{"id":20032,"date":"2007-12-12T12:04:30","date_gmt":"2007-12-12T12:04:30","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20032"},"modified":"2007-12-12T12:04:30","modified_gmt":"2007-12-12T12:04:30","slug":"diversidade-na-tv-a-singular-batalha-por-uma-tela-plural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20032","title":{"rendered":"Diversidade na TV: a singular batalha por uma tela plural"},"content":{"rendered":"<p><span>Um dos muitos aspectos positivos da nova TV p&uacute;blica federal &ndash; e que, por si s&oacute;, j&aacute; justificaria a resoluta aprova&ccedil;&atilde;o da medida provis&oacute;ria que a institui &ndash; &eacute; o debate que ela vem suscitando sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre o sistema de televis&atilde;o implantado no pa&iacute;s e a sociedade a que ele serve. In&uacute;meros grupos sociais, em particular os organizados, discutem intensamente as defici&ecirc;ncias da televis&atilde;o comercial e as limita&ccedil;&otilde;es da televis&atilde;o p&uacute;blica existente, apresentando as suas propostas de corre&ccedil;&atilde;o de rumos e as suas demandas espec&iacute;ficas. <\/p>\n<p><\/span><span>O movimento negro, por exemplo. Ou as feministas. Nas &uacute;ltimas semanas, dois eventos realizados em S&atilde;o Paulo dedicaram-se a examinar a quest&atilde;o da diversidade na televis&atilde;o, no primeiro caso a de etnia, no segundo a de g&ecirc;nero. O ciclo de debates &quot;A&ccedil;&otilde;es afirmativas: A&ccedil;&otilde;es para ampliar a democracia&quot;, organizado pela Secretaria de Promo&ccedil;&atilde;o da Igualdade Racial, do governo federal, e pela PUC-SP, analisou o impacto dessas a&ccedil;&otilde;es na comunica&ccedil;&atilde;o social. E o ciclo &quot;A mulher e a m&iacute;dia&quot;, do Instituto Patr&iacute;cia Galv&atilde;o, p&ocirc;s em foco o papel da TV p&uacute;blica na express&atilde;o da diversidade.<\/p>\n<p><\/span><span>Como expositor nos dois eventos, tive a oportunidade de organizar algumas id&eacute;ias em torno desse tema central da democracia &ndash; a diversidade. Tamb&eacute;m pude testemunhar, mais uma vez entre outras tantas numa longa carreira de milit&acirc;ncia, como s&atilde;o complexas as implica&ccedil;&otilde;es psicossociais e pol&iacute;ticas dessa quest&atilde;o, e como &eacute; f&aacute;cil a an&aacute;lise racional perder terreno para o emocionalismo, em seu debate. S&eacute;culos de opress&atilde;o, inconformismo e frustra&ccedil;&atilde;o geram uma formid&aacute;vel panela de press&atilde;o que pode explodir facilmente em raiva e vocifera&ccedil;&atilde;o, em preju&iacute;zo da an&aacute;lise serena dos fatos e da supera&ccedil;&atilde;o dos problemas pelo di&aacute;logo democr&aacute;tico.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Quintal dos EUA<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A primeira quest&atilde;o a considerar, no debate sobre a diversidade na TV, &eacute; conceitual. De que diversidade estamos falando? Aquela restrita aos conceitos de g&ecirc;nero, etnia e orienta&ccedil;&atilde;o sexual? Ou aquela mais ampla, relativa &agrave; multiplicidade de experi&ecirc;ncias do ser humano, em todas as suas dimens&otilde;es e em todas as partes do globo &ndash; a diversidade cultural? Os grupos militantes, compreensivelmente, priorizam a vis&atilde;o mais restrita, focados que est&atilde;o na sua miss&atilde;o imediata. Mas &eacute; conveniente pensar a quest&atilde;o amplamente, considerando que a diversidade cultural &eacute; o grande valor a ser instaurado na televis&atilde;o brasileira e que as representa&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero, etnia e outras ser&atilde;o abrangidas por ele, quando o culto ao diverso for sagrado entre as emissoras.<\/p>\n<p><\/span><span>A televis&atilde;o brasileira, sem a menor d&uacute;vida, est&aacute; a anos-luz da diversidade. Nas emissoras comerciais, a programa&ccedil;&atilde;o cultiva o oposto &ndash; a uniformidade &ndash;, quase como tra&ccedil;o distintivo. Todas, no fundo, querem oferecer ao p&uacute;blico a mesma grade, a que mais se aproxime da Globo, l&iacute;der de mercado. Todas querem fazer novelas, shows, telejornais; todas querem transmitir futebol, filmes, desenhos animados, programas femininos. As que n&atilde;o oferecem alguns desses g&ecirc;neros, n&atilde;o o fazem apenas por falta de recursos. Se pudessem, clonariam a grade da Globo com o mesmo empenho com que faz a Record. Uma f&oacute;rmula de sucesso, na TV comercial, &eacute; sempre vista como fil&atilde;o aur&iacute;fero que se deve garimpar at&eacute; o esgotamento.