{"id":19831,"date":"2007-11-21T19:39:10","date_gmt":"2007-11-21T19:39:10","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19831"},"modified":"2007-11-21T19:39:10","modified_gmt":"2007-11-21T19:39:10","slug":"a-midia-como-aparato-ideologico-da-globalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19831","title":{"rendered":"A m\u00eddia como aparato ideol\u00f3gico da globaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><em>Ign&aacute;cio Ramonet&nbsp;&#8211;&nbsp;jornalista, escritor e te&oacute;rico da comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; visitou recentemente a Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Diante de uma plat&eacute;ia composta por ativistas de 18 pa&iacute;ses, Ramonet falou sobre seu mais recente livro: &ldquo;Fidel Castro, Biografia a Duas Vozes&rdquo;, resultado de mais de 100 horas de entrevista com o dirigente cubano, classificado por ele como &ldquo;o Picasso da pol&iacute;tica&rdquo;.<\/p>\n<p><\/em><\/span><span><em>Ap&oacute;s a palestra, o jornalista franc&ecirc;s, editor do Le Monde Diplomatique, conversou com exclusividade com este Observat&oacute;rio. Veja os melhores momentos da entrevista.<\/em><\/p>\n<p><\/span><span><strong>Algum tempo se passou desde o lan&ccedil;amento de &#39;A Tirania da Comunica&ccedil;&atilde;o&#39;. O que permanece e o que mudou no cen&aacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es nestes &uacute;ltimos anos?<br \/>Ramonet &#8211; <\/strong><\/span><span>O livro saiu h&aacute; uns cinco anos, e neste momento estou escrevendo a continua&ccedil;&atilde;o, que deve sair na primavera do pr&oacute;ximo ano. Eu diria que tudo que se anuncia nesse livro est&aacute; se realizando, tudo segue dentro do esquema geral ali tra&ccedil;ado. H&aacute; grupos midi&aacute;ticos cada vez mais importantes, como empresas resultantes de fus&otilde;es e concentra&ccedil;&otilde;es; por outro lado a Internet, que n&oacute;s pens&aacute;vamos que poderia ser um elemento de democratiza&ccedil;&atilde;o da express&atilde;o popular n&atilde;o o est&aacute; sendo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Por qu&ecirc;?<br \/><\/strong><\/span><span>A Internet hoje, a Internet digamos &ldquo;&uacute;til&rdquo;, j&aacute; pertence aos grandes grupos de comunica&ccedil;&atilde;o. Na maioria dos pa&iacute;ses os sites de informa&ccedil;&atilde;o mais freq&uuml;entados pertencem aos grandes grupos de comunica&ccedil;&atilde;o. Claro que alternativas a essa comunica&ccedil;&atilde;o sempre existiram, mas temos a mesma rela&ccedil;&atilde;o de marginaliza&ccedil;&atilde;o e domina&ccedil;&atilde;o que existe na imprensa escrita, ou no r&aacute;dio e na televis&atilde;o. Estamos comprovando todas as tend&ecirc;ncias que se viam, como a desqualifica&ccedil;&atilde;o dos jornalistas, por exemplo, uma desqualifica&ccedil;&atilde;o que segue crescendo: jornalistas cada vez mais mal pagos, cada vez mais proletarizados, cada vez mais incapacitados para realizar um verdadeiro trabalho aut&ocirc;nomo&#8230; tudo isso est&aacute; confirmando uma situa&ccedil;&atilde;o muito preocupante. <\/p>\n<p>Neste momento, os meios dominantes aparecem como aparato ideol&oacute;gico da globaliza&ccedil;&atilde;o. Hoje temos uma esp&eacute;cie de duop&oacute;lio de poderes: poder econ&ocirc;mico e financeiro, e poder midi&aacute;tico, que se aliam para dominar a sociedade. Nesse sentido, os cidad&atilde;os se sentem tra&iacute;dos, porque pensavam que o que cham&aacute;vamos de o quarto poder tinha como objetivo constituir um contra-poder, e que os cidad&atilde;os tinham um espa&ccedil;o para falar. Isso hoje se modificou, estamos numa situa&ccedil;&atilde;o em que o quarto poder desapareceu, se desvaneceu. Ou se transformou em um poder que oprime os cidad&atilde;os.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Voc&ecirc; falou da Internet. Nesta segunda-feira come&ccedil;a, no Rio de Janeiro, o IGF &ndash; F&oacute;rum de Governan&ccedil;a da Internet, que pretende discutir o futuro da Rede. Queria que falasse um pouco da diferen&ccedil;a entre o que se pensava da Internet h&aacute; dez anos atr&aacute;s e o que se passa hoje, as potencialidades e limites dela.<br \/><\/strong><\/span><span>A Internet ainda est&aacute; apenas come&ccedil;ando. Escrevi um livro h&aacute; alguns anos que se chama Internet: o mundo que est&aacute; por vir, &eacute; um universo que est&aacute; come&ccedil;ando e tudo o que se pode dizer sobre a Internet hoje provavelmente ser&aacute; insuficiente, ou ser&aacute; desmentido em dez anos. Porque ela tem apenas doze anos, a &ldquo;Internet &uacute;til&rdquo;. Inventa-se a web em 89, e ela come&ccedil;a a se estender em 95. Em doze anos houve uma expans&atilde;o que n&atilde;o se podia imaginar, ningu&eacute;m podia imaginar algo como o Google, algo como o You-Tube ou MySpace. Coisas que nem sequer imagin&aacute;vamos, e que provavelmente n&atilde;o temos como medir ainda o efeito que causam, por exemplo na ind&uacute;stria cultural, a crise extraordin&aacute;ria da economia sonora, de discos. Ou a crise que pode haver amanh&atilde; no setor de