{"id":19962,"date":"2007-12-04T17:28:44","date_gmt":"2007-12-04T17:28:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19962"},"modified":"2007-12-04T17:28:44","modified_gmt":"2007-12-04T17:28:44","slug":"as-decepcoes-da-tv-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19962","title":{"rendered":"As decep\u00e7\u00f5es da TV digital"},"content":{"rendered":"<p><span>Marcado por pompa e circunst&acirc;ncia, o in&iacute;cio da transmiss&atilde;o da TV digital no Brasil, na noite de domingo, 2 de dezembro, representa, sem d&uacute;vida, um novo cap&iacute;tulo na hist&oacute;ria da comunica&ccedil;&atilde;o de massa no pa&iacute;s. Telespectador ass&iacute;duo, o brasileiro, que consome 3 horas e 43 minutos do seu dia em frente &agrave; tev&ecirc; (dados de 2006, do Ibope M&iacute;dia), vai poder receber um sinal de muito melhor qualidade e at&eacute; em alta defini&ccedil;&atilde;o. Vai tamb&eacute;m poder assistir tev&ecirc; no celular, no &ocirc;nibus ou trem, na ida para o trabalho ou no retorno para casa. E fazer uma s&eacute;rie de opera&ccedil;&otilde;es a partir do conversor de sinais, o setop box: interagir com o programa a que est&aacute; assistindo, marcar consulta na rede p&uacute;blica de sa&uacute;de, ver se a aposentadoria foi depositada, entre muitos outros servi&ccedil;os.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas tudo isso &eacute; futuro. A TV digital come&ccedil;a limitada a poucos telespectadores n&atilde;o s&oacute; porque a transmiss&atilde;o digital, por enquanto, s&oacute; cobre a Grande S&atilde;o Paulo. &Eacute; limitada tamb&eacute;m porque poucos usu&aacute;rios t&ecirc;m televisores digitais preparados para a recep&ccedil;&atilde;o digital, comercializados por volta de R$ 7 mil, ou investiram na compra do conversor que, acoplado &agrave; TV anal&oacute;gica, permite receber os sinais digitais. Ao contr&aacute;rio das promessas do governo, os conversores chegaram ao mercado com pre&ccedil;o salgado: o modelo mais simples, da Positivo, foi lan&ccedil;ado por R$ 499,00.<\/p>\n<p><\/span><span>Al&eacute;m do pre&ccedil;o, que deve cair, os conversores padecem de um outro mal. N&atilde;o trazem recursos de interatividade, porque n&atilde;o incorporam o software, no caso o Ginga, o middleware desenvolvido no pa&iacute;s, com recursos p&uacute;blicos, que faz a interface entre o sistema operacional e os programas aplicativos. Isso sgnifica que quem comprar agora o conversor vai ter de troc&aacute;-lo mais &agrave; frente, se quiser novos recursos. Para evitar a chamada base legada, os &oacute;rg&atilde;os de defesa do consumidor est&atilde;o sugerindo &agrave; popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o comprar os conversores agora, mas esperar pela nova gera&ccedil;&atilde;o com recursos de interatividade. Segundo os desenvolvedores do Ginga, ele j&aacute; est&aacute; sendo embarcado em produtos de diferentes fabricantes, que devem chegar ao mercado a partir de maio\/junho de 2008.<\/p>\n<p><\/span><span>Que a televis&atilde;o digital seria voltada a uma elite, no in&iacute;cio das transmiss&otilde;es, todos sabiam. Afinal, o governo brasileiro escolheu o padr&atilde;o japon&ecirc;s (e com altera&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o ao middleware e ao sistema de compress&atilde;o de sinais), que tem uma base muita limitada &ndash; s&oacute; est&aacute; operacional no Jap&atilde;o e, mesmo assim, em poucas cidades. Para contornar a falta de escala, o pa&iacute;s precisava ter definido uma pol&iacute;tica industrial agressiva. Mas n&atilde;o o fez. Mais uma vez prevaleceram os interesses regionais, e o conversor foi enquadrado como bem de imagem e som. Ou seja, seus fabricantes s&oacute; t&ecirc;m benef&iacute;cios fiscais, se estiverem instalados na Zona Franca de Manaus.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Promessas n&atilde;o cumpridas<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Da mesma forma que n&atilde;o construiu uma pol&iacute;tica para que os conversores chegassem ao mercado ao pre&ccedil;o prometido pelo ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, menos de R$ 200,00, o governo tamb&eacute;m falhou no que se refere &agrave; interatividade. Ali&aacute;s, esse foi um dos principais argumentos, ao lado da mobilidade, que o governo brasileiro apresentou na defesa do padr&atilde;o japon&ecirc;s, o preferido dos radiodifusores, pois, ao permitir a transmiss&atilde;o, na mesma faixa de espectro, para pontos fixos e m&oacute;veis, mant&eacute;m intacto o modelo de neg&oacute;cios desse setor. Ou seja, os radiodifusores n&atilde;o t&ecirc;m que dividir com outras redes a transmiss&atilde;o dos programas e, portanto, os recursos publicit&aacute;rios que os patrocinam.