{"id":19607,"date":"2007-10-26T16:49:09","date_gmt":"2007-10-26T16:49:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19607"},"modified":"2007-10-26T16:49:09","modified_gmt":"2007-10-26T16:49:09","slug":"cinema-e-telenovela-abrindo-terreno-para-a-politica-caveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19607","title":{"rendered":"Cinema e Telenovela: abrindo terreno para a pol\u00edtica-caveira"},"content":{"rendered":"<p><span>Era um risco e vai se tornando realidade. A tematiza&ccedil;&atilde;o, pelo cinema e a televis&atilde;o, do combate ao crime encastelado nas favelas, deslocando-o de seu cen&aacute;rio habitual &ndash; e in&oacute;cuo &ndash; do jornalismo, seja ele o policial ou o pol&iacute;tico, p&otilde;e o debate sobre a seguran&ccedil;a p&uacute;blica no pa&iacute;s em novos termos. Novos e preocupantes.<\/p>\n<p><\/span><span>Agora, a cidadania j&aacute; n&atilde;o forma opini&atilde;o baseada somente no notici&aacute;rio criminal, em geral burocr&aacute;tico e estat&iacute;stico, da imprensa &quot;s&eacute;ria&quot;, nem na histeria irracional e oportunista da imprensa &quot;sensacionalista&quot; Tamb&eacute;m n&atilde;o se alimenta, apenas, das doutas considera&ccedil;&otilde;es dos soci&oacute;logos, psic&oacute;logos, juristas e afins, que pululam nas p&aacute;ginas de opini&atilde;o dos jornais e revistas, e nos coment&aacute;rios do r&aacute;dio e do telejornalismo.<\/p>\n<p><\/span><span>Agora h&aacute; tamb&eacute;m, para alicer&ccedil;ar a opini&atilde;o p&uacute;blica, um punhado de personagens ficcionais, calcados em tipos reais, carregados de verossimilhan&ccedil;a e plausibilidade, mais &quot;verdadeiros&quot; do que parecem os seres descritos na cr&ocirc;nica policial, mais complexos e integrais na mescla de raz&atilde;o e emo&ccedil;&atilde;o com que percebem o mundo (como os demais humanos). Her&oacute;is ou vil&otilde;es, a&iacute; est&atilde;o eles influenciando o cidad&atilde;o e suas id&eacute;ias sobre o combate ao crime e &agrave; viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Solu&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O fen&ocirc;meno Tropa de Elite j&aacute; foi devidamente dissecado, por incont&aacute;veis analistas, no potencial regressivo que demonstra, de despertar o sadismo das plat&eacute;ias e refor&ccedil;ar em boa parte delas a cren&ccedil;a em solu&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a para a trag&eacute;dia social brasileira. Certamente era o oposto que seus realizadores desejavam, mas n&atilde;o s&atilde;o mais fatos isolados, numa sess&atilde;o de cinema ou outra, as manifesta&ccedil;&otilde;es de j&uacute;bilo e gozo do p&uacute;blico com as atitudes do Capit&atilde;o Nascimento (Wagner Moura), do aprendiz Andr&eacute; Matias (Andr&eacute; Ramiro) e demais torturadores-fuzileiros que estrelam o filme. Jovens deixam os cinemas cantando os hinos de guerra desses policiais que se pretendem soldados, e correm a comprar objetos e roupas que ostentam seu signo revelador, a caveira. Entregam-se ao culto macabro dos justiceiros fardados, piamente convictos de que &eacute; &agrave; bala que se enfrenta a criminalidade.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Tamb&eacute;m retratados no filme, os debates universit&aacute;rios sobre crime e viol&ecirc;ncia, as a&ccedil;&otilde;es sociais das ONGs e as manifesta&ccedil;&otilde;es de rua pela paz s&atilde;o claramente desqualificados como ing&ecirc;nuos, alienados e mesmo hip&oacute;critas, posto que seria a classe m&eacute;dia a respons&aacute;vel &uacute;ltima pelo crime, na medida em que consome drogas e sustenta o aparato econ&ocirc;mico-militar em torno delas, seja para o seu com&eacute;rcio, seja para a repress&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; qualquer