{"id":20050,"date":"2007-12-13T16:14:14","date_gmt":"2007-12-13T16:14:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20050"},"modified":"2007-12-13T16:14:14","modified_gmt":"2007-12-13T16:14:14","slug":"politicas-de-radiodifusao-indefinicao-legal-na-terra-de-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20050","title":{"rendered":"Pol\u00edticas de radiodifus\u00e3o: indefini\u00e7\u00e3o legal na terra de ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><span>A (segunda) longa sess&atilde;o de julgamento de Renan Calheiros no plen&aacute;rio do Senado Federal (ter&ccedil;a, 4\/12) teve um desfecho esclarecedor para aqueles que se interessam pela regula&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s. Refutando a acusa&ccedil;&atilde;o de quebra de decoro por compra irregular de emissoras de r&aacute;dio em Alagoas &ndash; a quest&atilde;o-chave que havia sido convenientemente ignorada por quase todos os oradores &ndash;, o j&aacute; ex-presidente do Senado perguntou dirigindo-se candidamente aos seus pares:<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;Por que eu haveria de usar `laranjas&acute; ou ser s&oacute;cio oculto [por meio de um contrato de gaveta] se a compra direta de uma emissora de r&aacute;dio seria perfeitamente legal?&quot;. <\/p>\n<p><\/span><span>A resposta oculta &agrave; pergunta do senador Renan est&aacute; impl&iacute;cita nos 48 votos contr&aacute;rios &agrave; sua cassa&ccedil;&atilde;o dados por um plen&aacute;rio repleto onde quase um ter&ccedil;o dos senhores senadores s&atilde;o &ndash; eles pr&oacute;prios ou seus familiares &ndash; concession&aacute;rios de emissoras de r&aacute;dio e\/ou televis&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>Al&eacute;m disso, no dia seguinte, revela-se que na declara&ccedil;&atilde;o de bens &agrave; Justi&ccedil;a Eleitoral feita em 2006, um dos postulantes &agrave; vaga de presidente do Senado, o senador Garibaldi Filho (PMDB-RN), aparece como propriet&aacute;rio de 190 mil cotas da R&aacute;dio Cabugi do Serid&oacute; (RN). Um dia depois, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es exclui o nome e o CPF do senador Garibaldi do cadastro da Anatel alegando, como sempre faz, desatualiza&ccedil;&atilde;o (ver aqui, para assinantes).<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Entendimento hist&oacute;rico<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A legalidade de um parlamentar ser, direta ou indiretamente, o controlador de uma concess&atilde;o de r&aacute;dio ou televis&atilde;o, no exerc&iacute;cio do mandato, parece, no m&iacute;nimo, question&aacute;vel. <\/p>\n<p><\/span><span>O C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (CBT, Lei n&ordm;. 4117\/62) determina que quem esteja em gozo de imunidade parlamentar n&atilde;o pode exercer a fun&ccedil;&atilde;o de diretor ou gerente de empresa concession&aacute;ria de r&aacute;dio ou televis&atilde;o (par&aacute;grafo &uacute;nico do artigo 38). Esta norma foi confirmada pelo Regulamento dos Servi&ccedil;os de Radiodifus&atilde;o que exige, como um dos documentos necess&aacute;rios para habilita&ccedil;&atilde;o ao procedimento licitat&oacute;rio, declara&ccedil;&atilde;o de que os dirigentes da entidade &quot;n&atilde;o est&atilde;o no exerc&iacute;cio de mandato eletivo&quot; [n&ordm; 2, al&iacute;nea d), &sect; 5&ordm; do artigo 15 do Decreto 52.795\/63]. <\/p>\n<p><\/span><span>Ademais, a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 tamb&eacute;m pro&iacute;be que deputados e senadores mantenham contrato ou exer&ccedil;am cargos, fun&ccedil;&atilde;o ou emprego remunerado em empresas concession&aacute;rias de servi&ccedil;o p&uacute;blico (al&iacute;neas a. e b. do inciso I do Artigo 54). Apesar disso, como na pergunta do senador Renan, o entendimento hist&oacute;rico tem sido que parlamentares podem sim ser concession&aacute;rios.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Quatro a&ccedil;&otilde;es<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Uma representa&ccedil;&atilde;o in&eacute;dita do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor &ndash; entidade mantenedora deste Observat&oacute;rio) junto &agrave; Procuradoria Geral da Rep&uacute;blica, protocolada em outubro de 2005, deu origem, em julho de 2007, a a&ccedil;&otilde;es civis p&uacute;blicas propostas pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal (MPF), postulando a nulidade de renova&ccedil;&otilde;es de concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o aprovadas na C&acirc;mara dos Deputados entre 2003 e 2005.<\/p>\n<p><\/span><span>A pesquisa na qual se baseou a representa&ccedil;&atilde;o revela que, al&eacute;m de existirem pelo menos 51 deputados, no exerc&iacute;cio do mandato, que continuavam concession&aacute;rios de emissoras de RTV, alguns deles eram membros da Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica (CCTCI) e haviam participado e votado na reuni&atilde;o em que foi aprovada a renova&ccedil;&atilde;o de sua pr&oacute;pria concess&atilde;o. Isto equivale a dizer que deputados foram, ao mesmo tempo, poder concedente e concession&aacute;rio de um servi&ccedil;o p&uacute;blico &ndash; a radiodifus&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Das seis a&ccedil;&otilde;es iniciais sobrevivem apenas quatro. Duas foram extintas por quest&otilde;es t&eacute;cnicas. As que sobrevivem tratam das renova&ccedil;&otilde;es das seguintes concess&otilde;es: <\/p>\n<p><\/span><span><strong>1.