<\/p>\n<p><\/span><span>Tamb&eacute;m contribui muito para a uniformidade da programa&ccedil;&atilde;o o monop&oacute;lio norte-americano na distribui&ccedil;&atilde;o de filmes, desenhos e seriados. Da mesma forma como ele controla o mercado de exibi&ccedil;&atilde;o de cinema, domina amplamente as vendas para as emissoras brasileiras, gra&ccedil;as ao marketing avassalador, que faz os produtos conhecidos dos brasileiros antes de surgirem por aqui, e &agrave;s vendas casadas de produtos, que derrubam os pre&ccedil;os. N&atilde;o sobra nada para a televis&atilde;o da Fran&ccedil;a, It&aacute;lia, Inglaterra ou de qualquer outro pa&iacute;s fazer por aqui. O Brasil &eacute; quintal, jardim, garagem e playground da ind&uacute;stria audiovisual dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Pol&iacute;tica indutiva<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Na televis&atilde;o p&uacute;blica, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; melhor, mas est&aacute; longe do ideal. H&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o com a diversidade e a percep&ccedil;&atilde;o de que a sua falta &eacute; um d&eacute;ficit democr&aacute;tico do pa&iacute;s, mas isso n&atilde;o se traduz automaticamente em pol&iacute;ticas universalistas de produ&ccedil;&atilde;o e de aquisi&ccedil;&atilde;o de programas. Os canais p&uacute;blicos t&ecirc;m, certamente, pautas culturais de abrang&ecirc;ncia muito mais ampla que os canais comerciais, e tamb&eacute;m exibem muito mais material europeu, asi&aacute;tico ou latino-americano. Mas est&atilde;o aqu&eacute;m do que os programadores desejariam, em raz&atilde;o dos baixos or&ccedil;amentos com que operam. A TV p&uacute;blica brasileira n&atilde;o faz co-produ&ccedil;&otilde;es com as suas cong&ecirc;neres de outros pa&iacute;ses, pr&aacute;tica comum em outras regi&otilde;es, nem prospecta programas regularmente em fontes produtoras incomuns. Quando escapa dos EUA, &eacute; para comprar na Europa Ocidental e no Jap&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Da&iacute; porque se deve saudar experi&ecirc;ncias como a do projeto &quot;DOC TV Ibero Am&eacute;rica&quot;, que mobiliza governos, emissoras p&uacute;blicas e produtores independentes de 15 pa&iacute;ses. Uma inteligente engenharia de produ&ccedil;&atilde;o, proposta pelo Minist&eacute;rio da Cultura do Brasil, permite que os produtores tenham recursos para realizar document&aacute;rios e que as emissoras p&uacute;blicas os compartilhem, gerando trocas culturais bastante significativas. Da mesma forma, &eacute; alentadora a disposi&ccedil;&atilde;o anunciada pela dire&ccedil;&atilde;o da TV Brasil, o novo canal p&uacute;blico federal, de cobrir intensamente a realidade pol&iacute;tica e cultural da Am&eacute;rica Latina e da &Aacute;frica, regi&otilde;es com as quais o pa&iacute;s tem la&ccedil;os &eacute;tnicos e hist&oacute;ricos profundos. <\/p>\n<p><\/span><span>Se h&aacute; muito por fazer, no tocante &agrave; diversidade cultural ampla, na TV comercial ou na p&uacute;blica, h&aacute; ainda mais a perseguir para a melhor representa&ccedil;&atilde;o de grupos &eacute;tnicos, de mulheres e de minorias sexuais na tela. As organiza&ccedil;&otilde;es militantes queixam-se de que as suas tem&aacute;ticas n&atilde;o encontram o acolhimento desej&aacute;vel nas pautas dos programas, em particular nos telejornais. Mas ressentem-se, sobretudo, de maior equil&iacute;brio na participa&ccedil;&atilde;o dos diversos grupos nas equipes profissionais da televis&atilde;o, seja as da frente do v&iacute;deo, seja as da retaguarda. <\/p>\n<p><\/span><span>De fato, ainda estamos em terreno privilegiado da &quot;elite branca&quot;, aquela apontada pelo ex-governador paulista Cl&aacute;udio Lembo. A TV ainda mostra pouqu&iacute;ssimos negros e mesti&ccedil;os, se considerada a sua presen&ccedil;a na popula&ccedil;&atilde;o brasileira. Os afrodescendentes t&ecirc;m visibilidade equivalente &agrave; dos orientais, o que &eacute; um &oacute;bvio falseamento da composi&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica do pa&iacute;s. Os &iacute;ndios, por sua vez, inexistem na tela e os homossexuais s&atilde;o quase sempre caricaturas. H&aacute; maior equil&iacute;brio apenas na participa&ccedil;&atilde;o de mulheres, mas boa parte das faces femininas no v&iacute;deo n&atilde;o s&atilde;o consideradas, por suas pares, efetivamente representativas das aspira&ccedil;&otilde;es de identidade e autonomia das mulheres. <\/p>\n<p><\/span><span>Na retaguarda, nas equipes t&eacute;cnicas e de produ&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m se repete o desequil&iacute;brio observado na tela. E &eacute; para enfrent&aacute;-lo que os movimentos organizados prop&otilde;em a&ccedil;&otilde;es afirmativas, entre elas uma pol&iacute;tica de cotas igual &agrave; utilizada hoje para o preenchimento de vagas em universidades. Ou seja: uma pol&iacute;tica indutiva, impositiva, para promover mudan&ccedil;as profundas em prazo curto.