{"id":19893,"date":"2007-11-27T15:58:52","date_gmt":"2007-11-27T15:58:52","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19893"},"modified":"2007-11-27T15:58:52","modified_gmt":"2007-11-27T15:58:52","slug":"tv-brasil-uma-emissora-cada-vez-menos-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19893","title":{"rendered":"TV Brasil: uma emissora cada vez menos p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>O an&uacute;ncio da composi&ccedil;&atilde;o do Conselho Curador da Empresa Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o (organiza&ccedil;&atilde;o que vai abrigar a nova TV p&uacute;blica) n&atilde;o trouxe surpresas. Infelizmente. Desde que o processo passou &agrave;s m&atilde;os da Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, do Ministro Franklin Martins, ficou claro que a composi&ccedil;&atilde;o do conselho, pretensamente representativo da sociedade, seria decidida unicamente pelo Executivo, a partir de crit&eacute;rios pr&oacute;prios. <\/p>\n<p><\/span><span>A TV p&uacute;blica nasce v&iacute;tima do modelo que o governo criou. Em vez de optar por uma arquitetura p&uacute;blica de participa&ccedil;&atilde;o, preferiu manter o controle e ser respons&aacute;vel direto por todas as indica&ccedil;&otilde;es. Feita essa op&ccedil;&atilde;o, recaiu sobre ele o &ocirc;nus de provar que n&atilde;o era autorit&aacute;rio e que n&atilde;o queria criar a &ldquo;TV Lula&rdquo;. Fez tanto esfor&ccedil;o para isso que criou um conselho conservador e elitista. <\/p>\n<p><\/span><span>Assim, criou-se um aparente paradoxo: no af&atilde; de legitimar o projeto da TV p&uacute;blica com setores da direita, o governo abriu m&atilde;o do car&aacute;ter p&uacute;blico e deu &agrave;&nbsp; emissora um perfil governamental. Mais: criou no conselho uma composi&ccedil;&atilde;o pensa, que traz uma penca de empres&aacute;rios e nenhum representante dos trabalhadores, seja da comunica&ccedil;&atilde;o seja do campo geral. Tamb&eacute;m indicou apenas uma pessoa com atua&ccedil;&atilde;o no debate das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de comunica&ccedil;&atilde;o (o advogado Jos&eacute; Paulo Cavalcanti), que mesmo assim n&atilde;o vinha participando dos debates da TV p&uacute;blica. <\/p>\n<p><\/span><span>Ali&aacute;s, essa foi a t&ocirc;nica das indica&ccedil;&otilde;es: nenhum dos escolhidos participou do F&oacute;rum de TVs P&uacute;blicas nem representa setores que vinham se manifestando no debate. Dir&atilde;o as vozes governistas que esses setores s&atilde;o representativos apenas de um pequeno setor da sociedade. Mesmo se isso for verdade, esse setor (pequeno ou grande) n&atilde;o pareceu digno de representa&ccedil;&atilde;o, a se julgar pela aus&ecirc;ncia completa de nomes desse campo no conselho. Para piorar, a id&eacute;ia (positiva) de que o conselho n&atilde;o deve ser composto somente por especialistas acabou sendo t&atilde;o forte que nenhum representante acad&ecirc;mico da comunica&ccedil;&atilde;o foi indicado.<\/p>\n<p><\/span><span>H&aacute; de se notar ainda a preocupa&ccedil;&atilde;o com a quest&atilde;o da regionalidade e, minimamente, da diversidade &eacute;tnico-racial e de g&ecirc;nero. No entanto, isso se deu sem di&aacute;logo com o pr&oacute;prio movimento negro, ind&iacute;gena ou feminista, o que mostra que definitivamente representatividade n&atilde;o foi um dos crit&eacute;rios nesse processo. Crit&eacute;rios s&atilde;o sempre question&aacute;veis, dir&atilde;o alguns. &Eacute; justamente isso que se est&aacute; fazendo aqui, questionando-os, embora neste caso &ndash; um debate sobre uma TV pretensamente p&uacute;blica, ressalte-se &ndash; os &uacute;nicos crit&eacute;rios que valham sejam aqueles decididos pelo governo.