{"id":19526,"date":"2007-10-18T15:42:02","date_gmt":"2007-10-18T15:42:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19526"},"modified":"2007-10-18T15:42:02","modified_gmt":"2007-10-18T15:42:02","slug":"midia-critica-a-politica-mas-faz-parte-dela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19526","title":{"rendered":"M\u00eddia critica a pol\u00edtica, mas faz parte dela"},"content":{"rendered":"<p><em>Um somat&oacute;rio de crime e esc&acirc;ndalo. Esse &eacute; o perfil do notici&aacute;rio brasileiro hoje. &Eacute; a m&iacute;dia fazendo pol&iacute;tica e dizendo que n&atilde;o faz; afirmando que pol&iacute;tica &eacute; tudo de ruim que existe no Pa&iacute;s e sendo parte dela, sem assumir-se. Para o pesquisador em Comunica&ccedil;&atilde;o e Pol&iacute;tica, Antonio Albino Canelas Rubim, professor na Universidade Federal da Bahia, o problema do sistema de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; que ele n&atilde;o mudou desde a &eacute;poca da ditadura &ndash; e n&atilde;o existe democracia plena sem democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p><em>Cr&iacute;tico contundente da m&iacute;dia brasileira, Rubim &eacute; enf&aacute;tico ao afirmar o car&aacute;ter elitista da m&iacute;dia&nbsp;nacional, &ldquo;pautada pelo preconceito de classe social&rdquo;. Como exemplo, cita a rela&ccedil;&atilde;o entre a imprensa e o presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva. Para o pesquisador, a postura da m&iacute;dia em rela&ccedil;&atilde;o ao presidente da Rep&uacute;blica &eacute; extremamente &ldquo;preconceituosa e arrogante&rdquo;. Nesta entrevista, o professor fala ainda sobre os benef&iacute;cios que as novas tecnologias podem proporcionar, mas ressalta que essas mudan&ccedil;as n&atilde;o ocorrer&atilde;o se a sociedade n&atilde;o ficar atenta &agrave; forma de implanta&ccedil;&atilde;o desses novos espa&ccedil;os de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Muito se fala sobre a capacidade de influ&ecirc;ncia da m&iacute;dia sobre a sociedade, principalmente da interven&ccedil;&atilde;o na cena pol&iacute;tica. Qual &eacute; realmente o alcance dessa influ&ecirc;ncia? A sociedade &eacute; pautada pela m&iacute;dia? E a pol&iacute;tica?<br \/>Rubim<\/strong> &ndash; N&atilde;o acredito que a sociedade seja pautada pela m&iacute;dia. Existem v&aacute;rios exemplos em contr&aacute;rio a dizer que a sociedade &eacute; totalmente influenciada pela m&iacute;dia. &Eacute; claro que os temas colocados pelos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o se tornam importantes no cen&aacute;rio de discuss&atilde;o da sociedade, no sentido de existir certa influ&ecirc;ncia. Agora, cada vez mais, um conjunto de outros fatores interfere naquilo que a sociedade est&aacute; assimilando em termos de vis&otilde;es, de opini&otilde;es.<\/p>\n<p>O exemplo mais claro, e recente, foi que, na elei&ccedil;&atilde;o do ano passado, a m&iacute;dia insistentemente tentou pautar alguns assuntos bastante controversos e indigestos para o governo e o presidente Lula. No entanto, o presidente foi reeleito com uma vota&ccedil;&atilde;o bastante grande, mostrando descompasso total entre o que a m&iacute;dia afirmava ser a opini&atilde;o p&uacute;blica &ndash; da qual ela sempre se diz portadora &ndash; e aquilo que efetivamente as pessoas pensavam. O que n&atilde;o significa que a quest&atilde;o da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja fundamental para a democracia brasileira. &Eacute; muito dif&iacute;cil imaginar que a democracia possa conviver com esse paradoxo: grande parte da popula&ccedil;&atilde;o pensar de uma maneira e os meios estarem caminhando para o outro lado.