{"id":19686,"date":"2007-11-06T13:45:35","date_gmt":"2007-11-06T13:45:35","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19686"},"modified":"2007-11-06T13:45:35","modified_gmt":"2007-11-06T13:45:35","slug":"os-10-anos-da-anatel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19686","title":{"rendered":"Os 10 anos da Anatel"},"content":{"rendered":"<p><em>Conhecido pelos mais pr&oacute;ximos como comandante (afinal, ele &eacute;, mesmo, um Comandante de Mar-e-Guerra), a trajet&oacute;ria&nbsp; do conselheiro Jos&eacute; Leite Pereira Filho confunde-se com a da pr&oacute;pria Anatel, ag&ecirc;ncia que dirigiu desde o seu primeiro dia. Trazido da Uni&atilde;o Internacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es pelo ex-ministro S&eacute;rgio Motta, Leite acabou dedicando dez anos de sua trajet&oacute;ria ao setor, deixando o cargo de conselheiro da ag&ecirc;ncia no dia 4 deste m&ecirc;s. <\/p>\n<p>Nesta entrevista, o leitor poder&aacute; compreender um pouco o seu perfil: discreto quando trata de elencar as realiza&ccedil;&otilde;es, e realista na avalia&ccedil;&atilde;o dos erros do regulador. E poder&aacute; entender tamb&eacute;m, ao se deparar com as suas instigantes interven&ccedil;&otilde;es, porque Jos&eacute; Leite Pereira Filho &eacute; um dos mais importantes art&iacute;fices na constru&ccedil;&atilde;o do modelo, expans&atilde;o e democratiza&ccedil;&atilde;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es brasileiras. <\/em><\/p>\n<p><em>Leite quebra alguns tabus, como o de que as operadoras de TV a cabo s&atilde;o controladas por capital nacional. Defende sem pudor a converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, por entender ser ela ben&eacute;fica para o pa&iacute;s. Ao mesmo tempo, acha que as incumbents devem ser controladas pelo poder que exercem nos mercados relevantes. N&atilde;o se furta da auto-cr&iacute;tica, ao reconhecer que a fiscaliza&ccedil;&atilde;o da Anatel n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es de garantir, corretamente, os direitos dos usu&aacute;rios, ou ainda que a ag&ecirc;ncia &eacute; ineficiente para arbitrar as brigas entre as empresas. E continua a pensar o futuro, como medo do despreparo da ag&ecirc;ncia para enfrentar as grandes empresas na defini&ccedil;&atilde;o do modelo de custos. <\/em><br \/>&nbsp; &nbsp;<br \/><strong>Tele.S&iacute;ntese &ndash; O sr. dirigiu a Anatel por dez anos, em dois governos diferentes. Como avalia a rela&ccedil;&atilde;o das ag&ecirc;ncias reguladoras com o Poder Executivo brasileiro?<br \/>Jos&eacute; Leite Pereira Filho<\/strong> &ndash; A passagem de dois governos consolidou as ag&ecirc;ncias reguladoras. O primeiro governo criou esse sistema, mas o teste do segundo governo foi essencial e acho que a ag&ecirc;ncia passou no teste. O atual governo tem demonstrado, em mais de uma oportunidade, que, realmente, assimilou esse modelo. Essa &eacute; a conclus&atilde;o desses dez anos: a ag&ecirc;ncia veio para ficar. <\/p>\n<p><strong>E no relacionamento entre os poderes?<\/strong><br \/>No relacionamento com os governos, realmente h&aacute; uma dificuldade. E a dificuldade existe porque, quando se diz que a pol&iacute;tica &eacute; estabelecida pelo Poder Executivo e pelo Poder Legislativo e a implementa&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica pela ag&ecirc;ncia reguladora, essa defini&ccedil;&atilde;o &eacute; muito vaga. Existe uma fronteira muito fluida entre o que &eacute; regula&ccedil;&atilde;o e o que &eacute; pol&iacute;tica p&uacute;blica. Acredito que o aprimoramento seria estabelecer, com mais precis&atilde;o, como a pol&iacute;tica deveria se expressar. E, talvez, a sa&iacute;da fosse que a pol&iacute;tica tivesse que se manifestar sempre atrav&eacute;s de um instrumento jur&iacute;dico, seja decreto presidencial, seja uma lei. Tamb&eacute;m&nbsp; entendo que as leis e os decretos devam se restringir &agrave; pol&iacute;tica em si e n&atilde;o &agrave; regulamenta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Algum exemplo dessa legisla&ccedil;&atilde;o regulamentadora?