{"id":20073,"date":"2007-12-17T16:17:07","date_gmt":"2007-12-17T16:17:07","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20073"},"modified":"2007-12-17T16:17:07","modified_gmt":"2007-12-17T16:17:07","slug":"a-midia-nao-representa-a-elite-ela-e-a-elite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20073","title":{"rendered":"A m\u00eddia n\u00e3o representa a elite; ela \u00e9 a elite"},"content":{"rendered":"<p><em>Doutor em comunica&ccedil;&atilde;o e professor da UFPE, o pesquisador Edgard Rebou&ccedil;as &eacute; um dos coordenadores da Campanha Quem Financia a Baixaria &eacute; contra a Cidadania. Em entrevista ao Sindsep, ele faz um balan&ccedil;o geral da atual crise da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil. Confira a seguir.<\/em> <\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>De forma resumida, o que est&aacute; acontecendo com a imprensa brasileira? O senhor concorda que ela seja golpista e representa um partido pol&iacute;tico da elite?<br \/><\/strong>A imprensa brasileira est&aacute; simplesmente fazendo o que sempre fez ao longo de sua hist&oacute;ria: ficar ao lado do poder, ou melhor ser a voz da classe dominante, seja ela econ&ocirc;mica ou pol&iacute;tica. E este n&atilde;o &eacute; um sintoma exclusivo do Brasil, tal fato ocorre em todos os pa&iacute;ses. &Eacute; um engano, e uma grande ingenuidade, querer acreditar que a imprensa tem um papel de defesa do interesse p&uacute;blico, que representa a opini&atilde;o da sociedade ou que tem &ldquo;o rabo preso com o leitor&rdquo;, como &eacute; o slogan do maior jornal do pa&iacute;s. Dessa forma, n&atilde;o se pode dizer que ela est&aacute; sendo golpista ou que representa a elite. Ela&nbsp;&eacute; a elite! Cabe aos leitores criarem seus pr&oacute;prios mecanismos de enfrentar tal situa&ccedil;&atilde;o. Uma delas &eacute; boicotar a grande imprensa e procurar informa&ccedil;&otilde;es e an&aacute;lises nas in&uacute;meras publica&ccedil;&otilde;es que v&ecirc;m surgindo nos &uacute;ltimos anos na internet.<\/p>\n<p><strong>N&atilde;o existe transpar&ecirc;ncia nas concess&otilde;es de radiodifus&atilde;o. Muitos pol&iacute;ticos s&atilde;o concession&aacute;rios de r&aacute;dio e TV, sobretudo nos munic&iacute;pios tidos como seus redutos eleitorais. Em que consiste a Campanha por Democracia e Transpar&ecirc;ncia nas Concess&otilde;es de R&aacute;dio e TV?<br \/><\/strong>Primeiramente &eacute; necess&aacute;rio corrigirmos um pequeno mal entendido na quest&atilde;o dos pol&iacute;ticos e as concess&otilde;es. N&atilde;o h&aacute; nenhuma lei que impe&ccedil;a um dono de empresa de comunica&ccedil;&atilde;o se eleger, nem que um pol&iacute;tico receba uma concess&atilde;o; o que n&atilde;o pode &eacute; exercer um cargo eletivo e dirigir uma concession&aacute;ria ao mesmo tempo, mas ser s&oacute;cio pode. Por mais que achemos isso imoral, ilegal n&atilde;o &eacute;. A chave deste problema est&aacute; em duas anomalias registradas nos processos de concess&otilde;es. A primeira, em 1987 e 1988, quando o ent&atilde;o presidente Jos&eacute; Sarney usou das concess&otilde;es da r&aacute;dio e TV como moeda de troca junto aos constituintes para garantir a prorroga&ccedil;&atilde;o de seu mandato por mais um ano. A segunda quando, em, 1995, Fernando Henrique promoveu a chamara &ldquo;farra das concess&otilde;es&rdquo; para garantir a emenda da reelei&ccedil;&atilde;o. Essa duas anomalias fizeram com que surgisse no mundo da comunica&ccedil;&atilde;o a figura do pol&iacute;tico-radiodifusor &ndash; lembrando que o radiodifusor-pol&iacute;ticos j&aacute; existia, assim como o m&eacute;dico-pol&iacute;tico, advogado-pol&iacute;tico, ruralista-pol&iacute;tico e at&eacute; servidor-pol&iacute;tico. O problema &eacute; que esse novo personagem n&atilde;o tem o neg&oacute;cio de comunica&ccedil;&atilde;o como sua fonte de renda, sequer sabe como funciona, s&oacute; sabe que pode us&aacute;-lo como mais um palanque.&nbsp; <\/p>\n<p>O que a Campanha por Democracia e Transpar&ecirc;ncia nas Concess&otilde;es de R&aacute;dio e TV quer &eacute; que sejam criados mecanismos claros de distribui&ccedil;&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o deste bem que pertence a todos n&oacute;s, j&aacute; que as concess&otilde;es s&atilde;o p&uacute;blicas. Atualmente os crit&eacute;rios do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o meramente t&eacute;cnicos: se os sinais de &aacute;udio e v&iacute;deo s&atilde;o de boa qualidade. J&aacute; os crit&eacute;rios dos deputados e senadores s&atilde;o meramente pol&iacute;ticos. Queremos &eacute; uma concess&atilde;o que atenda a crit&eacute;rios de compromisso social, conte&uacute;do &eacute;tico, com informa&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o e cultura, que tenha programa&ccedil;&atilde;o regional e independente. O que queremos &eacute; simplesmente o que j&aacute; est&aacute; no artigo 221 da Constitui&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>A campanha Quem Financia a Baixaria &eacute; contra a Cidadania tem atingido seu objetivo? Qual sua real finalidade?