{"id":20159,"date":"2007-12-25T00:00:00","date_gmt":"2007-12-25T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20159"},"modified":"2007-12-25T00:00:00","modified_gmt":"2007-12-25T00:00:00","slug":"a-nobre-funcao-de-matar-o-tedio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20159","title":{"rendered":"A nobre fun\u00e7\u00e3o de matar o t\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p>&quot;N&oacute;s estamos no neg&oacute;cio de matar o t&eacute;dio&quot;, j&aacute; dizia o apresentador de TV Howard Beale em 1976, em apopl&eacute;tico discurso no filme Rede de Intrigas (Network). O &quot;profeta louco das ondas eletromagn&eacute;ticas&quot; , criado pelo roteirista Paddy Chayefsky e o diretor Sidney Lumet para o que &eacute;, ainda hoje, a mais aguda cr&iacute;tica j&aacute; feita &agrave; televis&atilde;o, suas pr&aacute;ticas e seus valores, resumia nessa frase objetiva e franca a miss&atilde;o principal do ve&iacute;culo que fizera dele uma celebridade.<\/p>\n<p>&Eacute; oportuno recordar a frase nesta &eacute;poca de festas em que as pessoas transbordam de afeto, re&uacute;nem amigos e familiares, buscam sofregamente o conv&iacute;vio com o pr&oacute;ximo, mas n&atilde;o dispensam o televisor ligado junto &agrave; &aacute;rvore de natal. Um breve olhar para a cena natalina &#8211; brasileira ou de outros pa&iacute;ses, n&atilde;o muito distintos nesse aspecto &#8211; &eacute; suficiente para demonstrar o quanto a televis&atilde;o &eacute; importante como meio de entretenimento e como s&atilde;o equivocados os discursos que tentam desqualificar essa fun&ccedil;&atilde;o em favor de um maior volume &#8211; indiscutivelmente necess&aacute;rio &#8211; de informa&ccedil;&atilde;o e de educa&ccedil;&atilde;o na tela.<\/p>\n<p><strong>Canal para beb&ecirc;s<br \/><\/strong><br \/>A televis&atilde;o &eacute;, sim, um neg&oacute;cio para matar o t&eacute;dio, antes e acima de qualquer outra coisa que possa fazer pelos humanos. Ela preenche o tempo livre com maior efici&ecirc;ncia e menor custo do que outras formas de divers&atilde;o, o que &eacute; a raz&atilde;o da sua universalidade. Qualquer um, pequeno ou grande, pobre ou rico, inteligente ou burro, tem sempre &agrave; m&atilde;o aquele bot&atilde;o redentor do aparelho de TV, para com um simples toque relaxar das tens&otilde;es di&aacute;rias, proteger-se da brutalidade circundante e deixar flutuar a imagina&ccedil;&atilde;o. Ainda mais os solit&aacute;rios, que preenchem suas car&ecirc;ncias afetivas com os seres e os temas da tela, e que teriam natais sombrios, angustiantes, n&atilde;o fosse aquela luz amiga a cintilar diante de seus olhos.<\/p>\n<p>Seja por interesse mercadol&oacute;gico, nas emissoras comerciais, seja por esp&iacute;rito p&uacute;blico, nas educativo-culturais , a televis&atilde;o se prop&otilde;e a subsidiar os humanos de afeto e companhia em todos os momentos da vida. Literalmente do come&ccedil;o ao fim dela, como demonstram dois projetos que provocaram curiosidade e pol&ecirc;mica neste ano. Aqui, no Observat&oacute;rio, a colega Leneide Duarte-Plon comentou, no in&iacute;cio deste m&ecirc;s, a celeuma causada na Fran&ccedil;a pela introdu&ccedil;&atilde;o de uma emissora voltada aos beb&ecirc;s [ver &quot;Cientistas franceses pedem morat&oacute;ria para canal&quot;). Um pouco antes, em novembro, pipocou planeta afora a not&iacute;cia de uma emissora lan&ccedil;ada na Alemanha para se dedicar exclusivamente &agrave; morte e ao luto.<\/p>\n<p>A TV para beb&ecirc;s intitula-se BabyFirst TV e &eacute; mais uma oferenda norte-americana aos deuses do consumo. Est&aacute; no ar 24 horas por dia em 28 pa&iacute;ses, com um p&uacute;blico estimado de 13 milh&otilde;es de telespectadores, na faixa de 6 meses a 3 anos de idade. Surgiu da constata&ccedil;&atilde;o de que muitos pais compram DVDs com programas voltados aos beb&ecirc;s, pagando at&eacute; 20 euros por exemplar, o que configura um polpudo mercado. A emissora oferece 50 programas em sua grade, com conte&uacute;dos que pretendem estimular nos beb&ecirc;s o desenvolvimento da linguagem e o conhecimento da matem&aacute;tica, al&eacute;m das &quot;destrezas sensoriais e do jogo criativo&quot;.