<\/strong><br \/>A Lei de TV a Cabo, para mim, &eacute; um exemplo desse problema, pois, ao longo dos anos ela s&oacute; prejudicou o segmento de TV por assinatura. <\/p>\n<p><strong>De que maneira?<\/strong><br \/>Essa lei ficou desatualizada rapidamente, estabeleceu restri&ccedil;&otilde;es de capital que n&atilde;o s&atilde;o precisas, trazendo interpreta&ccedil;&otilde;es diversas. Do jeito que est&aacute; escrita a lei, o capital brasileiro nas concession&aacute;rias de TV a cabo pode ser quase zero, ao inv&eacute;s de 51% como se apregoa. <\/p>\n<p><strong>O sr. quer dizer o capital total, n&atilde;o &eacute;? Mas o controle (ou 51% das a&ccedil;&otilde;es) t&ecirc;m que estar em m&atilde;os de brasileiros, n&atilde;o?<\/strong><br \/>N&atilde;o &eacute; isso que diz a lei e n&atilde;o &eacute; assim que muitas concession&aacute;rias de TV a cabo est&atilde;o constitu&iacute;das. A Lei de TV a Cabo diz que 51% das a&ccedil;&otilde;es de uma concession&aacute;ria de TV a cabo t&ecirc;m que estar em m&atilde;os de pessoas f&iacute;sicas brasileiras. Mas essa mesma lei diz, tamb&eacute;m, que essa mesma concession&aacute;ria pode ser controlada por outra pessoa jur&iacute;dica que tamb&eacute;m tenha 51% nas m&atilde;os de brasileiros, e mais outra e mais outra. Dependendo da cadeia de controle, o controle de brasileiros sobre a operadora de TV a cabo se reduz a quase zero. <\/p>\n<p>E h&aacute; esses exemplores no mercado brasileiro. H&aacute; concession&aacute;rias de TV a cabo no Brasil que t&ecirc;m nove empresas controladoras sobre a sua estrutura. Nesse caso espec&iacute;fico, se fizermos uma conta simples, para sabermos quanto de capital nacional efetivamente existe na operadora, basta que elevemos os 51% &agrave; oitava pot&ecirc;ncia, o que significa que, na concession&aacute;ria, a representa&ccedil;&atilde;o do capital nacional &eacute; menor do que 0,05% (meio por cento). Ent&atilde;o, o capital nacional da Lei do Cabo &eacute; uma balela.<\/p>\n<p>Uma balela, mas que atrapalhou muito o setor, porque, ao definir o capital em 51%, isso espantou os investidores estrangeiros. No boom das telecomunica&ccedil;&otilde;es, a Anatel vendeu v&aacute;rias outorgas de TV a cabo que n&atilde;o foram em frente, porque faltou investimento. Os investidores estrangeiros ficaram assustados quando algu&eacute;m dizia que a concession&aacute;ria&nbsp; &ldquo;s&oacute; pode ser de brasileiro&rdquo;. Mas, na realidade, n&atilde;o &eacute; isso o que acontece, j&aacute; que, no final, uma concession&aacute;ria ter&aacute; meio por cento de capital brasileiro e 99,5 de capital estrangeiro. <\/p>\n<p><strong>Esse &eacute; o caso da Telmex na Net, por exemplo?<\/strong><br \/>&Eacute;. Mas h&aacute; outros exemplos. E quando me refiro a essa cadeia, estou falando apenas das a&ccedil;&otilde;es nominativas, j&aacute; que as preferenciais, que s&atilde;o 2\/3 das nominativas, n&atilde;o t&ecirc;m restri&ccedil;&atilde;o alguma. <\/p>\n<p><strong>O sr. n&atilde;o acha que essa cadeia de controle que diminui a participa&ccedil;&atilde;o do capital estrangeiro desvirtua o princ&iacute;pio da Lei do Cabo?<br \/><\/strong>N&atilde;o, porque, justamente, a Lei do Cabo n&atilde;o fala que a concession&aacute;ria, a operadora de cabo, &eacute; que deve ser controlada por brasileiro.