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Avan&ccedil;ar o debate<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>As quest&otilde;es que essa proposta coloca s&atilde;o in&uacute;meras. Em primeiro lugar, h&aacute; que considerar se &eacute; o caso de impor o equil&iacute;brio na representa&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero-etnia-orienta&ccedil;&atilde;o sexual, por for&ccedil;a de lei, ou de foment&aacute;-lo com pol&iacute;ticas de est&iacute;mulo &agrave;s emissoras. Em outras palavras: obrigar as emissoras, penalizando-as com puni&ccedil;&otilde;es, ou convenc&ecirc;-las, premiando-as pela convers&atilde;o &agrave; causa?<\/p>\n<p><\/span><span>Vale lembrar que a Constitui&ccedil;&atilde;o federal n&atilde;o obriga os meios de comunica&ccedil;&atilde;o &agrave; diversidade, embora o esp&iacute;rito do artigo 221 seja exatamente esse, ao estabelecer como princ&iacute;pios da produ&ccedil;&atilde;o e da programa&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio e da TV a &quot;promo&ccedil;&atilde;o da cultura nacional e regional e est&iacute;mulo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente que objetive sua divulga&ccedil;&atilde;o&quot; (inciso II) e a &quot;regionaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica, conforme percentuais estabelecidos em lei&quot; (inciso III). Se obedecidos esses preceitos, haveria um aumento not&aacute;vel da diversidade na tela.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas, avan&ccedil;ando nas quest&otilde;es, o equil&iacute;brio de representa&ccedil;&atilde;o que se busca deve ser matem&aacute;tico, considerado o perfil da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, ou admite-se alguma flexibilidade? O programador de TV deve ser livre para escolher seu elenco, seus produtores e seus t&eacute;cnicos por crit&eacute;rios de compet&ecirc;ncia individual, ou deve obedecer a cotas para faz&ecirc;-lo? Quais ser&atilde;o os crit&eacute;rios de aplica&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica de cotas na televis&atilde;o? Como ser&atilde;o definidos e por quem? Essa pol&iacute;tica deve ser tempor&aacute;ria ou permanente? E, acima de tudo: como os seus crit&eacute;rios interagir&atilde;o com a cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e a informa&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, sem cerce&aacute;-las?<\/p>\n<p><\/span><span>A televis&atilde;o &ndash; em un&iacute;ssono, privada ou p&uacute;blica &ndash; teme perder a liberdade de a&ccedil;&atilde;o. Teme defrontar-se com uma situa&ccedil;&atilde;o em que montar uma equipe de produ&ccedil;&atilde;o, um elenco de novela, um time de apresentadores ou uma grade de programa&ccedil;&atilde;o exija uma complex&iacute;ssima matriz combinat&oacute;ria, para acomodar todas as demandas de representa&ccedil;&atilde;o que se apresentam atualmente. Teme ser for&ccedil;ada a privilegiar o equil&iacute;brio de representa&ccedil;&atilde;o em vez da qualifica&ccedil;&atilde;o individual de cada aspirante a um posto profissional.<\/p>\n<p><\/span><span>Responder &agrave;s quest&otilde;es acima, portanto, &eacute; imperioso, para fazer avan&ccedil;ar o debate sobre a diversidade na TV. Os grupos organizados t&ecirc;m sido competentes em levantar o problema, mas devem evoluir para as proposi&ccedil;&otilde;es mais objetivas. E devem manter a press&atilde;o sobre as emissoras, seus organismos de gest&atilde;o e suas entidades representativas, para traz&ecirc;-las &agrave; discuss&atilde;o conseq&uuml;ente e &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de mudar.<\/p>\n<p><\/span><span>Ser&aacute; uma batalha dif&iacute;cil, mas vale a pena lut&aacute;-la.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos muitos aspectos positivos da nova TV p&uacute;blica federal &ndash; e que, por si s&oacute;, j&aacute; justificaria a resoluta aprova&ccedil;&atilde;o da medida provis&oacute;ria que a institui &ndash; &eacute; o debate que ela vem suscitando sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre o sistema de televis&atilde;o implantado no pa&iacute;s e a sociedade a que ele serve. 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