{"id":20268,"date":"2008-01-22T15:52:42","date_gmt":"2008-01-22T15:52:42","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20268"},"modified":"2008-01-22T15:52:42","modified_gmt":"2008-01-22T15:52:42","slug":"o-preconceito-contra-lula-no-jornalismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20268","title":{"rendered":"O preconceito contra Lula no jornalismo brasileiro"},"content":{"rendered":"<div id=\"artigo\">\n<p>Um dia encontrei Lula, ainda no Instituto Cidadania, empolgado por um livro de C&acirc;mara Cascudo sobre os h&aacute;bitos alimentares dos nordestinos. Lula saboreava cada prato mencionado, cada fruta, cada ingrediente. Lembrei-me desse epis&oacute;dio ao ler a coluna recente do Jo&atilde;o Ubaldo Ribeiro, &quot;De caju em caju&quot;, em que ele goza o presidente por falar do caju, &quot;sem conhecer bem o caju.&quot; Dias antes, Lula havia feito um elogio apaixonado ao caju, no lan&ccedil;amento do Projeto Caju, que procura valorizar o uso da fruta na dieta do brasileiro.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; uma pena que o presidente Lula n&atilde;o seja nordestino, portanto n&atilde;o conhe&ccedil;a bem a farta presen&ccedil;a sociocultural do caju naquela remota regi&atilde;o do pa&iacute;s&#8230;&quot;, escreveu Jo&atilde;o Ubaldo. Alegou que Lula n&atilde;o era nordestino porque tinha vindo ainda pequeno para S&atilde;o Paulo. E em seguida esparramou-se em cita&ccedil;&otilde;es sobre o caju, para mostrar sua pr&oacute;pria erudi&ccedil;&atilde;o. Estou falando de Jo&atilde;o Ubaldo porque, al&eacute;m de escritor not&aacute;vel, ele j&aacute; foi um grande jornalista.<\/p>\n<p>Outro jornalista ilustre, o querido Mino Carta, escreveu que Lula &quot;confunde &quot; parlamentarismo com presidencialismo. .&quot;Seria bom&quot;, disse Mino, &quot;que algu&eacute;m se dispusesse a explicar ao nosso presidente que no parlamentarismo o partido vencedor das elei&ccedil;&otilde;es assume a chefia do governo por meio de seu l&iacute;der&#8230;&quot; Essa do Mino me fez lembrar outra ocasi&atilde;o, no Instituto Cidadania, em que Lula defendeu o parlamentarismo. Parlamentarista convicto, Lula diz que partidos s&atilde;o os instrumentos principais de a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica numa democracia.<\/p>\n<p>Pelo mesmo motivo Lula &eacute; a favor da lista partid&aacute;ria &uacute;nica e da tese de que o mandato pertence ao partido. Em outubro de 2001, o Instituto Cidadania iniciou uma s&eacute;rie de semin&aacute;rios para o Projeto Reforma Pol&iacute;tica, que Lula fazia quest&atilde;o de assistir do come&ccedil;o ao fim.Desses semin&aacute;rios resultou o livro de 18 ensaios, Reforma Pol&iacute;tica e Cidadania, organizado por Maria Vict&oacute;ria Benevides e F&aacute;bio Kerche e prefaciados por Lula. <\/p>\n<p>Se pessoas com a forma&ccedil;&atilde;o de um Mino Carta ou Jo&atilde;o Ubaldo sucumbiram &agrave; linguagem do preconceito, temos mais &eacute; que perdoar as dezenas de jornalistas de menos prest&iacute;gio que tamb&eacute;m dizem o tempo todo que &quot;Lula n&atilde;o sabe nada disso, nada daquilo&quot;. Acabou virando o que em teoria do jornalismo chamamos de &quot;clich&ecirc;&quot;. &Eacute; muito mais f&aacute;cil escrever usando um clich&ecirc; porque ele sintetiza id&eacute;ias com a quais o leitor j&aacute; est&aacute; familiarizado, de tanto que foi repetido.