{"id":19922,"date":"2007-11-30T00:00:00","date_gmt":"2007-11-30T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19922"},"modified":"2014-09-07T02:54:40","modified_gmt":"2014-09-07T02:54:40","slug":"estreia-coroa-prevalencia-dos-interesses-dos-radiodifusores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19922","title":{"rendered":"&#8216;Estr\u00e9ia&#8217; coroa preval\u00eancia dos interesses dos radiodifusores"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>&quot;Uma nova era est&aacute; chegando: TV digital&rdquo;, anunciam as emissoras em campanha conjunta na televis&atilde;o. Hoje, se sabe apenas o que acontecer&aacute; nos primeiros cinco minutos da tal &ldquo;era&rdquo;: um <em>pool<\/em> de emissoras exibir&aacute; uma pe&ccedil;a publicit&aacute;ria em alta defini&ccedil;&atilde;o; o presidente Lula discursar&aacute;, tamb&eacute;m em alta defini&ccedil;&atilde;o. A festa ser&aacute; fechada aos 600 convidados das redes nacionais emissoras privadas de TV e&nbsp;acontecer&aacute; no pr&oacute;ximo domingo, em uma sala de concertos na cidade de S&atilde;o Paulo<\/p>\n<p>Mas, para a esmagadora maioria da popula&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o possui conversores ou aparelhos de televis&atilde;o adaptados ao novo sistema, ser&aacute; uma propaganda como outra qualquer. No segundo imediatamente posterior &agrave; estr&eacute;ia oficial do sistema brasileiro de televis&atilde;o digital, no pr&oacute;ximo dia 2 de dezembro, abre-se um imenso vazio.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Percurso anti-democr&aacute;tico<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>H&aacute; um consenso generalizado entre os setores que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil acerca da trajet&oacute;ria excludente do processo de implanta&ccedil;&atilde;o da TV digital: de um conselho consultivo &ndash; que deveria representar os interesses da sociedade &ndash; &agrave;s reuni&otilde;es a portas fechadas entre o governo e representantes das emissoras e da ind&uacute;stria eletr&ocirc;nica, todo poder foi dado aos radiodifusores. A nomea&ccedil;&atilde;o de H&eacute;lio Costa para o cargo de ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, em julho de 2005, foi ponto culminante do processo de desvirtuamento &ndash; e abriu portas para o aprofundamento das distor&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;H&eacute;lio Costa assume explicitamente os interesses da radiodifus&atilde;o comercial, esvazia o conselho consultivo e d&aacute; outra orienta&ccedil;&atilde;o ao processo de consulta e de debate&rdquo;, analisa Gabriel Priolli, &agrave; &eacute;poca presidente da ABTU (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Televis&atilde;o Universit&aacute;ria) e colunista do Observat&oacute;rio da Imprensa. &ldquo;E outros setores do governo, ainda que tenham manifestando diverg&ecirc;ncias em rela&ccedil;&atilde;o ao encaminhamento tomado pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, na pr&aacute;tica, endossaram essa pol&iacute;tica&rdquo;, completa.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Rumo ao latif&uacute;ndio improdutivo<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Na contram&atilde;o das acalentadas expectativas de democratiza&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o, com a inclus&atilde;o de novos programadores de conte&uacute;do &ndash; cria&ccedil;&atilde;o de emissoras comunit&aacute;rias, p&uacute;blicas ou de baixa pot&ecirc;ncia, ou ainda o estabelecimento de novos empres&aacute;rios de m&iacute;dia &ndash;, a implanta&ccedil;&atilde;o da TV digital manter&aacute; o uso do espectro de frequ&ecirc;ncias praticamente inalterado.<\/p>\n<p><\/span><span>Como hoje j&aacute; &eacute; not&oacute;rio, a digitaliza&ccedil;&atilde;o torna poss&iacute;vel alocar mais de uma emissora no mesmo canal de 6 MHz. Para tanto, seria necess&aacute;rio criar um &ldquo;operador de rede&rdquo;, respons&aacute;vel pela transmiss&atilde;o de mais de uma programa&ccedil;&atilde;o. Tal figura hoje j&aacute; existe na Europa. Devido &agrave; press&atilde;o dos radiodifusores, por&eacute;m, o governo abandonou esse dispositivo. &ldquo;O ideal era ter fracionado os canais. Mas as emissoras lutaram politicamente para manter tudo como est&aacute;&rdquo;, diz Gustavo Gindre, jornalista e membro do Intervozes.