{"id":20329,"date":"2008-01-30T15:27:23","date_gmt":"2008-01-30T15:27:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20329"},"modified":"2008-01-30T15:27:23","modified_gmt":"2008-01-30T15:27:23","slug":"fusao-oibrt-o-que-esta-de-fato-em-discussao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20329","title":{"rendered":"Fus\u00e3o Oi\/BrT: o que est\u00e1 de fato em discuss\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> <span>Estou a vontade para escrever favoravelmente &agrave; fus&atilde;o Oi-BrT, pois sempre critiquei o fatiamento da Telebr&aacute;s, quando de sua privatiza&ccedil;&atilde;o, e sempre sustentei que, mais cedo ou mais tarde, uma refus&atilde;o iria se impor. Na primeira edi&ccedil;&atilde;o de meu livro <em>A l&oacute;gica do capital-informa&ccedil;&atilde;o<\/em>, publicada em 1997, quando j&aacute; se sabia que a Telebr&aacute;s seria esquartejada, mas n&atilde;o se sabia como, escrevi que, n&atilde;o importava por onde passasse o cutelo, dele resultaria uma empresa invi&aacute;vel: aquela que viesse a arcar com a manuten&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os no Norte, Nordeste e outras &aacute;reas pobres do Brasil. Em longo artigo publicado na revista Comunica&ccedil;&atilde;o&amp;pol&iacute;tica, no primeiro trimestre de 1998, v&eacute;speras da privatiza&ccedil;&atilde;o, j&aacute; se sabendo, portanto, como fora feita a divis&atilde;o, reiterei a tese. Na segunda edi&ccedil;&atilde;o daquele livro, em 2002, v&eacute;speras de elei&ccedil;&otilde;es, j&aacute; ent&atilde;o confirmadas aquelas an&aacute;lises conforme demonstrei em longo pref&aacute;cio, adiantei: qualquer que viesse a ser o futuro governo, ele teria que rever o modelo herdado do governo anterior. Demorou seis anos mas o Governo Lula est&aacute;, finalmente, revendo o modelo.<\/span>  <\/p>\n<p> <span>Era um modelo invi&aacute;vel desde o seu nascedouro: ou j&aacute; nos esquecemos que n&atilde;o existiam compradores para a ent&atilde;o chamada &ldquo;tele norte-leste&rdquo;, raz&atilde;o pela qual o grupo Jeiressati p&ocirc;de arremat&aacute;-la sem dinheiro, para isto contando com o&nbsp; socorro financeiro do BNDES! Invi&aacute;vel por dois motivos. Um, de economia dom&eacute;stica, outro, de economia internacional. Economia dom&eacute;stica: o Brasil &eacute; um pa&iacute;s muito desigual. Todo mundo sabe disso mas finge ignorar seus efeitos nas telecomunica&ccedil;&otilde;es. Por isto, o neg&oacute;cio telecomunica&ccedil;&otilde;es, no Brasil, somente &eacute; lucrativo em cerca de 300 a 400 munic&iacute;pios, onde se concentram 50 a 60 por cento da nossa popula&ccedil;&atilde;o e quase 80% do PIB. Se empresas como Oi e BrT n&atilde;o estivessem obrigadas, por contrato, a oferecerem servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es, sobretudo telefonia fixa, a todo o Brasil, simplesmente fariam como fazem as operadoras de telefonia celular: em 1.900 munic&iacute;pios brasileiros, com cerca de 20% da popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, n&atilde;o existe servi&ccedil;o de telefonia celular. Ou poderiam fazer melhor: fazer como a GVT, a NET e tantas outras empresas similares que somente atuam num nicho muito concentrado de 50 a 200 munic&iacute;pios, e nos seus bairros mais ricos, nos quais oferecer servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es &eacute; realmente muito lucrativo.