{"id":19961,"date":"2007-12-04T17:24:58","date_gmt":"2007-12-04T17:24:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19961"},"modified":"2007-12-04T17:24:58","modified_gmt":"2007-12-04T17:24:58","slug":"tv-digital-olhar-para-a-frente-e-pecado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19961","title":{"rendered":"TV digital: olhar para a frente \u00e9 pecado"},"content":{"rendered":"<p><span>A raz&atilde;o pela qual a TV por assinatura at&eacute; hoje n&atilde;o decolou no Brasil &eacute; simples. Nos anos 1980, os novos mecanismos de distribui&ccedil;&atilde;o de sinais foram tratados no mundo inteiro como uma oportunidade para os produtores de conte&uacute;do. Aqui, eles foram vistos como um neg&oacute;cio exclusivo dos prestadores de servi&ccedil;o de distribui&ccedil;&atilde;o de sinais.<\/p>\n<p><\/span><span>Foi assim que, durante a d&eacute;cada de 1980, criaram-se nos EUA mais de 350 redes internacionais de televis&atilde;o. Redes, a princ&iacute;pio, bem pequenas, como a CNN, a Discovery ou a Cartoon, que poucos anos depois passaram a integrar ou comandar as maiores corpora&ccedil;&otilde;es de m&iacute;dia do mundo. E foi assim que, no Brasil, nenhuma rede internacional foi constru&iacute;da em tempo algum. Para o usu&aacute;rio brasileiro, os servi&ccedil;os de TV por assinatura tornaram-se uma grande feira de importa&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do e de modelos de conte&uacute;do. E os canais ent&atilde;o criados acabaram o sendo &agrave; semelhan&ccedil;a dos padr&otilde;es est&eacute;ticos e narrativos prim&aacute;rios, desenvolvidos h&aacute; anos pela TV aberta.<\/p>\n<p><\/span><span>O foco sobre o servi&ccedil;o, e n&atilde;o sobre o conte&uacute;do, acabou transformando a TV por assinatura brasileira num neg&oacute;cio irrelevante do ponto de vista comercial (menos de 7% do pa&iacute;s est&aacute; cabeado, contra 96% da Europa e dos EUA) e grotesco do ponto de vista cultural. A TV por assinatura absorveu da TV aberta o gosto por zombar da intelig&ecirc;ncia do espectador. A &uacute;nica arma que encontrou para se qualificar foi tratar seu interlocutor como d&eacute;bil mental. O resultado, 15 anos depois, &eacute; conhecido por todos: no pouco que produziu, a TV por assinatura emburreceu o seu espectador &ndash; e fez isso, ainda por cima, com o olhar est&uacute;pido de uma superioridade inexistente. Conseguiu o imposs&iacute;vel: dar alguma legitima&ccedil;&atilde;o &agrave;s bobagens praticadas, com muito maior autenticidade, pela TV aberta.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Conte&uacute;do para diversas plataformas<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A abertura das transmiss&otilde;es digitais terrestres est&aacute; correndo o s&eacute;rio risco de reproduzir esse fen&ocirc;meno. O debate instalado no in&iacute;cio n&atilde;o foi &agrave; frente. Deixou-se politizar e criar polariza&ccedil;&otilde;es que acabaram favorecendo a manuten&ccedil;&atilde;o de um modelo que j&aacute; vigorava h&aacute; 60 anos. No caso da TV por assinatura, o espectador foi levado a acreditar que nada iria mudar &ndash; e nada acabou mudando mesmo, no Brasil, enquanto nos outros pa&iacute;ses criava-se uma poderosa rede de emissoras que hoje est&atilde;o em praticamente todos os sistemas de TV por assinatura do planeta. No que diz respeito &agrave; TV digital, o usu&aacute;rio est&aacute; sendo levado a crer que o que existe de novo &eacute; a imagem dos programas que ele j&aacute; conhece. Essa imagem vai melhorar bastante gra&ccedil;as &agrave;s transmiss&otilde;es em HDTV. O resto &eacute; quase irrelevante.<\/p>\n<p><\/span><span>Essa exacerba&ccedil;&atilde;o dos mecanismos de defesa dos modelos de neg&oacute;cio existentes vai atrasar a televis&atilde;o digital terrestre brasileira em muitos anos &ndash; tanto quanto atrasou a TV por assinatura. Corre o risco de, tal como aconteceu naquele caso, aumentar a nossa depend&ecirc;ncia por conte&uacute;do estrangeiro e inibir a nossa capacidade de tirar proveito das novas plataformas. <\/p>\n<p><\/span><span>A m&aacute; not&iacute;cia &eacute; que, se tal coisa acontecer, ser&aacute; irremedi&aacute;vel. Perderemos a maior oportunidade que apareceu em d&eacute;cadas de fazer boa televis&atilde;o, de criar e exportar modelos de constru&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do para diversas plataformas. A mesquinharia na defesa de um estado de coisas que n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es reais de se sustentar est&aacute; na rota de atrofiar a posi&ccedil;&atilde;o brasileira no desenvolvimento da televis&atilde;o digital terrestre em escala global.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Hor&aacute;rio nobre desaparece<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O povo brasileiro tem uma rela&ccedil;&atilde;o muito estreita com a sua televis&atilde;o. Deu a ela um poder e um status que encontram poucos paralelos no mundo. Isso aconteceu por raz&otilde;es circunstanciais. A televis&atilde;o aberta brasileira p&ocirc;de crescer (ainda que, de fato, isso n&atilde;o tenha sido culpa dela) gra&ccedil;as ao desastre social do pa&iacute;s. Desgra&ccedil;adamente, a televis&atilde;o n&atilde;o est&aacute; respondendo na mesma moeda. Durante muito tempo, ela foi capaz de se autodefinir, sugerindo ao espectador que seus limites criativos est&atilde;o dentro do que lhe &eacute; oferecido. Tal esfor&ccedil;o agora transcende a programa&ccedil;&atilde;o. Trata-se de dizer a esse usu&aacute;rio t&atilde;o fiel, e que paga t&atilde;o bem a sua conta, que as plataformas digitais servem para reproduzir o que j&aacute; existe, s&oacute; que com imagem e som bem melhorados.