{"id":20087,"date":"2007-12-18T14:18:27","date_gmt":"2007-12-18T14:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20087"},"modified":"2007-12-18T14:18:27","modified_gmt":"2007-12-18T14:18:27","slug":"retrato-de-uma-imprensa-as-vesperas-dos-seus-200-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20087","title":{"rendered":"Retrato de uma imprensa \u00e0s v\u00e9speras dos seus 200 anos"},"content":{"rendered":"<p>A m&iacute;dia, especialmente a m&iacute;dia impressa e principalmente a di&aacute;ria, chega atarantada &agrave;s festas de fim de ano. Ao esquema de fechamento insano, desumano, prec&aacute;rio, acrescenta-se o extraordin&aacute;rio volume de p&aacute;ginas para acompanhar a avalanche de an&uacute;ncios. <\/p>\n<p>Faturar alto seria muito bom se o empres&aacute;rio de jornal n&atilde;o se comportasse exatamente como o empres&aacute;rio que fabrica salsichas, despreocupado com contrapartidas.<\/p>\n<p>Na atual alucina&ccedil;&atilde;o natalina subverteu-se o crit&eacute;rio de relev&acirc;ncia que h&aacute; 400 anos comanda o processo de escolher e destacar informa&ccedil;&otilde;es nos ve&iacute;culos peri&oacute;dicos. O que entra numa edi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; necessariamente o que mais importa ao leitor, o que &eacute; destacado nem sempre &eacute; o mais pertinente. No lugar do princ&iacute;pio da transcend&ecirc;ncia, o imp&eacute;rio da aleatoriedade. <\/p>\n<p><strong>Dogmas &quot;da casa&quot;<\/p>\n<p><\/strong>Como se n&atilde;o bastassem estes desacertos elementares, nossa reda&ccedil;&otilde;es est&atilde;o engessadas por f&oacute;rmulas burocr&aacute;ticas estabelecidas pelo departamento comercial ou decretadas pela dire&ccedil;&atilde;o para preservar o v&iacute;cio da segmenta&ccedil;&atilde;o e do cadernismo. <\/p>\n<p>Antes mesmo de tra&ccedil;ado o primeiro esbo&ccedil;o da primeira p&aacute;gina j&aacute; est&atilde;o anotadas tantas recomenda&ccedil;&otilde;es e proibi&ccedil;&otilde;es, tantos preceitos e preconceitos, que a soma das criatividades do diretor de arte e do editor reduz-se a 10% do seu potencial. <\/p>\n<p>A obriga&ccedil;&atilde;o de valorizar os cadernos para adolescentes, comes &amp; bebes, inform&aacute;tica, turismo, TV ou a cr&ocirc;nica feminina deixam um espa&ccedil;o m&iacute;nimo para a valoriza&ccedil;&atilde;o decente dos fatos do dia. Al&eacute;m disso, h&aacute; os &quot;especiais&quot; que antigamente designava-se como &quot;picaretagens&quot;, sem eufemismos por&eacute;m com certo recato, e agora s&atilde;o vendidos despudoradamente com a promessa de destaque na primeira p&aacute;gina. <\/p>\n<p>Como se n&atilde;o bastasse, h&aacute; os dogmas &quot;da casa&quot; (&quot;uma cifra, qualquer cifra, vale mais do que um fato, qualquer fato&quot;), os acertos do pool corporativo, as orienta&ccedil;&otilde;es da dire&ccedil;&atilde;o e a fogueira das vaidades dos colunistas. A sobra &eacute; m&iacute;nima.<\/p>\n<p><strong>Ladeira abaixo<\/p>\n<p><\/strong>Se o panorama &eacute; desanimador nas capas dos jornais, nas p&aacute;ginas internas a deforma&ccedil;&atilde;o &eacute; produzida pela licenciosidade publicit&aacute;ria. As ag&ecirc;ncias de propaganda pagam alt&iacute;ssimos sal&aacute;rios aos seus criativos (aplausos calorosos!), mas isso n&atilde;o deve significar que esses geniais criativos tenham o direito de pisotear os c&acirc;nones de leitura e da arquitetura interior de nossos jornais. Quem deve ser endeusado n&atilde;o &eacute; o anunciante, mas o leitor que paga para receber um jornal bem informado, bem escrito e&#8230; minimamente leg&iacute;vel. <\/p>\n<p>Um pouco de hombridade e honestidade da parte dos departamentos comerciais tornaria nossos jornais menos vulner&aacute;veis aos malabarismos circenses que infernizam a vida de quem precisa ler jornais. E, aten&ccedil;&atilde;o: eles s&atilde;o em n&uacute;mero cada vez menor.