{"id":20095,"date":"2007-12-19T14:58:33","date_gmt":"2007-12-19T14:58:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20095"},"modified":"2007-12-19T14:58:33","modified_gmt":"2007-12-19T14:58:33","slug":"tv-brasil-por-um-debate-menos-rastaquera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20095","title":{"rendered":"TV Brasil: por um debate menos rastaq\u00fcera"},"content":{"rendered":"<p>Tudo avan&ccedil;a na implanta&ccedil;&atilde;o da TV Brasil, a nova estrutura de radiodifus&atilde;o do poder executivo federal, que pretende ser o n&uacute;cleo de uma futura rede p&uacute;blica de televis&atilde;o. O conselho curador, composto por personalidades de campos variados da sociedade, foi empossado na sexta-feira (14\/12). A diretoria executiva, que tem &agrave; frente a jornalista Teresa Cruvinel, j&aacute; trabalha h&aacute; meses. A integra&ccedil;&atilde;o da Radiobr&aacute;s com a Organiza&ccedil;&atilde;o Social Roquette Pinto (TVE-Rio e TVE-Maranh&atilde;o), que resultar&aacute; na Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o, j&aacute; tem os contornos definidos e est&aacute; em curso. Escrit&oacute;rios e equipes est&atilde;o em opera&ccedil;&atilde;o no Rio, em Bras&iacute;lia e S&atilde;o Paulo. O pr&oacute;prio canal j&aacute; est&aacute; no ar, com programa&ccedil;&atilde;o provis&oacute;ria, desde 2 de dezembro, quando foi lan&ccedil;ado junto com a TV digital. O que falta, ent&atilde;o, para a TV Brasil acelerar as turbinas e decolar de vez?<\/p>\n<p>O b&aacute;sico: a seguran&ccedil;a legal. Segue ainda em aprecia&ccedil;&atilde;o no Congresso Nacional a Medida Provis&oacute;ria n&ordm; 398, de 10 de outubro deste ano, que &quot;institui os princ&iacute;pios e objetivos dos servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o p&uacute;blica explorados pelo Poder Executivo ou outorgados a entidades de sua administra&ccedil;&atilde;o indireta, e autoriza o Poder Executivo a constituir a Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; EBC&quot;, conforme explicita seu texto. Mesmo n&atilde;o aprovada ainda, a MP j&aacute; foi regulamentada pelo decreto-lei n&ordm; 6.246, de 24 de outubro, que criou a EBC e aprovou seu estatuto, entre outras provid&ecirc;ncias. Ou seja: da parte da presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica e do poder executivo em geral, as cartas est&atilde;o dadas. Agora cabe ao legislativo decidir se continua ou se mela o jogo.<\/p>\n<p>O problema que se coloca, para a qualidade da decis&atilde;o a ser tomada, &eacute; que o assunto TV Brasil vem merecendo um debate indigente, no meio parlamentar e na opini&atilde;o p&uacute;blica. A institui&ccedil;&atilde;o de uma rede p&uacute;blica, para complementar o sistema nacional de televis&atilde;o (nos termos do Artigo 223 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal), &eacute; assunto de consider&aacute;vel complexidade t&eacute;cnica e de enorme impacto pol&iacute;tico, em sentido amplo, pelo que pode alterar na oferta de produtos culturais na tela, na representa&ccedil;&atilde;o televisiva de grupos sociais e nas posi&ccedil;&otilde;es de mercado das emissoras existentes. Mas vem sendo discutido, no Congresso e na imprensa, em termos absolutamente restritos e insuficientes, de uma suposta tentativa do presidente Lula de criar uma m&aacute;quina de propaganda para seu governo. <\/p>\n<p><strong>Oportunismo? Que oportunismo?<\/p>\n<p><\/strong>A tese &eacute; contradit&oacute;ria por si s&oacute;. Os mesmos setores que denunciam essa presumida inten&ccedil;&atilde;o de Lula s&atilde;o os que apontam a desnecessidade da televis&atilde;o p&uacute;blica no pa&iacute;s, &quot;porque consome recursos e n&atilde;o tem audi&ecirc;ncia&quot;. Ora, se n&atilde;o tem audi&ecirc;ncia, o que o presidente lucraria em instrumentaliz&aacute;-la em seu favor? Faria propaganda para quem? <\/p>\n<p>N&atilde;o lhe seria muito mais &uacute;til recorrer aos instrumentos de comunica&ccedil;&atilde;o de que j&aacute; disp&otilde;e, como a publicidade oficial (mais de 1 bilh&atilde;o de reais, entre administra&ccedil;&atilde;o direta e indireta), a requisi&ccedil;&atilde;o de hor&aacute;rios em cadeia nacional de emissoras para seus pronunciamentos (cess&atilde;o obrigat&oacute;ria), ou