distribui&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Eu, desde o princ&iacute;pio, dizia que a Internet essencialmente serve para tr&ecirc;s coisas: para vender, e a rede j&aacute; &eacute; hoje um elemento de venda muito importante, para distrair, podemos baixar filmes e m&uacute;sicas, muito mais do que apenas visualizar documentos como pens&aacute;vamos antes, e terceiro ela serve para vigiar. Vemos isso de maneira muito concreta, cada movimento que fazemos na Internet deixa uma pegada que vai deixando impressa a personalidade daquele que a manipula. &Eacute; o que se est&aacute; confirmando, e, como disse antes, em certa medida estamos um pouco decepcionados porque a Internet n&atilde;o &eacute; a arma de express&atilde;o alternativa que imagin&aacute;vamos.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Outra quest&atilde;o muito ligada &agrave; Internet &eacute; a da propriedade intelectual. Voc&ecirc; como autor de livros, acredita que os direitos autorais s&atilde;o de fato um empecilho &agrave; difus&atilde;o do conhecimento ou&#8230;<br \/><\/strong><\/span><span>&Eacute; um problema evidentemente dif&iacute;cil, por duas raz&otilde;es. Primeiro, a l&oacute;gica da Internet &eacute; a l&oacute;gica da gratuidade. Tudo que na Internet se imp&otilde;e como barreira paga n&atilde;o funciona. Estamos vendo agora jornais como New York Times ou Wall Street Journal passarem para a gratuidade a cobran&ccedil;a que tinham institu&iacute;do no acesso aos seus artigos antigos, porque ganham mais com a freq&uuml;&ecirc;ncia e audi&ecirc;ncia, com publicidade. Isso faz com que querer que se pague por algo consumido na Internet seja muito dif&iacute;cil. Da&iacute; que os autores tenham aceitado a id&eacute;ia de o que circula pela Net circula gratuitamente. Agora, o problema &eacute; que muitos autores vivem dos direitos de suas obras, falo de m&uacute;sicos, realizadores de cinema, autores de literatura, etc. <\/p>\n<p>H&aacute; a&iacute; uma problem&aacute;tica, receber os direitos &eacute; uma reivindica&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima. Ent&atilde;o se por um lado est&aacute; essa id&eacute;ia de que a Internet permite uma circula&ccedil;&atilde;o grande de obras, o que sabemos &eacute; que essas obras que circulam e toda sua grande audi&ecirc;ncia est&atilde;o enriquecendo ao Google e aos sites de busca, ou est&atilde;o enriquecendo aos sites que ganham com publicidade. H&aacute; que se encontrar uma maneira que o acesso seja gratuito, mas que essa gratuidade n&atilde;o seja atrav&eacute;s de uma taxa&ccedil;&atilde;o da publicidade ou da compra de programas, permita que os autores sejam retribu&iacute;dos. &Eacute; um grande debate, em escala internacional. Digo que h&aacute; duas posi&ccedil;&otilde;es, e que as duas s&atilde;o leg&iacute;timas. Que circule livremente a cultura, obviamente estamos a favor; dois, que os autores tenham seus direitos reconhecidos. Sem que se tenha um sentimento de propriedade absoluto.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Estamos no MST, que tem um trabalho reconhecido de comunica&ccedil;&atilde;o alternativa, em seu livro Fidel fala da import&acirc;ncia da R&aacute;dio Rebelde na Revolu&ccedil;&atilde;o&#8230; Qual o papel da comunica&ccedil;&atilde;o como forma de organiza&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais?<br \/><\/strong><\/span><span>Eu creio que para Fidel estavam claros os princ&iacute;pios, e nisso ele foi um grande professor, de que numa guerra se luta em tr&ecirc;s frentes: militar (obviamente), pol&iacute;tica e a frente midi&aacute;tica. Fidel era um homem da gera&ccedil;&atilde;o p&oacute;s Segunda Guerra, percebeu que essa frente &eacute; capital. Bom, conhecemos como ele p&ocirc;de manipular o New York Times em seu c&eacute;lebre contato com Herbert Mathews, como ele p&ocirc;s de p&eacute; desde o princ&iacute;pio uma ala comunicacional, a R&aacute;dio Rebelde. Ele conta no livro que num momento ela foi a r&aacute;dio de maior audi&ecirc;ncia em Cuba, e isso com uma pot&ecirc;ncia muito d&eacute;bil. Mesmo assim tinha reflexos por toda a ilha. O movimento social j&aacute; entendeu isso, em escala internacional. Em certa maneira gra&ccedil;as &agrave; Internet: sem Internet n&atilde;o se poderia ter organizado o F&oacute;rum Social Mundial, sem Internet campanhas que se fizeram em escala planet&aacute;ria, como contra a Guerra no Iraque, n&atilde;o poderiam ter sido feitas. <\/span>&Eacute; indispens&aacute;vel que se pense tudo isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Estamos numa situa\u00e7\u00e3o em que o quarto poder desapareceu, se desvaneceu&#8217;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[547,363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19831"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19831"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19831\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19831"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19831"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19831"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}