{"id":19507,"date":"2007-10-17T13:44:28","date_gmt":"2007-10-17T13:44:28","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19507"},"modified":"2007-10-17T13:44:28","modified_gmt":"2007-10-17T13:44:28","slug":"juventude-e-televisao-quando-a-inteligencia-esta-na-cauda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19507","title":{"rendered":"Juventude e televis\u00e3o: quando a intelig\u00eancia est\u00e1 na cauda"},"content":{"rendered":"<p><span><em>De Cannes (Fran&ccedil;a).<\/p>\n<p><\/em><\/span><span>A maior feira de conte&uacute;do audiovisual do mundo, o Mipcom, ocorreu em Cannes de 8 a 11 deste outubro. Estavam l&aacute; 13 mil pessoas, inclusive cerca de 60 brasileiros, entre os quais donos e principais executivos de todas as grandes redes de televis&atilde;o do pa&iacute;s.<\/p>\n<p><\/span><span>O Mipcom &eacute; a principal ratifica&ccedil;&atilde;o universal do lixo em que se transformou a maior parte da produ&ccedil;&atilde;o televisiva em todo o mundo, seja aberta ou fechada. Mas &eacute; tamb&eacute;m a chance para que alguns dos seus maiores desafios sejam expostos de maneira clara. A forma como isso aconteceu, neste ano, foi um semin&aacute;rio que tratou do desenvolvimento de algumas tecnologias, mas principalmente sobre o comportamento dos jovens em rela&ccedil;&atilde;o a elas.<\/p>\n<p><\/span><span>Os n&uacute;meros s&atilde;o impressionantes, ainda que previs&iacute;veis. Na Europa e nos EUA, os adolescentes de at&eacute; 17 anos j&aacute; trocaram a televis&atilde;o pelas muitas m&iacute;dias que surgiram depois que eles nasceram. S&atilde;o os chamados digital natives, as meninas e os meninos que nasceram na &eacute;poca digital. Para eles, mobilidade e conectividade n&atilde;o s&atilde;o conquistas tecnol&oacute;gicas recentes: s&atilde;o parte natural do mundo, como os autom&oacute;veis ou a Coca-Cola. Tamb&eacute;m para estes jovens, o peer, constru&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do pelo usu&aacute;rio, tem uma &eacute;tica mais forte do que os meios que emanam da radiodifus&atilde;o. Cerca de 32% dessa turma confia plenamente no que est&aacute; sendo postado por outra pessoa, individualmente &ndash; tanto em blogs quanto em sites de compartilhamento. Sejam indica&ccedil;&otilde;es culturais, informa&ccedil;&otilde;es objetivas ou relatos de experi&ecirc;ncias. A confian&ccedil;a no que est&aacute; sendo dito pela m&iacute;dia &eacute; bem menor.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Uma dramaturgia prim&aacute;ria<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Um reflexo disso est&aacute; na doen&ccedil;a terminal que acomete a id&eacute;ia do &quot;sucesso&quot;, tal como o conhecemos hoje. Nos EUA, em 1970, havia 180 programas de televis&atilde;o que atingiam mais de 10 milh&otilde;es de espectadores; hoje, esses programas n&atilde;o passam de 14. O &quot;sucesso&quot; tornou-se mais associado ao alcance global.<\/p>\n<p><\/span><span>O mundo do conte&uacute;do televisivo dividiu-se em tr&ecirc;s partes, an&aacute;logas a um animal estranho: a &quot;cabe&ccedil;a&quot;, onde est&atilde;o os programas das principais redes de televis&atilde;o; a fat belly, barriga gorda, onde est&atilde;o as emissoras menores por&eacute;m massivas, como as principais redes de TV por assinatura; e a long tail, cauda longa, que &eacute; estreita e infinita e que abriga todo o demais conte&uacute;do.<\/p>\n<p><\/span><span>O que est&aacute; derrubando o interesse dos jovens pela televis&atilde;o &eacute; que a intelig&ecirc;ncia do meio n&atilde;o est&aacute; na cabe&ccedil;a, mas na cauda. O c&eacute;rebro dos grandes produtores e exibidores est&aacute; produzindo varia&ccedil;&otilde;es pioradas do que &eacute; feito h&aacute; 50 anos. Essas p&eacute;rolas podem ter sido mostradas com o luxo habitual em Cannes, mas para os jovens tudo isso parece sa&iacute;do de outro planeta.