&nbsp; A lei diz que a concession&aacute;ria deve ter sede no Brasil e pelo menos 51% da propriedade das a&ccedil;&otilde;es (e n&atilde;o o controle) nas m&atilde;os de pessoa f&iacute;sica ou de pessoa jur&iacute;dica brasileira. E quando fala em pessoa jur&iacute;dica, a&iacute; sim fala que essa pessoa jur&iacute;dica &eacute; que deve ser controlada por brasileiro. Ou seja, a concession&aacute;ria deve ter 51% de capital ou pessoa f&iacute;sica brasileira ou pessoa jur&iacute;dica brasileira. S&oacute;. <\/p>\n<p><strong>Mas a 101 n&atilde;o &ldquo;amarra&rdquo; essa cadeia de controle?<\/strong><br \/>A 101 s&oacute; pode ser aplicada nos limites da Lei. E a Lei do Cabo fala que o controle de 51% deve estar na pessoa jur&iacute;dica que controla a concession&aacute;ria. A 101 &uacute;nica e exclusivamente define o que &eacute; controle. E a primeira pergunta que ela busca responder &eacute;: quem &eacute; que deve ser controlado? E, no caso da Lei do Cabo, &eacute; a holding, e n&atilde;o a concession&aacute;ria. Ent&atilde;o, a 101 vai obrigar que a pessoa f&iacute;sica que est&aacute; na &uacute;ltima empresa da cadeia de controle seja controladora da holding, mas p&aacute;ra a&iacute;. Ela n&atilde;o pode chegar &agrave; concession&aacute;ria. <\/p>\n<p><strong>Mas, se se controla o controlador, n&atilde;o est&aacute;-se controlando a operadora?<\/strong><br \/>Depende do controlador. Ele pode estabelecer no acordo de acionistas que quer ter representantes dele no conselho de administra&ccedil;&atilde;o da concession&aacute;ria. Ou, simplesmente, pode querer agir como investidor e n&atilde;o ter qualquer representa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Quais foram os principais erros e acertos desses dez anos?<\/strong><br \/>Vamos primeiro aos orgulhos. &Eacute; indubit&aacute;vel que um deles &eacute; a expans&atilde;o da telefonia m&oacute;vel no Brasil. O servi&ccedil;o m&oacute;vel, n&atilde;o resta d&uacute;vida, foi sucesso no mundo todo, mas no Brasil, em particular, ele recebeu uma ajuda muito grande do regulador, quando tomou a decis&atilde;o da destina&ccedil;&atilde;o da freq&uuml;&ecirc;ncia de 1.8 GHz para a segunda gera&ccedil;&atilde;o e a de 1.9 GHz para a terceira gera&ccedil;&atilde;o, trazendo para c&aacute;&nbsp; sistema de grande escala mundial, al&eacute;m de garantir uma disponibilidade de espectro muito grande. Essa foi uma contribui&ccedil;&atilde;o muito importante do regulador para o desenvolvimento da telefonia m&oacute;vel, al&eacute;m da cria&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o pr&eacute;-pago.<\/p>\n<p><strong>O sr. acha que, se a Anatel tivesse tomado outra decis&atilde;o naquela &eacute;poca, n&atilde;o haveria a expans&atilde;o do celular tal como ocorre hoje?<\/strong><br \/>O crescimento do celular ocorreria de qualquer maneira, porque &eacute; assim no mundo todo. Mas o que se nota &eacute; que houve uma expans&atilde;o maior nos pa&iacute;ses mais pobres, quando se adotou a tecnologia GSM, de escala mundial. Nos Estados Unidos, onde a tecnologia era outra, houve tamb&eacute;m a expans&atilde;o, mas l&aacute; a renda per capita &eacute; muito diferente e, mesmo com a tecnologia mais cara, eles vivem com isso, sem problemas. Nos pa&iacute;ses mais pobres, que precisavam de tecnologia mais barata, o GSM, sem d&uacute;vida, ajudou muito. <\/p>\n<p><strong>Outros acertos?