<\/strong><br \/>A campanha Quem financia a baixaria &eacute; contra a cidadania completa cinco anos neste m&ecirc;s de novembro. Ela foi criada com base em propostas sa&iacute;das da VII Confer&ecirc;ncia Nacional de Direitos Humanos, e, por iniciativa da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos e Minorias da C&acirc;mara dos Deputados, dezenas de entidades da sociedade civil se reuniram com o objeto de promover o respeito aos direitos humanos e &agrave; dignidade do cidad&atilde;o na programa&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o brasileira. <\/p>\n<p>Com base em den&uacute;ncias dos telespectadores pelo telefone 0800 619 619 ou pelo site www.eticanatv.org.br &eacute; feito um acompanhamento dos programas para indicar de que forma desrespeitam as conven&ccedil;&otilde;es internacionais assinadas pelo Brasil, os princ&iacute;pios constitucionais e a legisla&ccedil;&atilde;o que protege os direitos humanos e a cidadania. Foram v&aacute;rias conquistas nestes cinco anos, entre elas: temos uma m&eacute;dia de 700 den&uacute;ncias fundamentadas por m&ecirc;s; a resposta de v&aacute;rios anunciantes, se comprometendo a n&atilde;o mais colocarem publicidade em programas que desrespeitam os direitos humanos; a mudan&ccedil;a nas grades de programa&ccedil;&atilde;o e nos conte&uacute;dos de v&aacute;rios programas de rede nacional, a contribui&ccedil;&atilde;o para a decis&atilde;o in&eacute;dita da Justi&ccedil;a Federal que obrigou a produ&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o do programa Direitos de Resposta, na Rede TV!, por um m&ecirc;s, no lugar o programa do Jo&atilde;o Kleber; a colabora&ccedil;&atilde;o para a cria&ccedil;&atilde;o da Nova Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa da televis&atilde;o, do cinema e dos videogames; na proposta de Regulamenta&ccedil;&atilde;o da Publicidade Destinada a Crian&ccedil;as e Adolescentes; e nos debates da Anvisa do regulamento sobre a publicidade de alimentos que causam a obesidade; e a cria&ccedil;&atilde;o do Dia Nacional contra a Baixaria na TV, sempre no terceiro domingo de outubro, com o objetivo de motivar a&ccedil;&otilde;es e debates em torno da &eacute;tica na m&iacute;dia e os direitos humanos.<\/p>\n<p><strong>O que est&aacute; faltando para engajar a sociedade nesses movimentos?<\/strong><br \/>A campanha come&ccedil;ou das bases da sociedade, o problema &eacute; que muitas entidades redirecionaram suas a&ccedil;&otilde;es para quest&otilde;es mais imediatas de suas &aacute;reas espec&iacute;ficas, se esquecendo que o problema das comunica&ccedil;&otilde;es cruza todos os processos sociais, pol&iacute;ticos, econ&ocirc;micos e culturais. &Eacute; preciso que os trabalhadores, as donas-de-casa, os educadores&#8230; recuperem seu papel de protagonista neste debate. N&atilde;o &eacute; o controle remoto que vai mudar os desrespeitos que vemos na TV, sim o controle social. Aqui no estado h&aacute; o F&oacute;rum Pernambucano de Comunica&ccedil;&atilde;o (Fopecom), o Minist&eacute;rio P&uacute;blico e v&aacute;rias entidades que j&aacute; atuam nessa &aacute;rea. Na universidade, acabamos de criar o Observat&oacute;rio da M&iacute;dia Regional: direitos humanos, pol&iacute;ticas e sistemas, que vai fazer um acompanhamento sistem&aacute;tico do r&aacute;dio e da TV. E todos podem participar. Comprometo-me publicamente a abastecer o Jornal do Sindsep com informa&ccedil;&otilde;es peri&oacute;dicas sobre as atividades do Observat&oacute;rio.<\/p>\n<p><strong>O senhor acha poss&iacute;vel mudar foco das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o? Os jornais impressos s&atilde;o empresas privadas, mas as r&aacute;dios e as TVs recebem concess&otilde;es p&uacute;blicas. A sociedade n&atilde;o deveria participar mais das decis&otilde;es?<\/strong><br \/>Cabe a entidades como os sindicatos, as escolas, as igrejas pautarem este debate em suas atividades. Se formos esperar que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o ou que o governo coloquem isso em discuss&atilde;o n&atilde;o chegaremos a lugar nenhum.<\/p>\n<p><strong>N&atilde;o seria o caso de a sociedade organizada construir mecanismos para uma comunica&ccedil;&atilde;o contra-hegem&ocirc;nica? O MST j&aacute; vem tentando, com seu n&uacute;cleo de comunica&ccedil;&atilde;o, quebrar essa hegemonia da grande imprensa.<\/strong><br \/>Precisamos antes capacitar a sociedade para fazer comunica&ccedil;&atilde;o. Foram s&eacute;culos de comodismo s&oacute; recebendo. Paradoxalmente, s&atilde;o as tecnologias, que sempre foram usadas como instrumento de opress&atilde;o nas m&atilde;os das elites, que est&atilde;o criando uma grande brecha desta resist&ecirc;ncia. Principalmente pelos sites com texto, &aacute;udio e v&iacute;deo, meios que at&eacute; pouco tempo s&oacute; eram usados empresas. Al&eacute;m dos grandes movimentos, como o MST, as centrais sindicais e as ONGs, acredito muito tamb&eacute;m na comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria participativa; mais local.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confira a entrevista com o coordenador da Campanha pela \u00c9tica na TV.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[577],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20073"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20073"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20073\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}