<\/p>\n<p><\/span><span>Esse fato ilustra, a bem da verdade, um problema de origem desse conselho. A l&oacute;gica de um &oacute;rg&atilde;o representativo da sociedade escolhido pelo governo, sem sequer um processo de indica&ccedil;&atilde;o, &eacute; paternalista e anti-democr&aacute;tica. Assessores do ministro v&ecirc;m utilizando o argumento de que &ldquo;no Reino Unido &eacute; assim&rdquo;. N&atilde;o &eacute;. No caso da BBC, a composi&ccedil;&atilde;o do Trust (&#39;conselho curador&#39; de l&aacute;) parte de um processo de sele&ccedil;&atilde;o pelo &ldquo;comit&ecirc; de indica&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas&rdquo;, &oacute;rg&atilde;o independente que faz esse papel para mais de 1000 &oacute;rg&atilde;os com participa&ccedil;&atilde;o social. Esse comit&ecirc; recebe indica&ccedil;&otilde;es da sociedade, e faz uma lista de candidatos a serem entrevistados. A partir da fase de entrevistas, entra, como um dos avaliadores, um representante do governo ingl&ecirc;s. Depois disso, as indica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o passadas ao Secret&aacute;rio de Estado, depois ao Primeiro-Ministro e, finalmente, &agrave; rainha (que n&atilde;o manda nada, como indica o pr&oacute;prio cargo, mas mostra que a decis&atilde;o est&aacute; acima do governo da vez).<\/p>\n<p><\/span><span>Al&eacute;m disso, embora haja, no final do processo, esse &#39;filtro&#39; de governo, trata-se de um mecanismo democr&aacute;tico de um pa&iacute;s que &eacute; parlamentarista h&aacute; s&eacute;culos, com uma forte tradi&ccedil;&atilde;o de debate p&uacute;blico e de equil&iacute;brio na composi&ccedil;&atilde;o desses espa&ccedil;os. Ainda assim, o BBC Trust j&aacute; foi criado com dezenas de pesos e contrapesos, &#39;checks and balances&#39;, mecanismos de consulta, medidas para evitar o conflito de interesses dos conselheiros, comit&ecirc;s p&uacute;blicos que analisam a programa&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, v&aacute;rios mecanismos que estabelecem um forte compromisso dos trustees com o conjunto da sociedade. Por aqui, se depender da an&aacute;lise pr&eacute;via, come&ccedil;amos mal. <\/p>\n<p><\/span><span>De toda forma, o governo n&atilde;o precisaria atravessar o Atl&acirc;ntico se quisesse encontrar modelos mais democr&aacute;ticos de representa&ccedil;&atilde;o. H&aacute; nas pr&oacute;prias estruturas do Estado brasileiro excelentes refer&ecirc;ncias. Tanto o campo da Sa&uacute;de quanto o da Habita&ccedil;&atilde;o, por exemplo, t&ecirc;m modelos avan&ccedil;ados de gest&atilde;o, com confer&ecirc;ncias peri&oacute;dicas e conselhos representativos, eleitos pelos setores envolvidos por meio de mecanismos democr&aacute;ticos. Se n&atilde;o quisesse sair da pr&oacute;pria &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o, o governo poderia adotar o modelo do Comit&ecirc; Gestor da Internet, que tamb&eacute;m tem sua composi&ccedil;&atilde;o determinada por voto direto dos setores interessados. Embora esses conselhos tenham atribui&ccedil;&otilde;es diferentes do que aqui discutimos, todos eles encontraram formas democr&aacute;ticas de a sociedade escolher seus representantes. Mais que isso, nenhum desses conselhos sofre do corporativismo que o governo usa como justificativa para a n&atilde;o ado&ccedil;&atilde;o desses modelos. <\/p>\n<p><\/span><span>Se n&atilde;o foi por falta de op&ccedil;&atilde;o nem de aviso, o governo fez uma op&ccedil;&atilde;o clara e consciente de modelo. Resta torcer para os cr&iacute;ticos desta proposta estarmos errados. N&atilde;o &eacute; o que indicam os progn&oacute;sticos, mas para quem acredita na necessidade de uma TV verdadeiramente p&uacute;blica no Brasil, manter a esperan&ccedil;a &eacute; quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><em>* Jo&atilde;o Brant &eacute; coordenador do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O an&uacute;ncio da composi&ccedil;&atilde;o do Conselho Curador da Empresa Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o (organiza&ccedil;&atilde;o que vai abrigar a nova TV p&uacute;blica) n&atilde;o trouxe surpresas. Infelizmente. 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