<\/strong><br \/>Outra contribui&ccedil;&atilde;o, embora muita gente critique a decis&atilde;o, foi a implementa&ccedil;&atilde;o do C&oacute;digo de Sele&ccedil;&atilde;o de Prestadora (CSP). Acho at&eacute; que est&aacute; na hora de rever a decis&atilde;o, mas, &agrave; &eacute;poca, foi uma contribui&ccedil;&atilde;o grande para a competi&ccedil;&atilde;o. A escolha, chamada a chamada, de prestadora de longa dist&acirc;ncia, fez com que o Brasil sa&iacute;sse de um sistema em que s&oacute; tinha uma empresa oferecendo o servi&ccedil;o &ndash; que era a Embratel &ndash; e dividisse esse mercado com as outras empresas. Se n&atilde;o fosse isso, dificilmente ter&iacute;amos a competi&ccedil;&atilde;o t&atilde;o r&aacute;pida como aconteceu nas liga&ccedil;&otilde;es de longa dist&acirc;ncia. O inc&ocirc;modo de ficar digitando mais n&uacute;meros foi o pre&ccedil;o que a sociedade teve que pagar para que a competi&ccedil;&atilde;o vingasse.<\/p>\n<p>A pergunta, agora, &eacute; se continua a valer a pena essa medida. Acho que, ap&oacute;s dez anos, vale a pena reavaliar. Ela j&aacute; cumpriu seu papel. Acredito que o sistema de pr&eacute;-sele&ccedil;&atilde;o j&aacute; poderia ser tentado, principalmente na longa dist&acirc;ncia originada no servi&ccedil;o m&oacute;vel. <\/p>\n<p><strong>Outro registro positivo?<\/strong><br \/>Os direitos dos usu&aacute;rios. Esses direitos foram bem ampliados ao longo do tempo, tanto nos regulamentos do servi&ccedil;o m&oacute;vel pessoal, no do servi&ccedil;o telef&ocirc;nico fixo comutado, e no de TV por assinatura. Foi um progresso muito grande. <\/p>\n<p><strong>Por que a Anatel demorou tanto para estabelecer os direitos dos usu&aacute;rios de TV por assinatura?<\/strong><br \/>Acho que foi uma quest&atilde;o de prioridade, j&aacute; que a TV por assinatura tinha poucos usu&aacute;rios. A tend&ecirc;ncia normal &eacute; a de se inserir os direitos dos usu&aacute;rios em servi&ccedil;os que tenham quantidade grande de clientes pessoas f&iacute;sicas. O Servi&ccedil;o de Comunica&ccedil;&atilde;o Multim&iacute;dia (SCM), por exemplo, &eacute; corporativo, por isso acho que deve-se esperar um pouco para criar direitos de usu&aacute;rios, pois, com eles, v&ecirc;m muitas obriga&ccedil;&otilde;es. Acho, contudo, que no acesso &agrave; internet banda larga, j&aacute; se deveria come&ccedil;ar a pensar em fazer um regulamento estabelecendo esses direitos.<\/p>\n<p><strong>E a competi&ccedil;&atilde;o? Como o sr. avalia?<\/strong><br \/>A competi&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m est&aacute; na lista de sucessos. Sem d&uacute;vida nenhuma, ela ocorre na telefonia m&oacute;vel, uma competi&ccedil;&atilde;o muito grande.<\/p>\n<p><strong>E por que ainda uma tarifa de celular t&atilde;o acima dos padr&otilde;es internacionais? Pelo estudo da Merril Lynch, o minuto m&oacute;vel do Brasil &eacute; um dos mais caros do mundo.<\/strong><br \/>Esse pre&ccedil;o vai cair. O pre&ccedil;o s&oacute; come&ccedil;a a cair quando o mercado se estabiliza. Enquanto h&aacute; uma demanda muito grande &ndash; e no Brasil ela ainda existe, pois a densidade est&aacute; na ordem de&nbsp; 50%&nbsp; &ndash;, n&atilde;o h&aacute; muita disputa de pre&ccedil;o. Quando o mercado se estabiliza, as empresas passam a competir mais agressivamente na qualidade e no pre&ccedil;o. <\/p>\n<p><strong>E os fracassos?<\/strong><br \/>Leite &ndash; O maior fracasso foi a n&atilde;o utiliza&ccedil;&atilde;o dos recursos do Fust (Fundo de Universaliza&ccedil;&atilde;o das Telecomunica&ccedil;&otilde;es). A&nbsp; falta de sua utiliza&ccedil;&atilde;o distorceu muito o modelo. O modelo previa que, nos locais&nbsp; onde n&atilde;o houvesse interesse de as empresas investirem, e nas camadas sociais que n&atilde;o tivessem poder aquisitivo adequado, o Fust seria usado. Como ele n&atilde;o foi gasto, pressionou os outros atores a resolverem o problema. Esse foi o maior problema dos dez anos, pois se restringiu muito o acesso banda larga no Brasil. &Eacute; um problema e uma frusta&ccedil;&atilde;o, porque nunca houve vontade pol&iacute;tica para resolv&ecirc;-lo.