{"id":20175,"date":"2008-01-11T16:20:45","date_gmt":"2008-01-11T16:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20175"},"modified":"2008-01-11T16:20:45","modified_gmt":"2008-01-11T16:20:45","slug":"programas-que-violam-direitos-humanos-sao-alvo-do-mp-local","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20175","title":{"rendered":"Programas que violam direitos humanos s\u00e3o alvo do MP local"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;Oh d&uacute;vida cruel, &eacute; do marido ou &eacute; do outro? Ser&aacute; que ele &eacute; filho de tiquim? Tiquim de um, tiquim de outro?&rdquo;. A frase acima, pronunciada no quadro &ldquo;Investiga&ccedil;&atilde;o de Paternidade&rdquo;, veiculado no programa Bronca Pesada, de Recife, tinha o objetivo de fazer rir. Mas de engra&ccedil;ada n&atilde;o tem nada. Transmitido diariamente &agrave;s 7h e &agrave;s 12h25 pela TV Jornal do Commercio &#8211; que alcan&ccedil;a a maior parte dos munic&iacute;pios do estado de Pernambuco, do litoral ao sert&atilde;o &#8211; e conduzido pelo apresentador popularmente conhecido em Pernambuco por Cardinot, recordista em audi&ecirc;ncia na programa&ccedil;&atilde;o local, o programa &eacute; alvo de uma A&ccedil;&atilde;o Civil P&uacute;blica (ACP) contra viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos na m&iacute;dia. Protocolada no &uacute;ltimo dia 10 de dezembro, a ACP tamb&eacute;m trata do &ldquo;Papeiro da Cinderela&rdquo;, apresentadopor Jeison Wallace, supostamente um programa humor&iacute;stico, veiculado &agrave;s 11h25, que diariamente ridiculariza os homossexuais.<\/p>\n<p>&ldquo;O que se enxerga nos programas sob enfoque, que passam ao largo de uma leg&iacute;tima express&atilde;o art&iacute;stica, &eacute; apenas um enfoque bizarro tanto de situa&ccedil;&otilde;es do cotidiano ou dos pr&oacute;prios seres humanos, ali escolhidos para servirem de tro&ccedil;a aos telespectadores (&#8230;) Sob o manto dissimulado da com&eacute;dia, o que na verdade se v&ecirc; &eacute; a execra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica das pessoas humildes, de suas vidas privadas, de seu sofrimento e dramas pessoais. Dessa forma, tornam a realidade cruel, injusta, sofrida ou violenta de uma popula&ccedil;&atilde;o j&aacute; exclu&iacute;da, um motivo de zombaria para os que a assistem&rdquo;, diz o texto da a&ccedil;&atilde;o, que segue: &ldquo;O que se v&ecirc; &eacute; uma postura constante de veicula&ccedil;&atilde;o e propaga&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias preconceituosas, discriminat&oacute;rias e homof&oacute;bicas e que atentam claramente contra princ&iacute;pios constitucionais, em especial a dignidade humana&rdquo;.<\/p>\n<p>Os promotores de Justi&ccedil;a Jecqueline Guilherme Aymar Elihimas e Jos&eacute; Edivaldo da Silva, que assinam a ACP, pedem na Justi&ccedil;a a suspens&atilde;o dos programas, uma indeniza&ccedil;&atilde;o por danos morais coletivos no valor de um milh&atilde;o de reais, a serem revertidos para o Fundo Municipal dos Direitos da Crian&ccedil;a e do Adolescente do Recife, e a veicula&ccedil;&atilde;o por 60 dias de um direito de resposta &agrave;s viola&ccedil;&otilde;es veiculadas. Segundo eles, a TV Jornal do Commercio vem &ldquo;incansavelmente&rdquo; ferindo tanto a Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira quando a legisla&ccedil;&atilde;o infraconstitucional em vigor no pa&iacute;s, com destaque para o Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente, o Estatuto do Idoso, a Conven&ccedil;&atilde;o Interamericana para a Elimina&ccedil;&atilde;o de Todas as Formas de Discrimina&ccedil;&atilde;o contra as Pessoas com Defici&ecirc;ncia e os Pactos Internacionais de Direitos Civis e Pol&iacute;ticos e de Direitos Econ&ocirc;micos, Sociais e Culturais, todos ratificados pelo Brasil.