raz&atilde;o, portanto, para a identifica&ccedil;&atilde;o das plat&eacute;ias com os personagens que encarnam esse lado do problema. N&atilde;o &eacute; de estranhar que o p&uacute;blico divirta-se com cenas de extrema brutalidade contra eles, como na surra aplicada pelo aspirante Matias no universit&aacute;rio que distribui maconha na faculdade, ou no diretor de ONG queimado vivo por traficantes. <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>O poder p&uacute;blico, habitualmente inepto no enfrentamento da criminalidade, percebe a tend&ecirc;ncia regressiva e vai na onda, usando o fuzil em vez da cabe&ccedil;a. Afinal, s&atilde;o eleitores os que regozijam-se com a viol&ecirc;ncia e, como se sabe, &eacute; mau neg&oacute;cio contrari&aacute;-los, mesmo longe das elei&ccedil;&otilde;es. Da&iacute; que o governo do Rio de Janeiro n&atilde;o apenas autoriza opera&ccedil;&otilde;es b&eacute;licas totalmente irrespons&aacute;veis nas favelas da Rocinha, Dona Marta e Cor&eacute;ia, como se mostra indiferente &agrave; sorte das v&iacute;timas &quot;civis&quot;. Uma crian&ccedil;a de 4 anos ser trespassada por um tiro de fuzil, dentro de sua casa, n&atilde;o &eacute; mais do que um &quot;dano colateral&quot; no nobre combate armado &agrave; bandidagem. Qualquer vivente sabe com que facilidade as balas atravessam as prec&aacute;rias paredes das moradias populares, mas o risco n&atilde;o &eacute; suficiente para inibir a insana estrat&eacute;gia de provocar tiroteios em favelas.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span><strong>Toler&acirc;ncia zero e Duas Caras<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Culpar Tropa de Elite, exclusivamente, pelo recrudescimento da &quot;toler&acirc;ncia zero&quot; no enfrentamento da criminalidade, seria leviano e equivocado. A opini&atilde;o p&uacute;blica se forja por um conjunto de fatores e mesmo o espetacular sucesso do filme, j&aacute; um fen&ocirc;meno de massas, n&atilde;o explica tudo. Conv&eacute;m jogar tamb&eacute;m no caldeir&atilde;o de refer&ecirc;ncias oferecido ao ju&iacute;zo da cidadania um outro produto cultural, de influ&ecirc;ncia indiscut&iacute;vel: a novela das nove da TV Globo. O que temos nela de preocupante, a estimular a percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica crescente de que o crime se resolve por meios extra-legais? <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Em Duas Caras, novela de Aguinaldo Silva dirigida por Wolf Maia, desponta um curioso personagem de nome Juvenal Antena, interpretado por Antonio Fagundes. Ex-seguran&ccedil;a de uma construtora que vai &agrave; fal&ecirc;ncia e deixa todos os empregados sem receber, torna-se l&iacute;der e &quot;protetor&quot; dos pe&otilde;es, invadindo um terreno da empresa para formar nele uma nova comunidade, a favela da Portelinha. Os anos se passam, a favela torna-se um bairro gigantesco e o poder de Juvenal apenas se fortalece, fazendo dele o ditador de todas as leis e todas as regras, que incluem deliberar sobre o comportamento privado dos moradores e mesmo suas rela&ccedil;&otilde;es afetivas.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Juvenal &eacute; um &quot;chefe de morro&quot;, o traficante rico e armado at&eacute; os dentes, que distribui benesses e terror com igual desenvoltura na comunidade? N&atilde;o, abomina traficantes e criminosos em geral. Ent&atilde;o ele &eacute; um chefe de mil&iacute;cia, um policial afastado ou em atividade que re&uacute;ne um grupo armado, expulsa os bandidos da &aacute;rea e &quot;oferece&quot; seguran&ccedil;a aos moradores, em troca de pagamento &quot;espont&acirc;neo&quot; pelo servi&ccedil;o prestado? <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Tamb&eacute;m n&atilde;o, ele abomina armas e n&atilde;o cobra nada de ningu&eacute;m.