{"id":19606,"date":"2007-10-26T16:46:37","date_gmt":"2007-10-26T16:46:37","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19606"},"modified":"2007-10-26T16:46:37","modified_gmt":"2007-10-26T16:46:37","slug":"para-nao-repetir-a-tragedia-da-escola-base","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19606","title":{"rendered":"Para n\u00e3o repetir a trag\u00e9dia da Escola Base"},"content":{"rendered":"<p><span>Uma senhora, que se recusa a ser identificada, procurou pelo menos um &oacute;rg&atilde;o de imprensa na semana passada para dizer que, certa noite em fins de 1999, por acaso, viu o padre J&uacute;lio Lancellotti beijando um adolescente numa depend&ecirc;ncia da Casa Vida 2, em S&atilde;o Paulo, onde ela trabalhava. A entidade, da qual o padre &eacute; um dos fundadores, cuida de jovens portadores do v&iacute;rus da aids.<\/p>\n<p><\/span><span>Deve ser a mesma mulher que, sem aparecer, contou a mesma hist&oacute;ria num programa da TV Record, domingo &agrave; noite.<\/p>\n<p><\/span><span>Hoje est&aacute; nos jornais que, procurada pela pol&iacute;cia, ela gravou um depoimento numa delegacia, na ter&ccedil;a-feira. De novo, pediu anonimato. A acusa&ccedil;&atilde;o resultou na abertura de inqu&eacute;rito para apurar a hist&oacute;ria do &ldquo;ato libidinoso&rdquo; [a express&atilde;o &eacute; do delegado respons&aacute;vel pela investiga&ccedil;&atilde;o] que a ent&atilde;o funcion&aacute;ria da entidade diz ter presenciado.<\/p>\n<p><\/span><span>Se comprovado, o padre ser&aacute; processado por corrup&ccedil;&atilde;o de menor. A denunciante diz n&atilde;o saber quem era o jovem. A pol&iacute;cia quer identific&aacute;-lo e localizar a sua fam&iacute;lia &ndash; ele teria deixado a institui&ccedil;&atilde;o pouco depois do alegado incidente.<\/p>\n<p><\/span><span>&Agrave; pol&iacute;cia, ela confirmou j&aacute; ter narrado o epis&oacute;dio &agrave; imprensa, que nada publicou.<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; a coisa certa a fazer quando &eacute; procurada por uma pessoa com uma acusa&ccedil;&atilde;o pesad&iacute;ssima contra algu&eacute;m &ndash; no caso um conhecido religioso, que revelou ser v&iacute;tima de extors&atilde;o &ndash;, mas n&atilde;o assume a den&uacute;ncia, n&atilde;o apresenta provas, n&atilde;o d&aacute; qualquer informa&ccedil;&atilde;o substantiva que permita chec&aacute;-la, al&eacute;m do &ldquo;ouvir dizer&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Por que ela n&atilde;o falou antes? A um interlocutor, alegou que teve &ldquo;medo&rdquo;, mas n&atilde;o teria deixado claro do que. &Agrave; pol&iacute;cia, segundo o Estado, ela mencionou o &ldquo;temor de que ningu&eacute;m a levasse a s&eacute;rio&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Enquanto a pol&iacute;cia se ocupa do padre e do mo&ccedil;o, a m&iacute;dia deveria se ocupar da senhora. Primeiro, para excluir, ou corroborar, a possibilidade de que ela tenha motivos ocultos para fabricar uma acusa&ccedil;&atilde;o deste tamanho.<\/p>\n<p><\/span><span>Afinal, al&eacute;m da quest&atilde;o do tempo transcorrido entre o suposto &ldquo;ato libidinoso&rdquo; e a den&uacute;ncia, pelo menos duas d&uacute;vidas pedem para ser esclarecidas: por que ela tomou a iniciativa de procurar a imprensa e n&atilde;o a pol&iacute;cia? Por que o anonimato?<\/p>\n<p><\/span><span>Quem diz o que disse a ex-funcion&aacute;ria da Casa Vida &ndash; e ainda por cima nessas condi&ccedil;&otilde;es &ndash; merece passar pelo pente fino da imprensa.<\/p>\n<p><\/span><span>Quanto mais n&atilde;o seja, para assegurar que n&atilde;o se repita com o padre Lancelotti a trag&eacute;dia dos donos da Escola Base, cujas vidas a pol&iacute;cia e a m&iacute;dia arrebentaram por causa de uma acusa&ccedil;&atilde;o que se revelou, tarde demais, caluniosa.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Por falar em acusa&ccedil;&atilde;o: o caso Renascer<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>&Eacute; comum, nas reda&ccedil;&otilde;es, ouvir queixas contra assessorias de imprensa &ndash; de comunica&ccedil;&atilde;o, como passaram a se chamar &ndash; cujas sugest&otilde;es de pauta ou deixam clara a inten&ccedil;&atilde;o de puxar o rep&oacute;rter pelo nariz at&eacute; onde interessa ao cliente da assessoria, ou, de t&atilde;o toscas, praticamente imploram para ser apagadas do computador do destinat&aacute;rio.<\/p>\n<p><\/span><span>O reverso da moeda &eacute; a queixa dos assessores que concebem o seu trabalho como desbravadores de caminhos os quais, se bem percorridos, resultar&atilde;o em reportagens &uacute;teis &ndash; assim dizem crer &ndash; tanto para o leitor quanto para os assessorados.