<\/p>\n<p>Em seu Artigo 221, a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal estabelece que a produ&ccedil;&atilde;o e a programa&ccedil;&atilde;o das emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o devem atender aos princ&iacute;pios, entre outros, de prefer&ecirc;ncia a finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas e de respeito aos valores &eacute;ticos e sociais da pessoa e da fam&iacute;lia. J&aacute; o Pacto internacional sobre direitos civis e pol&iacute;ticos afirma, em seu Artigo 26, que &ldquo;todas as pessoas s&atilde;o iguais perante a lei e t&ecirc;m direito, sem discrimina&ccedil;&atilde;o alguma, a igual prote&ccedil;&atilde;o da lei. A este respeito, a lei dever&aacute; proibir qualquer forma de discrimina&ccedil;&atilde;o e garantir a todas as pessoas prote&ccedil;&atilde;o igual e eficaz contra qualquer discrimina&ccedil;&atilde;o por motivo de ra&ccedil;a, cor, sexo, l&iacute;ngua, religi&atilde;o, opini&atilde;o pol&iacute;tica ou de outra natureza, origem nacional ou social, situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, nascimento ou qualquer outra situa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. <\/p>\n<p>Para os promotores, ao incitar o telespectador a zombar, ridicularizar, menosprezar ou maltratar, por exemplo, uma crian&ccedil;a cuja paternidade n&atilde;o foi reconhecida, uma pessoa deficiente que apresenta dificuldade de express&atilde;o ou compreens&atilde;o, a emissora comete &ldquo;um evidente desrespeito aos valores &eacute;ticos da pessoa e da fam&iacute;lia, viola a intimidade, a honra, a vida privada e a imagem dessas pessoas&rdquo;. &ldquo;Exercem, assim, papel de destaque para a introje&ccedil;&atilde;o de preconceitos sociais de toda ordem (&#8230;) al&eacute;m de expor as pr&oacute;prias crian&ccedil;as, idosos e deficientes referidos nos programas a situa&ccedil;&otilde;es de humilha&ccedil;&atilde;o deplor&aacute;veis&rdquo;, afirmam.<\/p>\n<p>O texto da a&ccedil;&atilde;o cita uma decis&atilde;o do Superior Tribunal de Justi&ccedil;a que afirma que as liberdades p&uacute;blicas n&atilde;o s&atilde;o incondicionais, e por isso devem ser exercidas de maneira harm&ocirc;nica. O preceito da liberdade de express&atilde;o, por exemplo, n&atilde;o consagra o direito &agrave; incita&ccedil;&atilde;o ao racismo. &ldquo;Isto implica dizer que a liberdade de imprensa, como qualquer outro direito, h&aacute; que se sujeitar aos limites constitucionais, democraticamente outorgados&rdquo;, dizem. &ldquo;Democracia e a pr&oacute;pria Liberdade, sustentam-se, outrossim, em pilares de respeito e equil&iacute;brio entre diversos direitos individuais e coletivos&rdquo;. Para a promotora Jecqueline Elihimas, as emissoras ainda t&ecirc;m muito que amadurecer no enfoque dado aos direitos humanos, sobretudo quando o discurso da liberdade de imprensa e de express&atilde;o &eacute; colocado em jogo.<\/p>\n<p><strong>Luta antiga<\/strong><\/p>\n<p>A A&ccedil;&atilde;o Civil P&uacute;blica que agora corre na Justi&ccedil;a de Pernambuco &eacute; resultado de uma representa&ccedil;&atilde;o formulada por sete organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil pernambucana contra os programas do apresentador Cardinot: Au&ccedil;uba, Centro de Cultura Luiz Freire, Gajop, Instituto Academia de Desenvolvimento Social, Movimento Nacional de Direitos Humanos, Rede de Resist&ecirc;ncia Solid&aacute;ria e Sinos &#8211; Organiza&ccedil;&atilde;o para o Desenvolvimento da Comunica&ccedil;&atilde;o Social. H&aacute; v&aacute;rios