{"id":20331,"date":"2008-01-30T18:50:42","date_gmt":"2008-01-30T18:50:42","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20331"},"modified":"2008-01-30T18:50:42","modified_gmt":"2008-01-30T18:50:42","slug":"fusao-oibrt-uma-boa-iniciativa-que-pode-se-transformar-em-negociata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20331","title":{"rendered":"Fus\u00e3o Oi\/BrT: uma boa iniciativa que pode se transformar em negociata"},"content":{"rendered":"<p>Para um neg&oacute;cio que envolve bilh&otilde;es de d&oacute;lares e um dos setores mais din&acirc;micos da economia contempor&acirc;nea n&atilde;o serve o tratamento de m&uacute;ltipla escolha do tipo &ldquo;voc&ecirc; &eacute; a favor ou contra, sim ou n&atilde;o&rdquo;. A responsabilidade pede uma an&aacute;lise mais sutil, destacando os pontos positivos e negativos envolvidos.<\/p>\n<p>Assim ocorre com a anunciada fus&atilde;o entre Oi (ex-Telemar) e Brasil Telecom.<\/p>\n<p><strong>O legado tucano<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a fus&atilde;o deveria ser precedida do reconhecimento, por parte do governo Lula, de que o processo de privatiza&ccedil;&atilde;o da Telebr&aacute;s, e a conseq&uuml;ente constru&ccedil;&atilde;o da Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (LGT), foi n&atilde;o apenas equivocado como privou o Brasil de deter uma grande operadora de telecomunica&ccedil;&otilde;es que, a exemplo da mexicana Telmex, poderia estar disputando o mercado internacional.<\/p>\n<p>Um ano antes da LGT, os Estados Unidos aprovaram o seu Telecommunications Act, pondo fim &agrave; pol&iacute;tica das baby bells, com o objetivo de criar grandes operadoras que pudessem disputar o mercado global com europeus e japoneses. No Brasil, para agraciar empres&aacute;rios locais e agradar ao capital estrangeiro, optou-se por um fatiamento da antiga Telebras que criou empresas sem escala para concorrer com seus rivais transnacionais.<\/p>\n<p>Assumir essa cr&iacute;tica &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica para deixar claro que a fus&atilde;o entre Oi e Brasil Telecom est&aacute; inserida numa nova pol&iacute;tica para as comunica&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o se trata de mera negocia&ccedil;&atilde;o de ativos.<\/p>\n<p>Tal pol&iacute;tica tamb&eacute;m deve rever o princ&iacute;pio liberal da concorr&ecirc;ncia. &Eacute; cada vez mais &oacute;bvio que, do ponto de vista da infra-estrutura, s&oacute; existe concorr&ecirc;ncia em alguns nichos residenciais de alto poder aquisitivo e para o atendimento ao setor empresarial. No resto, o cen&aacute;rio &eacute; de monop&oacute;lio. Da&iacute; a enorme responsabilidade de um processo que vai fundir as duas empresas detentoras deste monop&oacute;lio em 26 dos 27 estados brasileiros. Por isso, &eacute; fundamental lembrar que embora o Estado j&aacute; seja o principal acionista das duas empresas (atrav&eacute;s do BB, do BNDES e dos fundos de pens&atilde;o), ambas jamais tiveram pol&iacute;ticas que visassem garantir a universaliza&ccedil;&atilde;o de fato do &ldquo;velho&rdquo; telefone fixo (18 linhas instaladas para cada 100 habitantes) e, principalmente, da Internet (apenas 6% de resid&ecirc;ncias com banda larga).<\/p>\n<p>A fus&atilde;o entre Oi e Brasil Telecom deve fazer surgir uma empresa comprometida com a inclus&atilde;o digital, especialmente daqueles que n&atilde;o podem ter acesso &agrave;s novas tecnologias atrav&eacute;s do mercado. Assim, a nova empresa deve ser obrigada a praticar o unbundling de seus backhauls e garantir a neutralidade de suas redes. Quem sabe at&eacute; mesmo uma pol&iacute;tica de discrimina&ccedil;&atilde;o positiva, que ofere&ccedil;a vantagens na interconex&atilde;o para redes comunit&aacute;rias sem fins lucrativos.<\/p>\n<p>A nova empresa tamb&eacute;m deve possuir uma pol&iacute;tica de compras associada ao desenvolvimento de ci&ecirc;ncia e tecnologia nacionais. Torna-se poss&iacute;vel reconstruir o complexo de C&amp;T que envolvia o CPqD, universidades e empresas nacionais. Vale lembrar que o Brasil j&aacute; teve posi&ccedil;&atilde;o de destaque na produ&ccedil;&atilde;o de fibra &oacute;ptica e centrais digitais, por exemplo.<\/p>\n<p>Para que a nova empresa possa cumprir essas fun&ccedil;&otilde;es &eacute; necess&aacute;rio que o Estado mantenha sua posi&ccedil;&atilde;o acion&aacute;ria de destaque, dando a ela compromissos sociais semelhantes &agrave;queles que a Petrobras possui. Mas, para evitar cr&iacute;ticas de uma suposta re-estatiza&ccedil;&atilde;o, o governo tem acenado justamente com o contr&aacute;rio: a dilui&ccedil;&atilde;o de sua presen&ccedil;a na nova empresa.