<\/p>\n<p>Pouco interessa ao leitor se a ag&ecirc;ncia ganhou um pr&ecirc;mio em Cannes ou no Canind&eacute; com a sua barafunda psicod&eacute;lica concebida para liquidar as diferen&ccedil;as entre informa&ccedil;&atilde;o e an&uacute;ncio (caso da recente campanha da ag&ecirc;ncia &Aacute;frica para a Phillips). O leitor gosta de an&uacute;ncios desde que oferecidos como an&uacute;ncios, sem truques ou mistifica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>As mazelas do nosso grande jornalismo n&atilde;o s&atilde;o pol&iacute;ticas, ou melhor, podem n&atilde;o ser claramente pol&iacute;ticas, mas s&atilde;o tantas e t&atilde;o entranhadas que acabam criando padr&otilde;es jornal&iacute;sticos inconfi&aacute;veis no resto da m&iacute;dia. N&atilde;o esque&ccedil;amos que no Brasil inexistem ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias aut&ocirc;nomas, o jornal &eacute; ainda o grande pautador do r&aacute;diojornalismo, do telejornalismo e do webjornalismo. Uma pequena asneira produzida pela balb&uacute;rdia no fechamento rola ladeira abaixo com tal velocidade que em apenas 60 minutos converte-se numa asneira enorme, dif&iacute;cil de erradicar ou contraditar.<\/p>\n<p><strong>Reserva de qualidade<\/p>\n<p><\/strong>O quadro parece menos desolador nas temporadas opulentas quando a quantidade disfar&ccedil;a a qualidade. Fica mais vis&iacute;vel na saison das vacas magras. Breve, em janeiro, teremos o indefect&iacute;vel &quot;jornalismo de ver&atilde;o&quot; com edi&ccedil;&otilde;es mirradas, mais complicadas para preencher por causa dos recessos, f&eacute;rias, recheadas de modismos e abobrinhas sob o pretexto de atrair o p&uacute;blico feminino. <\/p>\n<p>A id&eacute;ia de que leitoras s&oacute; se interessam por superficialidades e mundanidades &eacute; terrivelmente injusta e preconceituosa, por&eacute;m condenada &agrave; clandestinidade &ndash; tabu. Nenhuma jornalista ou colunista ousaria propor uma discuss&atilde;o sobre o assunto numa reuni&atilde;o de pauta. Nenhum jornal ou revista encomendaria uma sondagem a respeito. E, no entanto, quando as tiragens come&ccedil;am a cair a solu&ccedil;&atilde;o mais comum &eacute; apelar para a mulher e insistir na tal da &quot;leveza&quot;. <\/p>\n<p>Temos editores da melhor qualidade, redatores talentosos, rep&oacute;rteres incans&aacute;veis, temos at&eacute; recantos de bom n&iacute;vel jornal&iacute;stico (caso do Valor Econ&ocirc;mico), mas o quadro geral &agrave;s v&eacute;speras das comemora&ccedil;&otilde;es dos 200 anos da funda&ccedil;&atilde;o da imprensa brasileira &eacute; lament&aacute;vel. A festa merece convidados menos mambembes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m&iacute;dia, especialmente a m&iacute;dia impressa e principalmente a di&aacute;ria, chega atarantada &agrave;s festas de fim de ano. Ao esquema de fechamento insano, desumano, prec&aacute;rio, acrescenta-se o extraordin&aacute;rio volume de p&aacute;ginas para acompanhar a avalanche de an&uacute;ncios. 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