<\/p>\n<p><\/span><span>Isso n&atilde;o &eacute; verdade. E se, num primeiro momento, &eacute; o espectador que ser&aacute; logrado (e convidado a pagar caro para ver o que j&aacute; est&aacute; vendo, numa taxa de contraste maior), mais adiante ser&atilde;o os cultores desta farsa que ter&atilde;o que ajustar suas contas com as oportunidades que deixaram passar.<\/p>\n<p><\/span><span>A mobilidade, por exemplo. Ela agrega mais espectadores novos do que os espectadores j&aacute; existentes. S&atilde;o menos de 90 milh&otilde;es de televisores fixos no pa&iacute;s, contra 110 milh&otilde;es de celulares, que s&atilde;o atualizados a cada 14 meses. Neles (e nos demais receptores port&aacute;teis), a TV pode ser vista a todo momento, de toda parte. O conceito de hor&aacute;rio nobre simplesmente desaparece. Cresce quem estiver produzindo o que cada nicho quiser ver no lugar em que estiver. Se isso n&atilde;o muda o modelo de neg&oacute;cios, o que mudar&aacute;?<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Nada melhor que um fusquinha<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>As ferramentas interativas, tamb&eacute;m. Elas est&atilde;o para ser definidas, e nem de longe se parecem com as op&ccedil;&otilde;es de escolha que est&atilde;o sendo demonstradas durante as &quot;festividades&quot; de inaugura&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o retiram do espectador a possibilidade de assistir passivamente a uma narrativa, mas imp&otilde;em, sim, a cria&ccedil;&atilde;o de narrativas multifacetadas. Por que n&atilde;o estamos trabalhando nisso? Porque estamos sendo induzidos a crer que s&atilde;o os modelos narrativos vigentes que buscar&atilde;o em algum lugar do futuro op&ccedil;&otilde;es interativas &ndash; e n&atilde;o que um modelo de formata&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do inteiramente novo &eacute; que poder&aacute; buscar inspira&ccedil;&atilde;o nas formas dramat&uacute;rgicas existentes.<\/p>\n<p><\/span><span>Avan&ccedil;amos bastante na constru&ccedil;&atilde;o de um bom padr&atilde;o tecnol&oacute;gico para as transmiss&otilde;es digitais terrestres que agora se inauguram. A base japonesa &eacute; a melhor poss&iacute;vel e, por enquanto, &eacute; imposs&iacute;vel imaginar ferramentas interativas melhores que o Ginga, que foi inteiramente desenvolvido no Brasil, e que integrar&atilde;o alguns dos conversores e receptores digitais que chegar&atilde;o ao mercado. Mas o fato de a televis&atilde;o digital come&ccedil;ar para quase ningu&eacute;m n&atilde;o representa apenas um dado estat&iacute;stico. A televis&atilde;o digital come&ccedil;a, de fato, sem que o usu&aacute;rio esteja informado sobre o que ela &eacute;. &Eacute; arriscado afirmar que isso obedece a um planejamento doloso, mas se tal coisa acontece &eacute; um grande crime que se est&aacute; perpetrando contra a sociedade brasileira &ndash; e muito especialmente contra o potencial da televis&atilde;o como um meio.<\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o h&aacute; mesmo muito o que festejar esta semana. A celebra&ccedil;&atilde;o do domingo (2\/12) foi amarga e t&atilde;o pouco natural quanto uma farsa montada para uma novela. H&aacute;, no entanto, uma pequena estrada sendo aberta, que em pouco tempo integrar&aacute; um sistema bem maior. Por esse caminho podem trafegar Ferraris, caminh&otilde;es de grande porte, &ocirc;nibus confort&aacute;veis, trens de alta velocidade. Por quanto tempo os vendedores de fusquinhas conseguir&atilde;o induzir a sociedade a acreditar que isso &eacute; o m&aacute;ximo que tais estradas s&atilde;o capazes de comportar? Certamente, at&eacute; o momento em que os motoristas dos velhos carrinhos se vejam sendo ultrapassados por todos esses meios. <\/p>\n<p><\/span><span>Mais uma vez, eles lamentar&atilde;o terem sido enganados. Ouvir&atilde;o por mais uma d&eacute;cada que nada na vida pode ser melhor que um fusquinha velho, como ouvem h&aacute; d&eacute;cadas que nenhuma televis&atilde;o no mundo &eacute; t&atilde;o boa quanto a que se faz no Brasil. Ser&atilde;o ref&eacute;ns de dogmas como esses e da id&eacute;ia de que olhar para o futuro &eacute; pecado &ndash; e n&atilde;o ter&atilde;o podido aproveitar em vida a bela estrada digital que teria sido aberta para eles.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A raz&atilde;o pela qual a TV por assinatura at&eacute; hoje n&atilde;o decolou no Brasil &eacute; simples. Nos anos 1980, os novos mecanismos de distribui&ccedil;&atilde;o de sinais foram tratados no mundo inteiro como uma oportunidade para os produtores de conte&uacute;do. 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