{"id":19691,"date":"2007-11-06T15:32:32","date_gmt":"2007-11-06T15:32:32","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19691"},"modified":"2007-11-06T15:32:32","modified_gmt":"2007-11-06T15:32:32","slug":"codigo-de-etica-dos-jornalistas-revisao-bem-vinda-mas-insuficiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19691","title":{"rendered":"C\u00f3digo de \u00c9tica dos Jornalistas: revis\u00e3o bem-vinda, mas insuficiente"},"content":{"rendered":"<p><span>A Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas (Fenaj) concluiu em agosto passado o processo de revis&atilde;o do C&oacute;digo de &Eacute;tica dos Jornalistas Brasileiros. Durante seu Congresso Nacional Extraordin&aacute;rio, realizado em Vit&oacute;ria (ES), delegados de 23 estados discutiram e formalizaram uma vers&atilde;o final do documento, que substitui um c&oacute;digo de vinte e um anos.<\/p>\n<p><\/span><span>A consulta &agrave; categoria, no entanto, come&ccedil;ou em 2004, quando os sindicatos que comp&otilde;em a Fenaj passaram a discutir emendas ao c&oacute;digo de &eacute;tica. Num segundo momento, uma comiss&atilde;o de especialistas sistematizou as sugest&otilde;es encaminhadas e fez consulta p&uacute;blica no site da federa&ccedil;&atilde;o. Com as decis&otilde;es do congresso nacional, os jornalistas chegaram a uma quarta vers&atilde;o de um c&oacute;digo de &eacute;tica de origem sindical. O primeiro surgiu em 1949, mas foi revisado em 1968. Em 1986, veio &agrave; tona o documento que serviu de base para a atua&ccedil;&atilde;o dos jornalistas no per&iacute;odo de redemocratiza&ccedil;&atilde;o brasileira.<\/p>\n<p><\/span><span>Como os avan&ccedil;os no jornalismo e na tecnologia foram muitos nessas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas, era mesmo necess&aacute;rio revisar o c&oacute;digo, modernizando alguns trechos e incluindo cl&aacute;usulas e cuidados sobressalentes. Neste sentido, a ado&ccedil;&atilde;o de um novo c&oacute;digo de &eacute;tica para os jornalistas brasileiros &eacute; muito bem-vinda, mas n&atilde;o resolve toda a problem&aacute;tica da &eacute;tica no pa&iacute;s. Por duas raz&otilde;es fundamentais: a legisla&ccedil;&atilde;o profissional restringe as san&ccedil;&otilde;es que qualquer c&oacute;digo deontol&oacute;gico possa prescrever, e um c&oacute;digo &ndash; para mostrar efic&aacute;cia &ndash; precisa contar com instrumentos de implementa&ccedil;&atilde;o efetiva.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O primeiro furo<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Mesmo que bem intencionadas, as mudan&ccedil;as no C&oacute;digo de &Eacute;tica dos jornalistas n&atilde;o puderam ir muito al&eacute;m no &acirc;mbito das san&ccedil;&otilde;es aos profissionais que incorrem em falha &eacute;tica. Diferente de outras profiss&otilde;es, os jornalistas &ndash; mesmo que causem o pior dos preju&iacute;zos morais, por exemplo &ndash; n&atilde;o correm o risco de perder seus registros profissionais por agirem de forma anti&eacute;tica. As san&ccedil;&otilde;es chegam, no m&aacute;ximo, a uma advert&ecirc;ncia p&uacute;blica ao profissional faltoso. Se comparado a outros casos, como o dos m&eacute;dicos, engenheiros e advogados &ndash; que podem ser impedidos de atuarem profissionalmente &ndash;, o c&oacute;digo dos jornalistas disp&otilde;e de poder limitado.<\/p>\n<p><\/span><span>Para que isso se modificasse seria necess&aacute;rio alterar a legisla&ccedil;&atilde;o e passar do Minist&eacute;rio do Trabalho para a Fenaj a prerrogativa de conceder os registros profissionais dos jornalistas. Com isso, a&iacute; sim, a Fenaj poderia cassar os documentos de quem transgride o c&oacute;digo de &eacute;tica.