{"id":20149,"date":"2008-01-09T14:18:02","date_gmt":"2008-01-09T14:18:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20149"},"modified":"2008-01-09T14:18:02","modified_gmt":"2008-01-09T14:18:02","slug":"feliz-ano-velho-entra-ano-sai-ano-a-mesmice-na-tv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20149","title":{"rendered":"Feliz ano velho &#8211; Entra ano, sai ano, a mesmice na TV"},"content":{"rendered":"<p>Ano novo, tudo velho. &Eacute; um recorrente paradoxo da televis&atilde;o brasileira que a entrada de um novo ano, &eacute;poca de esperan&ccedil;as e de promessas de renova&ccedil;&atilde;o para o cidad&atilde;o comum, seja o per&iacute;odo de reafirma&ccedil;&atilde;o da sua timidez e da sua mesmice. Diante dos 365 dias que enfrentar&aacute;, no novo giro da Terra em torno do Sol, o brasileiro pode n&atilde;o ter certeza de nada, mas de uma coisa est&aacute; absolutamente seguro: a programa&ccedil;&atilde;o da TV ser&aacute; a de sempre. Pouqu&iacute;ssimas coisas v&atilde;o mudar, aqui e ali, apenas para espanar as teias de aranha e assegurar que tudo seguir&aacute; exatamente como sempre foi, ou vem sendo, h&aacute; d&eacute;cadas.<\/p>\n<p>Tomemos a TV Globo, que &eacute; a l&iacute;der de mercado e, naturalmente, guia os passos da concorr&ecirc;ncia, fazendo com que todas as grades sejam montadas em fun&ccedil;&atilde;o dela. O que nos oferecer&aacute; em 2008 a P&eacute;rola de Jacarepagu&aacute;? De janeiro ao final de mar&ccedil;o, &eacute;poca das f&eacute;rias do elenco e de boa parte das equipes de produ&ccedil;&atilde;o, manter&aacute; a grade habitual de novelas, jornal&iacute;sticos, filmes e programas de celebridades entre a zero hora e as dez da noite, aumentando um pouco a taxa de filmes. Na faixa das 22h, vai estrear mais um Big Brother Brasil, que por aqui j&aacute; virou uma variante de folhetim eletr&ocirc;nico, ao contr&aacute;rio dos seus similares mundo afora, e &eacute; por isso que chega &agrave; oitava edi&ccedil;&atilde;o. Depois, vir&aacute; com outra miniss&eacute;rie (Caros Amigos, de Maria Adelaide Amaral) e, claro, mais uma edi&ccedil;&atilde;o do seriado 24 Horas.<\/p>\n<p>A partir de abril, com o ano j&aacute; avan&ccedil;ado, estr&eacute;ia a &quot;programa&ccedil;&atilde;o 2008&quot;. Com o qu&ecirc;? A pr&oacute;xima novela &quot;das oito&quot;, que come&ccedil;ar&aacute; sempre em torno das nove (no hor&aacute;rio de Bras&iacute;lia), e mais tudo aquilo que voc&ecirc; &eacute; absolutamente capaz de recitar de cor, dia a dia da semana, ao menos no hor&aacute;rio noturno: Tela Quente na segunda, Casseta &amp; Planeta na ter&ccedil;a, futebol na quarta, A Grande Fam&iacute;lia na quinta, etc., etc., etc. Mais previs&iacute;vel do que filme policial americano. Mais conservador que a marca da Coca-Cola.