<\/p>\n<p>O clich&ecirc; estabelece de imediato uma identidade entre o que o jornalista quer dizer e o que o leitor quer compreender. Por isso, o clich&ecirc; do preconceito &quot;Lula n&atilde;o entende&quot; realimenta o pr&oacute;prio preconceito. Alguns jornalistas sabem que Lula n&atilde;o &eacute; nem um pouco ignorante mas propagam essa tese por malandragem pol&iacute;tica. Nesse caso, pode-se dizer que &eacute; uma postura contr&aacute;ria &agrave; &eacute;tica jornal&iacute;stica, mas n&atilde;o que seja preconceituosa. Aproveitam qualquer exclama&ccedil;&atilde;o ou uso de linguagem figurada de Lula, para dizer que ele &eacute; ignorante.<\/p>\n<p>&quot;Por que Lula n&atilde;o se informa antes de falar?&quot;, escreveu Ricardo Noblat, quando Lula disse que o caso da menina presa junto com homens no Par&aacute; &quot;parecia coisa de fic&ccedil;&atilde;o&quot; . Quando Lula disse, at&eacute; com originalidade, que ainda faltava &agrave; pol&iacute;tica externa brasileira achar &quot;o ponto G&quot;, William Waack escreveu : &quot;Ficou claro que o presidente brasileiro n&atilde;o sabe o que &eacute; o ponto G&quot;. <\/p>\n<p>Outra express&atilde;o preconceituosa que pegou &eacute; &quot;Lula confunde&quot;. A tal ponto que jornalistas passam a usar essa express&atilde;o para fazer seus pr&oacute;prios jogos de palavras. &quot;Lula confunde agita&ccedil;&atilde;o com trabalho&quot;, escreveu L&uacute;cia Hip&oacute;lito. Ou usam o confunde para desqualificar uma posi&ccedil;&atilde;o program&aacute;tica do presidente com a qual n&atilde;o concordam. &quot;O presidente confunde choque de gest&atilde;o com aumento de contrata&ccedil;&otilde;es&quot;, diz Jos&eacute; Pastore. Confunde coisa alguma. Os neoliberais querem reduzir o tamanho do Estado, o presidente quer aumentar. Quer contratar mais m&eacute;dicos, professores, biol&oacute;gos para o Ibama. &Eacute; uma diverg&ecirc;ncia program&aacute;tica.<\/p>\n<p>Carlos Alberto Sardenberg diz que Lula confundiu a Vale com uma estatal. &quot;Trata-a como se fosse a Petrobr&aacute;s, empresa que segundo o presidente n&atilde;o pode pensar s&oacute; em lucro, mas em, digamos, ajudar o Brasil&quot;. Esse caso &eacute; curioso porque no par&aacute;grafo seguinte o pr&oacute;prio Sardenberg pode ser acusado de confundir as coisas, ao reclamar da Petrobr&aacute;s contratar a constru&ccedil;&atilde;o de petroleiros no pa&iacute;s, apesar de custar mais. N&atilde;o tem confus&atilde;o nenhuma, assim como Lula tamb&eacute;m n&atilde;o fez confus&atilde;o. Lula acha que tanto a Vale quanto a Petrobr&aacute;s tem que atender interesses nacionais. Sardenberg acha que ambas devem pensar primeiro na remunera&ccedil;&atilde;o dos acionistas.<\/p>\n<p>A linguagem do preconceito contra Lula sofisticou-se a tal ponto que adquiriu novas dimens&otilde;es entre elas a de que Lula tem at&eacute; problemas de aprendizagem ou compreens&atilde;o da realidade. Ora, justamente por ter tido pouca educa&ccedil;&atilde;o formal, Lula s&oacute; chegou onde chegou por captar rapidamente novos conhecimentos, al&eacute;m de ter mem&oacute;ria de elefante e intui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas na linguagem do preconceito, &quot;Lula j&aacute; n&atilde;o consegue mais encadear frases com alguma conseq&uuml;&ecirc;ncia l&oacute;gica&quot;, como escreveu o Paulo Ghiraldelli , apresentado como fil&oacute;sofo na p&aacute;gina de coment&aacute;rios importantes do Estad&atilde;o. Ou, como escreveu Rolf Kunz, jornalista especializado em economia e tamb&eacute;m professor de filosofia: &quot;Lula n&atilde;o se conforma com o fato de, mesmo sendo presidente, n&atilde;o entender o que ocorre &agrave; sua volta&quot;.