<\/strong> Emissoras Reunidas Ltda. (OM), Alegrete, RS, de propriedade do deputado Nelson Proen&ccedil;a (PPS-RS); <\/p>\n<p><\/span><span><strong>2.<\/strong> R&aacute;dio Renascen&ccedil;a Ltda. (OM), Ribeir&atilde;o Preto, SP, de propriedade do deputado Corauci Sobrinho (PFL-SP); <\/p>\n<p><\/span><span><strong>3<\/strong>. Alagoas R&aacute;dio e Televis&atilde;o Ltda. (FM), Macei&oacute;, AL, de propriedade do deputado Jo&atilde;o Mendes (s\/partido); e <\/p>\n<p><\/span><span><strong>4<\/strong>. Sociedade R&aacute;dio Atalaia de Londrina Ltda. (OM), Londrina, PR, de propriedade do deputado Jo&atilde;o Batista (PFL-SP).<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Fora de julgamento<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Apesar das quatro a&ccedil;&otilde;es ainda estarem em andamento, as perspectivas de que o MPF consiga a nulidade das concess&otilde;es &eacute; remota. At&eacute; aqui os ju&iacute;zes t&ecirc;m indeferido os pedidos de liminar para suspender os efeitos das concess&otilde;es, sob dois argumentos principais: (a) de que os parlamentares teriam simplesmente violado dispositivos do Regimento Interno da C&acirc;mara, sujeitando-se exclusivamente a processos por quebra de decoro parlamentar; e\/ou (b) alegando que, representando o parlamentar interessado apenas um voto e tendo sido as renova&ccedil;&otilde;es das concess&otilde;es aprovadas por unanimidade, de qualquer forma o resultado das vota&ccedil;&otilde;es na CCTCI seria o mesmo.<\/p>\n<p><\/span><span>Na verdade, as pr&oacute;prias a&ccedil;&otilde;es propostas pelo MPF partem da pol&ecirc;mica interpreta&ccedil;&atilde;o de que a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 &quot;co&iacute;be apenas a participa&ccedil;&atilde;o dos parlamentares na gest&atilde;o das empresas concession&aacute;rias do servi&ccedil;o (de radiodifus&atilde;o)&quot;, e permite, inclusive, &quot;a celebra&ccedil;&atilde;o de contratos com o ente p&uacute;blico, desde que obede&ccedil;am a cl&aacute;usulas uniformes&quot;. <\/p>\n<p><\/span><span>Dessa forma, a justificativa para as a&ccedil;&otilde;es de nulidade das renova&ccedil;&otilde;es das concess&otilde;es funda-se exclusivamente na viola&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios constitucionais da impessoalidade, moralidade e legalidade. Vale dizer, ao fato de o deputado ter votado pela aprova&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;ria de seu interesse pessoal privado. Ficam inteiramente fora de julgamento as restri&ccedil;&otilde;es &agrave; outorga de concess&otilde;es do servi&ccedil;o p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o aplic&aacute;veis &agrave;queles no exerc&iacute;cio de mandato eletivo, existentes tanto no CBT como na pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o, como mencionado acima.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Assimetria de poder<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A quest&atilde;o, no entanto, permanece em aberto. Exatamente para evitar a dubiedade legal, o relat&oacute;rio final da Subcomiss&atilde;o Especial da CCTCI que analisa &quot;mudan&ccedil;as nas normas de aprecia&ccedil;&atilde;o dos atos de outorga e renova&ccedil;&atilde;o de concess&atilde;o, permiss&atilde;o ou autoriza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o sonora e de sons e imagens&quot;, apresentado pela deputada Maria do Carmo Lara (PT-MG), na ter&ccedil;a-feira (4\/12) &ndash; coincidentemente, o mesmo dia do segundo julgamento do senador Renan &ndash; sugere a apresenta&ccedil;&atilde;o de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nos seguintes termos:<\/p>\n<p><\/span><span><em>&quot;Acrescente-se o &sect; 6&ordm; ao art. 222 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, com a seguinte reda&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p><\/span><span><em>`Art. 222&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><\/em><\/span><span><em>&sect; 6&ordm; N&atilde;o poder&aacute; ser propriet&aacute;rio, controlador, gerente ou diretor de empresa de radiodifus&atilde;o sonora e de sons e imagens quem esteja investido em cargo p&uacute;blico ou no gozo de imunidade parlamentar ou de foro especial&acute;.&quot;<br \/><\/em><br \/><\/span><span>Existe, portanto, a possibilidade &ndash; remota, &eacute; verdade &ndash; de que, por iniciativa do pr&oacute;prio Congresso Nacional, o assunto seja definitivamente esclarecido e resolvido. <\/p>\n<p><\/span><span>Se a lei permitir que os detentores de mandatos eletivos continuem a ser concession&aacute;rios do servi&ccedil;o p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o estar&aacute; se perpetuando uma situa&ccedil;&atilde;o de &oacute;bvia assimetria de poder que desqualifica, de forma incontorn&aacute;vel, a nossa democracia representativa. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A (segunda) longa sess&atilde;o de julgamento de Renan Calheiros no plen&aacute;rio do Senado Federal (ter&ccedil;a, 4\/12) teve um desfecho esclarecedor para aqueles que se interessam pela regula&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s. 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