<\/p>\n<p>Quanto &agrave; pol&iacute;tica, a m&iacute;dia a influencia das formas mais variadas. Por exemplo, a m&iacute;dia cria determinados espa&ccedil;os p&uacute;blicos &ndash; que no caso do Brasil s&atilde;o pouqu&iacute;ssimo democr&aacute;ticos &ndash; de publiciza&ccedil;&atilde;o da sociedade. Parte da pol&iacute;tica precisa muito de visibilidade. A elei&ccedil;&atilde;o, por exemplo, &eacute;, por excel&ecirc;ncia, publicizada. Ent&atilde;o, a pol&iacute;tica depende muito de visibilidade. Assim, temos uma depend&ecirc;ncia forte da pol&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda o que se chama hoje de governabilidade. Quem d&aacute; governabilidade a determinado governo? De um lado, ele precisa ter determinadas correla&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as no Legislativo. Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; a base de apoio parlamentar que d&aacute; governabilidade. Se um governo n&atilde;o tem apoio da m&iacute;dia, ou pelo menos a neutralidade dela, voc&ecirc; est&aacute; o tempo todo correndo o risco de ter uma crise. O pr&oacute;prio governo Lula &eacute; exemplo disso, com a m&iacute;dia procurando problemas o tempo todo para deixar o governo ref&eacute;m, o que afeta profundamente a governabilidade.<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao car&aacute;ter centralizador e autorit&aacute;rio da m&iacute;dia brasileira, podemos citar um dado impressionante. Toda vez que tivemos no poder determinados governos que n&atilde;o era totalmente alinhados com as elites locais &ndash; digo totalmente porque &agrave;s vezes n&atilde;o era nem um governo t&atilde;o revolucion&aacute;rio assim &ndash;, governo Get&uacute;lio no segundo mandato, governo Jo&atilde;o Goulart e agora governo Lula, todas essas vezes a m&iacute;dia tentou fazer com que eles aparecessem como as gest&otilde;es mais corruptas da hist&oacute;ria do Brasil.<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o &eacute; coincid&ecirc;ncia, mostra o car&aacute;ter militante e conservador da m&iacute;dia brasileira. Basta que n&atilde;o haja um governante dentro dos padr&otilde;es e dos interesses das elites que a m&iacute;dia tenta detonar esses governantes. N&atilde;o estou dizendo que essas administra&ccedil;&otilde;es n&atilde;o tiveram algum n&iacute;vel de corrup&ccedil;&atilde;o. Eu at&eacute; gostaria que fossem diferentes, realmente gostaria que no governo Lula essas derrapadas n&atilde;o tivessem acontecido. O PT dilapidou parte de seu patrim&ocirc;nio.<\/p>\n<p><strong>A partir do epis&oacute;dio das &uacute;ltimas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais, pode-se dizer que a m&iacute;dia perdeu poder de influ&ecirc;ncia sobre a sociedade? Quem &eacute;, hoje, o formador de opini&atilde;o?<\/strong><br \/>Penso que no Brasil est&aacute; acontecendo uma transforma&ccedil;&atilde;o subterr&acirc;nea, que a m&iacute;dia na sua arrog&acirc;ncia e elitismo n&atilde;o tem conseguido acompanhar, e, por isto, vive reafirmando suposi&ccedil;&otilde;es passadas como se ela fosse a senhora absoluta da opini&atilde;o p&uacute;blica. As mudan&ccedil;as sociais, econ&ocirc;micas, pol&iacute;ticas e culturais que v&ecirc;m acontecendo nos setores populares, para o mal e para o bem, s&atilde;o a novidade no quadro brasileiro atual. Precisamos estar atentos a elas, estud&aacute;-las, sem a pretens&atilde;o de j&aacute; saber de tudo que est&aacute; acontecendo. H&aacute; uma profunda muta&ccedil;&atilde;o nos modos de constru&ccedil;&atilde;o das opini&otilde;es p&uacute;blicas no Pa&iacute;s (sempre no plural). As novas tecnologias t&ecirc;m tamb&eacute;m algum papel nisto, mas o centro das mudan&ccedil;as est&aacute; nos setores populares. Ainda n&atilde;o existem respostas prontas neste caso.