<\/p>\n<p><\/span><span>Como a reforma feita &eacute; um processo limitado, claro que essa fragilidade &ndash; san&ccedil;&otilde;es leves &ndash; n&atilde;o &eacute; exclusiva desta vers&atilde;o do c&oacute;digo deontol&oacute;gico dos jornalistas. Mas esse detalhe reduz seu raio de alcance e sua efic&aacute;cia punitiva.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Uma segunda preocupa&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Deve-se elogiar a forma como a Fenaj conduziu o processo da revis&atilde;o do c&oacute;digo, pois os tr&acirc;mites exaustivos de discuss&atilde;o apenas d&atilde;o mais legitimidade e representatividade ao documento. Esses cuidados ampliam o tr&acirc;nsito do documento, mas n&atilde;o garantem o seu efetivo funcionamento.<\/p>\n<p><\/span><span>O c&oacute;digo deve ser bem elaborado, bem disseminado, aceito e assimilado pela categoria, mas &eacute; preciso ainda que haja formas de operacionaliz&aacute;-lo. A mais importante &eacute; a comiss&atilde;o de &eacute;tica. Tanto as dos sindicatos quanto a da Fenaj, de &acirc;mbito nacional. S&atilde;o essas comiss&otilde;es que acolhem as den&uacute;ncias de procedimentos duvidosos, ouvem as partes, e definem san&ccedil;&otilde;es ou o arquivamento do processo. Por serem estrat&eacute;gicas, as comiss&otilde;es de &eacute;tica precisam ser preservadas e fortalecidas, disporem de condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas para funcionamento. N&atilde;o s&oacute; para trabalharem em poss&iacute;veis processos abertos, mas tamb&eacute;m para atuarem como disseminadores de uma cultura jornal&iacute;stica respons&aacute;vel. As comiss&otilde;es, neste sentido, n&atilde;o precisam ocupar apenas a posi&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os repressores ou censores, mas tamb&eacute;m promotores de valores do jornalismo.<\/p>\n<p><\/span><span>Por isso, n&atilde;o basta apenas a reforma do c&oacute;digo. &Eacute; preciso que as entidades classistas entendam que o fortalecimento das comiss&otilde;es &eacute; essencial para que o novo c&oacute;digo se institucionalize junto aos profissionais. Sem esse cuidado, um c&oacute;digo deontol&oacute;gico &ndash; por mais bem intencionado que seja &ndash; n&atilde;o passa de letra morta.<\/p>\n<p><\/span><strong>Mas o que muda?<\/p>\n<p><\/strong><span>&Agrave; primeira vista, comparados o c&oacute;digo atual e o de 1986, pode-se notar que a vers&atilde;o que saiu de Vit&oacute;ria &eacute; mais enxuta, j&aacute; que o documento passou de 27 para 19 artigos. V&atilde; ilus&atilde;o. Na verdade, o novo c&oacute;digo &eacute; mais amplo que seu antecessor e combina conte&uacute;dos j&aacute; listados anteriormente, fundindo artigos, o que d&aacute; a impress&atilde;o de uma pe&ccedil;a mais sint&eacute;tica. O c&oacute;digo aprovado em Vit&oacute;ria contempla as indica&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas da deontologia jornal&iacute;stica no Brasil e adiciona ao menos duas importantes novidades: a cl&aacute;usula de consci&ecirc;ncia e preocupa&ccedil;&otilde;es mais n&iacute;tidas com m&eacute;todos heterodoxos de obten&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>No artigo 13, por exemplo, o c&oacute;digo de &eacute;tica faculta ao jornalista &quot;se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princ&iacute;pios deste C&oacute;digo de &Eacute;tica ou que agridam as suas convic&ccedil;&otilde;es&quot;. A seguir, indica que tal direito n&atilde;o pode ser usado como justificativa &quot;para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opini&otilde;es divergentes das suas&quot;. A chamada cl&aacute;usula de consci&ecirc;ncia &eacute; o maior avan&ccedil;o do novo c&oacute;digo, e ela permite que o jornalista n&atilde;o violente suas convic&ccedil;&otilde;es em nome dos interesses da empresa para a qual trabalha.