{"id":20222,"date":"2008-01-17T00:00:00","date_gmt":"2008-01-17T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20222"},"modified":"2008-01-17T00:00:00","modified_gmt":"2008-01-17T00:00:00","slug":"fusao-oibrt-o-risco-da-fusao-a-qualquer-preco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20222","title":{"rendered":"Fus\u00e3o Oi\/BrT: o risco da fus\u00e3o a qualquer pre\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>H&aacute; pouco menos de um ano, discut&iacute;amos a possibilidade de fus&atilde;o da Brasil Telecom com a Telemar (hoje Oi). No primeiro trimestre de 2004, discut&iacute;amos se a Calais, um cons&oacute;rcio formado pela Telemar, Brasil Telecom e Telef&ocirc;nica, poderia adquirir a Embratel. Agora discutimos se a Oi poder&aacute; comprar a Brasil Telecom. Em comum, estes tr&ecirc;s momentos compartilham o fato de atropelarem o marco regulat&oacute;rio, de serem divulgados para a imprensa como fatos consumados, de terem personagens em comum e o fato de virem a p&uacute;blico sem as devidas justificativas para o consumidor, para os minorit&aacute;rios e para o governo. No caso espec&iacute;fico da compra da Brasil Telecom pela Oi, agora em debate, para mudar as regras do jogo o governo precisa ainda baixar uma diretriz pol&iacute;tica, ou seja, redefinir a pol&iacute;tica de telecomunica&ccedil;&otilde;es a ser seguida e em que base se dar&aacute; a mudan&ccedil;a no Plano Geral de Outorgas (PGO), com a edi&ccedil;&atilde;o de um novo decreto. Mas nada disso ainda existe.<\/p>\n<p><strong>Amea&ccedil;a<\/p>\n<p><\/strong>Oi e Brasil Telecom dizem que n&atilde;o sobreviver&atilde;o &agrave; competi&ccedil;&atilde;o com a Telef&ocirc;nica ou com a Embratel, dois gigantes que atuam em n&iacute;vel internacional e que somadas faturam US$ 100 bilh&otilde;es. A realidade n&atilde;o aponta nesse sentido. At&eacute; onde se sabe, nem Oi nem BrT t&ecirc;m neg&oacute;cios significativos fora do Brasil, nem mostram grande interesse em expandir sua atua&ccedil;&atilde;o para o M&eacute;xico, Espanha, Argentina, Honduras ou Guatemala, por exemplo, que s&atilde;o alguns dos pa&iacute;ses em que mexicanos e espanh&oacute;is atuam. E aqui dentro, a Brasil Telecom e a Oi ainda n&atilde;o fizeram nenhum grande esfor&ccedil;o para disputar o mercado do Estado de S&atilde;o Paulo, por exemplo. Ali&aacute;s, s&oacute; agora a Oi pretende entrar no territ&oacute;rio da Telef&ocirc;nica, mas por meio de uma opera&ccedil;&atilde;o de telefonia celular. Al&eacute;m disso, as empresas nacionais supostamente amea&ccedil;adas apresentam balan&ccedil;os muito melhores do que o da Embratel de Carlos Slim, e est&atilde;o estrategicamente posicionadas na converg&ecirc;ncia fixo-m&oacute;vel de uma maneira muito superior &agrave; da Telef&ocirc;nica. O problema, ent&atilde;o, seria a sobreviv&ecirc;ncia no futuro? Nesse quesito, a Embratel poderia alegar que precisa comprar alguma delas porque n&atilde;o tem uma rede de acesso local dominante e a Telef&ocirc;nica poderia dizer o mesmo porque n&atilde;o tem uma opera&ccedil;&atilde;o de telefonia m&oacute;vel s&oacute; sua. Ou seja, Oi e Brasil Telecom ainda precisam demonstrar qual &eacute; a grande amea&ccedil;a de permanecerem separadas e qual o ganho para a sociedade caso se unam.<\/p>\n<p><strong>Modelo<\/p>\n<p><\/strong>J&aacute; o governo, se &eacute; verdade que est&aacute; fomentando essa negocia&ccedil;&atilde;o, precisa dizer o que quer. Primeiro, precisa confirmar o que alguns jornais publicam sem creditar a fonte: que Lula e Dilma Rousseff avalizaram a opera&ccedil;&atilde;o. Feito isso, precisa dizer qual &eacute; a diretriz pol&iacute;tica a ser seguida. Por exemplo, dizer que &quot;o governo brasileiro proporcionar&aacute; meios para desenvolver empresa de capital nacional controlada por empres&aacute;rios brasileiros que busque disputar o mercado internacional de telecomunica&ccedil;&otilde;es&quot;. Essa frase, ou algo parecido, precisa aparecer em algum instrumento