<\/p>\n<p><strong>Fazer companhia e divertir<br \/><\/strong><br \/>Os produtores norte-americanos garantem contar com a assessoria de pedagogos e psic&oacute;logos infantis, mas os colegas franceses desses profissionais, segundo Leneide, ca&iacute;ram de cacete na emissora, argumentando que na primeira inf&acirc;ncia a crian&ccedil;a precisa mobilizar o corpo e a mente com brinquedos, e n&atilde;o prostrar-se diante da tela da TV. Seja como for, a&iacute; est&aacute; reiterado o fato de que a televis&atilde;o almeja acompanhar as pessoas desde o in&iacute;cio de suas vidas, oferecendo a elas companhia agrad&aacute;vel e incondicional a qualquer hora.<\/p>\n<p>Agora e na hora de nossa morte, prop&otilde;e a Etos TV alem&atilde;, &quot;o canal do luto&quot;. Vitrine do mercado funer&aacute;rio de seu pa&iacute;s, que re&uacute;ne mais de 3.000 empresas, a emissora aborda sem assombro um tema dif&iacute;cil, convicta de que ele &eacute; mais um entre tantos que interessam &agrave;s pessoas, sobretudo quando enfrentam a morte de parentes e conhecidos, ou a perspectiva da pr&oacute;pria partida. &Eacute; o que mostra sua ins&oacute;lita programa&ccedil;&atilde;o? &quot;Cemit&eacute;rios como lugares de mem&oacute;ria cultural, porque o futuro necessita de origens.&quot; Obitu&aacute;rios pessoais, &quot;porque a mem&oacute;ria conecta as gera&ccedil;&otilde;es&quot;. Al&eacute;m de informa&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas sobre o que fazer diante de um &oacute;bito e dicas &quot;de preven&ccedil;&atilde;o&quot; porque, afinal, salvo os suicidas, ningu&eacute;m quer despedir-se da vida antes da hora.<\/p>\n<p>Entre os dois extremos da exist&ecirc;ncia, a televis&atilde;o procura entreter e confortar os humanos de todas as formas poss&iacute;veis. Para a inf&acirc;ncia, j&aacute; s&atilde;o muitos os canais, repletos de desenhos animados, seriados e shows. Para a adolesc&ecirc;ncia, canais de m&uacute;sica pop ou de videogames, como os dois que se defrontam na TV paga brasileira, a MTV e a Play TV. Para a vida adulta, quando os interesses se particularizam e a identidade se define de forma mais complexa, uma infinidade de canais segmentados por conte&uacute;do, sexo, faixa et&aacute;ria, n&iacute;vel cultural. E todo esse amplo leque de op&ccedil;&otilde;es identificado por um denominador comum: o desejo de fazer companhia e divertir. De matar o t&eacute;dio.<\/p>\n<p><strong>Discurso confuso<br \/><\/strong><br \/>A fun&ccedil;&atilde;o de entretenimento da TV, por tudo isso, deveria merecer mais considera&ccedil;&atilde;o. Mesmo, ou sobretudo, quando os programas t&ecirc;m forma e conte&uacute;do que escapam ao padr&atilde;o de gosto da elite. Uma boa atra&ccedil;&atilde;o televisiva n&atilde;o precisa ter, necessariamente, aspectos informativos e educacionais; pode perfeitamente oferecer apenas divers&atilde;o ligeira, descompromissada. &quot;Baixaria&quot; n&atilde;o &eacute; o oposto de televis&atilde;o inteligente; &eacute; a degenera&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o popular, dos produtos concebidos para as prefer&ecirc;ncias culturais e o n&iacute;vel de cogni&ccedil;&atilde;o da grande massa telespectadora. &Eacute; totalmente poss&iacute;vel uma televis&atilde;o popular de qualidade, sem baixarias e tamb&eacute;m sem maiores ambi&ccedil;&otilde;es intelectuais. &Eacute; poss&iacute;vel apenas entreter, sem querer mais do que isso, com &eacute;tica, respeito e responsabilidade.