{"id":19537,"date":"2007-10-22T11:53:06","date_gmt":"2007-10-22T11:53:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19537"},"modified":"2007-10-22T11:53:06","modified_gmt":"2007-10-22T11:53:06","slug":"midia-e-consumo-que-infancia-estamos-construindo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19537","title":{"rendered":"M\u00eddia e consumo: que inf\u00e2ncia estamos construindo?"},"content":{"rendered":"<p>&quot;N&Atilde;O ESQUE&Ccedil;A a minha Caloi&quot;. &quot;Compre Batom&quot;. &quot;Danoninho vale mais do que um bifinho&quot;&#8230; N&atilde;o &eacute; de hoje que os apelos publicit&aacute;rios interferem na forma&ccedil;&atilde;o de nossos filhos. No Dia das Crian&ccedil;as nos sentimos compelidos a refletir. Que inf&acirc;ncia estamos construindo? As crian&ccedil;as sumiram das ruas, das pra&ccedil;as e dos colos e se refugiaram nos shoppings ou nas telas.<\/p>\n<p>&quot;Filho, voc&ecirc; comeu direito?&quot;. &quot;N&atilde;o esquece o casaco!&quot;. &quot;S&oacute; mais uma hist&oacute;ria&quot;. &quot;J&aacute; sei andar de bicicleta sem rodinhas!&quot;. Onde est&atilde;o essas palavras? Est&aacute; cada vez mais dif&iacute;cil escutarmos o riso das crian&ccedil;as, assim como suas verdadeiras necessidades. Vivemos imersos em imagens e sons que nos atravessam sem nos pedir permiss&atilde;o. A palavra foi substitu&iacute;da pela imagem. A cole&ccedil;&atilde;o, pela aquisi&ccedil;&atilde;o. A aten&ccedil;&atilde;o, pelo presente. O medo do lobo mau, pelo medo da realidade. O abra&ccedil;o, pelo objeto. <\/p>\n<p>O desejo, pela necessidade, e a crian&ccedil;a, pelo consumidor -antes mesmo de se tornar cidad&atilde;. O ter prevalece sobre o ser. Esse &eacute; o tempo do consumo e da descartabilidade.<\/p>\n<p>No Brasil, 12 de outubro convencionou-se como o Dia das Crian&ccedil;as, mas a que pre&ccedil;o? O que de fato celebramos nessa data: a crian&ccedil;a ou o consumo? Parece-nos que esse h&aacute;bito &eacute; vivido pela maioria das fam&iacute;lias como um simples dever ao consumo. <\/p>\n<p>O 12 de outubro foi proposto pelo deputado federal Galdino do Valle Filho em 1920 e oficializado como Dia das Crian&ccedil;as pelo presidente Arthur Bernardes em 1924. Por&eacute;m, o dia passou a ser comemorado s&oacute; em 1960, depois que a f&aacute;brica de brinquedos Estrela e a Johnson &amp; Johnson criaram a Semana do Beb&ecirc; Robusto. Um convite ao consumismo precoce. <\/p>\n<p>Se f&ocirc;ssemos comemorar realmente a crian&ccedil;a, por que n&atilde;o fazer em 20 de novembro, data da aprova&ccedil;&atilde;o da Declara&ccedil;&atilde;o dos Direitos das Crian&ccedil;as? <\/p>\n<p>No m&ecirc;s das crian&ccedil;as, a publicidade surge com for&ccedil;a total. Quando vemos que o valor gasto no Brasil em publicidade dirigida ao p&uacute;blico infantil foi de aproximadamente R$ 210 milh&otilde;es (Ibope) e que o valor do investimento no Programa Federal de Desenvolvimento da Educa&ccedil;&atilde;o Infantil (FNDE) foi de aproximadamente R$ 28 milh&otilde;es, ficamos pasmos. <\/p>\n<p>A publicidade participa da forma&ccedil;&atilde;o de nossas crian&ccedil;as tanto quanto a escola. O que &eacute; mais importante, esses objetos que prometem a felicidade ou a educa&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p>As crian&ccedil;as s&atilde;o desde cedo incitadas a participar da l&oacute;gica de mercado. A forma como s&atilde;o olhadas e investidas pelos outros passa pela cultura do consumo. As expectativas em torno do nascimento, a escolha do nome e dos objetos e a reorganiza&ccedil;&atilde;o da casa circunscrevem o lugar social no qual se constituir&atilde;o a identidade e os valores do beb&ecirc;. <\/p>\n<p>As imagens publicit&aacute;rias dirigem-se &agrave;s crian&ccedil;as, o que &eacute; extremamente abusivo, pois at&eacute; os 12 anos n&atilde;o t&ecirc;m capacidade cr&iacute;tica de entender o car&aacute;ter persuasivo das mensagens. At&eacute; os quatro anos as crian&ccedil;as n&atilde;o conseguem diferenciar publicidade de programas. Conforme pesquisa norte-americana, bastam apenas 30 segundos para uma marca influenci&aacute;-las. Se pensarmos que a crian&ccedil;a brasileira passa em m&eacute;dia cinco horas por dia em frente &agrave; TV (Ibope, 2005), quanta influ&ecirc;ncia da m&iacute;dia ela sofre? <\/p>\n<p>Esse problema se soma ao afastamento das brincadeiras. Quem precisa de dez sapatos, tr&ecirc;s bolsas ou saber usar batom? Os pais foram desautorizados do poder, ou melhor, do seu saber, e a m&iacute;dia se ocupou do papel de transmitir os caminhos da inf&acirc;ncia. Por&eacute;m, o mercado -m&iacute;dia ou anunciantes- assumiu isso pensando no lucro imediato, e n&atilde;o nas crian&ccedil;as ou no futuro da na&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>A inf&acirc;ncia n&atilde;o pode ser aprisionada pela falsa felicidade que a sociedade de consumo nos vende. Crian&ccedil;a precisa de olhar, de palavras e de escuta. Precisa ter inf&acirc;ncia para ser crian&ccedil;a. E os pais sabem o que &eacute; melhor para os filhos. <\/p>\n<p>Nesse Dia das Crian&ccedil;as, troquemos o shopping pelo parque. Fa&ccedil;amos brinquedos, em vez de compr&aacute;-los prontos. Troquemos as guloseimas pelo bolo feito no calor da cozinha. <\/p>\n<p>Paremos para refletir. Olhemos para a inf&acirc;ncia que nos circunda e rememoremos nossa experi&ecirc;ncia infantil. Assim, talvez possamos subverter a ordem estabelecida do consumismo desenfreado e encontrar uma forma mais sincera de homenagearmos nossas crian&ccedil;as. <\/p>\n<p><em>* Lais Fontenelle Pereira, mestre em psicologia cl&iacute;nica pela PUC-RJ (Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Rio de Janeiro), &eacute; psic&oacute;loga do Projeto Crian&ccedil;a e Consumo, do Instituto Alana.<br \/><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;N&Atilde;O ESQUE&Ccedil;A a minha Caloi&quot;. &quot;Compre Batom&quot;. &quot;Danoninho vale mais do que um bifinho&quot;&#8230; N&atilde;o &eacute; de hoje que os apelos publicit&aacute;rios interferem na forma&ccedil;&atilde;o de nossos filhos. No Dia das Crian&ccedil;as nos sentimos compelidos a refletir. Que inf&acirc;ncia estamos construindo? 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