anos as entidades acompanham a conte&uacute;do veiculado e, por diversas vezes, tentaram dialogar com a emissora visando uma modifica&ccedil;&atilde;o na programa&ccedil;&atilde;o. <br \/>&nbsp; &nbsp;<br \/>&ldquo;Tentamos chegar a um acordo. Em abril de 2006, houve uma audi&ecirc;ncia p&uacute;blica, quando eles admitiram que havia problemas nos programas. Disseram que melhorariam, mas at&eacute; outubro n&atilde;o fizeram nada. Foi quando entramos com a representa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, conta Ivan Moraes Filho, articulador estadual do Movimento Nacional de Direitos Humanos. <\/p>\n<p>O Minist&eacute;rio P&uacute;blico Estadual instaurou ent&atilde;o um procedimento administrativo e, durante um ano, tamb&eacute;m buscou o di&aacute;logo com a TV Jornal do Commercio, para que a emissora se retratasse perante o p&uacute;blico e revertesse os danos causados com a programa&ccedil;&atilde;o veiculada. Uma minuta de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) chegou a ser enviada ao canal, sem resultados.<\/p>\n<p>&ldquo;Eles reconheceram que havia problemas e chegaram a realizar algumas mudan&ccedil;as, mas foi algo muito pequeno perto do que desejamos. T&iacute;nhamos a expectativa de firmar o TAC, porque sabemos que o processo judicial &eacute; lento. Mas n&atilde;o foi poss&iacute;vel. As viola&ccedil;&otilde;es ainda s&atilde;o grandes e por isso entramos com a a&ccedil;&atilde;o&rdquo;, explicou a promotora Jecqueline Elihimas.<\/p>\n<p>Para Jecqueline, a ACP &eacute; resultado dessa movimenta&ccedil;&atilde;o da sociedade civil de Pernambuco em monitorar o conte&uacute;do da programa&ccedil;&atilde;o televisiva e apresentar den&uacute;ncias ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico. &ldquo;O MP j&aacute; havia entrado com a&ccedil;&otilde;es pontuais em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; viola&ccedil;&otilde;es dos direitos das crian&ccedil;as e adolescentes principalmente nos meios impressos, com resultados positivos. O monitoramento da televis&atilde;o &eacute; mais dif&iacute;cil. Por isso foi importante este acompanhamento mais constante da sociedade civil&rdquo;, conta. &ldquo;Apesar de ainda n&atilde;o termos tido um retorno do pedido de liminar, acredito que a perspectiva de julgamento &eacute; positiva. Acho poss&iacute;vel que se obtenha &ecirc;xito na a&ccedil;&atilde;o. Em 2004, conseguimos uma decis&atilde;o favor&aacute;vel em primeira inst&acirc;ncia que suspendeu o programa &ldquo;Pernambuco Urgente&rdquo;, da mesma emissora. O processo hoje est&aacute; no Tribunal de Justi&ccedil;a&rdquo;, relata.<\/p>\n<p><strong>Direito de resposta<\/strong><\/p>\n<p>Para que a condena&ccedil;&atilde;o da emissora chegue o mais pr&oacute;ximo poss&iacute;vel da efetiva repara&ccedil;&atilde;o das viola&ccedil;&otilde;es veiculadas e sirva de advert&ecirc;ncia para evitar sua repeti&ccedil;&atilde;o, a A&ccedil;&atilde;o Civil P&uacute;blica exige que a emissora, em substitui&ccedil;&atilde;o aos dois programas, passe a veicular uma contrapropaganda, com mensagens voltadas exatamente &agrave; defesa dos direitos humanos violados. Assim como aconteceu com a ACP movida em 2005 pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal em S&atilde;o Paulo contra o programa &ldquo;Tardes Quentes&rdquo;, do apresentador Jo&atilde;o Kleber, o direito de resposta seria produzido pelas organiza&ccedil;&otilde;es que entraram com a representa&ccedil;&atilde;o junto ao MP Estadual de Pernambuco com estrutura fornecida pela pr&oacute;pria emissora. <\/p>\n<p>&ldquo;A id&eacute;ia &eacute; produzir programas parecidos, no formato, com os programas hoje