<\/p>\n<p><strong>Qual sua avalia&ccedil;&atilde;o sobre o trabalho dos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o aos epis&oacute;dios pol&iacute;ticos atuais no Pa&iacute;s?<\/strong><br \/>Acho que a m&iacute;dia brasileira perdeu a no&ccedil;&atilde;o de determinadas coisas. Hoje, se a gente ligar a televis&atilde;o ou o r&aacute;dio, ou ler os jornais, s&atilde;o basicamente dois temas que aparecem no Brasil: de um lado, esc&acirc;ndalos (e n&atilde;o estou dizendo que os esc&acirc;ndalos e a corrup&ccedil;&atilde;o n&atilde;o devam ser combatidos, eles devem ser combatidos) e de outro, crimes.<\/p>\n<p>O problema &eacute; quando esses esc&acirc;ndalos substituem a discuss&atilde;o pol&iacute;tica, e &eacute; isso que est&aacute; acontecendo no Brasil. Em vez de voc&ecirc;s terem um conjunto de informa&ccedil;&otilde;es, de opini&otilde;es sobre o que o governo faz, para o bem ou para o mal, e o cidad&atilde;o poder, a partir dessas informa&ccedil;&otilde;es e opini&otilde;es, criar suas pr&oacute;prias convic&ccedil;&otilde;es acerca do Brasil contempor&acirc;neo, o que n&oacute;s temos hoje &eacute; uma supress&atilde;o de todas as informa&ccedil;&otilde;es e opini&otilde;es. N&atilde;o se discute as pol&iacute;ticas implementadas. N&atilde;o se discute, por exemplo, se o Prouni &eacute; correto ou n&atilde;o, se o PAC tem sentido ou n&atilde;o, se o PAC est&aacute; sendo executado ou n&atilde;o. E a&iacute;, a m&iacute;dia da sociedade brasileira fica discutindo durante meses a quest&atilde;o do nosso presidente do Senado, Renan Calheiros. Tudo bem, &eacute; uma coisa que deve ser coberta, mas n&atilde;o pode tomar o status que toma. O &uacute;nico momento em que ele n&atilde;o esteve em cena, foi quando tinha o PAN (jogos esportivos Pan-americanos), porque eles acham que o PAN &eacute; mais importante que todas as coisas do mundo. O notici&aacute;rio brasileiro, hoje, &eacute; um somat&oacute;rio de crime e esc&acirc;ndalo, como se isso fosse igual a Brasil. &Eacute; um contra-servi&ccedil;o &agrave; democracia brasileira. Inclusive, porque esses meios poderiam estar discutindo de forma extremamente cr&iacute;tica as pol&iacute;ticas do governo. Acho isso extremamente desmobilizador para a cidadania.<\/p>\n<p><strong>H&aacute; persegui&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia ao governo federal?<\/strong><br \/>Eu n&atilde;o tenho d&uacute;vida. Mas tamb&eacute;m de uma parte da sociedade brasileira, particularmente da elite, que n&atilde;o engoliu at&eacute; hoje ter no poder uma pessoa que venha de outra classe. Lula n&atilde;o foi nenhum governo revolucion&aacute;rio na elei&ccedil;&atilde;o. Ele tentou o tempo todo contemporizar os grandes ganhos dos grandes empres&aacute;rios com certa distribui&ccedil;&atilde;o para setores sociais subalternos, exclu&iacute;dos. Tentou fazer uma pol&iacute;tica de contemporiza&ccedil;&atilde;o entre uma coisa e outra. N&atilde;o fez essa redistribui&ccedil;&atilde;o tirando recursos