{"id":19978,"date":"2007-12-06T00:00:00","date_gmt":"2007-12-06T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19978"},"modified":"2007-12-06T00:00:00","modified_gmt":"2007-12-06T00:00:00","slug":"transmissoes-da-tv-digital-comecam-com-modelo-analogico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19978","title":{"rendered":"Transmiss\u00f5es da TV digital come\u00e7am com modelo anal\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>No &uacute;ltimo domingo (2), estreou no Brasil a transmiss&atilde;o digital dos sinais de televis&atilde;o. Cercada de pompa por emissoras e governo federal, com direito a cerim&ocirc;nia com presen&ccedil;a do Presidente da Rep&uacute;blica transmitida em cadeia nacional, a novidade vem sendo apresentada como um novo momento na hist&oacute;ria da televis&atilde;o, hoje presente em mais de 95% dos lares brasileiros. <\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;A TV ficar&aacute; mais pr&oacute;xima do telespectador, oferecendo qualidade superior de imagem, maior n&uacute;mero de canais, intera&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico com a programa&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o perfeita para TVs, TVs em &ocirc;nibus, trens e outros transportes coletivos&rdquo;, afirmou Lula resumindo as pretensas funcionalidades da nova tecnologia. Para especialistas e estudiosos entrevistados pelo Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o, no entanto, a TV digital que entrou no ar esta semana utiliza nova tecnologia, mas mant&eacute;m o modelo anal&oacute;gico de existente atualmente.<\/p>\n<p><\/span><span>O fato pode ser percebido justamente pelo n&atilde;o aproveitamento das possibilidades listadas pelo presidente. A primeira delas &eacute; a multiplica&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de programa&ccedil;&otilde;es em at&eacute; seis vezes. Embora Lula tenha manifestado na cerim&ocirc;nia a oportunidade de termos &ldquo;v&aacute;rios canais&rdquo;, citando como exemplo aqueles reservados aos minist&eacute;rios<\/span><span> da &ldquo;educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de e uma TV p&uacute;blica federal&rdquo;, a transi&ccedil;&atilde;o deixar&aacute; pouco espa&ccedil;o para novas programa&ccedil;&otilde;es. Isso por que foi dado &agrave;s emissoras, para a transmiss&atilde;o em digital, o mesmo espa&ccedil;o que elas utilizam para a transmiss&atilde;o anal&oacute;gica, embora a nova tecnologia demande menos faixa de freq&uuml;&ecirc;ncia. <\/p>\n<p><\/span><span>Esta decis&atilde;o, aliada ao mau uso do espectro atualmente (com emissoras que n&atilde;o prestam um servi&ccedil;o p&uacute;blico de qualidade m&iacute;nima), resultou na sobra de poucos ou nenhum canal em grandes centros como S&atilde;o Paulo e Rio de Janeiro, impedindo a entrada de novos agentes na produ&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o de conte&uacute;do audiovisual. &ldquo;Com o <\/span><span>favorecimento aos operadores de TV,&nbsp;mant&eacute;m-se, no m&iacute;nimo,&nbsp;a concentra&ccedil;&atilde;o no setor, o que dificulta a democratiza&ccedil;&atilde;o que a TV Digital poderia trazer com a entrada de novos atores, especialmente os n&atilde;o hegem&ocirc;nicos, locais e independentes&rdquo;, lamenta o professor C&eacute;sar Bola&ntilde;o, pesquisador e autor de livro sobre o tema. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Interatividade?<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Outro exemplo de potencialidade que est&aacute; ausente nesta primeira fase da TV digital brasileira &eacute; a interatividade. Na cerim&ocirc;nia de lan&ccedil;amento em S&atilde;o Paulo, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, afirmou que &ldquo;<\/span><span>a popula&ccedil;&atilde;o ter&aacute; acesso a informa&ccedil;&otilde;es e servi&ccedil;os p&uacute;blicos, marcar&aacute; consultas m&eacute;dicas, receber&aacute; e enviar&aacute; informa&ccedil;&otilde;es pela TV&rdquo;. Entretanto, estes servi&ccedil;os s&atilde;o uma aposta para o futuro e n&atilde;o uma realidade do presente. Os conversores (aparelhos que &ldquo;l&ecirc;em&rdquo; o sinal digital para ser assistido pelo televisor anal&oacute;gico) colocados no mercado n&atilde;o possuem o software que realiza este tipo de opera&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>Um problema adicional &eacute; que este programa, o middleware Ginga, seria a &uacute;nica tecnologia brasileira presente em todo o padr&atilde;o digital utilizado no Brasil. No entanto, embora o ministro das comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, diga que h&aacute; acordos em andamento para a inser&ccedil;&atilde;o da inova&ccedil;&atilde;o nos conversores, hoje n&atilde;o h&aacute; qualquer previs&atilde;o de quando isso ser&aacute; feito. Para Gustavo Gindre, pesquisador da UFRJ e integrante do Intervozes, o motivo da aus&ecirc;ncia de interatividade n&atilde;o &eacute; tecnol&oacute;gico, mas econ&ocirc;mico. <\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;N&atilde;o h&aacute; interatividade porque os radiodifusores n&atilde;o querem. Primeiro, porque o cidad&atilde;o que fizer uso destes servi&ccedil;os estar&aacute; deixando de assistir a programa&ccedil;&atilde;o das emissoras. E isso representa perda de audi&ecirc;ncia e, portanto, de faturamento&rdquo;. Al&eacute;m disso, acrescenta Gindre, &ldquo;a interatividade demandaria um canal de retorno, possivelmente em banda larga, e tudo o que os radiodifusores n&atilde;o querem &eacute; ver algu&eacute;m conectando uma banda larga na TV e implodindo com o controle que eles exercem sobre a televis&atilde;o brasileira&rdquo;. <\/p>\n<p><\/span><span>Celso Schroeder, do F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o (FNDC), avalia que o resultado disso &eacute; um modelo <\/span><span>&ldquo;onde se tem a menor converg&ecirc;ncia poss&iacute;vel, a menor possibilidade de interc&acirc;mbio entre as v&aacute;rias plataformas e entre os v&aacute;rios servi&ccedil;os poss&iacute;veis de telecomunica&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>TV digital para ningu&eacute;m<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Os conversores n&atilde;o t&ecirc;m dado s&oacute; o que falar na aus&ecirc;ncia de funcionalidades. A quest&atilde;o mais pol&ecirc;mica dos primeiros dias da TV digital tem sido o alto custo destas caixinhas, com pre&ccedil;os variando entre 500 e R$ 1000. O valor tem afastado os telespectadores do usufruto da nova tecnologia, gerando o risco da televis&atilde;o digital ser assistida por uma pequena elite de pessoas de alta renda.<\/p>\n<p><\/span><span>Durante todo o per&iacute;odo de prepara&ccedil;&atilde;o para o in&iacute;cio das transmiss&otilde;es, o ministro das comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, prometeu reiteradamente que o conversor chegaria a R$ 200, o que n&atilde;o se confirmou. Em um gesto de desespero, Costa partiu para o ataque aos fabricantes afirmando que estes estariam boicotando a TV digital ao inflar os pre&ccedil;os, uma vez que no Jap&atilde;o o conversor sai por volta de US$ 100. <\/p>\n<p><\/span><span>A resposta concreta foi o an&uacute;ncio de um programa de incentivos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Social (BNDES) no montante de R$ 1 bilh&atilde;o que financiaria a compra do conversor no varejo. Reportagens recentes, entretanto, mostraram que est&atilde;o sendo usados recursos de outro programa do banco destinado ao financiamento da aquisi&ccedil;&atilde;o de infra-estrutura de transmiss&atilde;o para as emissoras que est&atilde;o migrando para o sistema digital. <\/p>\n<p><\/span><span>Independente do volume e origem dos recursos, o que passa despercebido na cobertura sobre o caso &eacute; o gasto de dinheiro p&uacute;blico (por meio destes financiamentos e da isen&ccedil;&atilde;o fiscal para a ind&uacute;stria) para &ldquo;correr atr&aacute;s do preju&iacute;zo&rdquo; e corrigir equ&iacute;vocos do pr&oacute;prio governo, que poderia ter dado ouvidos a especialistas e institutos de pesquisa que, &agrave; &eacute;poca da escolha da tecnologia a ser adotada pelo Brasil, j&aacute; apontavam que o padr&atilde;o japon&ecirc;s poderia gerar custos altos pelo fato da tecnologia carecer de escala, j&aacute; que &eacute; utilizada somente naquele pa&iacute;s. Al&eacute;m disso, outros componentes internacionais foram incorporados, tornando a tecnologia utilizada no SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital) uma composi&ccedil;&atilde;o &uacute;nica no mundo.