<\/p>\n<p><\/span><span>Um exemplo de desperd&iacute;cio de pauta parece terem sido as mat&eacute;rias do Estado e do Di&aacute;rio de S.Paulo de ontem sobre as acusa&ccedil;&otilde;es do promotor Marcelo Mendroni, do Minist&eacute;rio P&uacute;blico paulista, contra a auto-denominada Igreja Apost&oacute;lica Renascer em Cristo.<\/p>\n<p><\/span><span>Os dirigentes da Renascer, Estevam e Sonia Hernandes, est&atilde;o presos nos Estados Unidos, onde respondem a processo por lavagem de dinheiro. H&aacute; ordem de pris&atilde;o cautelar contra eles no Brasil.<\/p>\n<p><\/span><span>Pois bem. Na ter&ccedil;a-feira, o promotor Mendroni convocou uma entrevista para informar que uma inspe&ccedil;&atilde;o em tr&ecirc;s entidades beneficentes mantidas pela igreja revelou estarem em situa&ccedil;&atilde;o &ldquo;prec&aacute;ria&rdquo; porque, segundo ele, o dinheiro que serviria para mant&ecirc;-las, arrecadado dos fi&eacute;is, foi nutrir &ldquo;o patrim&ocirc;nio pessoal dos chefes da Renascer&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Em consequ&ecirc;ncia, afirmou o promotor, os seus internos s&atilde;o obrigados a trabalhar para levantar os recursos sem os quais elas n&atilde;o teriam como funcionar.<\/p>\n<p><\/span><span>A assessoria de comunica&ccedil;&atilde;o da igreja respondeu com um texto de 800 palavras que &eacute; um h&iacute;brido de candente desmentido formal [&ldquo;Uma den&uacute;ncia que n&atilde;o resiste &agrave; luz do sol&rdquo;] e pauta circunstanciada para o &oacute;rg&atilde;o de m&iacute;dia que quisesse tirar a limpo o que se passa nas tr&ecirc;s entidades, uma em Franco da Rocha, outra em Santana do Parna&iacute;ba, outra ainda em Heli&oacute;polis, S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;A mentira n&atilde;o resiste a uma reportagem bem feita&rdquo;, provoca o texto.<\/p>\n<p><\/span><span>Qualquer que seja a verdade, &eacute; ineg&aacute;vel que o texto &eacute; uma pauta bem feita. Diz, em cada caso, o que s&atilde;o as institui&ccedil;&otilde;es, a quem atendem, de onde v&ecirc;m os assistidos, o que se faz nelas, onde ficam e quem as dirige.<\/p>\n<p><\/span><span>A id&eacute;ia da assessoria &eacute; que os rep&oacute;rteres fossem ver as coisas com os seus pr&oacute;prios olhos, como se diz, e quando lhes conviesse, sem monitoramento.<\/p>\n<p><\/span><span>Nem o Estado, nem o Di&aacute;rio, a julgar pelo que deram, ouviram os principais interessados &ndash; os assistidos, seus parentes, a vizinhan&ccedil;a, para saber o que acham das acusa&ccedil;&otilde;es do promotor. E, seja l&aacute; o que os olhos dos rep&oacute;rteres tenham visto, para o leitor sobrou pouco.<\/p>\n<p><\/span><span>A mat&eacute;ria do Estad&atilde;o termina com uma frase sum&aacute;ria e cuidadosa: &ldquo;O Estado visitou ontem a entidade que cuida de crian&ccedil;as em S&atilde;o Paulo, na favela de Heli&oacute;polis, duas semanas ap&oacute;s a inspe&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia e da promotoria, e n&atilde;o viu problema aparente&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>O outro jornal &eacute; mais informativo: &ldquo;Ontem, o Di&aacute;rio visitou uma das unidades, em Heli&oacute;polis. L&aacute;, a reportagem constatou problemas na infra-estrutura do pr&eacute;dio, como rachaduras na fachada, algumas infiltra&ccedil;&otilde;es nas paredes e sujeira no piso. A coordenadora da institui&ccedil;&atilde;o, pastora N&aacute;dia Felfele, disse que o problema no piso e paredes &eacute; porque o pr&eacute;dio ficou muito tempo sem telhado, e o das rachaduras &eacute; porque houve um problema com a massa corrida da fachada. A coordenadora afirmou ainda que a Renascer envia a ela cerca de R$ 1 mil por semana, al&eacute;m de pagar todas as contas do lugar&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>E se ela mentiu? Como saber se as fam&iacute;lias das crian&ccedil;as ali atendidas n&atilde;o precisam, elas, cobrir &ldquo;as contas do lugar&rdquo;? <\/p>\n<p><\/span><span>No fundo, &eacute; o de sempre: um lado, outro lado; fala o acusador, fala o acusado. E l&aacute; de foi mais uma oportunidade de contar uma boa hist&oacute;ria sobre uma organiza&ccedil;&atilde;o cercada de suspeitas &ndash; que, nesse caso particular, podem ser, ou n&atilde;o, procedentes.<\/span><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma senhora, que se recusa a ser identificada, procurou pelo menos um &oacute;rg&atilde;o de imprensa na semana passada para dizer que, certa noite em fins de 1999, por acaso, viu o padre J&uacute;lio Lancellotti beijando um adolescente numa depend&ecirc;ncia da Casa Vida 2, em S&atilde;o Paulo, onde ela trabalhava. 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