<\/p>\n<p><\/span><span>Na falta de novos players, as atuais emissoras ter&atilde;o a seu inteiro dispor o recurso chamado de multiprograma&ccedil;&atilde;o, onde uma mesma emissora pode transmitir v&aacute;rias programa&ccedil;&otilde;es simult&acirc;neas. A TV Gazeta de S&atilde;o Paulo, por exemplo, j&aacute; anunciou que transmitir&aacute; uma programa&ccedil;&atilde;o alternativa: conte&uacute;do criado pelos estudantes da Faculdade C&aacute;sper L&iacute;bero e propaganda da BestShopTV, um dos tantos supermercados eletr&ocirc;nicos que invadiram a televis&atilde;o brasileira nos &uacute;ltimos anos.<\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;Hoje j&aacute; vivemos em um latif&uacute;ndio. Com a televis&atilde;o digital, passaremos a um latif&uacute;ndio improdutivo&rdquo;, avalia Gindre. Na sua avalia&ccedil;&atilde;o, as emissoras brasileiras, salvo exce&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o s&atilde;o capazes sequer de ocupar uma grade de programa&ccedil;&atilde;o e, portanto, acabar&atilde;o vendendo hor&aacute;rios, como muitas hoje j&aacute; fazem. Assim, o potencial da multiprograma&ccedil;&atilde;o deve se perder em meio &agrave; avalanche publicit&aacute;ria.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Interatividade e mobilidade<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Em vez de garantir a explora&ccedil;&atilde;o das m&uacute;ltiplas funcionalidades da nova tecnologia &ndash; como multiprograma&ccedil;&atilde;o, interatividade, portabilidade e mobilidade &ndash; o governo brasileiro contentou-se com a alta defini&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;Trata-se de uma op&ccedil;&atilde;o bastante discut&iacute;vel&rdquo;, Priolli avalia. &ldquo;Os telespectadores de alta renda j&aacute; t&ecirc;m televis&atilde;o digital, pois consomem TV por assinatura. E as classes m&eacute;dias e baixas n&atilde;o podem arcar com os custos dos televisores com alta defini&ccedil;&atilde;o.&rdquo; O aparelho mais barato do mercado, da Philips, custa R$ 7.999. J&aacute; o pre&ccedil;o dos conversores gira em torno de R$ 1.000, sendo preciso ainda adquirir um televisor capaz de receber a alta defini&ccedil;&atilde;o [<a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=19895\">ver mat&eacute;ria sobre&nbsp;pre&ccedil;o dos conversores<\/a>].<\/p>\n<p><\/span><span>Apesar do custo elevado, esses aparelhos n&atilde;o est&atilde;o prontos para oferecer interatividade &ndash; se o consumidor quiser ter acesso a esses recursos, dever&aacute; adquirir, no futuro, um novo conversor.<\/p>\n<p><\/span><span>Al&eacute;m disso, aqueles que acompanham o processo de perto observam desinteresse por parte das emissoras de investir nessa &aacute;rea. &ldquo;Dificilmente a gente assistir&aacute; a interatividade plena, pois os radiodifusores est&atilde;o evitando e jogando para o futuro. Negam, assim, o que a TV digital teria de mais revolucion&aacute;rio, o que transcenderia o que a gente conhece como TV e levaria servi&ccedil;os interativos pra quem n&atilde;o tem acesso &agrave; internet&rdquo;, diz Gindre.<\/p>\n<p><\/span><span>Tamb&eacute;m &eacute; incerta a efetiva&ccedil;&atilde;o da mobilidade. Depois de repelir a atua&ccedil;&atilde;o das teles, as emissoras ter&atilde;o, elas pr&oacute;prias, de transmitir para os aparelhos m&oacute;veis &ndash; o que, evidentemente, implica em custos adicionais. Em fun&ccedil;&atilde;o disso, apenas as emissoras maiores devem investir nesse modelo. &ldquo;A Globo aposta que vai ter receita publicit&aacute;ria extra, porque a recep&ccedil;&atilde;o m&oacute;vel vai valorizar alguns hor&aacute;rios, como o hor&aacute;rio do rush. Com o aumento de receita, poder&aacute; investir no m&oacute;vel&rdquo;, diz Gindre.<\/p>\n<p><\/span><span>Outro fator a ser considerado &eacute; o custo dos aparelhos m&oacute;veis. A maior parte dos pa&iacute;ses adota terminais que combinam chips GSM (celular) e DVB (modelo europeu de TV digital). Apenas o Brasil empregar&aacute; aparelhos com chips GSM e ISDB (modelo japon&ecirc;s de TV) &ndash; j&aacute; que o Jap&atilde;o possui um sistema de telefonia m&oacute;vel distinto do GSM.