{"id":20218,"date":"2008-01-16T14:47:12","date_gmt":"2008-01-16T14:47:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20218"},"modified":"2008-01-16T14:47:12","modified_gmt":"2008-01-16T14:47:12","slug":"concessoes-de-tv-receita-para-superar-a-pizza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20218","title":{"rendered":"Concess\u00f5es de TV: receita para superar a pizza"},"content":{"rendered":"<p>Alguns meses atr&aacute;s, em outubro de 2007, o governo deu um pequeno susto nas emissoras de televis&atilde;o. Venceu o prazo de concess&atilde;o de diversas outorgas de canais, incluindo os das grandes redes &ndash; Globo, Record, SBT e Bandeirantes &ndash;, e a Casa Civil da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica foi encarregada de coordenar o processo de renova&ccedil;&atilde;o. Pela tradi&ccedil;&atilde;o, esse processo seria conduzido pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e obedeceria a uma rotina meramente burocr&aacute;tica, sem causar qualquer problema &agrave;s empresas concession&aacute;rias, muito menos algum risco delas perderem alguma outorga. No entanto, certamente por conta das press&otilde;es da sociedade por uma nova forma de tratar esse assunto, a Casa Civil recebeu a atribui&ccedil;&atilde;o e decidiu endurecer com as emissoras, apresentando exig&ecirc;ncias in&eacute;ditas para considerar a renova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O que pediu a Casa Civil de t&atilde;o in&eacute;dito e de t&atilde;o assustador? Simplesmente que as emissoras demonstrassem, &agrave; luz do que &eacute; disposto na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal e na legisla&ccedil;&atilde;o ordin&aacute;ria, se cumpriram aquilo que se esperava delas, durante o per&iacute;odo de concess&atilde;o vencido. Sua programa&ccedil;&atilde;o atendeu, prioritariamente, a finalidades educativo-culturais? Incentivou-se a produ&ccedil;&atilde;o independente? Houve fomento &agrave; programa&ccedil;&atilde;o regional? Respeitaram-se os valores &eacute;ticos e sociais da pessoa e da fam&iacute;lia? Alguma emissora monopolizou o mercado ou algum grupo delas formou oligop&oacute;lio? As emissoras respeitaram o percentual m&aacute;ximo de publicidade (25% do tempo total da grade)? Respeitaram o percentual m&iacute;nimo de jornalismo (5%)? A Casa Civil pediu informa&ccedil;&otilde;es sobre tudo isso e mais: exigiu provas, documenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Previsivelmente, houve um grande espanto quando as exig&ecirc;ncias foram apresentadas. As emissoras de TV brasileiras n&atilde;o est&atilde;o acostumadas a dar satisfa&ccedil;&otilde;es ao governo sobre o que fazem, nem mesmo quando o assunto &eacute; a concess&atilde;o p&uacute;blica que receberam. Tanto assim que &eacute; usual as outorgas expirarem e as emissoras seguirem operando normalmente, &agrave;s vezes por anos, antes de regularizar a sua situa&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica. Na verdade, o prazo de concess&atilde;o sempre foi uma mera formalidade, porque jamais algum empres&aacute;rio do ramo ou gestor governamental considerou, por um segundo que fosse, a hip&oacute;tese de uma outorga n&atilde;o ser renovada. Uma vez ganha, outorga de radiodifus&atilde;o &eacute; patrim&ocirc;nio perp&eacute;tuo, no Brasil.<\/p>\n<p>De modo que, quando apareceu, de repente, um &oacute;rg&atilde;o de governo fazendo perguntas e pedindo documentos para renovar concess&otilde;es, obviamente isso causou desconforto e preocupa&ccedil;&atilde;o. Com apoio do &quot;seu&quot; minist&eacute;rio, o das Comunica&ccedil;&otilde;es, as emissoras alegaram que n&atilde;o tinham condi&ccedil;&otilde;es de reunir e apresentar a tempo uma documenta&ccedil;&atilde;o t&atilde;o vasta, cobrindo um per&iacute;odo de concess&atilde;o de 15 anos. E passaram a aplicar a conhecida t&aacute;tica protelat&oacute;ria, que adotam sempre que alguma determina&ccedil;&atilde;o legal surge para incomod&aacute;-las. <\/p>\n<p><strong>Regras&#8230; cumpridas!