{"id":20135,"date":"2008-01-07T00:00:00","date_gmt":"2008-01-07T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20135"},"modified":"2008-01-07T00:00:00","modified_gmt":"2008-01-07T00:00:00","slug":"tv-digital-ela-veio-sem-nunca-ter-vindo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20135","title":{"rendered":"TV digital: ela veio sem nunca ter vindo"},"content":{"rendered":"\n<p>   \t \t \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> Nem tudo d&aacute; certo logo de cara. A novela Roque Santeiro, por exemplo, s&oacute; vingou na segunda tentativa. A primeira aconteceu em 1975 e foi abortada: a produ&ccedil;&atilde;o j&aacute; tinha come&ccedil;ado quando a Censura Federal implicou e for&ccedil;ou o cancelamento da estr&eacute;ia. Dez anos mais tarde, em 1985, ela finalmente entrou no hor&aacute;rio nobre e, a&iacute; sim, foi um dos maiores sucessos da hist&oacute;ria da Rede Globo, com a grife personal&iacute;ssima de seu autor, Dias Gomes. Seu realismo sat&iacute;rico-fant&aacute;stico &agrave; brasileira, que ca&ccedil;oava dos vendedores de falsas imagens e falsas promessas, foi a marca de um tempo.<\/p>\n<p>A novela come&ccedil;ava quando Roque Santeiro, o personagem-t&iacute;tulo, j&aacute; n&atilde;o vivia em Asa Branca, a cidadezinha fict&iacute;cia que servia de met&aacute;fora do Brasil. Logo nos primeiros cap&iacute;tulos, o telespectador ficava sabendo que Roque desaparecera 17 anos antes. Segundo a cren&ccedil;a local, morrera ao enfrentar valentemente um malfeitor que amea&ccedil;ava o povo. Todos falavam dele, idolatravam-no, mas o her&oacute;i, em pessoa, ningu&eacute;m podia mais ver. Defunto, tinha virado mito.<\/p>\n<p>Agora, no ano em que a TV digital entrou em funcionamento no Brasil &ndash; ou melhor, entrou em funcionamento, por enquanto, apenas na cidade de S&atilde;o Paulo, ao menos oficialmente &ndash;, o esp&iacute;rito de Roque Santeiro volta a rondar a plat&eacute;ia. A TV digital est&aacute; a&iacute;, mas quase n&atilde;o se consegue sintoniz&aacute;-la. Ningu&eacute;m contesta sua exist&ecirc;ncia, embora quase ningu&eacute;m a veja. &Eacute; como se ela fosse um mito de ponta-cabe&ccedil;a, n&atilde;o por ter deixado a vida para entrar na hist&oacute;ria, mas por n&atilde;o ter nascido, se &eacute; que nasceu, do modo triunfal que era anunciado nas profecias.<\/p>\n<p>Roque Santeiro, sejamos justos, era mais que um mito qualquer: era o mito fundador de Asa Branca. Os cr&eacute;dulos o viam como santo milagreiro. Havia at&eacute; o Z&eacute; das Medalhas, que vendia moedinhas com o seu retrato. Entre tantos, a mais inesquec&iacute;vel habitante da cidade era Porcina, falastrona, vaidosa, histri&ocirc;nica, que se proclamava vi&uacute;va de Roque, ainda que jamais tivesse se deitado com ele. Agora, amante do &quot;coron&eacute;&quot; da localidade, Sinhozinho Malta, refestelava-se no luxo. Definida pelo autor como &quot;a que era sem nunca ter sido&quot;, Porcina encarnava a &eacute;tica pol&iacute;tica de Asa Branca.<\/p>\n<p>Eram tempos gloriosos da telenovela. A TV colorida alcan&ccedil;ava seu ponto mais alto na fun&ccedil;&atilde;o de integrar a nacionalidade e, com Dias Gomes, encontrou sua mais exuberante express&atilde;o est&eacute;tica. Os cen&aacute;rios e figurinos se baseavam na profus&atilde;o de cores, muitas cores, todas e mais algumas. Aparentemente excessivos, os tons berrantes dos vestidos da falsa vi&uacute;va eram exatos na sintaxe da cr&iacute;tica pol&iacute;tica. Em preto e branco, aquela narrativa n&atilde;o teria colado. O rid&iacute;culo dos tipos inventados pelo novelista, impostores e usurpadores, n&atilde;o poderia ser retratado em tons de cinza, nem mesmo em tons pastel. Um arco-&iacute;ris s&oacute; n&atilde;o bastaria. O deslumbramento do telespectador diante das colora&ccedil;&otilde;es da tela espelhava o deslumbramento da vi&uacute;va com as pr&oacute;prias extravag&acirc;ncias crom&aacute;ticas &ndash; extravag&acirc;ncias pr&aacute;ticas, pol&iacute;ticas, verbais e amorosas. Roque Santeiro se beneficiava ao m&aacute;ximo das possibilidades tecnol&oacute;gicas da TV dos anos 80. Dias Gomes e a TV em cores nasceram um para o outro.