{"id":19666,"date":"2007-11-02T15:03:03","date_gmt":"2007-11-02T15:03:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19666"},"modified":"2007-11-02T15:03:03","modified_gmt":"2007-11-02T15:03:03","slug":"tv-brasil-os-midiocratas-contra-a-publicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19666","title":{"rendered":"TV Brasil: os midiocratas contra a publicidade"},"content":{"rendered":"<p><span>Estava demorando, mas agora voltou a normalidade no processo de implanta&ccedil;&atilde;o da nova televis&atilde;o federal, constitu&iacute;da sob a tamb&eacute;m nova EBC (Empresa Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o). O estranho sil&ecirc;ncio das emissoras comerciais sobre a TV Brasil chegava a dar, a alguns, a impress&atilde;o de neutralidade, ou at&eacute; de indiferen&ccedil;a, como se a montagem de uma rede nacional de televis&atilde;o, apoiada em dota&ccedil;&atilde;o estatal de R$ 350 milh&otilde;es anuais e ainda com liberdade para captar publicidade, n&atilde;o tivesse maior significado no restrito e oligopolizado mercado da m&iacute;dia eletr&ocirc;nica. Mas os empres&aacute;rios do setor j&aacute; come&ccedil;aram a alvejar a Medida Provis&oacute;ria 398, por interm&eacute;dio de sua vasta tropa de choque no Congresso Nacional, e o jogo agora transcorre de forma mais habitual e previs&iacute;vel.<\/p>\n<p><\/span><span>Qual &eacute; a bronca dos &quot;midiocratas&quot; com a nova TV? Certamente n&atilde;o &eacute; com o fato de estar sendo criada por medida provis&oacute;ria, em vez de projeto de lei a ser debatido no Congresso. Os resmungos em torno dessa formalidade s&atilde;o apenas isso, muxoxos, posto que &eacute; t&atilde;o poss&iacute;vel discutir a proposta governamental na forma de MP quanto de PL, assim como obstru&iacute;-la, se houve vontade para uma ou outra coisa. O que a m&iacute;dia comercial n&atilde;o deseja &eacute; que se fortale&ccedil;a a estrutura p&uacute;blica de televis&atilde;o, sobretudo pelo acesso a recursos publicit&aacute;rios. N&atilde;o quer um competidor que lhe roube audi&ecirc;ncia, depreciando suas tabelas de publicidade, e ainda dispute com ela as verbas dos anunciantes. Acha que isso &eacute; concorr&ecirc;ncia desleal.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Fora do bolo<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Assim &eacute; que os artilheiros da radiodifus&atilde;o comercial no Congresso j&aacute; assestaram seus canh&otilde;es contra a MP, fazendo com que boa parte das 132 emendas apresentadas tenham por alvo a quest&atilde;o da publicidade. Como o texto pro&iacute;be &quot;an&uacute;ncios de produtos e servi&ccedil;os&quot;, mas autoriza a &quot;publicidade institucional de entidades de direito p&uacute;blico e privado, a t&iacute;tulo de apoio cultural, admitindo-se o patroc&iacute;nio de programas, eventos e projetos&quot;, os advers&aacute;rios da televis&atilde;o p&uacute;blica querem defini&ccedil;&otilde;es legais precisas &ndash; na verdade, interdi&ccedil;&otilde;es &ndash; para os conceitos de &quot;publicidade institucional&quot; e &quot;apoio cultural&quot;. Querem difer&iacute;-los bem da publicidade comercial convencional, para impedir que a TV Brasil ponha as m&atilde;os no bolo de R$ 60 milh&otilde;es que estima obter com a capta&ccedil;&atilde;o de recursos privados.<\/p>\n<p><\/span><span>O curioso &eacute; que, mesmo sem amparo legal s&oacute;lido, a venda de publicidade nas emissoras p&uacute;blicas ocorre j&aacute; h&aacute; muitos anos, quase duas d&eacute;cadas, sem que os midiocratas e seus parlamentares se dessem ao trabalho, at&eacute; agora, de contest&aacute;-la. E por que n&atilde;o o faziam? <\/p>\n<p><\/span><span>Por um lado, porque defendem o enxugamento do Estado e achavam &oacute;timo que os governos, federal e estaduais, reduzissem progressivamente os aportes que fazem &agrave;s emissoras p&uacute;blicas. E por outro lado, porque n&atilde;o se preocupavam com migalhas.