{"id":20317,"date":"2008-01-29T20:16:21","date_gmt":"2008-01-29T20:16:21","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20317"},"modified":"2008-01-29T20:16:21","modified_gmt":"2008-01-29T20:16:21","slug":"provavel-fusao-das-teles-passa-a-margem-do-debate-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20317","title":{"rendered":"Prov\u00e1vel fus\u00e3o das teles passa \u00e0 margem do debate p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p>Um investimento de bilh&otilde;es de reais envolvendo dinheiro p&uacute;blico, a ascens&atilde;o de novos bar&otilde;es do capitalismo brasileiro, promessas de um novo mundo nas telecomunica&ccedil;&otilde;es e um estranho consenso na pol&iacute;tica nacional. Assim vai se delineando a prov&aacute;vel fus&atilde;o entre a Brasil Telecom (BrT) e a Oi (antiga Telemar). Um neg&oacute;cio ainda nebuloso, descrito pelo governo Lula como de &ldquo;interesse nacional&rdquo;, mas que, pelo menos por enquanto, n&atilde;o apresenta garantias de que o cidad&atilde;o brasileiro venha a ter algum benef&iacute;cio com a opera&ccedil;&atilde;o. Por hora, o governo se apega &agrave; possibilidade de que a nova empresa, apelidada de Oi\/BrT, esteja disposta a bancar a universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga como forma de garantir um &ldquo;motivo nobre&rdquo; para a negocia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na pr&aacute;tica, o neg&oacute;cio pode se tornar uma inesgot&aacute;vel fonte de esc&acirc;ndalos. Desde o envolvimento do empres&aacute;rio Daniel Dantas, mergulhado em processos na Justi&ccedil;a (inclusive por gest&atilde;o fraudulenta da pr&oacute;pria BrT), passando pela media&ccedil;&atilde;o do controverso presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, at&eacute; a rela&ccedil;&atilde;o pessoal do presidente Lula com os maiores beneficiados do neg&oacute;cio e a realiza&ccedil;&atilde;o de uma manobra jur&iacute;dica que cheira a casu&iacute;smo, muita coisa segue no ar em fun&ccedil;&atilde;o do sil&ecirc;ncio do governo. Sil&ecirc;ncio que pode ser ind&iacute;cio da inten&ccedil;&atilde;o do governo de n&atilde;o poupar esfor&ccedil;os para que a fus&atilde;o aconte&ccedil;a.<\/p>\n<p>Na defesa da opera&ccedil;&atilde;o prevalece o lugar-comum do &ldquo;interesse nacional&rdquo;. Nesse caso, como em tantos outros, n&atilde;o parece haver a preocupa&ccedil;&atilde;o em apresentar argumentos consistentes e a sensa&ccedil;&atilde;o geral &eacute; de que a quest&atilde;o j&aacute; est&aacute; encaminhada, sem o recomend&aacute;vel debate p&uacute;blico. Resta saber se, mesmo sendo parte de um projeto pol&iacute;tico de desenvolvimento do pa&iacute;s, o tiro n&atilde;o sair&aacute; pela culatra e responder&aacute;, como em outras passagens hist&oacute;ricas, ao &ldquo;interesse nacional privado&rdquo;.<\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o poucas as exig&ecirc;ncias a serem transpostas para que os empres&aacute;rios Carlos Jereissati, do La Fonte, e S&eacute;rgio Andrade, da Andrade Gutierrez, venham a controlar um imenso monop&oacute;lio na telefonia fixa. Mas o processo j&aacute; est&aacute; em vias de se concretizar: em evento no Rio de Janeiro em 29\/1, o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, confirmou que as duas empresas pretendem se fundir e informou ainda que a mudan&ccedil;a no Plano Geral de Outorgas &ndash; que ser&aacute; feita atrav&eacute;s de um decreto presidencial e que permitir&aacute; a uni&atilde;o entre as empresas &ndash; dever&aacute; ser conclu&iacute;da dentro de 15 a 30 dias.<\/p>\n<p>O Plano Geral de Outorgas disp&otilde;e de um artigo que limita os termos de uma poss&iacute;vel fus&atilde;o de operadoras de telefonia fixa nascidas da privatiza&ccedil;&atilde;o do sistema Telebr&aacute;s, em 1998. Caso isso acontecesse, a empresa compradora teria que abrir m&atilde;o de sua concess&atilde;o original.