<\/p>\n<p>E agora, na era digital? Qual ser&aacute; a est&eacute;tica da TV brasileira?<\/p>\n<p>Por enquanto, a resposta n&atilde;o existe. O que se pode dizer &eacute; que ela ainda se debate nos embustes anacr&ocirc;nicos de Asa Branca, onde os figur&otilde;es s&atilde;o festejados por serem o que jamais foram e as novidades raramente passam de fogos de artif&iacute;cio que se dissolvem no c&eacute;u.<\/p>\n<p>Segundo acreditavam os mais otimistas, a TV digital traria tanta interatividade quanto a internet. At&eacute; agora, nada feito. Traria a multiprograma&ccedil;&atilde;o, quer dizer, cada canal poderia transmitir ao mesmo tempo quatro programas simultaneamente. Negativo: algumas emissoras p&uacute;blicas t&ecirc;m planos nessa &aacute;rea, mas a opera&ccedil;&atilde;o ainda vai demorar. Prometeram que ela seria sintonizada em autom&oacute;veis e no metr&ocirc;, em minitelevisores m&oacute;veis. Bem, os transeuntes ainda aguardam. Quanto aos que querem captar o sinal em casa, precisam desembolsar algo em torno de R$ 1 mil na compra do tal set-top box, o conversor que viria a pre&ccedil;os camaradas.<\/p>\n<p>Uma &uacute;nica promessa foi cumprida, ainda que para poucos: a alta defini&ccedil;&atilde;o. As imagens de est&uacute;dio de alguns programas j&aacute; s&atilde;o transmitidas no novo padr&atilde;o. Mas eis que &ndash; suprema ironia involunt&aacute;ria &ndash; as novas c&acirc;meras acabam mostrando o que as c&acirc;meras anteriores primavam por esconder: desmascaram o que a encena&ccedil;&atilde;o televisiva sempre dependeu de ocultar. A maquiagem do &acirc;ncora, mal fixada sobre imperfei&ccedil;&otilde;es rugosas, explode na tela. A gente tem a sensa&ccedil;&atilde;o de que poder&aacute; ver cada gr&atilde;o do p&oacute;-de-arroz. Os retoques na parede, antes impercept&iacute;veis, convertem-se em cicatrizes intoler&aacute;veis. O que at&eacute; ent&atilde;o parecia um fino trabalho de bronze n&atilde;o passa de madeira pintada com spray dourado. Com a alta defini&ccedil;&atilde;o, os artif&iacute;cios que criavam a ilus&atilde;o de realidade est&atilde;o nus, constrangedoramente nus.<\/p>\n<p>Claro, todos sabem, esse desconforto &eacute; s&oacute; uma quest&atilde;o de tempo. Logo mais as engrenagens da ilus&atilde;o mudar&atilde;o de lugar, as t&eacute;cnicas de maquiagem e cenografia v&atilde;o se adaptar e a alta defini&ccedil;&atilde;o triunfar&aacute;. A&iacute;, a TV digital deixar&aacute; de ser mito e se dar&aacute; a ver. N&atilde;o cumprir&aacute; todas as promessas, mas ser&aacute; um eletrodom&eacute;stico mais acess&iacute;vel. Se serve de consolo, &eacute; bom lembrar que o pr&oacute;prio Roque Santeiro tamb&eacute;m decidiu se dar a ver: voltou para Asa Branca e anunciou que n&atilde;o tinha morrido coisa nenhuma. Foi um forrobod&oacute;. Uma novela memor&aacute;vel. Mereceu ter sobrevivido &agrave; censura. Mereceu emplacar na segunda tentativa, dez anos depois da primeira. Que os f&atilde;s da TV digital n&atilde;o tenham que esperar tanto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem tudo d&aacute; certo logo de cara. A novela Roque Santeiro, por exemplo, s&oacute; vingou na segunda tentativa. A primeira aconteceu em 1975 e foi abortada: a produ&ccedil;&atilde;o j&aacute; tinha come&ccedil;ado quando a Censura Federal implicou e for&ccedil;ou o cancelamento da estr&eacute;ia. Dez anos mais tarde, em 1985, ela finalmente entrou no hor&aacute;rio nobre e, &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20135\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">TV digital: ela veio sem nunca ter vindo<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[589,588],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20135"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20135"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20135\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}