<\/span>  <\/p>\n<p> <span>Somente uma operadora de porte nacional, oferecendo servi&ccedil;os nas cidades e bairros ricos do pa&iacute;s, pode assegurar receitas e lucros suficientes para sustentar servi&ccedil;os b&aacute;sicos no imenso Brasil pobre. Por isto, a Oi, embora lucrativa no balan&ccedil;o cont&aacute;bil, n&atilde;o &eacute; propriamente uma empresa rent&aacute;vel, sobretudo do ponto de vista de investidores capitalistas. Se pudessem, seus controladores privados j&aacute; teriam sa&iacute;do do neg&oacute;cio. N&atilde;o saem porque est&atilde;o amarrados por contrato. Detalhe: contrato de 20 anos, dos quais somente se passaram quatro&#8230;<\/span>  <\/p>\n<p> <span>Economia internacional: as telecomunica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o controladas, globalmente, por um punhado de gigantescas corpora&ccedil;&otilde;es que operam desde telefonia fixa at&eacute; portal de internet, passando por celular, banda larga, produ&ccedil;&atilde;o audiovisual etc. Boa parte delas, construiu e opera infra-estruturas mundiais de comunica&ccedil;&otilde;es, reunindo cabos e sat&eacute;lites, por onde flui o sangue financeiro da economia capitalista. Tiram da&iacute; muito dinheiro. Uma dessas operadoras &eacute; a espanhola Telef&ocirc;nica que, apesar de espanhola, &eacute; a maior operadora da Am&eacute;rica Latina, de onde remeteu, em 2005, cerca de 1,5 bilh&atilde;o de euros para a Espanha. A outra operadora, pasmem!, &eacute; mexicana &ndash; a Telmex, cujas redes tamb&eacute;m se estendem do Jap&atilde;o &agrave; Europa, via Estados Unidos, e dos Estados Unidos &agrave; Patag&ocirc;nia, via, exatamente, Brasil, vale dizer, Embratel. N&atilde;o d&aacute; para entender porque o Brasil n&atilde;o ocupa, e nem querem que ocupe, posi&ccedil;&atilde;o similar &agrave; do M&eacute;xico na economia global das telecomunica&ccedil;&otilde;es. &Eacute; muito, muito, muito mais rent&aacute;vel operar redes globais de comunica&ccedil;&otilde;es do que exportar soja, frango e min&eacute;rio de ferro. Com as receitas que extrai de suas opera&ccedil;&otilde;es globais, a Telef&ocirc;nica sustenta os servi&ccedil;os p&uacute;blicos que est&aacute; obrigada a sustentar na Espanha. Se o Brasil construir a sua operadora global, poder&aacute; buscar recursos para melhorar os servi&ccedil;os prestados &agrave; popula&ccedil;&atilde;o norte-nordestina e, inclusive, aos consumidores de nossas cidades mais ricas. Ao menos, poderia compensar parte do dinheiro que est&aacute; enviando (mas ningu&eacute;m conta) para a Espanha e, pasmem!, para o M&eacute;xico.<\/span>  <\/p>\n<p> <span>Os que t&ecirc;m se manifestado nessa quest&atilde;o (a maioria porque ignora, alguns poucos porque sabem da ignor&acirc;ncia de todos os outros) n&atilde;o atentam para o fato de que, no Brasil, os servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es dividem-se entre os prestados em regime p&uacute;blico e os prestados em regime privado. Esses conceitos nada t&ecirc;m a ver com a natureza da empresa prestadora (estatal ou privada), mas com os compromissos que essa empresa assume, ou n&atilde;o, com o Estado e a sociedade. Somente quatro empresas operam em regime p&uacute;blico, justo Oi\/Telemar, Brasil Telecom, Telef&oacute;nica e Embratel (Telmex). Implica dizer que elas s&atilde;o delegadas do Estado para executar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. S&atilde;o, por isto, as &uacute;nicas obrigadas a atender a objetivos de universaliza&ccedil;&atilde;o (da&iacute; estarem presentes em todos os munic&iacute;pios brasileiros, d&ecirc; ou n&atilde;o retorno) e a aceitar tarifas controladas. Universalizar a telefonia, em S&atilde;o Paulo, &eacute; razoavelmente f&aacute;cil: nesse estado, servido pela Telef&ocirc;nica e outras empresas menores, h&aacute;, em m&eacute;dia, 29 linhas telef&ocirc;nicas fixas em servi&ccedil;o para cada grupo de 100 habitantes. J&aacute; na imensa &aacute;rea atendida pela Oi\/Telemar, a densidade telef&ocirc;nica &eacute; de apenas 14 linhas\/100 hab. Existem, inclusive, muitos povoados pelo Brasil a fora nos quais a Oi, por obriga&ccedil;&atilde;o contratual, implantou a rede, embora, at&eacute; hoje, n&atilde;o conte com um &uacute;nico assinante. Preju&iacute;zo puro. <\/span> <\/p>\n<p> <span>A fus&atilde;o permitir&aacute; reunir os ricos mercados da BrT (Bras&iacute;lia, Paran&aacute;, sul de Mato Grosso etc) aos ricos mercados da Oi (Rio de Janeiro, parte de Minas, algumas regi&otilde;es metropolitanas). Em princ&iacute;pio, isso pode ajudar a fazer avan&ccedil;ar a universaliza&ccedil;&atilde;o, no imenso Brasil pobre, tanto da telefonia fixa quanto, sobretudo, da banda-larga, assunto, ali&aacute;s, que agora, parece, entrou definitivamente na agenda do governo. No entanto, n&atilde;o podemos imaginar que os investidores ir&atilde;o aproveitar essas condi&ccedil;&otilde;es por iniciativa pr&oacute;pria. Por conta deles, far&atilde;o sempre o m&iacute;nimo necess&aacute;rio. &Eacute; mister que o Estado os lembre, a todo instante, que s&atilde;o concession&aacute;rios de um servi&ccedil;o p&uacute;blico. O papel do governo &eacute; o de estabelecer pol&iacute;ticas, definir projetos e, at&eacute; mesmo, se necess&aacute;rio, viabilizar recursos ou financiamentos, para que essa nova empresa possa cumprir, nas telecomunica&ccedil;&otilde;es, um papel semelhante ao da Petrobr&aacute;s, tanto no desenvolvimento industrial-tecnol&oacute;gico nacional, quanto na expans&atilde;o do espa&ccedil;o geopol&iacute;tico brasileiro, sem esquecer, claro, de bem atender a toda a popula&ccedil;&atilde;o do Pa&iacute;s. O BNDES, portanto, n&atilde;o pode se limitar a ser um mero s&oacute;cio que complementa o capital que falta aos investidores privados, mas dever&aacute; exercer o poder que sua participa&ccedil;&atilde;o acion&aacute;ria lhe confere, vocalizando os interesses do Estado e da sociedade. Para n&atilde;o falar da Anatel&#8230; Se n&atilde;o, se o governo se limitar a mudar as regras de modo a viabilizar politicamente a refus&atilde;o, mas n&atilde;o aproveitar a oportunidade para redefinir a pol&iacute;tica nacional de telecomunica&ccedil;&otilde;es e o papel das concession&aacute;rias dentro dela, estar&aacute; t&atilde;o somente atendendo aos interesses dos investidores, sem nenhuma contrapartida para o pa&iacute;s. <\/span> <\/p>\n<p> <span>Fala-se muito no risco dessa refus&atilde;o para a competi&ccedil;&atilde;o. Balela! Onde existe mercado, j&aacute; existe uma boa concorr&ecirc;ncia. Ali&aacute;s, na minha casa, eu tenho uma linha telef&ocirc;nica da Oi e outra, da Embratel\/NET. Operadoras de celular oferecem o celular-fixo, e a Oi responde com o &ldquo;conta total&rdquo; &ndash; fixo e celular. Muitas operadoras de menor porte operam em cerca de 300 cidades brasileiras, mas jamais v&atilde;o operar em Pombos, Pernambuco, onde a densidade telef&ocirc;nica n&atilde;o chega a 3 por 100. Em Pombos, ou tem Oi, ou n&atilde;o tem nada. Mas em Recife, onde a densidade telef&ocirc;nica encosta em 30 por 100, al&eacute;m da Oi, o mercado &eacute; disputado pela Aerotech, Embratel (NET), Telef&oacute;nica, TellFree e ainda outras.