{"id":19948,"date":"2007-12-03T19:02:05","date_gmt":"2007-12-03T19:02:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19948"},"modified":"2007-12-03T19:02:05","modified_gmt":"2007-12-03T19:02:05","slug":"as-opcoes-do-radio-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19948","title":{"rendered":"As op\u00e7\u00f5es do R\u00e1dio Digital"},"content":{"rendered":"<p><em><span class=\"tit-instituicao\">Nelia R. Del Bianco<\/span> &eacute; jornalista, produtora radiof&ocirc;nica, doutora em Comunica&ccedil;&atilde;o-Jornalismo pela USP e professora da Faculdade de Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB. H&aacute; mais de 10 anos dedica-se &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de programas radiof&ocirc;nicos educativos para v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e n&atilde;o governamentais. Publicou v&aacute;rios artigos em peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos do pa&iacute;s sobre a condi&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio na sociedade contempor&acirc;nea, as tend&ecirc;ncias e perspectivas da programa&ccedil;&atilde;o radiof&ocirc;nica e o impacto das inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas na configura&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos e formatos do r&aacute;dio. N&eacute;lia Tamb&eacute;m coordena a linha de pesquisa &quot;Jornalismo e Sociedade&quot; na UnB e, em entrevista exclusiva ao Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o, fala sobre a implanta&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio digital no Brasil.<\/p>\n<p>*<\/em><\/p>\n<p><strong>Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o &#8211; Quais s&atilde;o as mudan&ccedil;as que&nbsp;a tecnologia&nbsp;digital pode trazer para o r&aacute;dio?<\/strong><br \/><span class=\"tit-instituicao\"><strong>Nelia R. Del Bianco<\/strong><\/span><em><strong> <\/strong>&#8211; <\/em>Primeiro, a melhoria da qualidade do som do AM, o que representar&aacute; uma revitaliza&ccedil;&atilde;o de uma frequ&ecirc;ncia j&aacute; decadente. Segundo, o aparelho receptor inteligente&nbsp;&eacute; port&aacute;til, multifuncional e multim&iacute;dia e pode dispor de voz, v&iacute;deo, base de dados, op&ccedil;&otilde;es do tipo unidirecional (page) e interativo.&nbsp;Poder&aacute; tamb&eacute;m ter fun&ccedil;&otilde;es simplificadas que permitam selecionar a esta&ccedil;&atilde;o por nome indicado em uma tela de cristal l&iacute;quido (LCD). Tudo isso significar&aacute; uma diversifica&ccedil;&atilde;o na oferta de servi&ccedil;os e conte&uacute;do: dados, tempo, tr&acirc;nsito, compras e informa&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o pago. Terceiro, a&nbsp;digitaliza&ccedil;&atilde;o introduz o sistema multicast, o que permite a divis&atilde;o da faixa em at&eacute; tr&ecirc;s canais, favorecendo a oferta simult&acirc;nea de 3 tipos de programa&ccedil;&atilde;o diferentes, algo que representa um fator de revitaliza&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio e a diversifica&ccedil;&atilde;o do neg&oacute;cio a partir de parcerias, novos formatos, linguagens e conte&uacute;do.<\/p>\n<p><strong>Quais podem ser os impactos na amplia&ccedil;&atilde;o da pluralidade e diversidade de fontes de informa&ccedil;&atilde;o e conte&uacute;dos na radiodifus&atilde;o de sons?<\/strong><br \/>Em tese, acredito na&nbsp;hiper-especializa&ccedil;&atilde;o da programa&ccedil;&atilde;o pela m&uacute;sica com seus mais variados g&ecirc;neros e estilos. E tamb&eacute;m hiper-especializa&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica: esportes, viagens, economia, literatura, aventura, cidadania, educa&ccedil;&atilde;o, etnia, sa&uacute;de, cultura, direitos humanos. Aprofundar&aacute; tamb&eacute;m a tend&ecirc;ncia do r&aacute;dio de ser meio de relacionamento e intera&ccedil;&atilde;o com a audi&ecirc;ncia, para garantir sua sobreviv&ecirc;ncia em meio &agrave; diversidade de oferta.