariedade da demanda do mercado e da suposta inefici&ecirc;ncia da forma&ccedil;&atilde;o (ver &quot;O que fazer com as escolas de jornalismo?&quot;). Castilho, que conhe&ccedil;o de h&aacute; muito tempo no ambiente profissional, &eacute; um dos muito bons jornalistas brasileiros, algu&eacute;m capaz de aliar compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica a uma vis&atilde;o pol&iacute;tico-humanista. Em seu artigo no OI, mesmo reconhecendo a realidade do desemprego para os formandos, ele contorna as inten&ccedil;&otilde;es, digamos, terminais do querelante, com o argumento de que est&aacute; emergindo uma realidade nova no campo jornal&iacute;stico:<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; necess&aacute;rio perceber que o jornalismo come&ccedil;a a ganhar novas fun&ccedil;&otilde;es num ambiente informativo onde as pessoas comuns, os cidad&atilde;os, est&atilde;o ocupando espa&ccedil;os cada vez maiores na produ&ccedil;&atilde;o e publica&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias. Este &eacute; um fato novo que est&aacute; mudando a hist&oacute;ria da comunica&ccedil;&atilde;o atual, da mesma forma que a inven&ccedil;&atilde;o dos tipos m&oacute;veis por Johanes Gutemberg revolucionou a transmiss&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es e conhecimentos a partir do s&eacute;culo 15. E esta nova conjuntura est&aacute; sendo olimpicamente ignorada pelas faculdades de Jornalismo, com honrosas exce&ccedil;&otilde;es n&atilde;o apenas aqui como noutros pa&iacute;ses&quot;.<\/p>\n<p>Castilho tem raz&atilde;o, em parte. Isto porque, h&aacute; muito tempo, &eacute; uma esp&eacute;cie de lugar-comum nos cursos em pauta o reconhecimento &ndash; hist&oacute;rico, sociol&oacute;gico, antropol&oacute;gico e filos&oacute;fico &ndash; da conjuntura que leva a sociedade contempor&acirc;nea a ser chamada de &quot;sociedade da informa&ccedil;&atilde;o&quot;, na medida em que se ampliou, com meios de produ&ccedil;&atilde;o e dispositivos in&eacute;ditos, a circula&ccedil;&atilde;o do conhecimento. Esta amplia&ccedil;&atilde;o se estende do jornalismo at&eacute; a infra-estrutura tecnol&oacute;gica que sustenta a globaliza&ccedil;&atilde;o em curso. <\/p>\n<p>Em todo este complexo, o jornalismo &ndash; que, no in&iacute;cio do s&eacute;culo passado, parecia justificar toda uma &quot;ci&ecirc;ncia&quot; &ndash; &eacute; apenas uma das pr&aacute;ticas &quot;logot&eacute;cnicas&quot;, ao lado das audiovisuais, da documenta&ccedil;&atilde;o, do tratamento de dados, da interpreta&ccedil;&atilde;o de textos e imagens. E por maior que seja a diversidade dos discursos e das pr&aacute;ticas, subjaz a tudo isso um paradigma compreensivo, a que se vem dando o nome de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>O que est&aacute; em jogo<\/p>\n<p><\/strong>Ora, &eacute; precisamente esse paradigma que fundamenta uma nova episteme (formas particulares de produ&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o do conhecimento, uma nova mentalidade) para a sociedade contempor&acirc;nea, movida a informa&ccedil;&atilde;o. Quando se diz &quot;sociedade da informa&ccedil;&atilde;o&quot;, em vez de algo como &quot;sociedade das informa&ccedil;&otilde;es&quot;, est&aacute; sendo implicitamente reconhecido que informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; o mesmo que um dado fragmentado, e sim um processo de amplitude social e cultural. Desde o s&eacute;culo 19 at&eacute; meados do s&eacute;culo 20, o modelo a ser descrito era uma sociedade constitu&iacute;da, cujos fatos relevantes eram comunicados ao p&uacute;blico por jornalistas. Agora, o complexo intitulado &quot;m&iacute;dia&quot; molda tamb&eacute;m a sociedade.<\/p>\n<p>O jornalismo &eacute; uma das pr&aacute;ticas t&eacute;cnicas (important&iacute;ssima, ali&aacute;s, para o moderno cap&iacute;tulo das liberdades civis) no interior desse complexo, mas &eacute; preciso pens&aacute;-lo como parte de um todo e deixar de lado o fundamentalismo corporativo inerente a alguns profissionais, jovens e velhos. A comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; o marco compreensivo para os horizontes de significa&ccedil;&atilde;o, ao mesmo tempo s&oacute;cio-t&eacute;cnicos e epist&ecirc;micos, que se disp&otilde;em como um verdadeiro ecossistema informativo.<\/p>\n<p>As escolas de comunica&ccedil;&atilde;o surgiram e se irradiaram como uma febre na esteira desse paradigma. As profecias tecnol&oacute;gicas do canadense Marshall McLuhan, o crescimento exponencial das novas modalidades de consumo e o aparecimento acelerado das novas tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o contribu&iacute;ram em muito para o marketing acad&ecirc;mico do fen&ocirc;meno comunicacional. Em princ&iacute;pio, muito mais atraente do que a mera aprendizagem de t&eacute;cnicas (jornalismo, publicidade, radialismo, televis&atilde;o etc.) seria a &quot;imers&atilde;o&quot; no ambiente cognitivo capaz de esclarecer o que est&aacute; em jogo nesse novo universo.