&nbsp; Disputam a cidade inteira? Claro que n&atilde;o! A concorr&ecirc;ncia se instala onde h&aacute; mercado: nas principais &aacute;reas comerciais, na zona industrial, nos bairros de classe m&eacute;dia alta. E a refus&atilde;o n&atilde;o vai abal&aacute;-la nem um pouco. <\/span> <\/p>\n<p> <span>Ali&aacute;s, a competi&ccedil;&atilde;o &eacute; problema do mercado, n&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. A&iacute;, o melhor que faz o governo &eacute; n&atilde;o se meter. Quem tem compet&ecirc;ncia, que se estabele&ccedil;a. O problema das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas &eacute; o de levar a infra-estrutura de comunica&ccedil;&otilde;es &agrave;s fam&iacute;lias pobres, &agrave;s comunidades carentes, &agrave;s escolas e unidades de sa&uacute;de, &agrave;s regi&otilde;es mais fr&aacute;geis economicamente. O governo Lula, no seu primeiro ano, come&ccedil;ou errando, ao editar um decreto que priorizava as condi&ccedil;&otilde;es de competi&ccedil;&atilde;o. O decreto, por invi&aacute;vel, &eacute;, hoje, letra-morta. O governo pode, agora, acertar, se finalmente assumir, corajosa e abertamente, a necessidade de rever o modelo de privatiza&ccedil;&atilde;o que as consultoras estrangeiras (com seus testa-de-ferro nacionais) McKinsey\/Sundfeld Advogados, Dresner Kleiworth Benson, Lehman Brothers, Arthur Andersen e outras, entregaram prontinho para o governo FHC tomar as decis&otilde;es que colocariam o Brasil fora do mapa mundial das telecomunica&ccedil;&otilde;es.<\/span>  <\/p>\n<p> <span>Na &eacute;poca, nenhum jornalista, mas nenhum mesmo, perguntou ao ent&atilde;o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es por que raz&atilde;o ele iria esquartejar a 15&ordf; maior operadora de telecomunica&ccedil;&otilde;es do mundo, e maior da Am&eacute;rica Latina. Tamb&eacute;m n&atilde;o perguntou porque o corte foi feito como foi feito e, n&atilde;o, de algum outro modo. Haviam vozes discordantes, poucas, mas haviam. Exclu&iacute;da a revista Caros Amigos, nenhum outro ve&iacute;culo abriu um m&iacute;nimo espa&ccedil;o para a discuss&atilde;o.&nbsp; Agora, diante dos fatos que tornam a refus&atilde;o cada vez mais inadi&aacute;vel, tudo o que se l&ecirc; na imprensa s&atilde;o aleivosias sobre interesses escusos, caixas de campanha, financiamentos mal-explicados. Como em 1998, dez anos depois a sociedade segue sem entender direito o que se est&aacute;, de fato, debatendo nas telecomunica&ccedil;&otilde;es.&nbsp;&nbsp; <\/span> <\/p>\n<p>* <em>Marcos Dantas &eacute; professor do Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da PUC-Rio, foi secret&aacute;rio de Planejamento do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, secret&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o a Dist&acirc;ncia do MEC&nbsp; e membro do Conselho Consultivo da Anatel. &Eacute; filiado ao PT-RJ. <\/em> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou a vontade para escrever favoravelmente &agrave; fus&atilde;o Oi-BrT, pois sempre critiquei o fatiamento da Telebr&aacute;s, quando de sua privatiza&ccedil;&atilde;o, e sempre sustentei que, mais cedo ou mais tarde, uma refus&atilde;o iria se impor. 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