das classes dominantes, n&atilde;o criou nenhum grande enfrentamento para essas classes. Os setores dominantes tiveram lucros fant&aacute;sticos durante o governo dele, como n&atilde;o tiveram no governo passado, inclusive. No entanto, no momento da elei&ccedil;&atilde;o, apesar de eles n&atilde;o terem seus interesses agredidos &ndash; e muito pelo contr&aacute;rio, algumas medidas do governo foram feitas para agradar esses interesses dominantes &ndash;, a m&iacute;dia claramente mostrou sua posi&ccedil;&atilde;o de classe ao se definir por um determinado candidato naquele momento.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua opini&atilde;o sobre a cria&ccedil;&atilde;o da nova TV p&uacute;blica brasileira?<\/strong><br \/>Esse projeto &eacute; fundamental, tem que existir no Brasil uma TV p&uacute;blica, que seja p&uacute;blica e n&atilde;o estatal. As discuss&otilde;es v&atilde;o nesse sentido, que haja realmente recursos para alternativas de informa&ccedil;&atilde;o, de programa&ccedil;&atilde;o, porque a TV comercial no Brasil se mostra muito limitada. N&atilde;o sou daqueles que acham que n&atilde;o existem coisas interessantes, mesmo na TV comercial, mas, na parte da informa&ccedil;&atilde;o, &eacute; muito complicado o que a TV comercial anda fazendo. Acho importante que voc&ecirc; tenha outros tipos de programas, outros tipos de enfoques,<\/p>\n<p>que se traga informa&ccedil;&otilde;es da Am&eacute;rica Latina, da Am&eacute;rica do Sul, da &Aacute;frica, de pa&iacute;ses como &Iacute;ndia, China. Porque, na verdade, voc&ecirc; tem a informa&ccedil;&atilde;o vinda principalmente dos Estados Unidos e de alguns pa&iacute;ses europeus. De outras partes do mundo a gente n&atilde;o sabe praticamente nada. Tem que ter mais acesso, inclusive, &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente brasileira, que n&atilde;o tem entrada na m&iacute;dia, infelizmente.<\/p>\n<p><strong>O papel pol&iacute;tico da comunica&ccedil;&atilde;o mudar&aacute; a partir da converg&ecirc;ncia digital entre TV, telefonia e internet, que permite um novo tipo de intera&ccedil;&atilde;o social?<\/strong><br \/>A rela&ccedil;&atilde;o entre comunica&ccedil;&atilde;o e pol&iacute;tica, para mim, n&atilde;o depende dos meios, mas da postura da m&iacute;dia, de fazer pol&iacute;tica dizendo que &eacute; contra pol&iacute;tica. O tempo todo, a m&iacute;dia est&aacute; expressando determinados interesses, expressando apoio a determinados governos, criticando outros. Portanto, atuando politicamente &ndash; no sentido fiel da palavra, enquanto aglutina&ccedil;&atilde;o de interesses. No entanto, ela tenta passar uma postura extremamente negativa da pol&iacute;tica, como se fosse o lugar da sociedade brasileira onde estivessem todos os males, todos os corruptos. Como se fossem males que n&atilde;o acometessem toda a sociedade, o empresariado, a pr&oacute;pria m&iacute;dia.<\/p>\n<p>&Eacute; uma vis&atilde;o bem redutora. Dessa maneira, voc&ecirc; n&atilde;o ataca de frente essas quest&otilde;es. Como &eacute; abomin&aacute;vel estar ouvindo na televis&atilde;o ou no r&aacute;dio determinadas figuras pol&iacute;ticas, que voc&ecirc; sabe que tiveram um passado extremamente marcado pelo envolvimento com corrup&ccedil;&atilde;o, e essas pessoas estarem na m&iacute;dia como porta-vozes da moral e dos bons costumes. &Eacute; escandaloso (e a pr&oacute;pria m&iacute;dia sabe que &eacute; assim), e, no entanto, entra nesse jogo para ser contra o governo.