<\/p>\n<p><\/span><span>Pol&ecirc;mica, a novidade j&aacute; &eacute; um direito conquistado em pa&iacute;ses da Europa, por exemplo. No contexto nacional, a cl&aacute;usula de consci&ecirc;ncia surge na evolu&ccedil;&atilde;o dos debates sobre o ass&eacute;dio moral no mundo do trabalho. Entre rep&oacute;rteres e editores, n&atilde;o &eacute; pr&aacute;tica rara o h&aacute;bito de pautar coberturas que n&atilde;o s&oacute; contrariam as convic&ccedil;&otilde;es individuais desses trabalhadores, mas tamb&eacute;m desviam-se das defini&ccedil;&otilde;es do bom jornalismo. Por isso, para combater os &quot;jab&aacute;s&quot; ou as &quot;pautas 500&quot;, a cl&aacute;usula de consci&ecirc;ncia vem como fator positivo. Entretanto, sabe-se que o mercado e o empresariado do setor s&atilde;o bastante refrat&aacute;rios a tais posicionamentos, condi&ccedil;&atilde;o que deve dificultar a implementa&ccedil;&atilde;o desse direito pra valer. &Eacute; algo a se conferir nos pr&oacute;ximos anos&#8230;<\/p>\n<p><\/span><span>A segunda grande novidade no novo c&oacute;digo de &eacute;tica se ocupa dos avan&ccedil;os metodol&oacute;gicos e tecnol&oacute;gicos no jornalismo. No artigo 11, o jornalista &eacute; proibido de divulgar informa&ccedil;&otilde;es &quot;obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, c&acirc;meras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontest&aacute;vel interesse p&uacute;blico e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apura&ccedil;&atilde;o&quot;. A proibi&ccedil;&atilde;o &ndash; no mesmo artigo &ndash; &eacute; flexibilizada na medida em que admite o uso daqueles meios quando impera o interesse p&uacute;blico ou quando j&aacute; se tentou de tudo. Ok, ok, mas &eacute; necess&aacute;rio criar regras mais espec&iacute;ficas para essas situa&ccedil;&otilde;es? Quem deve arbitrar isso? As empresas, em normativas internas? As entidades de classe, como a Fenaj?<\/p>\n<p><\/span><span>Questionamentos como esses devem se multiplicar nos pr&oacute;ximos anos, com a vig&ecirc;ncia do novo c&oacute;digo e com a sua assimila&ccedil;&atilde;o pela categoria, a come&ccedil;ar pelas gera&ccedil;&otilde;es em forma&ccedil;&atilde;o e as que desembarcam diariamente no mercado de trabalho. Nada mal, j&aacute; que o c&oacute;digo de &eacute;tica pode cumprir mais uma importante fun&ccedil;&atilde;o profissional: motivar que os jornalistas reflitam e discutam seus limites de atua&ccedil;&atilde;o e seu pr&oacute;prio campo de trabalho.<\/p>\n<p><\/span><span><em>* Rog&eacute;rio Christofoletti &eacute; jornalista, professor da Universidade do Vale do Itaja&iacute; (Univale) e coordenador do <\/em><\/span><a href=\"http:\/\/www.univali.br\/monitor\" onclick=\"NovaJanela(this.href);return false;\"><span><em>Monitor de M&iacute;dia<\/em><\/span><\/a><em><span>, integrante da Rede Nacional de <\/span><span>Observat&oacute;rios de Imprensa (<\/span><\/em><a href=\"http:\/\/renoi.blogspot.com\/\" onclick=\"NovaJanela(this.href);return false;\"><span><em>Renoi<\/em><\/span><\/a><span><em>)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas (Fenaj) concluiu em agosto passado o processo de revis&atilde;o do C&oacute;digo de &Eacute;tica dos Jornalistas Brasileiros. 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