<\/p>\n<p><\/span><span>Para se ter uma id&eacute;ia, os recursos de publicidade captados pela TV Cultura de S&atilde;o Paulo, a maior emissora p&uacute;blica do pa&iacute;s, est&atilde;o em torno dos R$ 30 milh&otilde;es anuais, ou 120 vezes menos do que faturou a TV Globo em 2006 (R$ 3,6 bilh&otilde;es). Estima-se que todo o campo p&uacute;blico, reunindo as emissoras educativas abertas e as esta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas da TV a cabo &ndash; canais legislativos, comunit&aacute;rios e universit&aacute;rios &ndash; opere com um or&ccedil;amento anual na faixa de R$ 400 milh&otilde;es, dos quais apenas uma parte, inferior a 20%, vem da publicidade. <\/p>\n<p><\/span><span>Os R$ 60 milh&otilde;es ambicionados pela TV Brasil, nesse contexto, n&atilde;o provocariam nenhum abalo estrutural nos fundamentos do neg&oacute;cio televisivo. Mas podem ser apenas a meta inicial da nova rede p&uacute;blica, que surge vitaminada por investimento estatal e apoio governamental de propor&ccedil;&otilde;es in&eacute;ditas. Se a rede alcan&ccedil;ar seu objetivo de comunicar-se com a grande massa telespectadora, produzindo &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia superiores ao m&aacute;ximo de 5% obtido pelas atuais emissoras p&uacute;blicas, entrar&aacute; no jogo para competir com as redes comerciais. E, obviamente, far&aacute; os R$ 60 milh&otilde;es iniciais multiplicarem-se, porque ser&aacute; atrativa aos anunciantes.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Equipe competente, rede competitiva<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>As condi&ccedil;&otilde;es para isso est&atilde;o dadas. A equipe de gest&atilde;o &eacute; competente e, mantido o aporte anual de R$ 350 milh&otilde;es do or&ccedil;amento federal, at&eacute; o final do governo Lula a TV Brasil ter&aacute; obtido R$ 1,4 bilh&atilde;o para custeio e investimentos, o que &eacute; dinheiro suficiente para fazer uma boa e atraente programa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o lhe ser&aacute; dif&iacute;cil captar outros R$ 300 milh&otilde;es em publicidade comercial, se pontuar no Ibope e repercutir na opini&atilde;o p&uacute;blica. De gr&atilde;o em gr&atilde;o, encher&aacute; o papo e poder&aacute; incomodar os interesses privados em poucos anos. &Eacute; tudo o que os midiocratas n&atilde;o querem.<br \/><\/span><span><br \/>Da&iacute; que vejam &quot;desvirtuamento&quot;, quando a televis&atilde;o p&uacute;blica deseja formalizar em lei o direito de captar publicidade que j&aacute; exerce na pr&aacute;tica. O fato de explorarem uma concess&atilde;o p&uacute;blica para fins privados sem qualquer contrapartida ao Estado, salvo os impostos que pagam (quando pagam), certamente n&atilde;o vem ao caso, na an&aacute;lise que fazem. Ou seja: as emissoras comerciais podem faturar bilh&otilde;es sem pagar um tost&atilde;o pelas concess&otilde;es que utilizam, mas o Estado n&atilde;o pode arrecadar esse mesmo tost&atilde;o no mercado publicit&aacute;rio, porque &eacute; &quot;anti&eacute;tico&quot;. &Eacute; uma l&oacute;gica mais que conveniente.<\/p>\n<p><\/span><span>Quer dizer, ent&atilde;o, que a publicidade em televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o deve ser regulada? Que n&atilde;o se deve aclarar o que significam, na pr&aacute;tica, &quot;publicidade institucional&quot; e &quot;apoio cultural&quot;? Que a precariedade legal e a rotina do fato consumado que imperam no mercado televisivo em geral devem eternizar-se, porque a boa regula&ccedil;&atilde;o &eacute; aquela que n&atilde;o atrapalha os neg&oacute;cios &ndash; sejam eles privados ou p&uacute;blicos?