{"id":20264,"date":"2008-01-22T14:59:18","date_gmt":"2008-01-22T14:59:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20264"},"modified":"2008-01-22T14:59:18","modified_gmt":"2008-01-22T14:59:18","slug":"telenovela-e-politica-duas-caras-para-um-so-discurso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20264","title":{"rendered":"Telenovela e Pol\u00edtica: Duas Caras para um s\u00f3 discurso"},"content":{"rendered":"<p><span>O ex-presidente da Radiobr&aacute;s Eugenio Bucci, arguto pensador da m&iacute;dia, j&aacute; observou que a telenovela revela mais do Brasil do que o telejornalismo. Enquanto este enfrenta uma enorme multiplicidade de fatos, est&aacute; sujeito a toda sorte de press&otilde;es e utiliza t&eacute;cnicas de abordagem que privilegiam a frieza de an&aacute;lise, o distanciamento cr&iacute;tico e a isen&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel, aquela opera no registro oposto. Seleciona aspectos da vida social e trata deles de forma apaixonada, visceral, pelas a&ccedil;&otilde;es e conflitos de um grupo de personagens. &Eacute; dessa forma que o Brasil real emerge, com mais clareza, do microcosmo pulsante dos folhetins do que do caos entorpecente do notici&aacute;rio.<\/p>\n<p><\/span><span>Bucci refere-se &agrave; telenovela em geral, ou &agrave;quela que busca realismo em suas tramas, mas visa particularmente a novela das 9 da Rede Globo, ainda hoje, como h&aacute; quase 40 anos, o principal produto da televis&atilde;o brasileira pelo volume de audi&ecirc;ncia, faturamento comercial e import&acirc;ncia na estrutura da programa&ccedil;&atilde;o. Se a sua tese &eacute; correta, como parece, &eacute; muito preocupante o retrato do Brasil que nos oferece o t&iacute;tulo atual em exibi&ccedil;&atilde;o no hor&aacute;rio, Duas Caras. Delineia-se ali um perfil de regress&atilde;o geral no debate democr&aacute;tico e de fortalecimento do &quot;pensamento &uacute;nico&quot;, ou do pensamento conservador que a m&aacute;quina coordenada da m&iacute;dia quer fazer passar por verdade universal.<\/p>\n<p><\/span><span>O esfacelamento da diversidade no jornalismo &eacute; fato not&oacute;rio, desde que os grandes ve&iacute;culos deixaram de ter em seus quadros gente das mais variadas tend&ecirc;ncias ideol&oacute;gicas, preferindo dar espa&ccedil;o a uma infinidade de vozes que, com rar&iacute;ssimas exce&ccedil;&otilde;es, apenas ecoam o pensamento liberal e fazem proselitismo de seu ide&aacute;rio, em absoluta sintonia com a perspectiva patronal. Agora percebe-se que os colunistas de pol&iacute;tica e economia, os editorialistas, os articulistas amigos e demais zeladores do pensamento &uacute;nico ganharam a companhia dos autores de telenovelas. Ou, ao menos de um peso-pesado entre eles, o consagrado Aguinaldo Silva, regente da orquestra de redatores de Duas Caras.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Acusa&ccedil;&atilde;o oportunista<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Antigo militante do progressismo, editor do primeiro jornal voltado &agrave; defesa dos homossexuais no Brasil (Lampi&atilde;o da Esquina, anos 1970), Aguinaldo Silva &eacute; agora o patrono de uma verdadeira ode ao conservadorismo, entoada ao p&uacute;blico em cap&iacute;tulos di&aacute;rios. O tratamento que vem dando a alguns conflitos seri&iacute;ssimos do cotidiano carioca, foco de sua novela, est&aacute; carente de equil&iacute;brio e longe de permitir ao telespectador um julgamento isento do que lhe &eacute; oferecido. Algumas situa&ccedil;&otilde;es e personagens s&atilde;o constru&iacute;dos por uma &oacute;tica muito restrita, totalmente discut&iacute;vel, que n&atilde;o por acaso &eacute; a mesma com a qual s&atilde;o pautados os produtos jornal&iacute;sticos da grande imprensa, em geral.<\/p>\n<p><\/span><span>Nos &uacute;ltimos dias, uma parte importante da trama gira em torno de uma acusa&ccedil;&atilde;o de racismo ao reitor Francisco Macieira (Jos&eacute; Wilker), rec&eacute;m-entronizado no comando de uma institui&ccedil;&atilde;o particular de ensino, a Universidade Pessoa de Moraes. Figura de proa na esquerda revolucion&aacute;ria, exilou-se em Paris durante a ditadura militar e l&aacute; permaneceu depois da redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, trabalhando como professor, at&eacute; encontrar a propriet&aacute;ria da universidade, iniciar um romance com ela e receber o convite para voltar ao Brasil.