mesmo os programas jornal&iacute;sticos das redes comerciais, que est&atilde;o permanentemente &aacute;vidos por entrevistar o primeiro mandat&aacute;rio do pa&iacute;s? Isso, sem contar o poder amplo da caneta em sua m&atilde;o. Todos conhecem a hist&oacute;rica disposi&ccedil;&atilde;o das emissoras comerciais em simpatizar com governos que lhes facilitam a vida, com medidas regulat&oacute;rias favor&aacute;veis, isen&ccedil;&otilde;es fiscais, financiamento barato em bancos estatais e farta publicidade. <\/p>\n<p>Se Lula est&aacute; criando a TV Brasil para fazer propaganda, s&oacute; poder&aacute; beneficiar-se a longo prazo, porque n&atilde;o ser&aacute; em poucos anos que uma nova rede, e ainda mais de caracter&iacute;sticas educativo-culturais, atingir&aacute; &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia capazes de rivalizar com os das redes comerciais. Portanto, Lula colher&aacute; o fruto &ndash; se colher &ndash; quando n&atilde;o for mais presidente da Rep&uacute;blica. N&atilde;o &eacute; um estranho tipo de oportunismo, esse que trar&aacute; o benef&iacute;cio quando ele n&atilde;o for mais necess&aacute;rio?<\/p>\n<p><strong>Avan&ccedil;o importante<\/p>\n<p><\/strong>Se n&atilde;o justifica qualquer tenta&ccedil;&atilde;o manipulat&oacute;ria de governantes, seja Lula ou qualquer outro, a baixa audi&ecirc;ncia dos canais p&uacute;blicos existentes serve de argumento econ&ocirc;mico aos opositores da TV Brasil. A emissora &eacute; desqualificada porque consumiria recursos importantes, desfalcando &aacute;reas priorit&aacute;rias como educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, abastecimento, seguran&ccedil;a e habita&ccedil;&atilde;o. Outro dia mesmo, o l&iacute;der dos Democratas no Senado, Jos&eacute; Agripino Maia, celebrava o fim da CPMF dizendo que o governo pode muito bem superar o golpe em seu caixa &quot;gastando melhor o que tem e evitando despesas in&uacute;teis como a TV p&uacute;blica&quot;. <\/p>\n<p>Esse discurso embute a cren&ccedil;a de que a televis&atilde;o comercial atende muito bem &agrave;s necessidades do pa&iacute;s, que n&atilde;o precisaria da televis&atilde;o p&uacute;blica. A TV comercial j&aacute; estaria legitimada pelo simples fato de ter audi&ecirc;ncia maior. Se o telespectador a prefere, &eacute; porque encontra nela o que deseja. Logo, &eacute; a melhor forma de TV existente e n&atilde;o justifica gastos p&uacute;blicos em canais n&atilde;o-comerciais. Em vez de se criar a TV Brasil, talvez fosse o caso de extinguir todos os canais p&uacute;blicos e estatais existentes.<\/p>\n<p>N&atilde;o vem ao caso para esses privatistas, &eacute; claro, o detalhe de que a TV comercial descumpre quase integralmente os dispositivos constitucionais que determinam &agrave; televis&atilde;o &ndash; toda e qualquer &ndash; prover entretenimento, educa&ccedil;&atilde;o e informa&ccedil;&atilde;o. Que obrigam &agrave; veicula&ccedil;&atilde;o de programa&ccedil;&atilde;o regional e produ&ccedil;&atilde;o independente. N&atilde;o vem ao caso, tamb&eacute;m, que milh&otilde;es de telespectadores manifestem sua insatisfa&ccedil;&atilde;o com os canais comerciais e que toda pesquisa de opini&atilde;o sobre seu conte&uacute;do aponte, invariavelmente, que o p&uacute;blico deseja mais cultura e educa&ccedil;&atilde;o na tela.<\/p>\n<p>As discuss&otilde;es sobre a TV Brasil e sobre a televis&atilde;o p&uacute;blica no Brasil articulam-se, mas n&atilde;o se confundem. &Eacute; pac&iacute;fico, para quem analisa o assunto de boa f&eacute;, que ser&aacute; bom para o pa&iacute;s um sistema equilibrado de emissoras comerciais, p&uacute;blicas e estatais &ndash; e n&atilde;o apenas porque a Constitui&ccedil;&atilde;o imp&otilde;e. Ser&aacute; bom porque cada tipo de emissora cumprir&aacute; fun&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas, complementando-se para favorecer o crescimento econ&ocirc;mico, o desenvolvimento social e o avan&ccedil;o da cidadania. &Eacute; assim que ocorre nas democracias mais desenvolvidas do mundo. N&atilde;o h&aacute; porque ser diferente na nossa.