<\/p>\n<p><strong>Tecnologias do esp&iacute;rito<\/p>\n<p><\/strong><span>Numa realidade educacional concebida como pra&ccedil;a de mercado, seria inevit&aacute;vel que institui&ccedil;&otilde;es de ensino de toda ordem aderissem ao a&ccedil;odamento da oferta de cursos f&aacute;ceis de montar. Inevit&aacute;vel tamb&eacute;m seria a decep&ccedil;&atilde;o subseq&uuml;ente dos jovens com o estreitamento do mercado tradicional, assim como a indisposi&ccedil;&atilde;o ou o ressentimento dos jornalistas estabelecidos para com os jovens egressos de uma realidade acad&ecirc;mica distante da pr&aacute;tica das reda&ccedil;&otilde;es. Na verdade, se esquece que nenhuma faculdade oferece realmente gente imediatamente pronta para uma profiss&atilde;o. <\/span>Ningu&eacute;m sai m&eacute;dico de uma escola de medicina, por exemplo, j&aacute; que a pr&aacute;tica m&eacute;dica &eacute; dada pela &quot;resid&ecirc;ncia&quot; posterior, que pode levar v&aacute;rios anos. Na escola, aprende-se a aprender; a pr&aacute;tica se adquire ali, onde a produ&ccedil;&atilde;o acontece.<\/p>\n<p>Evidentemente, s&atilde;o diferentes os n&iacute;veis de ensino e diversa a capacidade dos estudantes de bem se disporem cognitivamente para o exerc&iacute;cio de uma profiss&atilde;o. Os formandos de uma escola de alto n&iacute;vel podem ser disputados por empresas. Mas isto, quando acontece, se d&aacute; em &aacute;reas tecnol&oacute;gicas de grande porte. Na &aacute;rea social, ou &quot;humana&quot;, a coisa muda de figura: o prest&iacute;gio dos cursos tem muito a ver com a sua proximidade para com os aparelhos de Estado ou com a tecnoburocracia de planejamento. S&oacute; que n&atilde;o h&aacute; neles nenhuma &quot;cientificidade&quot; maior do que o que se transmite em cursos de comunica&ccedil;&atilde;o. Estes s&atilde;o apenas os &quot;ca&ccedil;ulas&quot; do estamento universit&aacute;rio. E, apesar dos &oacute;bices, seus egressos povoam hoje as diversas modalidades de m&iacute;dia.<\/p>\n<p>Mas Carlos Castilho tem plena raz&atilde;o quando afirma que os cursos ainda n&atilde;o atentaram para as possibilidades de oferta de orienta&ccedil;&atilde;o e capacita&ccedil;&atilde;o de receptores-leitores na nova ordem comunicacional. Em outras palavras, a esfera acad&ecirc;mica n&atilde;o deve atrelar-se &agrave; mera produ&ccedil;&atilde;o de profissionais para o mercado, e sim, voltar-se tamb&eacute;m para a forma&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica. &Eacute; uma sugest&atilde;o brilhante, em especial quando se considera que as novas tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o &ndash; a internet, basicamente &ndash; ensejar&atilde;o cada vez mais protocolos de leitura ativos e interativos por parte de consumidores. N&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel que venha a sair de tudo isso um discurso social de estreita afinidade entre a reflex&atilde;o das ci&ecirc;ncias humanas e a informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>&Eacute; mesmo conceb&iacute;vel que, na conjuntura de uma verdadeira &quot;informa&ccedil;&atilde;o formativa&quot;, os perplexos com o &aacute;leas (o acaso, o imponder&aacute;vel) da economia &ndash; esses &quot;especialistas&quot; apanhados em meio ao descontrole do mercado financeiro, t&atilde;o pouco scholars quanto os crupi&ecirc;s de um cassino &ndash; vm a recorrer a jornalistas (saudades do Alo&iacute;sio Biondi&#8230;) para tornar mais claras as coisas. Pessoalmente, nada contra o saber que os fil&oacute;sofos orientais chamam tecnologias do esp&iacute;rito, mas esse esoterismo de faturamento, francamente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop&oacute;sito do F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial em Davos, &eacute; curiosa, para se dizer o m&iacute;nimo, a informa&ccedil;&atilde;o de que um jornal financeiro su&iacute;&ccedil;o tenha ouvido e repercutido declara&ccedil;&otilde;es &quot;quentes&quot; do escritor Paulo Coelho. Certo, o &quot;mago&quot; liter&aacute;rio e financeiro &eacute; habitu&eacute; do F&oacute;rum. Desta vez, por&eacute;m, ele aventa uma hip&oacute;tese deveras interessante: o esoterismo seria &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20359\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Cursos de Jornalismo: o dif\u00edcil caminho da &#8220;sociedade da informa\u00e7\u00e3o&#8221;<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[470],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20359"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20359"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20359\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}