<\/p>\n<p>O discurso bem pensante a respeito disso, entretanto, &eacute; confuso. Quando aborda a TV de entretenimento, costuma jogar no mesmo saco programas razo&aacute;veis e grandes porcarias, rotulando tudo de baixaria. Shows de audit&oacute;rio, game shows, telenovelas, musicais sertanejos e programas humor&iacute;sticos padecem desse preconceito, do qual est&atilde;o isentos, por defini&ccedil;&atilde;o, os programas de debate, os telejornais, os document&aacute;rios, os musicais de MPB e as miniss&eacute;ries de inspira&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria &#8211; todos avaliados, a priori, como programas s&eacute;rios e &uacute;teis, mesmo que ocultem a mais s&oacute;rdida baixaria, na forma de manipula&ccedil;&atilde;o de dados, distor&ccedil;&atilde;o, parcialidade, omiss&atilde;o, partidarismo etc.<\/p>\n<p><strong>Esfor&ccedil;o e utilidade<\/strong><\/p>\n<p>Essa falsa oposi&ccedil;&atilde;o entre uma televis&atilde;o de qualidade, identificada somente pelo car&aacute;ter educativo-cultural, e uma televis&atilde;o de baixo n&iacute;vel, assim considerada por privilegiar o entretenimento, transborda do pensamento cr&iacute;tico para o ju&iacute;zo comum dos telespectadores. E se expressa num discurso freq&uuml;entemente culpado, em que a pessoa clama por mais cultura e educa&ccedil;&atilde;o na TV, mas reconhece que n&atilde;o assiste &agrave;s atra&ccedil;&otilde;es que atendem ao clamor. &Eacute; a culpa pelo entretenimento, culpa por assistir TV apenas para se divertir, passar o tempo, esfriar a cabe&ccedil;a ou pegar no sono.<\/p>\n<p>Outra decorr&ecirc;ncia dessa percep&ccedil;&atilde;o geral de que a boa televis&atilde;o &eacute; apenas a que informa e educa &#8211; e &agrave; qual n&atilde;o se assiste porque, infelizmente, ela exige pensar e pensar d&aacute; trabalho, &eacute; chato&#8230; &#8211; est&aacute; na conceitua&ccedil;&atilde;o da TV p&uacute;blica. Muita gente, incluindo especialistas, acredita que n&atilde;o cabe a ela oferecer entretenimento. Apenas &quot;fazer a cabe&ccedil;a&quot;, estimular o racioc&iacute;nio, prover informa&ccedil;&otilde;es. Essa vis&atilde;o s&oacute; facilita que as emissoras comerciais descumpram seus deveres para com a educa&ccedil;&atilde;o e a informa&ccedil;&atilde;o e impede que as emissoras p&uacute;blicas definam melhor o seu enfoque do entretenimento. N&atilde;o h&aacute;, por exemplo, programas humor&iacute;sticos na TV p&uacute;blica brasileira. Foram rar&iacute;ssimas as suas tentativas nesse sentido, ao longo da hist&oacute;ria. E por qu&ecirc;? Fazer rir n&atilde;o &eacute; coisa s&eacute;ria, talvez das mais s&eacute;rias que existem, pela fun&ccedil;&atilde;o profil&aacute;tica do humor?<\/p>\n<p>A televis&atilde;o de entretenimento &eacute; leg&iacute;tima. N&atilde;o h&aacute; nada errado em divertir o telespectador. N&atilde;o &eacute; obrigat&oacute;rio instru&iacute;-lo e inform&aacute;-lo quando se procura diverti-lo, embora seja conveniente que isso ocorra. Conv&eacute;m que nos lembremos disso nestes dias de festas em que as pessoas buscam estar juntas para celebrar a vida e se divertir. A TV procura fazer isso todos os dias do ano, todas as horas do dia, para todos os p&uacute;blicos, por toda a exist&ecirc;ncia das pessoas. Errando ou acertando, merece reconhecimento pelo seu esfor&ccedil;o e pela utilidade do servi&ccedil;o que presta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;N&oacute;s estamos no neg&oacute;cio de matar o t&eacute;dio&quot;, j&aacute; dizia o apresentador de TV Howard Beale em 1976, em apopl&eacute;tico discurso no filme Rede de Intrigas (Network). O &quot;profeta louco das ondas eletromagn&eacute;ticas&quot; , criado pelo roteirista Paddy Chayefsky e o diretor Sidney Lumet para o que &eacute;, ainda hoje, a mais aguda cr&iacute;tica j&aacute; &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20159\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">A nobre fun\u00e7\u00e3o de matar o t\u00e9dio<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[595],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20159"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20159"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20159\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}