<\/p>\n<p><strong>Outros erros?<\/strong><br \/>Tenho tamb&eacute;m algumas outras pequenas frustra&ccedil;&otilde;es. Entre elas, a do relacionamento com os usu&aacute;rios. Falta &agrave; Anatel se posicionar&nbsp; na quest&atilde;o da prote&ccedil;&atilde;o dos direitos dos usu&aacute;rios. <\/p>\n<p>S&atilde;o duas as quest&otilde;es: uma &eacute; o usu&aacute;rio ter o direito, e quem d&aacute; esse direito &eacute; a regulamenta&ccedil;&atilde;o. Outra, &eacute; a fiscaliza&ccedil;&atilde;o para certificar se esse direito est&aacute; sendo obedecido pelas empresas. E &eacute; nesse ponto que acho que est&aacute; a fragilidade da Anatel. De in&iacute;cio, a ag&ecirc;ncia assumiu que faria essa fiscaliza&ccedil;&atilde;o para assegurar a prote&ccedil;&atilde;o dos direitos dos usu&aacute;rios. E ela, objetivamente, n&atilde;o tem capacidade para isso. Por outro lado, existe um sistema enraizado na sociedade &#8211; os Procons, e Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Acho que Anatel deve deixar que, principalmente, os Procons fa&ccedil;am essa fiscaliza&ccedil;&atilde;o. &nbsp;<\/p>\n<p>Notei, ao longo desses anos, que a Anatel n&atilde;o consegue fazer isso bem, e, se fosse faz&ecirc;-lo bem, deixaria de cumprir com suas outras atribui&ccedil;&otilde;es principais. Que s&atilde;o regular e ser um agente de equil&iacute;brio entre os investidores, o Poder P&uacute;blico e o pr&oacute;prio consumidor. <\/p>\n<p>A ag&ecirc;ncia, ao desempenhar o papel de ser o ponto de equil&iacute;brio entre esses agentes, e a sociedade, no que diz respeito ao consumidor, n&atilde;o tem conseguido desempenhar bem esse papel. Se n&atilde;o existesse uma organiza&ccedil;&atilde;o como o Procon, a Anatel teria que se aparelhar para isso. Mas, como existe, acho que merece uma reestrutura&ccedil;&atilde;o nesse sentido.<\/p>\n<p><strong>Quanto &agrave; regula&ccedil;&atilde;o, algum problema?<\/strong><br \/>Do ponto de vista da organiza&ccedil;&atilde;o da regula&ccedil;&atilde;o, acho que a Anatel precisa resolver a quest&atilde;o das outorgas.<\/p>\n<p><strong>Caminhar para a licen&ccedil;a &uacute;nica?<\/strong><br \/>Entendo que n&atilde;o d&aacute; para caminhar para a licen&ccedil;a &uacute;nica, mas a Anatel deveria&nbsp; reduzir o n&uacute;mero de licen&ccedil;as e criar outorgas de classes de servi&ccedil;os, para poder ficar com o m&iacute;nimo de outorgas poss&iacute;veis e evitar que a outorga seja um empecilho &agrave; converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica. Est&aacute; totalmente antiquada a exist&ecirc;ncia de 34 outorgas de servi&ccedil;os, e muitos deles nem s&atilde;o mais utilizados. <\/p>\n<p>Trabalhar nessa dire&ccedil;&atilde;o significa tamb&eacute;m dar mobilidade plena a todos os servi&ccedil;os que utilizem radiofreq&uuml;&ecirc;ncia, pois n&atilde;o tem sentido se poder fazer tecnicamente uma coisa e acabar sendo impedido por empecilhos regulat&oacute;rios. <\/p>\n<p><strong>Outros desejos?<\/strong><br \/>Acho tamb&eacute;m que a Anatel precisa resolver melhor a quest&atilde;o da arbitragem. A Anatel n&atilde;o tem conseguido fazer a arbitragem entre as grandes empresas, nem entre as pequenas. E para melhorar esse desempenho, a ag&ecirc;ncia poderia incentivar o aparecimento de c&acirc;maras de arbitragem fora de sua estrutura. As quest&otilde;es que v&atilde;o parar em arbitratem dizem respeito apenas a algumas empresas, por que, ent&atilde;o,&nbsp; elas teriam que vir &agrave; Anatel? Elas poderiam ir a uma C&acirc;mara de Arbitragem e poderiam conseguir uma solu&ccedil;&atilde;o muito mais r&aacute;pida para as diverg&ecirc;ncias. <\/p>\n<p><strong>O sr. n&atilde;o acha que se deveria estimular outros mecanismos de competi&ccedil;&atilde;o para a banda larga, ou seja, evitar que as incumbents locais tamb&eacute;m controlem esse mercado?