<\/p>\n<p>A TV Brasil, portanto, deve ser analisada pelo que prop&otilde;e ao pa&iacute;s. E &eacute; justamente isso que justifica a sua viabiliza&ccedil;&atilde;o, a despeito dos erros de condu&ccedil;&atilde;o e das insufici&ecirc;ncias de seu projeto, criticados por este escriba h&aacute; alguns meses. O governo poderia ter feito muito mais pela reforma do campo p&uacute;blico da televis&atilde;o, mas a TV Brasil representa um avan&ccedil;o colossal diante do que temos hoje no pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>Grandeza pol&iacute;tica<\/p>\n<p><\/strong>&Eacute; a &uacute;nica emissora que traz em seu estatuto todos os nobres objetivos constitucionais ignorados pela televis&atilde;o comercial. &Eacute; uma emissora que vem para romper a anacr&ocirc;nica verticaliza&ccedil;&atilde;o do mercado televisivo, em que as mesmas empresas que transmitem s&atilde;o as que produzem os programas. Vem para desconcentrar o mercado, abrindo-o &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente e regional, e fomentando a diversidade cultural. Vem para estimular trocas culturais, no plano audiovisual, entre o Brasil e o resto do mundo, n&atilde;o para atuar como posto de distribui&ccedil;&atilde;o de filmes, s&eacute;ries e programas norte-americanos, importados sob a &oacute;tica estrita de sua rentabilidade.<\/p>\n<p>H&aacute; risco da programa&ccedil;&atilde;o, em especial a jornal&iacute;stica, ser parcial e tendenciosa? Sim, claro, mas &eacute; o mesmo de qualquer outra emissora, p&uacute;blica ou comercial. Pergunte-se aos advers&aacute;rios dos cl&atilde;s Sarney, no Maranh&atilde;o, ou Magalh&atilde;es, na Bahia, se consideram isento o notici&aacute;rio da TV Mirante ou da TV Bahia. Pergunte-se aos advers&aacute;rios de Roberto Requi&atilde;o, do Paran&aacute;, se consideram inadequada a a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico, que acusa o governador de usar a TVE local para &quot;promo&ccedil;&atilde;o pessoal e ataques &agrave; imprensa e advers&aacute;rios&quot;. O poder pol&iacute;tico sempre tentar&aacute; usar a televis&atilde;o em favor de seus interesses, com maior ou menor &ecirc;nfase, &agrave;s claras ou manobrando nas sombras. Cabe &agrave; sociedade construir mecanismos democr&aacute;ticos que impe&ccedil;am isso.<\/p>\n<p>Na TV Brasil, o pr&oacute;prio poder que a institui oferece o ant&iacute;doto para a sua cobi&ccedil;a. A emissora nasce por iniciativa estatal, mas mirando em ser uma estrutura efetivamente p&uacute;blica, sob controle da sociedade, atrav&eacute;s do conselho curador que l&aacute; est&aacute; para zelar pelo interesse coletivo. Conselho que foi indicado por Lula, mas que renovar&aacute; a si mesmo, doravante, assegurando a composi&ccedil;&atilde;o minorit&aacute;ria de representantes do governo. Conselho que instalou-se muito convicto de sua miss&atilde;o, j&aacute; anunciando uma ouvidoria para as queixas do p&uacute;blico e uma corregedoria para eventuais abusos internos. Nenhuma emissora comercial tem sequer o ouvidor, quanto mais algum conselho consultivo da sociedade. E mesmo na televis&atilde;o p&uacute;blica, apenas a TV Cultura de S&atilde;o Paulo tem a autonomia buscada pela TV Brasil.<\/p>\n<p>O Congresso Nacional tem o dever de aprovar a MP 398, legalizando a opera&ccedil;&atilde;o da TV Brasil. Tem de assegurar a ela os recursos necess&aacute;rios &agrave; sua implanta&ccedil;&atilde;o, amea&ccedil;ados que ficaram, como todos os novos investimentos do governo, com a extin&ccedil;&atilde;o da CPMF. Tem de fazer isso com esp&iacute;rito p&uacute;blico e grandeza pol&iacute;tica, para al&eacute;m das conting&ecirc;ncias dos duelos partid&aacute;rios e dos embates eleitorais. O que est&aacute; em jogo &eacute; o desenvolvimento do pa&iacute;s e o aprofundamento da democracia. Um forte, multifacetado e equilibrado sistema de televis&atilde;o &eacute; ferramenta indispens&aacute;vel a essas metas. S&oacute; o atraso tem a perder com ele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo avan&ccedil;a na implanta&ccedil;&atilde;o da TV Brasil, a nova estrutura de radiodifus&atilde;o do poder executivo federal, que pretende ser o n&uacute;cleo de uma futura rede p&uacute;blica de televis&atilde;o. O conselho curador, composto por personalidades de campos variados da sociedade, foi empossado na sexta-feira (14\/12). 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