<\/p>\n<p><strong>Considerando-se as novas tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o, o que falta para que as m&iacute;dias se tornem mais democr&aacute;ticas? O Brasil possui pol&iacute;ticas nesse sentido?<\/strong><br \/>O que as novas tecnologias t&ecirc;m de mais interessante &eacute; ampliar, e muito, o espectro de fontes de informa&ccedil;&atilde;o, pluralidade de id&eacute;ias e diversidade cultural. Com as possibilidades de descentraliza&ccedil;&atilde;o, teriam papel importante na democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. Mas h&aacute; problemas. Por exemplo, a TV digital poderia, j&aacute; que permite a abertura de muito mais canais, ser uma grande mudan&ccedil;a, beneficiando a pluralidade pol&iacute;tica e a diversidade cultural. No entanto, na m&iacute;dia aparecem apenas duas coisas: teremos uma imagem melhor e a possibilidade de intera&ccedil;&atilde;o (para eles, do ponto de vista unicamente comercial).<\/p>\n<p>O mais importante sobre o que as novas tecnologias propiciam &ndash; diversidade, pluralidade, multiplica&ccedil;&atilde;o de fontes de informa&ccedil;&atilde;o, possibilidade de ter uma produ&ccedil;&atilde;o independente mais presente &ndash; est&aacute; fora da discuss&atilde;o. Se depender da m&iacute;dia, nenhuma dessas possibilidades se realiza.<\/p>\n<p>No Brasil, os movimentos que colocam a quest&atilde;o da democracia na comunica&ccedil;&atilde;o, da diversidade cultural, ainda n&atilde;o conseguiram mobilizar a sociedade. Os setores sociais precisam perceber a import&acirc;ncia e o significado da comunica&ccedil;&atilde;o, das novas tecnologias, de como isso muda o mundo. Mas a m&iacute;dia n&atilde;o divulga essa quest&atilde;o, que fica meio invis&iacute;vel. O lado positivo, fazendo uma retrospectiva, &eacute; que essas lutas t&ecirc;m crescido, talvez n&atilde;o da forma necess&aacute;ria, mas t&ecirc;m se ampliado em v&aacute;rios grupos. O que falta &eacute; uma articula&ccedil;&atilde;o entre esses grupos, uma press&atilde;o social mais contundente. Mas at&eacute; acho que o tema da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o j&aacute; foi muito mais restrito.<\/p>\n<p><strong>Em um dos seus artigos, o senhor fala que a pol&iacute;tica se transformou em &ldquo;telepol&iacute;tica&rdquo;. O que muda a partir dessa constata&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>O que entendemos hoje como estrutura, procedimentos, ritos pol&iacute;ticos, nasceram, boa parte deles, na Idade Moderna. A pol&iacute;tica moderna esteve muito articulada com o espa&ccedil;o geogr&aacute;fico, com a id&eacute;ia de presen&ccedil;a. S&atilde;o pessoas discutindo em um determinado espa&ccedil;o e outras pessoas assistindo &agrave; discuss&atilde;o. A pol&iacute;tica contempor&acirc;nea, por sua vez, agrega a esse espa&ccedil;o de luta e realiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, novos lugares, chamados virtuais: a televis&atilde;o, o r&aacute;dio, a internet.<\/p>\n<p>A sociedade contempor&acirc;nea &eacute; uma conjun&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os geogr&aacute;ficos e eletr&ocirc;nicos. &Eacute; esta sua caracter&iacute;stica singular. Se o pol&iacute;tico estiver vivendo uma dessas dimens&otilde;es somente, n&atilde;o vai estar vivendo a contemporaneidade em seu sentido pleno. N&atilde;o &eacute; que a pol&iacute;tica atual substitua a anterior, mas se agrega a ela. O exemplo mais t&iacute;pico &eacute; o seguinte: o que era uma elei&ccedil;&atilde;o no Brasil at&eacute; os anos 60? Pessoas fazendo carreatas, caravanas que percorriam o Pa&iacute;s, com&iacute;cios aqui e ali. Tratava-se de um espa&ccedil;o claramente geogr&aacute;fico. O centro de uma elei&ccedil;&atilde;o, em termos de formato (n&atilde;o em termos de conte&uacute;do), era exatamente essas grandes caravanas.