<\/p>\n<p><\/span><span>Certamente n&atilde;o. A publicidade em TV p&uacute;blica deve ser regulada, mas para que seja autorizada. A inje&ccedil;&atilde;o de recursos captados no mercado anunciante &eacute; um instrumento de equil&iacute;brio financeiro que protege as emissoras p&uacute;blicas das idiossincrasias de governantes, sempre tentados a fechar a torneira dos repasses de verbas na primeira dificuldade de caixa que enfrentam. Uma televis&atilde;o p&uacute;blica que tenha independ&ecirc;ncia pol&iacute;tica do governo, mas dependa do dinheiro que venha dele, nunca ter&aacute; real autonomia. O acesso &agrave; publicidade, se n&atilde;o garante, refor&ccedil;a essa autonomia.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Responsabilidade social e interesse p&uacute;blico<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O mercado anunciante, as ag&ecirc;ncias de publicidade e as emissoras comerciais sabem muito bem o que significam &quot;publicidade institucional&quot; e &quot;apoio cultural&quot;. As Casas Bahia, por exemplo, sabem que n&atilde;o v&atilde;o explodir em vendas quando inserem publicidade na TV Cultura, para financiar a digitaliza&ccedil;&atilde;o do acervo da emissora, um patrim&ocirc;nio da cultura brasileira (servi&ccedil;o que, ali&aacute;s, j&aacute; est&aacute; bem adiantado). Sabem que est&atilde;o fazendo uma a&ccedil;&atilde;o de responsabilidade social, de amplo interesse p&uacute;blico, e que o seu retorno &eacute; de imagem, &eacute; a simpatia que merecem pelo esfor&ccedil;o, portanto um retorno institucional. Sua ag&ecirc;ncia tamb&eacute;m sabe disso, e as emissoras comerciais idem. <\/p>\n<p><\/span><span>A confus&atilde;o que se estabelece entre publicidade institucional e comercial vem da aus&ecirc;ncia de tradi&ccedil;&atilde;o do mercado brasileiro, na produ&ccedil;&atilde;o de pe&ccedil;as publicit&aacute;rias do primeiro tipo. Ainda &eacute; anti-econ&ocirc;mico para os anunciantes investir em filmes institucionais, para veicula&ccedil;&atilde;o exclusiva em TV p&uacute;blica. Se tiverem custos de produ&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m dos custos de veicula&ccedil;&atilde;o, a equa&ccedil;&atilde;o ficar&aacute; pesada e desmotivar&aacute; o apoio cultural que desejam dar &agrave;s emissoras p&uacute;blicas. Mas isso pode se resolver se emissoras, anunciantes e ag&ecirc;ncias trabalharem juntas, na produ&ccedil;&atilde;o de materiais institucionais que sejam adequados &agrave; grade da televis&atilde;o n&atilde;o-comercial e tenham custo compat&iacute;vel.<\/p>\n<p><\/span><span>Sim, muito bem, mas ao fim e ao cabo a inser&ccedil;&atilde;o de publicidade n&atilde;o vai desvirtuar mesmo a programa&ccedil;&atilde;o, produzindo tamb&eacute;m ali as baixarias e os programas de apelo f&aacute;cil, vazios de &eacute;tica e de conte&uacute;do? N&atilde;o, se a publicidade for minorit&aacute;ria no conjunto das receitas das emissoras p&uacute;blicas, para que a l&oacute;gica comercial n&atilde;o domine, e se for rigidamente concebida, aplicada e controlada, com esp&iacute;rito p&uacute;blico e no interesse coletivo. &Eacute; algo plenamente poss&iacute;vel, tanto que a TV Cultura de S&atilde;o Paulo, a TVE do Rio de Janeiro, a Rede Minas, a TVE-Bahia, a TVE-RS e tantas outras mant&eacute;m intacta a sua credibilidade, mesmo com os comerciais que veiculam. <\/p>\n<p><\/span><span>Em resumo, se a id&eacute;ia de regular a publicidade da futura TV Brasil vem para viabiliz&aacute;-la e para fortalecer todo o campo p&uacute;blico da televis&atilde;o, que seja bem-vinda e discutida com a seriedade que merece. Mas se vem, como em muitos outros assuntos, como &aacute;libi para que a televis&atilde;o comercial iniba o crescimento do setor p&uacute;blico na radiodifus&atilde;o, deve ser recha&ccedil;ada com todo o vigor. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava demorando, mas agora voltou a normalidade no processo de implanta&ccedil;&atilde;o da nova televis&atilde;o federal, constitu&iacute;da sob a tamb&eacute;m nova EBC (Empresa Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o). 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