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Juvenal &eacute; um l&iacute;der comunit&aacute;rio bastante autorit&aacute;rio, com pr&aacute;ticas de poder amb&iacute;guas, que mesclam populismo sedutor e uma viol&ecirc;ncia dissimulada, que o telespectador n&atilde;o v&ecirc;, mas intui, pela atitude sempre impositiva e amea&ccedil;adora do personagem. A novela nos mostra que, gra&ccedil;as &agrave; sua a&ccedil;&atilde;o heterodoxa, a Portelinha transformou-se em exemplo de comunidade ordeira, livre do crime e da viol&ecirc;ncia, a ponto de suscitar o interesse de jovens documentaristas &ndash; iguais aos jovens universit&aacute;rios de Tropa de Elite, tamb&eacute;m bem-intencionados, ing&ecirc;nuos e incoerentes, embora n&atilde;o lhes seja poss&iacute;vel acender nenhum baseado no hor&aacute;rio nobre da Globo, enquanto conjeturam sobre as suas responsabilidades sociais. <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>O Estado n&atilde;o est&aacute; ausente da Portelinha. N&atilde;o se v&ecirc; posto de sa&uacute;de, carro de pol&iacute;cia ou outros indicativos da presen&ccedil;a estatal, mas h&aacute; em cena o deputado estadual Narciso Tellerman (Marcos Winter), aliado de Juvenal, obviamente eleito gra&ccedil;as aos votos da comunidade popular. O Estado se faz presente na novela, portanto, pelo que oferece de pior &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, o conluio interesseiro de pol&iacute;ticos com l&iacute;deres comunit&aacute;rios controladores de currais eleitorais. Tellerman admite os m&eacute;todos &quot;pouco convencionais&quot; do cacique favelado, mas nem por isso deixa de atuar com ele, nem lhe passa pela cabe&ccedil;a que comunidades efetivamente livres do crime n&atilde;o deveriam carecer de protetores, de &quot;pais de todos&quot;, para exercer a sua liberdade.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Se o Estado &eacute; reduzido &agrave; mera politicagem, as ONGs tamb&eacute;m apanham em Duas Caras. Numa cena emblem&aacute;tica, socialites procuram Juvenal Antena para oferecer a doa&ccedil;&atilde;o de agasalhos aos pobres favelados. Mas n&atilde;o o fazem por compaix&atilde;o e sim porque concorrem a uma viagem a Paris, paga por organiza&ccedil;&atilde;o internacional, onde mostrar&atilde;o o seu case de a&ccedil;&atilde;o social. &Eacute; esse o grau de compromisso e seriedade que Aguinaldo Silva enxerga em ONGs &quot;picaretas&quot;, as quais pretende espica&ccedil;ar outras vezes ao longo da novela.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span><strong>Caldo de cultura para o autoritarismo<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/span><span>E &eacute; assim que vai engrossando o caldo de cultura para a ado&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas autorit&aacute;rias de seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Obras influentes do cinema e da televis&atilde;o glamurizando policiais e l&iacute;deres comunit&aacute;rios &quot;dur&otilde;es&quot;, ridicularizando organiza&ccedil;&otilde;es que procuram atuar num meio social deteriorado e carente, deixando de enfatizar que o Estado deve se fazer presente com pol&iacute;ticas de promo&ccedil;&atilde;o humana, n&atilde;o de carnificinas. <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Produtores, autores e diretores protestam inoc&ecirc;ncia e dizem que tratam apenas de &quot;mostrar a realidade como ela &eacute;&quot;. Mas a realidade &eacute; que, a cada dia, o terreno est&aacute; mais livre para a &eacute;tica do chumbo quente. Terreno limpo para &quot;deitar corpo no ch&atilde;o&quot;.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um risco e vai se tornando realidade. 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