<\/p>\n<p>Essa tend&ecirc;ncia implicar&aacute; em refor&ccedil;ar a equipe de profissionais para diversifica&ccedil;&atilde;o da oferta de programa&ccedil;&atilde;o. Entendo que o conte&uacute;do novo &eacute; o est&iacute;mulo para aumentar a demanda do consumidor. Simplesmente retransmitir servi&ccedil;os existentes n&atilde;o &eacute; suficiente para estimular a ades&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>O ministro H&eacute;lio Costa afirmou &agrave; imprensa que anunciaria a escolha pelo padr&atilde;o de r&aacute;dio digital ainda neste m&ecirc;s de setembro. Qual a sua opini&atilde;o a respeito disso?<\/strong><br \/>A defini&ccedil;&atilde;o foi adiada para 2008, provavelmente em fun&ccedil;&atilde;o de dois aspectos centrais: primeiro, o fato de os testes realizados pelas emissoras at&eacute; agora n&atilde;o terem seguido corretamente sequer as especifica&ccedil;&otilde;es que constam da portaria de autoriza&ccedil;&atilde;o. Na verdade foram feitos sem uma metodologia padr&atilde;o. Os relat&oacute;rios que a Anatel recebeu at&eacute; agora s&atilde;o sum&aacute;rios, n&atilde;o descrevem procedimentos de teste que atendam inteiramente ao disposto nos Atos de autoriza&ccedil;&atilde;o, em especial quanto &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o da compatibilidade do sistema digital com os canais distribu&iacute;dos pelos Planos B&aacute;sicos.<\/p>\n<p>O segundo aspecto se deve &agrave; rea&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios segmentos da sociedade, especialmente de pesquisadores na &aacute;rea de r&aacute;dio&nbsp;vinculados a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunica&ccedil;&atilde;o &#8211; Intercom que lan&ccedil;aram uma carta comentando aspectos preocupantes da tecnologia IBOC com base em pesquisa de campo com o IBOC em S&atilde;o Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p><strong>Tanto o ministro H&eacute;lio Costa quanto os radiodifusores tem indicado prefer&ecirc;ncia pelo padr&atilde;o HD Radio. A senhora o considera o mais adequado para a realidade brasileira? Quais s&atilde;o as possibilidades e riscos da sua ado&ccedil;&atilde;o? Haveria uma outra alternativa tecnol&oacute;gica?<\/strong><br \/>A quest&atilde;o central s&atilde;o os testes. Enquanto eles n&atilde;o forem realizados seguindo a metodologia j&aacute; elaborada pelo Departamento de Engenharia El&eacute;trica da UnB,&nbsp;aprovado pela Anatel ap&oacute;s consulta publica, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel dizer se o IBOC serve ou n&atilde;o para a realidade da radiodifus&atilde;o brasileira. Alguns aspectos do IBOC preocupam e&nbsp;foram mencionados em carta assinada por diversos pesquisadores de r&aacute;dio, entre eles a quest&atilde;o da tecnologia propriet&aacute;ria, cujos custos de royalties poder&atilde;o inviabilizar a sua ado&ccedil;&atilde;o por parte de emissoras comunit&aacute;rias e educativas. Essa condi&ccedil;&atilde;o coloca os radiodifusores sujeitos aos ditames da empresa, a iBiquity Digital Corporation, que administra os direitos de uso da tecnologia. Podem, assim, perder o controle sob o gerenciamento do processo de instala&ccedil;&atilde;o e defini&ccedil;&atilde;o de equipamentos.