<\/p>\n<p><\/span><span>A interatividade &eacute; importante do ponto de vista do desenvolvimento de uma pol&iacute;tica de inclus&atilde;o digital. Diante da elevada taxa de penetra&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o no pa&iacute;s &ndash; ela est&aacute; presente em 91% dos domic&iacute;lios brasileiros &#8211;, usar o televisor, na vers&atilde;o da transmiss&atilde;o digital, como canal de difus&atilde;o de programas de governo, de programas educacionais, de servi&ccedil;os da Previd&ecirc;ncia, para citar um exemplo, pode significar uma revolu&ccedil;&atilde;o social de propor&ccedil;&otilde;es n&atilde;o imaginadas.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas, embora no dicurso o governo tenha destacado a import&acirc;ncia da interatividade , na implementa&ccedil;&atilde;o do processo, ela n&atilde;o mereceu a prioridade devida. O governo, que financiou desenvolvimentos para a TV digital com recursos do Funttel, o fundo de desenvolvimento das telecomunica&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o tra&ccedil;ou uma pol&iacute;tica para garantir a industrializa&ccedil;&atilde;o dos conversores com a incorpora&ccedil;&atilde;o do Ginga, desenvolvido pelas equipes da PUC do Rio e pela Federal da Para&iacute;ba, e do sistema de compress&atilde;o MPEG. S&oacute; assim seria poss&iacute;vel ter um conversor popular, de baixo custo e com os recursos da interatividade. O governo tamb&eacute;m n&atilde;o se preocupou em montar um programa coordenado de desenvolvimento de aplicativos sociais para rodarem no Ginga, e serem utilizados pela popula&ccedil;&atilde;o. Pelo que se sabe, s&oacute; a Caixa Econ&ocirc;mica Federal e o Banco do Brasil t&ecirc;m projeto nesse sentido.<\/p>\n<p><\/span><span>Por fim, tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; um trabalho organizado de defini&ccedil;&atilde;o do canal de retorno, que hoje s&oacute; pode ser feito via redes telef&ocirc;nicas (fixas, no domic&iacute;lio que contar com uma linha), ou celular, ambas pagas. Para aplica&ccedil;&otilde;es sociais, seria importante que o canal de retorno fosse gratuito (reservando-se espa&ccedil;o para uma rede p&uacute;blica nas freq&uuml;&ecirc;ncias de 3,5 GHz ou mesmo em 700 MHz), ou patrocinado pelo provedor do servi&ccedil;o.<\/p>\n<p><\/span><span>H&aacute; muitos outros equ&iacute;vocos no modelo de televis&atilde;o digital definido para o Brasil. Como o fato de ter privilegiado a alta defini&ccedil;&atilde;o no lugar da multiprograma&ccedil;&atilde;o, o que limitou o n&uacute;mero de emissoras praticamente &agrave;s existentes &ndash; s&oacute; houve espa&ccedil;o para a cria&ccedil;&atilde;o de quatro novos canais p&uacute;blicos. Tamb&eacute;m as anunciadas contrapartidas do governo e empresas japonesas &agrave; ades&atilde;o ao seu padr&atilde;o deixaram muito a desejar. Da hipot&eacute;tica f&aacute;brica de difus&atilde;o de semicondutores ao centro de de desenvolvimento de design de chip, passando pela garantia de mercado a produtos fabricados aqui. Ao final das negocia&ccedil;&otilde;es, a montanha pariu um rato.<\/p>\n<p><\/span><span>Se, em rela&ccedil;&atilde;o a esses pontos, n&atilde;o h&aacute; nada o que fazer, o governo Lula pode ainda corrigir a rota da TV digital, para que ela n&atilde;o sirva apenas aos interesses dos radiodifusores brasileiros &ndash; e tamb&eacute;m dos telespectadores que puderem pagar por um sinal de muito melhor qualidade e facilidades que vir&atilde;o no futuro. &Eacute; preciso que se monte um programa para fazer, da interatividade na TV para programas sociais, um objetivo estrat&eacute;gico do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre. A&iacute;, sim, a TV digital vai fazer uma diferen&ccedil;a que vai muito al&eacute;m da imagem sem chuviscos. Ela vai ser a porta de entrada para a Sociedade da Informa&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcado por pompa e circunst&acirc;ncia, o in&iacute;cio da transmiss&atilde;o da TV digital no Brasil, na noite de domingo, 2 de dezembro, representa, sem d&uacute;vida, um novo cap&iacute;tulo na hist&oacute;ria da comunica&ccedil;&atilde;o de massa no pa&iacute;s. 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