<\/p>\n<p>Numa elei&ccedil;&atilde;o para presidente, hoje, o centro da campanha n&atilde;o &eacute; mais esse. As caravanas e com&iacute;cios ainda s&atilde;o muito importantes, mas complementares ao que se d&aacute; na televis&atilde;o. O centro &eacute; o ambiente da telepol&iacute;tica. &Eacute; uma mudan&ccedil;a significativa. N&atilde;o estou discutindo os conte&uacute;dos, estou discutindo as esferas onde se realizam a pol&iacute;tica. Isso n&atilde;o &eacute; bom nem ruim, &eacute; diferente. Alguns argumentam que &eacute; distor&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute;. Se a sociedade mudou, por que a pol&iacute;tica vai continuar sendo feita nos moldes anteriores? N&atilde;o pode, n&atilde;o tem l&oacute;gica.<\/p>\n<p><strong>&Eacute; poss&iacute;vel conciliar o &ldquo;espet&aacute;culo midi&aacute;tico&rdquo; com o &ldquo;realismo&rdquo; necess&aacute;rio &agrave; pol&iacute;tica?<\/strong><br \/>N&atilde;o acredito que toda a pol&iacute;tica tenha se tornado espet&aacute;culo. Este &eacute; um dos mitos contempor&acirc;neos, sem pesquisas efetivas para comprova&ccedil;&atilde;o. Penso que existe, na sociedade contempor&acirc;nea, forte press&atilde;o para isto, dada a import&acirc;ncia pol&iacute;tica adquirida pela visibilidade nessa sociedade. Como estar presente na m&iacute;dia, habitar o espa&ccedil;o virtual, &eacute; essencial para que os atores pol&iacute;ticos tenham efetiva exist&ecirc;ncia p&uacute;blica &ndash; e, por conseguinte, possam realizar a luta pol&iacute;tica &ndash;, os atores e a m&iacute;dia s&atilde;o tentados a cada momento pela espetaculariza&ccedil;&atilde;o, que &eacute; um dos dispositivos mais utilizados contemporaneamente para possibilitar a visibilidade.<\/p>\n<p>Assim, o Greenpeace promove suas &ldquo;a&ccedil;&otilde;es diretas espetaculares&rdquo;, uma de suas marcas, e aparece como uma das entidades mais conhecidas da sociedade civil global. Mas a Anistia Internacional tamb&eacute;m &eacute; uma entidade marcante e influente da sociedade civil global, sem recorrer &agrave; espetaculariza&ccedil;&atilde;o de sua pol&iacute;tica e atua&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, existem momentos da pol&iacute;tica que s&atilde;o avessos &agrave; espetaculariza&ccedil;&atilde;o, como, por exemplo, alguns acordos pol&iacute;ticos, que podem retirar sua for&ccedil;a exatamente do sigilo &ndash; e n&atilde;o estou falando aqui de nenhum acordo excuso e ilegal.<\/p>\n<p>Acredito que nem toda pol&iacute;tica &eacute; ou pode ou, ainda, deve ser espetacularizada. Mas, sem d&uacute;vida, existe uma pol&iacute;tica que busca recursos espetaculares para ganhar visibilidade: manifesta&ccedil;&otilde;es de rua, passeatas, certas atua&ccedil;&otilde;es de entidades e pol&iacute;ticos. Outro mito que precisa ser desfeito &eacute; que toda e qualquer espetaculariza&ccedil;&atilde;o &eacute;, necessariamente, despolitizadora. N&atilde;o creio nisto. Existem efetivamente espetaculariza&ccedil;&otilde;es despolitizadoras, mas outras podem ter efic&aacute;cia na pol&iacute;tica e servirem para politizar quest&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>A concentra&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o continua sendo um problema para a democracia. Qual &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre m&iacute;dia e democracia?