<\/p>\n<p>Parece que teremos alguma novidade no hor&aacute;rio atual de Toma L&aacute;, D&aacute; C&aacute; (ter&ccedil;as, 22h50), que n&atilde;o decidiu se queria copiar Sai de Baixo ou os seriados gringos, e n&atilde;o granjeou exatamente a estima dos telespectadores. Parece tamb&eacute;m que Caco Barcellos vai emplacar o excelente Profiss&atilde;o Rep&oacute;rter como programa semanal, desfalcando o Fant&aacute;stico. No mais, nada mais. Ou melhor, o de sempre. A grade da tradi&ccedil;&atilde;o, que ficar&aacute; no ar com a sua regularidade habitual dos &uacute;ltimos 40 anos e s&oacute; abrir&aacute; algum espa&ccedil;o &agrave; inven&ccedil;&atilde;o na &uacute;ltima semana do ano, quando testar&aacute; novos formatos sob o r&oacute;tulo de &quot;especiais&quot;, para n&atilde;o assustar muito (o pessoal interno, n&atilde;o o p&uacute;blico). Isso, claro, depois do inevit&aacute;vel show de Roberto Carlos e antes do j&aacute; rotineiro Reveillon do Faust&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Tributo &agrave; velharia<\/strong><\/p>\n<p>Se examinarmos a grade das outras emissoras, tamb&eacute;m veremos que a taxa de inova&ccedil;&atilde;o ser&aacute; baixa, embora consideravelmente maior do que a da Globo. Vicissitudes de quem n&atilde;o lidera e precisa ter flexibilidade t&aacute;tica para enfrentar as oscila&ccedil;&otilde;es da audi&ecirc;ncia global, al&eacute;m de n&atilde;o ter dinheiro a perder com atra&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o funcionem. Da&iacute; aquelas novelas que acabam no meio, quando n&atilde;o suspensas, e aqueles tantos astros e estrelas que s&atilde;o incensados quando estr&eacute;iam e depois perdem o emprego abruptamente, sem entender direito de onde veio a tsunami que os levou. A regularidade, aqui, &eacute; da irregularidade e nem d&aacute; para chamar de novidade os programas que surgem, porque, em geral, s&atilde;o f&oacute;rmulas antigas recicladas ou clones descarados de algum sucesso.<\/p>\n<p>OK, &eacute; quixotesco imaginar que a televis&atilde;o possa ser o reino da cria&ccedil;&atilde;o. Enquanto o teatro &eacute; a arte do ator e o cinema, a do diretor, a televis&atilde;o &eacute; a arte do patrocinador, como algu&eacute;m brilhantemente definiu (n&atilde;o tenho &agrave; m&atilde;o o Almanaque da TV, do Rixa, para precisar). Se &eacute; assim, a taxa de inova&ccedil;&atilde;o ser&aacute; mesmo baixa, porque anunciantes n&atilde;o gostam de correr riscos e preferem jogar com times que j&aacute; est&atilde;o vencendo. Parece l&oacute;gico, n&atilde;o? Mas &eacute; exatamente esse racioc&iacute;nio que est&aacute; levando o neg&oacute;cio televisivo, como um todo, para o buraco. Diante da inesgot&aacute;vel f&aacute;brica de novidades que &eacute; a internet, diante da fartura de op&ccedil;&otilde;es que a pirataria de DVDs e videogames oferece, o p&uacute;blico est&aacute; girando o bot&atilde;o da TV &#8211; para deslig&aacute;-lo. Busca novidades, n&atilde;o encontra, cai fora.<\/p>\n<p>Se pensarmos essa situa&ccedil;&atilde;o em termos de diversidade cultural, a&iacute; &eacute; que o caldo engrossa de vez. Que diversidade pode haver numa m&iacute;dia que &eacute;, em tudo, monotonia? Que diversidade se pode pretender se quem paga a conta &#8211; o anunciante &#8211; compra regularidade de audi&ecirc;ncia e n&atilde;o quer correr o m&iacute;nimo risco de um novo programa derrubar 2 ou 3 pontos do Ibope do hor&aacute;rio, at&eacute; que o p&uacute;blico se acostume com ele? Ali&aacute;s, que raio de p&uacute;blico &eacute; esse, que vive clamando por novidades, mas que &quot;estranha&quot; os novos programas que lhe oferecem, mesmo quando eles se parecem com milh&otilde;es de outros j&aacute; exibidos anteriormente?