<\/p>\n<p><\/strong>A t&aacute;tica venceu, mais uma vez. Na semana passada, segundo informa o boletim Tela Viva News, o governo chegou a um acordo interno sobre a renova&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es. O Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es ponderou que n&atilde;o era poss&iacute;vel cobrar das emissoras o respeito &agrave;s exig&ecirc;ncias constitucionais, uma vez que elas n&atilde;o foram regulamentadas em lei, e a Casa Civil acatou o argumento. No acordo fechado, &quot;as emissoras se comprometem a declarar (mas n&atilde;o provar) que cumpriram os princ&iacute;pios da Constitui&ccedil;&atilde;o e comprovar&atilde;o que suas programa&ccedil;&otilde;es atendem aos percentuais exigidos pela regulamenta&ccedil;&atilde;o, por meio de suas grades di&aacute;rias atuais&quot;, diz o rep&oacute;rter Samuel Possebon, &quot;Com isso, o processo pode ir ao Congresso, onde, se houver questionamentos, mais informa&ccedil;&otilde;es podem ser exigidas pelos parlamentares&quot;.<\/p>\n<p>&Eacute; o famoso &quot;jeitinho&quot; em a&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s das leis relativas, as que &quot;pegam&quot; e as que &quot;n&atilde;o pegam&quot;, sem contar as que jamais pegar&atilde;o porque sequer ser&atilde;o regulamentadas. As emissoras ter&atilde;o apenas de declarar &ndash; e n&atilde;o comprovar &ndash; que cumpriram as obriga&ccedil;&otilde;es constitucionais, porque estas n&atilde;o est&atilde;o regulamentadas em lei ordin&aacute;ria. N&atilde;o est&atilde;o, todos sabemos, porque a radiodifus&atilde;o e os parlamentares a seu servi&ccedil;o impedem, obstinadamente, a aprova&ccedil;&atilde;o da Lei Jandira Feghali, que justamente regularia o artigo 221 da Constitui&ccedil;&atilde;o, instituindo os percentuais legais de produ&ccedil;&atilde;o independente e programa&ccedil;&atilde;o regional nas grades de TV. Mas isso, &eacute; claro, n&atilde;o vem ao caso. As emissoras tamb&eacute;m n&atilde;o ter&atilde;o o inc&ocirc;modo de provar que, ao longo de 15 anos, cumpriram o restante da legisla&ccedil;&atilde;o de radiodifus&atilde;o. Basta que a sua grade atual esteja ajustada ao que a lei determina.<\/p>\n<p>Se essas s&atilde;o as regras, as emissoras seguramente declarar&atilde;o que cumpriram, sim, os dispositivos constitucionais, mesmo n&atilde;o regulamentados, e que obedecem piamente &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o ordin&aacute;ria de radiodifus&atilde;o. N&atilde;o &eacute; razo&aacute;vel imaginar que dir&atilde;o outra coisa. Assim sendo, fiquem informados os cidad&atilde;os da Rep&uacute;blica Federativa do Brasil: as emissoras de TV, ao montarem a sua programa&ccedil;&atilde;o, d&atilde;o prefer&ecirc;ncia a finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas; promovem a cultura nacional e regional; estimulam a produ&ccedil;&atilde;o independente; regionalizam a produ&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica; respeitam os valores &eacute;ticos e sociais da pessoa e da fam&iacute;lia; n&atilde;o praticam monop&oacute;lio nem oligop&oacute;lio; etc. etc. etc. Elas declaram isso, o Poder Executivo endossa e o Legislativo que tenha outro entendimento, se quiser, para deliberar sobre a renova&ccedil;&atilde;o das outorgas.