<\/p>\n<p><\/span><span>Para Gustavo Gindre, a decis&atilde;o do governo &eacute; equivocada. &ldquo;<\/span><span>Gra&ccedil;as ao dinheiro p&uacute;blico, o governo ajudar&aacute; na venda de aparelhos que n&atilde;o captam imagens em alta defini&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o t&ecirc;m interatividade e que ser&atilde;o utilizados para que o usu&aacute;rio assista a mesma programa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel na TV anal&oacute;gica. Ou seja, o governo vai subsidiar a compra de seletores de canais. E quando, no futuro, houver interatividade, tais aparelhos ter&atilde;o que ser jogados no lixo&rdquo;, critica. <\/p>\n<p><\/span><span>O ministro H&eacute;lio Costa respondeu as cr&iacute;ticas afirmando que &ldquo;o conversor vai cair de pre&ccedil;o vertiginosamente nos pr&oacute;ximos meses&rdquo;, apostando em um movimento dos fabricantes e no ganho de escala pelo aumento das compras. No entanto, pesquisa feita pelo Instituto Qualibest com 2 mil internautas mostrou que 44% dos entrevistados n&atilde;o pretendem comprar o conversor agora e v&atilde;o esperar &ldquo;o assunto amadurecer&rdquo;. Outros 56% afirmaram s&oacute; comprar se o pre&ccedil;o chegasse aos R$ 200 reais. Apesar da curiosidade, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel assegurar que a parcela de maior renda da popula&ccedil;&atilde;o &ndash; cujo papel na gera&ccedil;&atilde;o de escala e redu&ccedil;&atilde;o do seu pre&ccedil;o &eacute; fundamental &ndash; ir&aacute; comprar o conversor, uma vez que boa parte dela j&aacute; disp&otilde;e do servi&ccedil;o de televis&atilde;o por assinatura, com imagem igual ou melhor e maior oferta de canais. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Pol&iacute;tica industrial?<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Se n&atilde;o conseguiu cumprir a promessa de ser ampla, inclusiva, ampliadora do n&uacute;mero de canais e interativa, a TV digital brasileira tampouco est&aacute; contribuindo para fortalecer uma pol&iacute;tica industrial da &aacute;rea de microeletr&ocirc;nica como anunciou a ministra Dilma Roussef na escolha da tecnologia nip&ocirc;nica em junho de 2006. Entre as contrapartidas dos japoneses estaria a constru&ccedil;&atilde;o de uma f&aacute;brica de semi-condutores no Brasil, a forma&ccedil;&atilde;o de m&atilde;o-de-obra especializada e a transfer&ecirc;ncia de tecnologia. <\/p>\n<p><\/span><span>Em artigo publicado no s&iacute;tio especializado TeleS&iacute;ntese, a jornalista Lia Ribeiro resume o fato. &ldquo;Da hipot&eacute;tica f&aacute;brica de difus&atilde;o de semicondutores ao centro de desenvolvimento de design de chip, passando pela garantia de mercado a produtos fabricados aqui. Ao final das negocia&ccedil;&otilde;es, a montanha pariu um rato&rdquo;, analisa. J&aacute; das inova&ccedil;&otilde;es produzidas pelos cons&oacute;rcios que desenvolveram pesquisa para o Sistema Brasileiro de Televis&atilde;o Digital em 2005, s&oacute; o Ginga luta para ser incorporado aos conversores, em uma disputa de futuro incerto. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Democratiza&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Em meio aos debates e pol&ecirc;micas tecnol&oacute;gicas, o professor C&eacute;sar Bola&ntilde;o afirma que o problema n&atilde;o est&aacute; nem nos aparelhos nem nos programas, mas sob quais regras e com qual finalidade eles ser&atilde;o usados. &ldquo;O problema n&atilde;o est&aacute; na tecnologia. Vamos ao que interessa: como democratizar a televis&atilde;o, abertura do espectro eletromagn&eacute;tico para a entrada de novos atores, especialmente os n&atilde;o hegem&ocirc;nicos, financiamento da produ&ccedil;&atilde;o independente, regional, comunit&aacute;ria e para&nbsp;TVs p&uacute;blicas, com desconcentra&ccedil;&atilde;o, promo&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do nacional e&nbsp;inclus&atilde;o social e digital&rdquo;, prop&otilde;e. <\/p>\n<p><\/span><span>Mas para isso &eacute; preciso superar a pol&ecirc;mica sobre o pre&ccedil;o dos conversores para chegar ao debate que as emissoras de televis&atilde;o n&atilde;o querem realizar: como organizar o modelo brasileiro para utilizar todas as potencialidades deste novo meio para a ampliar o n&uacute;mero de fontes de informa&ccedil;&atilde;o e cultura, com um conte&uacute;do interativo e conectado com os outros meios de comunica&ccedil;&atilde;o neste irrevers&iacute;vel processo de converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo pesquisadores e estudiosos do tema, a TV digital que entrou no ar no \u00faltimo domingo (2) em S\u00e3o Paulo utiliza nova tecnologia, mas n\u00e3o incorpora suas potencialidades, preservando o modelo anal\u00f3gico existente atualmente, concentrado e n\u00e3o interativo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[79],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19978"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19978"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19978\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}