<\/p>\n<p>Como nasceu a linguagem do preconceito? As investidas v&ecirc;m de longe. Mas o predom&iacute;nio dessa linguagem na cr&ocirc;nica pol&iacute;tica s&oacute; se deu depois de Lula ser eleito presidente, e a partir de falas de pol&iacute;ticos do PSDB e dos que hoje se autodenominam Democratas. &quot;O presidente Lula n&atilde;o sabe o que &eacute; pacto federativo&quot;, disse Serra, no ano passado. E continuam a falar: &quot;O presidente Lula n&atilde;o sabe distinguir a ordem das prioridades&quot;, escreveu Gilberto de Mello. &quot;O presidente Lula em cinco anos n&atilde;o aprendeu li&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas de gest&atilde;o&quot;, escreveu Everardo Maciel na Gazeta Mercantil.<\/p>\n<p>A tese de que Lula confunde presidencialismo com parlamentarismo foi enunciada primeiro por Rodrigo Maia, logo depois por C&eacute;sar Maia, e s&oacute; ent&atilde;o repetido pos jornalistas. Um deles, dias depois dessas falas, escreveu que &quot;s&oacute; mesmo Lula, que n&atilde;o sabe a diferen&ccedil;a entre presidencialismo e parlamentarismo, pode achar que um governante ter a aprova&ccedil;&atilde;o da maioria &eacute; o mesmo que ser uma democracia no seu sentido exato&quot;.<\/p>\n<p>O preconceito &eacute; ju&iacute;zo de valor que se faz sem conhecer os fatos. Em geral &eacute; fruto de uma generaliza&ccedil;&atilde;o ou de um senso comum rebaixado. O preconceito contra Lula tem pelo menos duas ra&iacute;zes: a vis&atilde;o de classe, de que todo oper&aacute;rio &eacute; ignorante, e a supervaloriza&ccedil;&atilde;o do saber erudito, em detrimento de outras formas de saber, tais como o saber popular ou o que adv&eacute;m da experi&ecirc;ncia ou do exerc&iacute;cio da lideran&ccedil;a. Tamb&eacute;m n&atilde;o aceitam a possibilidades das pessoas transitarem por formas diferentes de saber. <\/p>\n<p>A isso tudo se soma o outro preconceito, o de que Lula n&atilde;o trabalha. Todo jornalista que cobre o Pal&aacute;cio do Planalto sabe que &eacute; mentira, que Lula trabalha 12 a 14 horas por dia. Mas ele &eacute; descrito com freq&uuml;&ecirc;ncia por jornalistas como uma pessoa indolente. <\/p>\n<p>N&atilde;o atino com o sentido dessa mentira, exceto se o objetivo &eacute; difamar uma lideran&ccedil;a oper&aacute;ria, o que &eacute;, convenhamos, uma explica&ccedil;&atilde;o pobre. Talvez as elites e com elas os jornalistas n&atilde;o consigam aceitar que o presidente, ao estudar um problema com seus ministros, esteja trabalhando, j&aacute; que ele &eacute; &quot;incapaz de entender&quot; o tal problema. Ou achem que, ao representar o Estado ou o pa&iacute;s, esteja apenas passeando, porque onde j&aacute; se viu um oper&aacute;rio, al&eacute;m do mais ignorante, representar um pa&iacute;s?<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia encontrei Lula, ainda no Instituto Cidadania, empolgado por um livro de C&acirc;mara Cascudo sobre os h&aacute;bitos alimentares dos nordestinos. Lula saboreava cada prato mencionado, cada fruta, cada ingrediente. 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