<\/p>\n<p>O pedido de amplia&ccedil;&atilde;o do uso de espectro de 200 kHz para 250 kHz apresentado em julho de 2007 pela iBiquity, propriet&aacute;ria norte-americana do padr&atilde;o IBOC, junto &agrave; Federal Communications Commission (FCC) tamb&eacute;m &eacute; preocupante. Esta altera&ccedil;&atilde;o &eacute; uma demanda t&eacute;cnica, sem a qual o padr&atilde;o n&atilde;o apresentar&aacute; um desempenho satisfat&oacute;rio. Se for concedida pela FCC, a amplia&ccedil;&atilde;o de freq&uuml;&ecirc;ncia poder&aacute; significar a redu&ccedil;&atilde;o de cerca de 30% no total de canais em freq&uuml;&ecirc;ncia modulada hoje dispon&iacute;veis naquele pa&iacute;s. Partilhamos da opini&atilde;o da Benton Foundation, organiza&ccedil;&atilde;o internacional dedicada &agrave; articula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas para o uso da comunica&ccedil;&atilde;o na solu&ccedil;&atilde;o de problemas sociais e em prol do desenvolvimento, que v&ecirc; no aumento da largura do canal ocupado por uma esta&ccedil;&atilde;o uma possibilidade de redu&ccedil;&atilde;o de disponibilidade de espectro para eventuais novos atores.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, h&aacute; problemas relacionados &agrave; qualidade de som. Pesquisadores que acompanharam testes em emissoras observaram problemas de interrup&ccedil;&otilde;es abruptas do sinal digital em locais onde havia fios de alta tens&atilde;o (rede el&eacute;trica), pr&eacute;dios e t&uacute;neis, for&ccedil;ando o aparelho receptor a transmitir em anal&oacute;gico, com um delay que pode chegar a oito segundos.<\/p>\n<p><strong>Como a academia tem visto os testes realizados com as tecnologias digitais para r&aacute;dio? Seus resultados permitem uma avalia&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel que embase uma tomada de decis&atilde;o neste momento?<\/strong><br \/>A preocupa&ccedil;&atilde;o foi manifesta na carta dos pesquisadores j&aacute; citada anteriormente. Os resultados obtidos at&eacute; agora n&atilde;o recomendam uma decis&atilde;o. Primeiro por que t&ecirc;m sido realizados por apenas um dos segmentos da radiodifus&atilde;o: emissoras comerciais. N&atilde;o foram realizados testes independentes. &Eacute; o que a Anatel prop&otilde;e-se a fazer junto a duas emissoras de r&aacute;dio a serem escolhidas.<\/p>\n<p><strong>No debate sobre o r&aacute;dio digital, a tecnologia vem sendo o foco principal. Essa vis&atilde;o &eacute; correta ou h&aacute; outros aspectos a serem discutidos para a implanta&ccedil;&atilde;o de um modelo de r&aacute;dio digital para o pa&iacute;s?<\/strong><br \/>Defendo que existam sete diretrizes b&aacute;sicas para a introdu&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio digital no Brasil. Primeiro, manter a gratuidade do acesso ao r&aacute;dio, ou seja,&nbsp;acesso a programa&ccedil;&atilde;o sonora, acesso a dados na tela do aparelho receptor de interesse p&uacute;blico e a oferta de servi&ccedil;os especializados e segmentados que podem ser adquiridos por assinatura. <\/p>\n<p>Segundo, o que se refere &agrave; transmiss&atilde;o de &aacute;udio com qualidade em qualquer situa&ccedil;&atilde;o de recep&ccedil;&atilde;o, no caso, m&oacute;vel, port&aacute;til e fixa, que disponha de efici&ecirc;ncia em qualquer localidade, independente de caracter&iacute;sticas topogr&aacute;ficas, condi&ccedil;&otilde;es de uso do espectro eletromagn&eacute;tico, como edifica&ccedil;&otilde;es e topografia e problemas de polui&ccedil;&atilde;o radioel&eacute;trica.