que possa ser usado pela Anatel para justificar as mudan&ccedil;as no PGO. Isso porque, hoje, o que se tem s&atilde;o dois instrumentos de orienta&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica de telecomunica&ccedil;&otilde;es: a Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Lei 9.472\/07) e o Decreto de Pol&iacute;ticas de Telecomunica&ccedil;&otilde;es baixado pelo presidente Lula em seu primeiro ano de governo (Decreto 4.733\/03). E em ambos fala-se de est&iacute;mulo &agrave; competi&ccedil;&atilde;o, de compartilhamento de infra-estrutura, mas n&atilde;o da fus&atilde;o de duas concession&aacute;rias para fazer frente a empresas multinacionais. Se n&atilde;o houver essa diretriz pol&iacute;tica de forma clara e embasada, qualquer mudan&ccedil;a no PGO ser&aacute; casu&iacute;smo da Anatel, do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e do presidente da Rep&uacute;blica. Casu&iacute;smo conden&aacute;vel e injustific&aacute;vel.<\/p>\n<p>E o Cade, como vai olhar essa quest&atilde;o? As empresas v&atilde;o justificar que a fus&atilde;o pode ser aprovada porque n&atilde;o existe competi&ccedil;&atilde;o entre elas e, portanto, n&atilde;o haver&aacute; concentra&ccedil;&atilde;o? Nesse caso, ou as duas empresas admitem que a competi&ccedil;&atilde;o no mercado de telecomunica&ccedil;&otilde;es &eacute; imposs&iacute;vel (ent&atilde;o, por que o medo da Embratel ou da Telef&ocirc;nica?) ou ter&atilde;o que dizer que h&aacute; um acordo pelo qual uma n&atilde;o entra no territ&oacute;rio da outra, ou seja, v&atilde;o admitir a exist&ecirc;ncia de um cartel.<\/p>\n<p>Mas os problemas da fus&atilde;o n&atilde;o param por a&iacute;. Al&eacute;m de saber exatamente quais os benef&iacute;cios que justificam uma mudan&ccedil;a t&atilde;o radical no modelo, o governo precisa ter claro quais os meios que est&atilde;o sendo usados para se chegar a ela. O financiamento do BNDES aos s&oacute;cios privados da Oi para que isso aconte&ccedil;a &eacute; um absurdo em si. Quem j&aacute; buscou dinheiro no BNDES sabe que, em teoria, o banco estatal n&atilde;o empresta dinheiro para a aquisi&ccedil;&atilde;o de empresas, mas para novos projetos de desenvolvimento e expans&atilde;o muito bem explicitados em r&iacute;gidos planejamentos financeiros. Por que a exce&ccedil;&atilde;o nesse caso? <\/p>\n<p><strong>Opportunity<\/p>\n<p><\/strong>Outro problema &eacute; o Opportunity. Como &eacute; que o governo pode pensar em permitir que BNDES e fundos de pens&atilde;o negociem alguma coisa que envolva a celebra&ccedil;&atilde;o de acordos judiciais com um grupo que foi flagrado pelos pr&oacute;prios fundos cometendo il&iacute;citos na gest&atilde;o de seus recursos nas empresas que administrava? E os mais de R$ 600 milh&otilde;es de preju&iacute;zos causados por Dantas &agrave; Brasil Telecom, objetos de duas representa&ccedil;&otilde;es na CVM e 14 a&ccedil;&otilde;es judiciais? E os mais de US$ 300 milh&otilde;es de preju&iacute;zos causados por Dantas ao Citi buscados na Justi&ccedil;a de Nova York? Tudo isso deixa de existir porque, para acertar uma fus&atilde;o cujo interesse p&uacute;blico ainda est&aacute; por ser demonstrado, seria preciso comprar as a&ccedil;&otilde;es do Opportunity?<\/p>\n<p>Se &eacute; verdade que os fundos est&atilde;o pressionados pelo Citi para encontrar uma sa&iacute;da para os investimentos realizados na &eacute;poca da privatiza&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m &eacute; verdade que o Citi entrou no mercado brasileiro (aliando-se a Dantas, diga-se de passagem) porque quis. A pressa e a conveni&ecirc;ncia do mundo dos neg&oacute;cios n&atilde;o est&atilde;o acima do interesse p&uacute;blico. Se Dantas lesou os acionistas controladores e minorit&aacute;rios das empresas que um dia administrou, e h&aacute; farta documenta&ccedil;&atilde;o disso, ele deve responder &agrave; Justi&ccedil;a at&eacute; o fim, e n&atilde;o at&eacute; que se celebre um &quot;acordo&quot;. Sob o