veiculados pela emissora, para mostrar que &eacute; poss&iacute;vel fazer um programa que utilize uma linguagem pr&oacute;xima do povo e que, em vez de ser preconceituoso, que seja pautado em cobran&ccedil;as construtivas e que denuncie as viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos, no lugar de comet&ecirc;-las. No caso do programa humor&iacute;stico, queremos produzir algo que fa&ccedil;a rir, que seja engra&ccedil;ado, sem para isso precisar discriminar. Pelo contr&aacute;rio&rdquo;, afirma Ivan Moraes Filho. <\/p>\n<p>&ldquo;Quanto mais r&aacute;pido estes telespectadores puderem receber o direito de resposta como contrapropraganda aos ensinamentos que a Requerida lhes repassou no sentido de menosprezar idosos, homossexuais, crian&ccedil;as, mulheres e outras pessoas v&iacute;timas da exclus&atilde;o social, mais provavelmente poder&atilde;o refletir e introjetar novos conceitos de respeito &agrave; diversidade e aos direitos humanos&rdquo;, afirmam os promotores na ACP. <\/p>\n<p>&ldquo;Este &eacute; um momento hist&oacute;rico no nosso estado, porque nunca houve uma A&ccedil;&atilde;o Civil P&uacute;blica em Pernambuco contra viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos em geral cometidas pela m&iacute;dia. Esses programas t&ecirc;m muitos processos na &aacute;rea de inf&acirc;ncia e juventude, mas esta a&ccedil;&atilde;o trata da viola&ccedil;&atilde;o de outros direitos. Politicamente, &eacute; muito importante para n&oacute;s&rdquo;, avalia Aline Lucena, da Sinos, uma das organiza&ccedil;&otilde;es que entrou com a representa&ccedil;&atilde;o junto ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico. &ldquo;Se conseguirmos o direito de resposta, ser&aacute; fant&aacute;stico, mas o simples fato da ACP existir &eacute; fundamental para a sensibiliza&ccedil;&atilde;o e in&iacute;cio efetivo de controle social da sociedade civil pernambucana frente a esse tipo de programa&rdquo;, acredita.<\/p>\n<p>Como os programas tamb&eacute;m s&atilde;o recordistas em an&uacute;ncios, as ONGs devem agora procurar as ag&ecirc;ncias de publicidade e anunciantes dos programas para inform&aacute;-los que h&aacute; uma a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico contra a emissora. Outro trabalho visa a uma aproxima&ccedil;&atilde;o com o Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal &ndash; que recebeu a mesma representa&ccedil;&atilde;o e at&eacute; agora n&atilde;o se manifestou sobre o assunto &ndash; e com o Poder Judici&aacute;rio. <\/p>\n<p>&ldquo;J&aacute; temos essa parceria com o MP Estadual, mas precisamos dialogar com o Federal e com o Judici&aacute;rio. &Eacute; um desafio para a sociedade civil organizada que luta pelo direito humano &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o se aproximar dos ju&iacute;zes, para que comecem a responder de forma positiva &agrave;s den&uacute;ncias apresentadas. Este ainda &eacute; um espa&ccedil;o impenetr&aacute;vel. Sabemos que a ACP &eacute; o primeiro momento de um grande caminho, cheio de desafios. Mas o processo em si j&aacute; &eacute; extremamente rico&rdquo;, conclui Aline Lucena. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Procuradores consideram que programas de TV do apresentador Cardinot violam a Constitui\u00e7\u00e3o e leis como o ECA e o Estatuto do Idoso. A\u00e7\u00e3o pede indeniza\u00e7\u00e3o e direito de resposta de 60 dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[607],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20175"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20175"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20175\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}