<\/p>\n<p><\/span><span>Segundo uma fonte da TV Globo, a emissora apostar&aacute; na importa&ccedil;&atilde;o de aparelhos de TV de bolso da China, para vender por pre&ccedil;os baixos. As demais emissoras ainda n&atilde;o se manifestaram a respeito.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Pol&iacute;tica industrial<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Uma das causas que determinaram os altos custos da TV digital para a sociedade brasileira &eacute; o fato de &ndash; al&eacute;m de o governo ter optado por um modelo com baixa escala, que n&atilde;o atrai investimentos estrangeiros &ndash; a pol&iacute;tica de desenvolvimento de tecnologias nacionais ter sido praticamente descontinuada. <\/p>\n<p><\/span><span>Em julho do ano passado, os ministros envolvidos diretamente com o projeto de TV digital anunciaram, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: &ldquo;o acordo assinado entre o Brasil e o Jap&atilde;o prev&ecirc; parcerias entre centros de pesquisa e empresas dos dois pa&iacute;ses, como tamb&eacute;m a incorpora&ccedil;&atilde;o de tecnologias aqui desenvolvidas no sistema japon&ecirc;s&rdquo;. Nada restou da promessa, al&eacute;m de um &ldquo;memorando de entendimento&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Hoje, o Brasil desenvolve a primeira f&aacute;brica de chips da Am&eacute;rica Latina, o Centro Independente de Excel&ecirc;ncia em Tecnologia Eletr&ocirc;nica (Ceitec), no Rio Grande do Sul. &ldquo;Apesar disso, os chips para a televis&atilde;o digital ser&atilde;o importados! Utilizar a TV digital para criar escala para os nossos chips era estrat&eacute;gico&rdquo;, diz Gindre.<\/p>\n<p><\/span><span>Na falta de uma pol&iacute;tica industrial coerente, o cen&aacute;rio que se descortina &eacute; de submiss&atilde;o &agrave;s estrat&eacute;gias das multinacionais. &ldquo;O Brasil &eacute; s&oacute; mais uma pe&ccedil;a nesse processo e fica assistindo sem poder interferir&rdquo;, afirma o membro do Intervozes. &ldquo;O m&aacute;ximo que a gente pode fazer &eacute; dar isen&ccedil;&atilde;o fiscal para que as tecnologias importadas sejam montadas aqui&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><strong>Depois do baile<\/p>\n<p><\/strong><span>Para al&eacute;m da constata&ccedil;&atilde;o de que o dia 2 ser&aacute; um engodo, h&aacute; apreens&atilde;o quanto ao cen&aacute;rio que se conformar&aacute; depois de varrido o sal&atilde;o de baile. Especialistas ouvidos pelo Observat&oacute;rio concordam que a seq&uuml;&ecirc;ncia de op&ccedil;&otilde;es equivocadas tomadas pelo governo brasileiro implicar&aacute; em baixa ades&atilde;o a esse simulacro de TV digital &ndash; cujos recursos mais importantes foram postos para escanteio.<\/p>\n<p><\/span><span>Avalia&ccedil;&otilde;es otimistas enfatizam uma certa inexorabilidade da tecnologia, que deve se impor. &ldquo;As emissoras est&atilde;o tentando deter a lei da gravidade, mas elas n&atilde;o v&atilde;o poder controlar tudo o tempo todo, o processo vai avan&ccedil;ar&rdquo;, afirma Priolli. <\/p>\n<p><\/span><span>Ele destaca, por&eacute;m, que o Estado tem de assumir seu papel na cria&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. &ldquo;O processo pode retomar uma rota mais virtuosa. Mas isso &eacute; uma op&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. O governo Lula optou por uma linha mais restritiva. Que volte a encaminhar a televis&atilde;o digital sob uma perspectiva mais democratizante&rdquo;. Afinal, a esperan&ccedil;a &eacute; a &uacute;ltima que morre.<br \/><\/span><\/p>\n<p><span><br \/>* <\/span><span><span>Colaborou Bruno Mandelli<\/span>&nbsp;<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Festa da estr\u00e9ia oficial da TV digital em S\u00e3o Paulo consolida vit\u00f3ria dos donos das redes comerciais de televis\u00e3o; principais promessas da nova tecnologia n\u00e3o devem se concretizar, pelo menos nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[559],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19922"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19922"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19922\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27795,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19922\/revisions\/27795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}