<\/p>\n<p>A Oi, que det&eacute;m a concess&atilde;o para a explora&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o em toda a regi&atilde;o Nordeste, parte da regi&atilde;o Norte e ainda os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Esp&iacute;rito Santo, teria, portanto, que deixar de operar nestas &aacute;reas e assumir a concess&atilde;o da BrT, que abrange os estados do Sul e do Centro-Oeste, al&eacute;m de Acre, Rond&ocirc;nia e Tocantins. Como, evidentemente, a Oi n&atilde;o pretende abrir m&atilde;o de sua &aacute;rea, vem operando a negocia&ccedil;&atilde;o &agrave; revelia da legisla&ccedil;&atilde;o atual, mas com garantias expressas do governo de que esta ser&aacute; revista.<\/p>\n<p>H&aacute; d&uacute;vidas se esse &oacute;bvio casu&iacute;smo pode ser ben&eacute;fico para o pa&iacute;s. Algumas perguntas tornam-se por demais pertinentes. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), emitiu nota em que condena a poss&iacute;vel fus&atilde;o sob o argumento de que ela reduz a concorr&ecirc;ncia e aumenta o poder de influ&ecirc;ncia da nova empresa sobre a Anatel na regula&ccedil;&atilde;o das tarifas. <\/p>\n<p>De fato, a Oi\/BrT estaria assumindo um mercado que abrange todo o territ&oacute;rio nacional, com exce&ccedil;&atilde;o do estado de S&atilde;o Paulo. E, afinal, como os &ldquo;humores&rdquo; do mercado s&atilde;o imprevis&iacute;veis, quem pode garantir que a altera&ccedil;&atilde;o na PGO n&atilde;o facilite outras fus&otilde;es e&nbsp; que no futuro tenhamos uma &uacute;nica operadora de telefonia fixa no Brasil?<\/p>\n<p><strong>Fus&atilde;o necess&aacute;ria?<\/p>\n<p><\/strong>Editado o decreto presidencial, a fus&atilde;o ainda precisar&aacute; ser analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econ&ocirc;mica (Cade), que, espera-se, dever&aacute; questionar o neg&oacute;cio. <\/p>\n<p>Como lembrou Rubens Glasberg, editor do site Teletime News, &eacute; preciso perguntar: de que forma as empresas justificar&atilde;o a fus&atilde;o? Se assumirem que n&atilde;o h&aacute; problemas, por n&atilde;o competirem entre si, negar&atilde;o automaticamente qualquer possibilidade de competi&ccedil;&atilde;o no setor de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Outra possibilidade &eacute; admitir que n&atilde;o o fizeram at&eacute; hoje porque mant&ecirc;m um acordo. Ou seja, v&ecirc;m agindo como um cartel.<\/p>\n<p>Em termos de receita, as duas empresas juntas somam R$ 21 bilh&otilde;es. Oi e BrT afirmam, contudo, que n&atilde;o sobreviveriam isoladas a uma competi&ccedil;&atilde;o com Telef&oacute;nica e Embratel, gigantes de n&iacute;vel internacional. Para Glasberg, o argumento &eacute; falacioso porque as empresas nacionais &ldquo;apresentam balan&ccedil;os muito melhores do que o da Embratel de Carlos Slim, e est&atilde;o estrategicamente posicionadas na converg&ecirc;ncia fixo-m&oacute;vel de uma maneira muito superior &agrave; da Telef&oacute;nica&rdquo;.<\/p>\n<p>J&aacute; Marcos Dantas, professor do Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da PUC-RJ e ex-membro do Conselho Consultivo da Anatel, discorda da an&aacute;lise. Para ele, a concorr&ecirc;ncia no setor de telecomunica&ccedil;&otilde;es &eacute; global, o que d&aacute; vantagem &agrave;s empresas de capital estrangeiro. &ldquo;A Telef&oacute;nica n&atilde;o &eacute; uma empresa paulista, mas mundial, podendo contar, caso venha a precisar, com recursos que a sua matriz espanhola lhe aporta a partir dos lucros que retira do Chile, da Argentina, do Peru, de muitos outros lugares.&rdquo;<\/p>\n<p>O argumento do governo, ainda que este n&atilde;o tenha vindo a p&uacute;blico, &eacute; a necessidade de o pa&iacute;s contar com uma empresa de capital nacional que dispute o mercado internacional de telecomunica&ccedil;&otilde;es. A Oi e a BrT, no entanto, nunca demonstraram interesse em competir no mercado internacional, e nem sequer competir, por exemplo, com a Telef&oacute;nica em S&atilde;o Paulo. Justamente por isso, Marcos Dantas indica que esta &eacute; uma quest&atilde;o que depende da pol&iacute;tica governamental. &ldquo;O mercado internacional, em especial o latino-americano, est&aacute; hoje ocupado, e os custos de entrada talvez sejam maiores do que eram h&aacute; 10 anos. Ser&aacute; necess&aacute;rio um projeto de governo.