{"id":20345,"date":"2008-02-01T16:28:07","date_gmt":"2008-02-01T16:28:07","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20345"},"modified":"2008-02-01T16:28:07","modified_gmt":"2008-02-01T16:28:07","slug":"qualidade-na-tv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20345","title":{"rendered":"Qualidade na TV?"},"content":{"rendered":"<p><em>A qualidade da programa&ccedil;&atilde;o &eacute; determinada pela audi&ecirc;ncia? Ou a audi&ecirc;ncia determina a qualidade da programa&ccedil;&atilde;o? Na entrevista deste m&ecirc;s, Esther Hamburger, antrop&oacute;loga e professora do Departamento de Cinema, R&aacute;dio e Televis&atilde;o da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes da Universidade de S&atilde;o Paulo (ECA-USP), mostra como esse falso &ldquo;dilema do ovo e da galinha&rdquo; &eacute; constru&iacute;do e distorce a rela&ccedil;&atilde;o entre emissoras de televis&atilde;o, p&uacute;blico e pesquisas de audi&ecirc;ncia. Fala tamb&eacute;m sobre mecanismos de regulamenta&ccedil;&atilde;o e o que seria uma programa&ccedil;&atilde;o de qualidade, que foge ao estere&oacute;tipo do que &eacute; estabelecido como o &ldquo;gosto da audi&ecirc;ncia&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p>*&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As emissoras, quando questionadas pelos cr&iacute;ticos de TV a respeito da m&aacute; qualidade da programa&ccedil;&atilde;o, rebatem dizendo que veiculam aquilo que o p&uacute;blico quer assistir, medido pela audi&ecirc;ncia. Como voc&ecirc; v&ecirc; essa quest&atilde;o?<\/strong><br \/>Na resposta das emissoras a essas cr&iacute;ticas est&aacute; embutida a id&eacute;ia de que uma programa&ccedil;&atilde;o de qualidade n&atilde;o segura audi&ecirc;ncia. Acho isso um grande preconceito. A televis&atilde;o brasileira j&aacute; teve uma qualidade reconhecida dentro e fora do Brasil. Quem tem mem&oacute;ria da televis&atilde;o nos anos de 1980 e 1990, por exemplo, lembra que a TV aberta era tida como um ve&iacute;culo de aprendizagem, porque trazia muita informa&ccedil;&atilde;o. E as pesquisas de audi&ecirc;ncia s&atilde;o uma medida nesse jogo da interlocu&ccedil;&atilde;o entre as emissoras e o p&uacute;blico. Acontece que esse padr&atilde;o de medida, no caso brasileiro, era muito distorcido, e ainda &eacute;. Por exemplo, at&eacute; o final dos anos de 1990, essas pesquisas, inclusive o Ibope, exclu&iacute;am as popula&ccedil;&otilde;es de baixa renda por n&atilde;o serem consideradas consumidoras. O anunciante s&oacute; estava interessado no p&uacute;blico a partir de um determinado poder aquisitivo, da&iacute; essas popula&ccedil;&otilde;es ficarem de fora do sistema. E como no Brasil tudo &eacute; paradoxal, isso significou que a televis&atilde;o nivelou sua programa&ccedil;&atilde;o por cima ou pela m&eacute;dia em vez de nivelar por baixo, como &eacute; o caso da TV americana, que at&eacute; recentemente era uma coisa de muito pouco interesse. O paradoxo est&aacute; no fato de que a TV comercial em geral &eacute; pensada como &ldquo;nivelada por baixo&rdquo; &ndash; porque essencialmente n&atilde;o &eacute; para ser provocativa, ela visa &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o de consensos &ndash;, mas a TV brasileira, at&eacute; o fim dos anos 90, nivelou pelo meio ou por cima, resultando em uma qualidade de programa&ccedil;&atilde;o melhor, que hoje se perdeu. E se perdeu por esse preconceito dos programadores. Hoje, se a grande maioria &eacute; reconhecida como consumidora, a audi&ecirc;ncia &eacute; nivelada por baixo.<\/p>\n<p><strong>Quem &eacute; essa audi&ecirc;ncia?<\/strong><br \/>Tudo isso [a rela&ccedil;&atilde;o entre programador, p&uacute;blico e as pesquisas de audi&ecirc;ncia] &eacute;, na verdade, um jogo imagin&aacute;rio, porque n&atilde;o existe audi&ecirc;ncia concretamente. Voc&ecirc; n&atilde;o junta no Est&aacute;dio do Morumbi a audi&ecirc;ncia da novela das oito. Audi&ecirc;ncia &eacute; uma categoria simb&oacute;lica, n&atilde;o existe de fato. Voc&ecirc; n&atilde;o toca nela, voc&ecirc; n&atilde;o distribui um question&aacute;rio para ela. Voc&ecirc; faz um question&aacute;rio para poucas pessoas que comp&otilde;em um coletivo que voc&ecirc; est&aacute; inventando. Audi&ecirc;ncia &eacute; um conceito constru&iacute;do de acordo com algumas no&ccedil;&otilde;es sobre quem &eacute; essa audi&ecirc;ncia. O Rubem Fonseca [escritor brasileiro] tem um conto muito interessante que se chama &ldquo;Mulher&rdquo;, e conta a est&oacute;ria de uma revista feita para um p&uacute;blico chamado de &ldquo;mulheres de classe C&rdquo;. A reda&ccedil;&atilde;o &eacute; toda de homens e quem narra o conto &eacute; um jornalista demitido de uma se&ccedil;&atilde;o policial de um jornal di&aacute;rio e que s&oacute; consegue emprego naquela revista. Ele &eacute; contratado para cuidar de uma se&ccedil;&atilde;o de cartas do leitor. Come&ccedil;a