<\/p>\n<p><strong>Quem vai se beneficiar<\/strong><\/p>\n<p>E aqui &eacute; que come&ccedil;am os riscos de uma negociata. Se o governo pretende &ldquo;desinvestir&rdquo; (op&ccedil;&atilde;o que considero equivocada), pelo menos &eacute; preciso saber como. O Banco do Brasil, o BNDES e os fundos de pens&atilde;o (especialmente a Previ) possuem capital investido nestas empresas e n&atilde;o podemos correr o risco de v&ecirc;-los serem passados a iniciativa privada em condi&ccedil;&otilde;es desvantajosas. Especialmente no caso dos fundos de pens&atilde;o, onde &eacute; o futuro de trabalhadores que est&aacute; em jogo.<\/p>\n<p>Por sua vez, quem ser&aacute; beneficiado diretamente com a dilui&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o do Estado? Segundo a grande imprensa, seriam os dois maiores acionistas privados da Oi, Carlos Jereissati e a construtora Andrade Gutierrez. Esta &uacute;ltima foi a maior financiadora da campanha eleitoral de Lula em 2006 e trabalhou a favor do aporte de R$ 5 milh&otilde;es da Oi na Gamecorp, empresa onde um dos acionistas &eacute; filho do presidente Lula. Para piorar, comenta-se que o BNDES pode investir recursos para que os s&oacute;cios privados aumentem sua participa&ccedil;&atilde;o na nova empresa. Ora, isso n&atilde;o faz nenhum sentido e recursos do BNDES devem ser usados apenas para financiar a expans&atilde;o da empresa. Por isso, cabe ficar atendo para saber de que forma se dar&aacute; essa anunciada dilui&ccedil;&atilde;o do capital do Estado na nova empresa e quais ser&atilde;o os beneficiados.<\/p>\n<p><strong>Uma nova Ambev?<\/strong><\/p>\n<p>Rubens Glasberg, da Converge Comunica&ccedil;&otilde;es, tem alertado para o risco de repetirmos o que ocorreu com a fus&atilde;o entre Brahma e Ant&aacute;rtica, originando a empresa Ambev. Na &eacute;poca, alegou-se que o problema concorrencial de termos uma gigante que controle mais de 2\/3 do mercado de cervejas era contrabalan&ccedil;ado pela necessidade do Brasil possuir um player global no mercado de bebidas. A defesa da Ambev era banhada em um discurso nacionalista. Quatro anos depois, contudo, os tr&ecirc;s banqueiros brasileiros que controlavam a Ambev venderam-na para a belga Interbrew em nome de uma participa&ccedil;&atilde;o conjunta de 25%.<\/p>\n<p>No caso da fus&atilde;o entre Oi e Brasil Telecom, os supostos futuros acionistas majorit&aacute;rios s&atilde;o um dono de shopping centers e uma construtora. O que os impediria de participar da fus&atilde;o, receber recursos do BNDES, valorizar seus ativos e depois vender a empresa para uma gigante transnacional das telecomunica&ccedil;&otilde;es?<\/p>\n<p>Uma das pr&eacute;-condi&ccedil;&otilde;es para a cria&ccedil;&atilde;o da nova empresa deve ser, portanto, uma golden share que d&ecirc; ao governo o poder de evitar sua venda para o capital estrangeiro.<\/p>\n<p><strong>Daniel Dantas<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo &agrave; revelia da legisla&ccedil;&atilde;o do setor, o banqueiro Daniel Dantas &eacute; acionista tanto da Oi quanto da Brasil Telecom. Nesta &uacute;ltima, onde foi controlador, ele criou um emaranhado acion&aacute;rio que ainda hoje os demais acionistas (fundos de pens&atilde;o e CitiBank) penam para destrinchar. Dada a presen&ccedil;a nefasta de Dantas no cen&aacute;rio pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico brasileiro dos &uacute;ltimos anos, deve ser ponto de honra do processo de cria&ccedil;&atilde;o da nova empresa que o banqueiro n&atilde;o seja beneficiado em hip&oacute;tese alguma. Deixar que a fus&atilde;o garanta ganhos &agrave; Daniel Dantas seria ferir de morte qualquer resqu&iacute;cio de uma opera&ccedil;&atilde;o limpa e correta, que vise o bem do pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>Fus&atilde;o &eacute; conseq&uuml;&ecirc;ncia, n&atilde;o causa<\/strong><\/p>\n<p>Por tudo isso, a postura correta do governo seria enviar um projeto de lei para o Congresso Nacional que afirme uma nova pol&iacute;tica para as telecomunica&ccedil;&otilde;es brasileiras e que insira, em seu interior, o papel da empresa resultante da fus&atilde;o entre Oi e Brasil Telecom. Somente depois de consolidada essa pol&iacute;tica &eacute; que a fus&atilde;o deveria ser feita.<\/p>\n<p>Simplesmente produzir um Decreto Presidencial que altere o Plano Geral de Outorgas (PGO), permitindo a fus&atilde;o de Oi e Brasil Telecom, sem que se discuta publicamente a que pol&iacute;tica esta fus&atilde;o servir&aacute;, pode ser mais um caso tipicamente brasileiro, onde a defesa de uma boa id&eacute;ia &eacute; colocada a servi&ccedil;o de uma negociata.<\/p>\n<p><em>* Conselheiro eleito do Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e membro do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para um neg&oacute;cio que envolve bilh&otilde;es de d&oacute;lares e um dos setores mais din&acirc;micos da economia contempor&acirc;nea n&atilde;o serve o tratamento de m&uacute;ltipla escolha do tipo &ldquo;voc&ecirc; &eacute; a favor ou contra, sim ou n&atilde;o&rdquo;. 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