<\/strong><br \/>Os efeitos da converg&ecirc;ncia s&atilde;o todos positivos, portanto, aumenta tamb&eacute;m a competi&ccedil;&atilde;o. No caso no Brasil, a converg&ecirc;ncia n&atilde;o traz maiores riscos do que os que j&aacute; existem,&nbsp; pois, como n&atilde;o h&aacute; qualquer restri&ccedil;&atilde;o para as incumbents, a n&atilde;o ser no caso da TV a cabo em suas &aacute;reas de concess&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; nenhuma complica&ccedil;&atilde;o para elas terem outras licen&ccedil;as. Por sinal, todos os grandes grupos no Brasil j&aacute; t&ecirc;m. Ter v&aacute;rios pap&eacute;is ou ter um papel s&oacute;, d&aacute; no mesmo. <\/p>\n<p>Se h&aacute; algum problema de concentra&ccedil;&atilde;o por causa de licen&ccedil;a de outorga, ele independe da converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, pois n&atilde;o existe qualquer veda&ccedil;&atilde;o para as empresas terem as diversas outorgas. A converg&ecirc;ncia traz, mesmo, a competi&ccedil;&atilde;o, isso sim.<\/p>\n<p>Mas acho que a Anatel deveria continuar a trabalhar no Poder de Mercado Significativo. Ou seja, procurar definir os mercados relevantes. A Europa definiu os 18 mercados que considera mais importantes. O Brasil poderia tamb&eacute;m pensar na mesma coisa. <\/p>\n<p><strong>Esse papel deveria ser da Anatel ou do Cade?<\/strong><br \/>Da Anatel, porque &eacute; ela quem conhece bem as aplica&ccedil;&otilde;es de telecomunica&ccedil;&otilde;es e, portanto, pode tamb&eacute;m definir os mercados relevantes. <\/p>\n<p><strong>E quanto &agrave; empresa nacional? Qual a sua opini&atilde;o?<\/strong><br \/>Leite &ndash; A empresa nacional j&aacute; existe e existe uma outra quase nacional.<\/p>\n<p><strong>E a fus&atilde;o das duas?<\/strong><br \/>Na verdade, tenho receios de que uma empresa puramente nacional acabe significando um tiro no p&eacute;. Pode haver uma empresa preponderamente brasileira, mas n&atilde;o se deveria descartar os investidores estrangeiros. Por exemplo, a Telecom Italia, agora, continua com mais de 50% nas m&atilde;os do capital italiano, mas autorizou o ingresso de um investidor estrangeiro, no caso a Telef&oacute;nica. <\/p>\n<p><strong>J&aacute; de fora, para o sr. qual ser&aacute; o maior desafio da Anatel para o pr&oacute;ximo ano?<\/strong><br \/>O modelo de custos, para que efetivamente ele possa atender &agrave;s necessidades do consumidor. Se o regulador n&atilde;o estiver muito preparado para o modelo de custos, ele vai perder para as empresas, que estar&atilde;o muito mais bem preparadas s&oacute; que elas ter&atilde;o, a partir de ent&atilde;o, uma justificativa regulat&oacute;ria para cobrar a tarifa. N&atilde;o podemos correr o risco de repetir a Holanda. L&aacute;, depois de implantado o modelo de custos, a tarifa aumentou. <\/p>\n<p><strong>Depois da quarentena, o sr. pretende continuar na &aacute;rea?<\/strong><br \/>N&atilde;o poderia virar dentista de uma hora para outra. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Direitos dos consumidores deveriam ser fiscalizados pelos Procons, n\u00e3o pela ag\u00eancia reguladora&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[518],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19686"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19686"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19686\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}