a inventar a personagem que ia responder &agrave;s cartas e inventa tamb&eacute;m cartas que essa personagem recebe. Depois de um tempo, ele come&ccedil;a a receber cartas de verdade, com consultas de verdade. No fim da narrativa, vem um t&eacute;cnico de pesquisa de audi&ecirc;ncia e revela para aquela reda&ccedil;&atilde;o que o p&uacute;blico deles n&atilde;o era de &ldquo;mulheres de classe C&rdquo;, como eles imaginavam e constru&iacute;am. Eles atingiam, na verdade, &ldquo;homens de classe B&rdquo;. A &uacute;ltima revela&ccedil;&atilde;o do conto &eacute; que uma das pessoas que se correspondia com o jornalista era o pr&oacute;prio editor da revista, que era gay, tinha uma vida secreta e revelava isso nas cartas. Ent&atilde;o, &eacute; legal pensar justamente esses desentendimentos que surgem a partir das distor&ccedil;&otilde;es das pesquisas de audi&ecirc;ncia. O que se faz na TV aberta, muitas vezes, &eacute; imaginar um outro que voc&ecirc; solenemente despreza.<\/p>\n<p><strong>Ent&atilde;o, a suposta escolha da audi&ecirc;ncia n&atilde;o determina muita coisa&#8230;<\/strong><br \/>N&atilde;o. Acho que a programa&ccedil;&atilde;o &eacute; basicamente determinada pela produ&ccedil;&atilde;o, por quem controla a programa&ccedil;&atilde;o. O p&uacute;blico tem capacidade para optar entre aquilo que vai ao ar na TV aberta. Mas essa capacidade de escolha do telespectador &eacute; muito limitada; h&aacute; um menu bastante limitado de programas a serem escolhidos. E eles s&atilde;o muito parecidos entre si. Para falar em qualidade da programa&ccedil;&atilde;o, temos que pensar fundamentalmente em quem est&aacute; produzindo. Sem d&uacute;vida isso &eacute; mais importante do que pensar no p&uacute;blico, em um primeiro momento. Quem est&aacute; produzindo &eacute; quem tem efetivamente a possibilidade de fazer algo interessante ou n&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Discutir qualidade na programa&ccedil;&atilde;o passa por determinar mecanismos de regulamenta&ccedil;&atilde;o para as emissoras e produtores?<\/strong><br \/>Isso n&atilde;o tem a menor d&uacute;vida. E acho que a demanda do p&uacute;blico n&atilde;o &eacute; s&oacute; por medidas como a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa, que gerou tanto debate. Acho bom de fato ter l&aacute; uma classifica&ccedil;&atilde;o indicativa, mas n&atilde;o acho que seja a principal quest&atilde;o, porque as pessoas s&atilde;o capazes de olhar e ver se querem que seus filhos assistam aquilo ou n&atilde;o. Acho que a demanda do p&uacute;blico &eacute; por respeito e por uma programa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o subestime a intelig&ecirc;ncia das pessoas. &Eacute; qualidade nesse sentido: uma programa&ccedil;&atilde;o estimulante, desafiadora, que fa&ccedil;a crescer. &Eacute; muito mais barato fazer um programa de audit&oacute;rio &ndash; n&atilde;o que n&atilde;o existam bons programas de audit&oacute;rio, mas &eacute; uma das coisas mais baratas que tem. E a&iacute; voc&ecirc; coloca a culpa na audi&ecirc;ncia pela falta de investimento em programas de qualidade maior, mais elaborados. Agora, as melhores coisas na TV brasileira foram feitas com risco, j&aacute; que n&atilde;o se enquadravam no que &eacute; veiculado normalmente. Mas acho que &eacute; isso que o p&uacute;blico espera: coragem de quem det&eacute;m a capacidade de produzir de inventar coisas novas. <\/p>\n<p><strong>O que seria uma programa&ccedil;&atilde;o de qualidade?<\/strong><br \/>N&atilde;o sei se qualidade &eacute; um termo bom. N&atilde;o existe algo objetivo que a defina. O que pode ser bom para mim n&atilde;o &eacute; bom para o outro, por exemplo. Qualidade pode ser apenas a qualidade t&eacute;cnica, ou s&oacute; qualidade ideol&oacute;gica &ndash; um bom programa que ningu&eacute;m assiste por ser tecnicamente ruim, por exemplo. Ent&atilde;o o que &eacute; uma coisa que escapa do estere&oacute;tipo? Acho que &eacute; algo inteligente, como as s&eacute;ries Hoje &eacute; dia de Maria e Cidade dos Homens, o programa infantil Castelo R&aacute; Tim Bum, s&oacute; para citar algumas das muitas iniciativas que vemos por a&iacute; e que tiveram muita audi&ecirc;ncia. De certa forma, esses programas s&atilde;o &ldquo;independentes&rdquo; e representam a desproporcionalidade entre o que se tem de energia e capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o e aquilo que efetivamente ganha espa&ccedil;o de difus&atilde;o na TV aberta. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A demanda do p\u00fablico \u00e9 por uma programa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o subestime a intelig\u00eancia das pessoas&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[637],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20345"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20345\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}