<\/p>\n<p>Terceiro, a adaptabilidade do padr&atilde;o ao parque t&eacute;cnico de transmiss&atilde;o instalado e &agrave; industria de recep&ccedil;&atilde;o, pois as emissoras brasileiras t&ecirc;m perfil variado quanto ao tipo de freq&uuml;&ecirc;ncia e a pot&ecirc;ncia dos transmissores, o tipo de transmissor (valvular ou modular), a infra-estrutura t&eacute;cnica de produ&ccedil;&atilde;o, a equipe de pessoal t&eacute;cnico qualificado e a forma de explora&ccedil;&atilde;o e financiamento: comerciais, educativas, culturais, legislativa, estatais, institucionais e comunit&aacute;rias<\/p>\n<p>Quarto, permitir uma implanta&ccedil;&atilde;o gradual, minimizando os riscos e os custos com solu&ccedil;&otilde;es escal&aacute;veis e evolutivas, co-exist&ecirc;ncia e conviv&ecirc;ncia do anal&oacute;gico com digital, e um processo de transi&ccedil;&atilde;o compat&iacute;vel com a populariza&ccedil;&atilde;o do receptor.<\/p>\n<p>Quinto, o aparelho receptor deve contar com potencial de populariza&ccedil;&atilde;o, a partir da&nbsp;fabrica&ccedil;&atilde;o nacional do aparelho e evitando uma divis&oacute;ria digital entre os que ter&atilde;o acesso ao aparelho receptor digital e os outros que permanecer&atilde;o no anal&oacute;gico por falta de recursos.<\/p>\n<p>Sexto, que o modelo conte com tecnologia n&atilde;o propriet&aacute;ria, pois, al&eacute;m de faltarem recursos &agrave;s emissoras comunit&aacute;rias, educativas ou p&uacute;blicas para pagar os royalties, h&aacute;&nbsp; a necessidade de controle sob o gerenciamento do processo de instala&ccedil;&atilde;o e defini&ccedil;&atilde;o de equipamentos.<\/p>\n<p>E, finalmente, integra&ccedil;&atilde;o, flexibilidade e converg&ecirc;ncia, pois o r&aacute;dio digital n&atilde;o pode ficar isolado do movimento convergente, e deve favorecer a integra&ccedil;&atilde;o do meio com as demais m&iacute;dias digitais port&aacute;teis e com sistemas de redes informatizadas. Deve favorecer tamb&eacute;m a oferta de mais de uma programa&ccedil;&atilde;o por canal e dispor de aparelhos receptores inteligentes e com possibilidade de intera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>A senhora avalia que o sistema de r&aacute;dio brasileiro est&aacute; preparado para esta mudan&ccedil;a?<\/strong><br \/>Ainda n&atilde;o. Falta compreens&atilde;o da natureza da nova tecnologia quanto a aspectos t&eacute;cnicos, culturais e sociais.&nbsp; Sob o aspecto t&eacute;cnico, o processo de digitaliza&ccedil;&atilde;o poder&aacute; trazer dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o para a maior parte das emissoras, sobretudo as pequenas e m&eacute;dias instaladas no interior, as educativas e as comunit&aacute;rias, por falta de recursos para investimento. &Eacute; prov&aacute;vel que 50% das esta&ccedil;&otilde;es em funcionamento precisem trocar transmissores a v&aacute;lvulas por modulares para se adaptarem &agrave; tecnologia digital. Investimento igualmente significativo ser&aacute; necess&aacute;rio para digitalizar o processo de produ&ccedil;&atilde;o radiof&ocirc;nica, com a troca de equipamentos de est&uacute;dio, especialmente se for considerado o baixo n&iacute;vel de informatiza&ccedil;&atilde;o interna das r&aacute;dios no interior do pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>Quais deveriam ser os passos a serem adotados pelo governo federal neste processo daqui para frente?<\/strong><br \/>Estabelecer, de forma consensual, que tipo de r&aacute;dio digital queremos e, a partir desses par&acirc;metros, buscar a melhor tecnologia que nos atenda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora da UnB aponta aspectos preocupantes da tecnologia preferida pelos radiodifusores.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[565,564],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19948"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19948"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19948\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}