risco de que no futuro a conveni&ecirc;ncia dos neg&oacute;cios coloque novamente Dantas &agrave; frente de uma empresa de telecomunica&ccedil;&otilde;es (da BrOi, por exemplo), j&aacute; que foi ele quem primeiro vislumbrou essa fant&aacute;stica id&eacute;ia de uma &quot;mega empresa nacional&quot;. Primeiro comprando em 1999, &agrave; revelia da legisla&ccedil;&atilde;o, um peda&ccedil;o da Telemar, mesmo sabendo que n&atilde;o poderia faz&ecirc;-lo, j&aacute; que era ao mesmo tempo controlador da Brasil Telecom. E depois em 2001, quando voltou com essa id&eacute;ia de uma mega-tele brasileira em entrevista ao Jornal Valor Econ&ocirc;mico. Como Dantas &eacute; mestre em acordos de gaveta, um deles pode, por exemplo, aparecer depois que a BrOi estiver formada, permitindo que ele saia agora pela porta da frente e volte depois pela porta dos fundos. Ou algu&eacute;m acredita que Dantas est&aacute; prioritariamente dedicado &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de gado no Par&aacute;, conforme manchete do Jornal Valor?<\/p>\n<p><strong>Alternativas<\/p>\n<p><\/strong>Por fim, vem a quest&atilde;o da falta de alternativas. O discurso pr&oacute;-fus&atilde;o diz que n&atilde;o existe outra op&ccedil;&atilde;o al&eacute;m de juntar as duas empresas. A tese de que as empresas poderiam ser pulverizadas &eacute; rapidamente detonada, sempre que vem &agrave; tona, com o argumento de que isso permitiria uma tomada hostil, por um grupo estrangeiro, por Daniel Dantas ou por quem quer que seja. N&atilde;o &eacute; verdade: a proposta da pulveriza&ccedil;&atilde;o precisa ser mais bem discutida porque ela &eacute; vi&aacute;vel. Para o Citi sair com ganho de capital da BrT e para os fundos terem liquidez em seus investimentos, seria mais transparente e honesto seguir o projeto original j&aacute; anunciado de pulverizar as a&ccedil;&otilde;es em bolsa, criando uma companhia no Novo Mercado, sem controladores. O mesmo vale para a Oi. O risco de take over (tomada hostil) na hip&oacute;tese de uma pulveriza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma fal&aacute;cia. Primeiro, porque n&atilde;o h&aacute; precedentes no Brasil. A tentativa recente da Sadia tomar a Perdig&atilde;o foi impedida pelos acionistas, incluindo os fundos, por exemplo. Al&eacute;m disso, h&aacute; os acordos de acionistas que podem ser criados. E as empresas do Novo Mercado t&ecirc;m no estatuto uma cl&aacute;usula chamada &ldquo;poison pill&rdquo; (p&iacute;lula de veneno) que impede take over. &Eacute; o seguinte: se algu&eacute;m quiser comprar em bolsa mais de 10%, 15% ou 20% (o &iacute;ndice &eacute; estabelecido como se queira) &eacute; preciso fazer uma oferta p&uacute;blica para todos os demais acionistas. E tem mais uma cl&aacute;usula: o pre&ccedil;o da oferta pode ser 100%, 120% ou quanto se queria estabelecer acima do valor de mercado.Empresas que seguem as pr&aacute;ticas do Novo Mercado, como Totvs e Datasul, t&ecirc;m estes mecanismos.<\/p>\n<p>Para mudar um modelo estabelecido, &eacute; preciso saber quem ganha e quem perde com isso. No caso da fus&atilde;o, &eacute; preciso saber que acertos precisariam ser feitos, que recursos teriam que ser empregados, que processos judiciais seriam esquecidos, que metas seriam estabelecidas. &Eacute; preciso dizer que garantias haver&aacute; de que a empresa cumprir&aacute; seu papel. E ter a certeza de que nenhum outro caminho era poss&iacute;vel. <\/p>\n<p>* Rubens Glasberg &eacute; presidente da Converge Comunica&ccedil;&otilde;es,&nbsp;empresa respons&aacute;vel pelas publica&ccedil;&otilde;es especialidas Tela Viva, Tele Time e Pay Tv. O presente texto foi publicado em forma de editorial no site da Tele Time &#8211; <a href=\"http:\/\/www.teletime.com.br\/\">www.teletime.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; pouco menos de um ano, discut&iacute;amos a possibilidade de fus&atilde;o da Brasil Telecom com a Telemar (hoje Oi). 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