{"id":20196,"date":"2008-01-15T12:14:36","date_gmt":"2008-01-15T12:14:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20196"},"modified":"2008-01-15T12:14:36","modified_gmt":"2008-01-15T12:14:36","slug":"radiodifusao-em-xeque-a-televisao-precisa-de-um-rumo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20196","title":{"rendered":"Radiodifus\u00e3o em xeque: a televis\u00e3o precisa de um rumo"},"content":{"rendered":"<p>N&atilde;o h&aacute; necessidade de uma an&aacute;lise muito aprofundada das grades de programa&ccedil;&atilde;o das principais emissoras do pa&iacute;s para chegar-se &agrave; constata&ccedil;&atilde;o de que se trata de um construto pobre, demonstrativo da car&ecirc;ncia cultural de uma dada forma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, uma deteriora&ccedil;&atilde;o, mesmo tratando-se de empresas midi&aacute;ticas, que tradicionalmente produzem e distribuem produtos simb&oacute;licos nos marcos das din&acirc;micas de rentabiliza&ccedil;&atilde;o, de onde decorrem todas as estrat&eacute;gias.<\/p>\n<p>As emissoras direcionam sua programa&ccedil;&atilde;o diurna preferencialmente para as faixas et&aacute;rias adulta e adolescente, explorando programas de culin&aacute;ria e discuss&otilde;es superficiais sobre a vida de artistas e o desenrolar dos acontecimentos novelescos. A grade de programa&ccedil;&atilde;o brasileira &eacute; baseada na Rede Globo, que serve como par&acirc;metro para as outras emissoras, isto &eacute;, programas que atingem sucesso na l&iacute;der de audi&ecirc;ncia tornam-se suporte do conte&uacute;do dos canais concorrentes. S&atilde;o atra&ccedil;&otilde;es que falam da Globo, buscando contaminar-se simbolicamente por seu &ecirc;xito.<\/p>\n<p>A falta de criatividade dos produtores acaba impedindo o avan&ccedil;o cultural da sociedade, visto que muitos espectadores informam-se basicamente atrav&eacute;s da televis&atilde;o. Esse processo decadente, comparado &agrave; sua grande potencialidade, vem ocorrendo h&aacute; v&aacute;rios anos, tendo seu auge em momentos, no SBT, como o Domingo Legal, com sua banheira er&oacute;tica, e o Aqui Agora, onde a viol&ecirc;ncia e o bizarro se destacavam. J&aacute; a segunda metade dos anos 90 foi assinalado por produtos como o H, com Feiticeira e Tiazinha, que, na Bandeirantes, elevou ao m&aacute;ximo a erotiza&ccedil;&atilde;o e a explora&ccedil;&atilde;o da mulher. Da mesma forma, ontem e cada vez mais hoje a Globo faz do sexo um importante fator de capta&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico, em suas novelas.<\/p>\n<p><strong>Modelos desconstru&iacute;dos<\/p>\n<p><\/strong>Os radiodifusores costumam dizer que o povo n&atilde;o assistiria a programas mais complexos, porque, na verdade, gosta de ver baixaria. Mas ser&aacute;? &Eacute; poss&iacute;vel produzir telenovelas inovadoras, de tem&aacute;ticas diferentes e atraentes, como, no passado, foi Pantanal, sucesso absoluto na antiga TV Manchete, que, al&eacute;m de mostrar um Brasil desconhecido pela maioria, trazia nos personagens a pureza e a ingenuidade de uma vida simples.<\/p>\n<p>A assist&ecirc;ncia a um &uacute;nico cap&iacute;tulo de novela j&aacute; permite a clara distin&ccedil;&atilde;o entre o bem e o mal, possibilitando a proje&ccedil;&atilde;o do futuro das personagens e a previsibilidade da est&oacute;ria, onde o malfeitor e o anti-her&oacute;i reinam absolutos durante meses, s&oacute; perdendo no final. J&aacute; os programas de audit&oacute;rio, que preenchem as tardes do fim de semana, visam a atender a todos os p&uacute;blicos, misturando provas para pessoas humildes, com necessidades financeiras, e exposi&ccedil;&atilde;o de mulheres em trajes sum&aacute;rios, dentre outros elementos de f&aacute;cil assimila&ccedil;&atilde;o. Esse talvez seja o grande problema da produ&ccedil;&atilde;o televisiva: faltam novidades e, principalmente, ousadia; no m&aacute;ximo, h&aacute; estr&eacute;ias de programas com formatos importados do exterior.