<\/p>\n<p>&Eacute; de se lamentar, mas n&atilde;o de estranhar, que apenas uma semana do ano &#8211; a &uacute;ltima &#8211; concentre toda a inova&ccedil;&atilde;o de que uma rede poderosa como a Globo &eacute; capaz de oferecer. Deixam-se as novidades no ano velho, porque o novo vai se contentar com velharias. Apenas um, ou quem sabe dois, dos interessantes seriados exibidos na semana passada emplacar&atilde;o a &quot;grade 2008&quot;. E eles trazem material adequado tanto para a audi&ecirc;ncia popular (Guerra e Paz e Fa&ccedil;a Sua Hist&oacute;ria) quanto para os telespectadores mais sofisticados (Os Amadores e Casos e Acasos). Veremos qual deles vencer&aacute; a corrida contra a mesmice, ou mesmo se algum ter&aacute; &ecirc;xito nisso.<\/p>\n<p><strong>Contra o t&eacute;dio<\/strong><\/p>\n<p>A tend&ecirc;ncia natural da televis&atilde;o comercial em preservar muito e inovar pouco, apenas ela, j&aacute; deveria bastar para eliminar as d&uacute;vidas daqueles que n&atilde;o v&ecirc;em necessidade na televis&atilde;o p&uacute;blica. Que est&aacute; consideravelmente viciada no mesmo conservadorismo, admitamos, at&eacute; porque tem de recorrer ao financiamento privado para suprir o aporte financeiro que o Estado lhe sonega. Mas, ainda assim, &eacute; muito mais ousada e inventiva, e tem compromisso muito mais s&eacute;rio com a busca da diversidade. Se tivesse dinheiro para bancar o seu desejo de criar, dinheiro livre de injun&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas ou comerciais, certamente promoveria uma revolu&ccedil;&atilde;o no bocejante quadro atual da TV.<\/p>\n<p>A nova televis&atilde;o p&uacute;blica federal, TV Brasil, anuncia o prop&oacute;sito de oferecer, a partir de mar&ccedil;o, uma grade de 16 horas di&aacute;rias, das quais a metade ser&aacute; constitu&iacute;da de produ&ccedil;&otilde;es independentes e programas regionais. Isso promete ser uma inje&ccedil;&atilde;o de diversidade na tela, ainda que a sua inocula&ccedil;&atilde;o seja lenta, irregular e a meta demore para ser atingida. Uma grade de programa&ccedil;&atilde;o que seja mais surpreendente que previs&iacute;vel &eacute; o sonho de consumo do telespectador inteligente. Uma emissora p&uacute;blica est&aacute; se dispondo a procur&aacute;-la, falta alguma comercial. Ou melhor: falta que todas, comerciais ou p&uacute;blicas, desejem a diversidade e a novidade, e as persigam como valor central.<\/p>\n<p>Porque o p&uacute;blico, em tempos de m&iacute;dias interativas, n&atilde;o fica mais sentado no poltron&atilde;o, amuando-se de t&eacute;dio. Corre ao YouTube, ao Joost, e encontra a variedade que deseja. E tir&aacute;-lo da frente do computador, de volta ao televisor, n&atilde;o &eacute; tarefa das mais f&aacute;ceis. A televis&atilde;o, ent&atilde;o, que reflita urgentemente sobre o que oferece em seu pr&oacute;prio tubo. Para n&atilde;o entrar, ainda mais, pelo cano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano novo, tudo velho. &Eacute; um recorrente paradoxo da televis&atilde;o brasileira que a entrada de um novo ano, &eacute;poca de esperan&ccedil;as e de promessas de renova&ccedil;&atilde;o para o cidad&atilde;o comum, seja o per&iacute;odo de reafirma&ccedil;&atilde;o da sua timidez e da sua mesmice. 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