<\/p>\n<p><strong>For&ccedil;a e convic&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong>N&atilde;o &eacute; uma beleza ser concession&aacute;rio de um servi&ccedil;o p&uacute;blico nessas condi&ccedil;&otilde;es? O sujeito ganha a concess&atilde;o, faz com o ela o que quer por 15 anos, n&atilde;o presta contas e ganha f&aacute;cil a renova&ccedil;&atilde;o por outros 15 anos. Maravilha. Mas vamos conter a ironia que essa situa&ccedil;&atilde;o inevitavelmente inspira em quem n&atilde;o participa da festa. Vamos considerar que, a despeito da pizza sa&iacute;da do forno governamental, desta vez houve algum avan&ccedil;o, bem ou mal. A Casa Civil ao menos lembrou ao pa&iacute;s que os concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o t&ecirc;m satisfa&ccedil;&otilde;es a dar, sobre as outorgas que recebem. E eles n&atilde;o tiveram como dizer que tamb&eacute;m isso &eacute; &quot;censura&quot;, como dizem de tudo que se faz para colocar a TV sob controle democr&aacute;tico da sociedade.<\/p>\n<p><span>Olhemos para o futuro. O Congresso Nacional vai apreciar as renova&ccedil;&otilde;es com essas regras definidas pelo Executivo? Muito bem: o pa&iacute;s que discuta naquele foro, o centro do poder cidad&atilde;o, se as emissoras est&atilde;o quites ou n&atilde;o com seus deveres constitucionais e legais. <\/span>A cidadania que pressione os parlamentares para regulamentarem tudo que est&aacute; pendente na legisla&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&otilde;es. Que estabele&ccedil;a as regras para a vig&ecirc;ncia do pr&oacute;ximo per&iacute;odo de concess&atilde;o. E que exija transpar&ecirc;ncia na presta&ccedil;&atilde;o de contas, desde o primeiro dia, para que daqui a 15 anos n&atilde;o se pretexte que &eacute; muito documento para reunir. <\/p>\n<p>&Eacute; facilmente demonstr&aacute;vel que as emissoras est&atilde;o em d&eacute;bito com aquilo que declaram estar quites. A programa&ccedil;&atilde;o regional nas redes comerciais limita-se a um m&iacute;nimo de jornalismo e algumas outras atra&ccedil;&otilde;es, rar&iacute;ssimas, perdidas nas madrugadas, manh&atilde;s ou tardes, jamais no hor&aacute;rio nobre. A produ&ccedil;&atilde;o independente n&atilde;o &eacute; parceira regular de emissora alguma. N&atilde;o existe qualquer prefer&ecirc;ncia &agrave; finalidade educativo-cultural na programa&ccedil;&atilde;o, salvo nas emissoras p&uacute;blicas. H&aacute; &aacute;reas de conte&uacute;do, como a programa&ccedil;&atilde;o esportiva, que est&atilde;o totalmente monopolizadas, a ponto de uma grande rede comprar os direitos de transmiss&atilde;o de campeonatos n&atilde;o para exibi-los, mas apenas para impedir que a concorr&ecirc;ncia o fa&ccedil;a. Enfim, a legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; amplamente desconsiderada.<\/p>\n<p>Se a cidadania quer alterar esse quadro, cabe a ela mobilizar-se. A radiodifus&atilde;o e o governo n&atilde;o far&atilde;o isso de moto-pr&oacute;prio. A primeira n&atilde;o tem interesse e o segundo n&atilde;o quer encrenca com quem fala ao grande p&uacute;blico, com quem influencia o eleitorado. Ambos tendem a acertar-se discretamente, a resolver todos os problemas longe dos olhos da multid&atilde;o. Tamb&eacute;m do Legislativo n&atilde;o se deve esperar grande coisa, enquanto os seus l&iacute;deres forem, todos eles, radiodifusores ou aliados desse setor.<\/p>\n<p>Restam, apenas, os cidad&atilde;os, sua convic&ccedil;&atilde;o e sua for&ccedil;a. Se conseguirem se articular, se mantiverem o governo e o Congresso sob press&atilde;o permanente, as coisas acabar&atilde;o por mudar. Pode levar outros 15 anos, mas mudar&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns meses atr&aacute;s, em outubro de 2007, o governo deu um pequeno susto nas emissoras de televis&atilde;o. 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