<\/strong><br \/>Pode ser feita essa rela&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias maneiras. Se a sociedade em que vivemos &eacute; complexa, com novos espa&ccedil;os vitais para a visibilidade, eu s&oacute; tenho democracia se tenho coisas publicizadas para todos. N&atilde;o existe democracia onde as coisas acontecem em segredo. A id&eacute;ia de visibilidade, de publicidade, &eacute; fundamental. Eu tenho que ter acesso aos v&aacute;rios tipos de opini&atilde;o para poder constituir minha vis&atilde;o e, nesse confronto, escolher. A id&eacute;ia de democracia, que fundamentalmente &eacute; a possibilidade de escolha entre alternativas, s&oacute; pode ser exercida se essas alternativas s&atilde;o colocadas para as pessoas. Portanto, &eacute; imprescind&iacute;vel que eu tenha uma m&iacute;dia plural para que se assegure a democracia na sociedade. A gente pode ser taxativo nisso, sem democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o h&aacute; possibilidade, na sociedade contempor&acirc;nea, de se falar em democracia, pelo menos no sentido rigoroso da palavra. Se voc&ecirc; tem uma sociedade onde a m&iacute;dia n&atilde;o &eacute; democratizada, essa sociedade pode ter at&eacute; uma s&eacute;rie de outros aspectos nos quais a democracia j&aacute; chegou, mas ela, como um todo, ainda carece de democracia.<\/p>\n<p>Um dos problemas da sociedade brasileira &eacute; que ainda vivemos, depois de tantos anos de democracia, no sistema de comunica&ccedil;&atilde;o constitu&iacute;do pela ditadura. A gente democratizou outras coisas na sociedade. No campo pol&iacute;tico tivemos avan&ccedil;os, existe hoje um conjunto de organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil bastante amplo, isso significa democracia. Mas, no entanto, no plano da comunica&ccedil;&atilde;o, a ditadura continua. Para n&atilde;o ser t&atilde;o duro, a &uacute;nica mudan&ccedil;a instalada &eacute; a que veio a partir de novos meios, que t&ecirc;m capacidade s&oacute;cio-tecnol&oacute;gica de serem mais descentralizados. Mas se corre o risco, inclusive, de que esses novos meios tecnol&oacute;gicos sejam apropriados por esta estrutura centralizadora, concentradora, e que boa parte desses potenciais democr&aacute;ticos sejam inviabilizados.<\/p>\n<p><em>* Antonio Albino Canelas Rubim &eacute; professor na Universidade Federal da Bahia, graduado em Comunica&ccedil;&atilde;o e em Medicina, possui mestrado em Ci&ecirc;ncias Sociais pela Universidade Federal da Bahia e doutorado em Sociologia pela Universidade de S&atilde;o Paulo. O pesquisador atua em diversas &aacute;reas, como Cultura e Poder, Pol&iacute;ticas Culturais, M&iacute;dia e Elei&ccedil;&otilde;es, Comunica&ccedil;&atilde;o e Pol&iacute;tica, Sociologia da Cultura no Brasil, e Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociabilidade.<br \/><\/em><em><br \/>*&nbsp;A revista MidiaCom Democracia &eacute; uma publica&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para pesquisador, m\u00eddia \u00e9 pautada pelo preconceito de classe social<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[487,486],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19526"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19526\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}