<\/p>\n<p><\/span><span>Macieira chega &agrave; UPM como um demiurgo da modernidade, um reformador avan&ccedil;ado. Rapidamente entra em conflito com os professores da casa, retratados como um bando de pregui&ccedil;osos corporativistas, que s&oacute; querem manter privil&eacute;gios, trabalhar pouco e ganhar muito. Da mesma forma, conflita com parte dos estudantes, apresentados como marionetes dos professores espertalh&otilde;es, agitadores inconseq&uuml;entes, que s&oacute; querem atrapalhar a vida da universidade. Um desses estudantes &ndash; um rapaz negro com o ariano nome de Rudolf Stenzel (Diogo Almeida), sugerindo ser um &oacute;rf&atilde;o criado por fam&iacute;lia estrangeira, portanto um privilegiado que n&atilde;o deveria se queixar da boa sorte que teve na vida &ndash; tenta colocar os colegas contra o reitor &quot;porque ele foi imposto&quot;, n&atilde;o foi eleito em consulta democr&aacute;tica.<\/p>\n<p><\/span><span>Rudolf inscreve-se num curso de ver&atilde;o de Macieira, mas falta sistematicamente &agrave;s aulas. No dia em que resolve aparecer na classe, o reitor ironiza a sua presen&ccedil;a, perguntando se ele &eacute; algum zumbi, um ser err&aacute;tico que surge das sombras. Oportunista inescrupuloso, o rapaz distorce a acep&ccedil;&atilde;o em que termo zumbi foi usado, enxerga nele um sentido pejorativo e acusa o reitor formalmente de racismo, dando queixa &agrave; pol&iacute;cia. O caso explode na m&iacute;dia e Macieira est&aacute; &agrave;s voltas com uma grande dor de cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Destrambelhados de terceiro grau<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O problema dessa hist&oacute;ria est&aacute; na diferen&ccedil;a de tratamento. Enquanto Macieira tem todas as condi&ccedil;&otilde;es para afirmar o seu discurso, justificar suas a&ccedil;&otilde;es, delinear-se como um personagem coerente, Rudolf &eacute; pouco mais que um figurante. Personagem unidimensional &ndash; como, de resto, s&atilde;o os seus professores &ndash;, n&atilde;o se sabe ou se ouve dele nada al&eacute;m da sua obstina&ccedil;&atilde;o em protestar, criar caso, arrumar problemas sem raz&atilde;o objetiva. No epis&oacute;dio em quest&atilde;o, a sua m&aacute;-f&eacute; &eacute; clara e, obviamente, suscita toda simpatia do telespectador ao seu oponente. Mas Rudolf n&atilde;o &eacute; apenas o &quot;aluno-problema&quot;, como o site da novela no portal Globo.com o define. Ele representa um estere&oacute;tipo abertamente negativo do estudante engajado, que &eacute; desqualificado como inconseq&uuml;ente, intransigente e desonesto.<\/p>\n<p><\/span><span>Esse estere&oacute;tipo come&ccedil;ou a ser constru&iacute;do h&aacute; algumas semanas, quando Aguinaldo Silva concebeu uma invas&atilde;o estudantil &agrave; UPM, em protesto contra as mensalidades cobradas aos alunos. Inspirando-se nas ocupa&ccedil;&otilde;es do ano passado na USP, Unicamp e PUC-SP, o autor e sua equipe reproduziram o mesmo discurso da grande imprensa naqueles epis&oacute;dios: o de que os estudantes mobilizados s&atilde;o radicais, n&atilde;o t&ecirc;m uma postura construtiva e s&atilde;o baderneiros, depredadores do patrim&ocirc;nio alheio.<\/p>\n<p><\/span><span>Ainda que os casos de vandalismo tenham sido marginais nos movimentos universit&aacute;rios citados, foram apresentados com grande estardalha&ccedil;o, como se sintetizassem a postura estudantil. Duas Caras embarcou nesse clima e providenciou o seu pr&oacute;prio grupo de destrambelhados de terceiro grau. Fez o estrago que desejava. Outro dia, um dirigente estudantil comentou na Unicamp que, &quot;depois da novela, ficou imposs&iacute;vel convencer a minha m&atilde;e que a pol&iacute;tica estudantil n&atilde;o &eacute; aquela baderna apresentada&quot;. Agora, tempos depois da invas&atilde;o, os estudantes politizados da novela n&atilde;o s&atilde;o mais apenas baderneiros. S&atilde;o tamb&eacute;m mentirosos, ardilosos, desonestos. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Leg&iacute;tima defesa<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Se Duas Caras ataca a organiza&ccedil;&atilde;o estudantil e apresenta como modelo de comportamento a obedi&ecirc;ncia bovina, acr&iacute;tica e despolitizada dos &quot;bons alunos&quot; da Universidade Pessoa de Moraes, o tratamento que d&aacute; &agrave; favela da Portelinha n&atilde;o &eacute; muito melhor. Todos sabem que, em qualquer grande favela brasileira, do Rio de Janeiro ou alhures, o crime (em geral, o tr&aacute;fico de drogas) tem um grande poder pol&iacute;tico, derivado de sua for&ccedil;a militar e do intenso assistencialismo que promove. Tanto os &quot;chefes de morro&quot; quanto seus subordinados s&atilde;o, inequivocamente, bandidos e dessa forma s&atilde;o percebidos por toda a comunidade, ainda que as eventuais bondades que distribuam sejam apreciadas e usufru&iacute;das. Com absoluta certeza, qualquer morador de favela preferia se ver livre deles, se tivesse a m&iacute;nima chance de obter isso.<\/p>\n<p><\/span><span>Na favela da Portelinha, entretanto, a ambig&uuml;idade &eacute; total. O chef&atilde;o Juvenal Antena (Antonio Fagundes) n&atilde;o &eacute; traficante nem bandido, assim como todos os seus fi&eacute;is soldados. &Eacute; apenas dirigente da associa&ccedil;&atilde;o de moradores local, que toca com m&atilde;o-de-ferro e democracia zero, que n&atilde;o impedem o povo de consider&aacute;-lo um her&oacute;i. Imposs&iacute;vel saber como Juvenal conseguiu o milagre de, durante muitos anos, manter o crime longe de sua comunidade, sem apoio do Estado ou das mil&iacute;cias paramilitares que vendem seguran&ccedil;a, e tamb&eacute;m sem usar qualquer tipo de arma.<\/p>\n<p><\/span><span>Apenas recentemente, quando um grupo de traficantes tentou invadir a Portelinha, os moradores souberam que Juvenal estocava um verdadeiro arsenal de guerra, incluindo bazuca, de proced&ecirc;ncia ignorada. Foi o que lhes permitiu recha&ccedil;ar os invasores, num combate apresentado como muito honroso, travado em leg&iacute;tima defesa, como se os dois lados em conflito n&atilde;o estivessem na ilegalidade do porte e uso de armas privativas das For&ccedil;as Armadas. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>De bra&ccedil;ada<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Na moral amb&iacute;gua de Duas Caras, em suma, a turma do bem pode transgredir a lei sem problemas, se for para combater a turma do mal. Estudantes que dissentem da orienta&ccedil;&atilde;o da universidade s&atilde;o radicais perniciosos, portanto formam na turma do mal. Professores idem, eles que s&atilde;o vagabundos e manipuladores. E um fascist&oacute;ide expl&iacute;cito como Juvenal Antena, ainda que contestado em suas pr&aacute;ticas antidemocr&aacute;ticas pelo pupilo Evil&aacute;sio Ca&oacute; (L&aacute;zaro Ramos), segue firme e forte na turma do bem, com direito a namorar a maior beldade da trama, a disputada Alzira (Fl&aacute;via Alessandra). <\/p>\n<p><\/span><span>OK, tudo isso &eacute; novela e n&atilde;o se pode lev&aacute;-la t&atilde;o a s&eacute;rio, dir&atilde;o os que discordam da tese de Eug&ecirc;nio Bucci. H&aacute; que se conceder descontos ao autor, para que a trama possa funcionar como folhetim e a telenovela cumpra o seu papel de impelir a ind&uacute;stria televisiva. Mas &eacute; a pr&oacute;pria TV Globo que se ufana do compromisso de suas novelas com a realidade brasileira, sempre exaltado em seu discurso institucional e em sua publicidade. Se &eacute; assim, suas novelas podem e devem ser levadas a s&eacute;rio, e criticadas com rigor no discurso que enunciam.<\/p>\n<p><\/span><span>Anos atr&aacute;s, na mesma TV Globo, O Rei do Gado de Benedito Ruy Barbosa deu grande contribui&ccedil;&atilde;o para uma vis&atilde;o menos estereotipada dos trabalhadores sem-terra e suas a&ccedil;&otilde;es. Duas Caras, ao contr&aacute;rio, nada de bra&ccedil;ada no preconceito. Dificilmente ser&aacute; lembrada no futuro, pelo que fez ao avan&ccedil;o da democracia no Brasil.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ex-presidente da Radiobr&aacute;s Eugenio Bucci, arguto pensador da m&iacute;dia, j&aacute; observou que a telenovela revela mais do Brasil do que o telejornalismo. 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