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, n&atilde;o se pode esquecer que ainda existem algumas inova&ccedil;&otilde;es, como as miniss&eacute;ries que buscam retratar as hist&oacute;rias do Brasil e de suas unidades federativas. No entanto, essas produ&ccedil;&otilde;es n&atilde;o atingem uma grande audi&ecirc;ncia, engrossando o discurso daqueles que dizem que o povo prefere baixaria. Ocorre que, al&eacute;m de usualmente serem veiculadas em hor&aacute;rio tardio, algumas abusam de seu car&aacute;ter experimental, como a miniss&eacute;rie A Pedra do Reino, que acabou gerando confus&atilde;o no telespectador. Se h&aacute; um h&aacute;bito de exibi&ccedil;&atilde;o e recep&ccedil;&atilde;o de produtos de f&aacute;cil entendimento, os modelos desconstru&iacute;dos devem ser transmitidos paulatinamente, em pequenas doses, por n&atilde;o estar estabelecida tal tend&ecirc;ncia de consumo.<\/p>\n<p><strong>Bons projetos e exemplos<\/p>\n<p><\/strong>O Altas Horas, da Rede Globo, por exemplo, &eacute; atualmente o &uacute;nico programa da TV aberta, de alcance nacional, voltado especificamente para o jovem que investe em um formato simples e contributivo, tratando os assuntos de forma clara e sem apela&ccedil;&atilde;o, o que, de um modo geral, est&aacute; cada vez mais raro. Em regra, as emissoras buscam atender o jovem com produ&ccedil;&otilde;es ficcionais norte-americanas e partidas de futebol, alienando-o mais ainda, como se a vida fosse s&oacute; isso. Entretanto, os canais deveriam investir mais em espa&ccedil;os audiovisuais diferenciados, representantes da diversidade de identidades do planeta e, especialmente, na divulga&ccedil;&atilde;o do cinema, da m&uacute;sica e das demais formas art&iacute;sticas brasileiras, trabalhando sua maior riqueza: a diversidade. Isso poderia estimular e inspirar a produ&ccedil;&atilde;o de novos bens culturais, com caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias, ao mesmo tempo em que formaria receptores para realiza&ccedil;&otilde;es mais exclusivas.<\/p>\n<p>No quadro televisual de hoje, n&atilde;o h&aacute; lugar para a apresenta&ccedil;&atilde;o de bons l&iacute;deres e exemplos de conduta. Infelizmente, as redes t&ecirc;m privilegiado a trag&eacute;dia e o banditismo (intencionalmente), deixando de discutir os problemas estruturais do pa&iacute;s, os caminhos alternativos poss&iacute;veis e as iniciativas comprometidas com a mudan&ccedil;a efetiva. O resultado disso, junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, tem sido a omiss&atilde;o e o descaso com as quest&otilde;es pol&iacute;ticas do Brasil.<\/p>\n<p>O discurso de que a televis&atilde;o &eacute; um retrato do pa&iacute;s &eacute; simplista, pois ela potencializa as a&ccedil;&otilde;es que pretende iluminar, como, por exemplo, o erotismo exacerbado, estimulado nas telenovelas, shows de audit&oacute;rio e publicidade. Buscar a justi&ccedil;a deveria ser a miss&atilde;o da TV, j&aacute; que, ao atingir todas as classes, pode exercer um papel preponderante na defini&ccedil;&atilde;o de uma nova sociedade. O Brasil clama por bons projetos e exemplos. A televis&atilde;o, como servi&ccedil;o p&uacute;blico, mesmo quando prestado por empreendimentos privados, deveria deter-se nisso para preencher uma ferida que est&aacute; aberta e sangrando faz muito tempo.<\/p>\n<p><span>* Val&eacute;rio Cruz Brittos &eacute; professor no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o da Unisinos e doutor em Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura Contempor&acirc;neas pela UFBA.<br \/><\/span><span>* Ary Nelson da Silva J&uacute;nior &eacute; graduando em Comunica&ccedil;&atilde;o Social &#8211; Jornalismo pela Unisinos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o h&aacute; necessidade de uma an&aacute;lise muito aprofundada das grades de programa&ccedil;&atilde;o das principais emissoras do pa&iacute;s para chegar-se &agrave; constata&ccedil;&atilde;o de que se trata de um construto pobre, demonstrativo da car&ecirc;ncia cultural de uma dada forma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, uma deteriora&ccedil;&atilde;o, mesmo tratando-se de empresas midi&aacute;ticas, que tradicionalmente produzem e distribuem produtos simb&oacute;licos nos marcos das &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20196\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Radiodifus\u00e3o em xeque: a televis\u00e3o precisa de um rumo<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[612],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20196"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20196\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}