&rdquo;<\/p>\n<p><strong>Dinheiro p&uacute;blico<\/p>\n<p><\/strong>Sobram motivos para questionar a negocia&ccedil;&atilde;o. Como tem sido noticiado, a Oi deve desembolsar R$ 8,3 bilh&otilde;es para a compra da BrT. Mas para que a nova empresa se mantenha nas m&atilde;os de controladores nacionais, os acionistas S&eacute;rgio Andrade e Carlos Jereissati devem obter o financiamento do BNDES. &ldquo;Quem j&aacute; buscou dinheiro no BNDES sabe que, em teoria, o banco estatal n&atilde;o empresta dinheiro para a aquisi&ccedil;&atilde;o de empresas, mas para novos projetos de desenvolvimento e expans&atilde;o muito bem explicitados em r&iacute;gidos planejamentos financeiros&rdquo;, questiona Glasberg. Al&eacute;m disso, segundo a revista Carta Capital, os fundos de pens&atilde;o Previ, Petros e Funcef t&ecirc;m sido pressionados pelo governo a participar da transa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O BNDES &eacute; hoje comandado pelo economista Luciano Coutinho, entusiasta da forma&ccedil;&atilde;o de grandes corpora&ccedil;&otilde;es e um dos art&iacute;fices da fus&atilde;o que gerou a cervejaria Ambev, celebrada &agrave; &eacute;poca pelos benef&iacute;cios ao &ldquo;interesse nacional&rdquo; que traria o surgimento de uma multinacional brasileira. A Ambev &eacute; hoje controlada pelo grupo belga Interbrew e det&eacute;m mais da metade do mercado brasileiro de cervejas, n&atilde;o proporcionando em todos estes anos nenhum benef&iacute;cio ao consumidor.<\/p>\n<p>Foi cogitada a possibilidade de que o BNDES inclu&iacute;sse uma cl&aacute;usula no contrato de empr&eacute;stimo que lhe daria prefer&ecirc;ncia de compra caso algum acionista decidisse deixar a futura Oi\/BrT. A quest&atilde;o &eacute; que mesmo isso n&atilde;o garante que a empresa n&atilde;o possa ser adquirida por um grupo estrangeiro, pois o banco, por decis&atilde;o deste governo ou de qualquer outro, pode simplesmente abdicar deste &ldquo;direito&rdquo;. Marcos Dantas admite a possibilidade e coloca a responsabilidade no governo. &ldquo;Penso que o governo deve ter instrumentos para evitar a desnacionaliza&ccedil;&atilde;o de uma futura empresa que resulte dessa fus&atilde;o, mas se o futuro presidente n&atilde;o for patriota, n&atilde;o adiantar&aacute; nada&rdquo;.<\/p>\n<p>A Casa Civil foi procurada pela reportagem, mas n&atilde;o quis se pronunciar. A manuten&ccedil;&atilde;o do sil&ecirc;ncio do governo nas &uacute;ltimas semanas constrange, inclusive, os que defendem, por motivos nobres, a fus&atilde;o das duas empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Atitudes como isentar Daniel Dantas de processos na Justi&ccedil;a &ndash; sua exig&ecirc;ncia para concretizar o neg&oacute;cio &ndash; parecem absurdas e inconseq&uuml;entes. Se uma Oi\/BrT pode ser ben&eacute;fica para o cidad&atilde;o, que se coloque fatos &agrave; vista, e a opini&atilde;o p&uacute;blica poder&aacute; tirar as suas pr&oacute;prias conclus&otilde;es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opera\u00e7\u00e3o para unir Oi e BrT deve envolver bilh\u00f5es em dinheiro p\u00fablico e propiciar a ascens\u00e3o de novos bar\u00f5es do capitalismo brasileiro sem a garantia de que os cidad\u00e3os venham a ter algum benef\u00edcio com a fus\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[631],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20317"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20317"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20317\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20317"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20317"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20317"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}