<\/p>\n<p><\/span><span>O card&aacute;pio da televis&atilde;o &eacute; elaborado por empres&aacute;rios corporativos, que demoraram bastante para entender a mudan&ccedil;a da l&oacute;gica dos seus modelos de neg&oacute;cio, no que diz respeito ao conte&uacute;do. Acreditam que esse modelo se baseia na difus&atilde;o ampla do que chamam de &quot;produtos&quot;. Que card&aacute;pio televisivo s&atilde;o capazes de criar? Infinitos game-shows que mudam apenas os seus cen&aacute;rios, necessariamente kitsch; reality-shows &agrave;s centenas, que se clonam sem parar; com&eacute;dias est&uacute;pidas que s&oacute; parecem divertir quem j&aacute; foi devidamente descerebrado pela pr&oacute;pria TV; novelas e s&eacute;ries que definitivamente s&oacute; podem ser feitos para sugerir que a televis&atilde;o &eacute; o espa&ccedil;o natural para a constru&ccedil;&atilde;o de uma dramaturgia constrangedoramente prim&aacute;ria.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Um exemplo da miopia<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>N&atilde;o &eacute; de estranhar que os mais novos tenham desligado a televis&atilde;o e se conectado a um mundo mais real. O planeta Terra, pelo menos, tornou-se m&oacute;vel e port&aacute;til, portanto individualizado. Tal coisa s&oacute; n&atilde;o foi percebida dentro das emissoras de televis&atilde;o. O surgimento das novas plataformas n&atilde;o foi entendido como o sinal para a constru&ccedil;&atilde;o de novos conte&uacute;dos, mas como uma oportunidade para a diversifica&ccedil;&atilde;o dos meios de distribui&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do que j&aacute; vinha sendo produzido. O principal executivo da Joost, Mike Volpi, reconheceu ser ref&eacute;m desse processo e disse acreditar levar dois anos para mudar a rela&ccedil;&atilde;o. At&eacute; o Joost acha que s&oacute; chega &agrave; cauda longa se passar pela cabe&ccedil;a que n&atilde;o pensa.<\/p>\n<p><\/span><span>Isso revela uma not&aacute;vel falta de sensibilidade, mas sobretudo uma postura autof&aacute;gica. Em primeiro lugar porque novos meios precisam de novos conte&uacute;dos e v&atilde;o estar irremediavelmente exigindo isso. Depois, porque h&aacute; uma gera&ccedil;&atilde;o que se acostumou a ser tratada como gente pela m&iacute;dia onde est&atilde;o os seus iguais, como qualquer rede de conte&uacute;do gerado pelo usu&aacute;rio. Um bom exemplo dessa miopia est&aacute; na mostra de conte&uacute;dos para celular que tamb&eacute;m aconteceu durante o Mipcom. Este ano, ela contou com a presen&ccedil;a de megaprodutores de conte&uacute;do televisivo, como a Endemol e a BBC. O conte&uacute;do tornou-se caro e reproduz cada vez mais o que &eacute; produzido para a TV. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil prever quem vai perder esse jogo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Ser respeitado, para respeitar<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Os digital natives escrevem muito e falam pouco. Mais de 53% da sua comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; textual. Quando eles falam, n&atilde;o o est&atilde;o fazendo como os seus pais &ndash; e nem mesmo seus irm&atilde;os mais velhos &ndash; o faziam. Em 2000, 75% das mensagens de voz eram passadas atrav&eacute;s de telefones fixos. Hoje essa margem est&aacute; em 26%, e caindo.<\/p>\n<p><\/span><span>Ainda que por meios inesperados, desde 1968 nenhuma gera&ccedil;&atilde;o foi t&atilde;o cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia que se desenvolve em torno dela. A televis&atilde;o &ndash; pelo menos a televis&atilde;o tal como a conhecemos hoje &ndash; perdeu toda essa gente e n&atilde;o vai recuper&aacute;-la. Nada poderia ter sido melhor para a pr&oacute;pria TV. Dentro de dez anos, n&atilde;o mais do que isso, os estudantes estar&atilde;o rindo da televis&atilde;o de hoje, como &agrave;s vezes costumamos rir de velhos an&uacute;ncios que nos soam prim&aacute;rios.<\/p>\n<p><\/span><span>A televis&atilde;o falsa, massificada, fundamentada na cren&ccedil;a de que audi&ecirc;ncia &eacute; gado, ser&aacute; mat&eacute;ria de estudo pouco honroso para o meio que hoje tem a certeza que a f&oacute;rmula do sucesso &eacute; nivelar tudo por baixo e reduzir ao m&iacute;nimo o n&iacute;vel de exig&ecirc;ncia de quem est&aacute; pagando a sua conta.<\/p>\n<p><\/span><span>Os respons&aacute;veis por isso ser&atilde;o os jovens que t&ecirc;m hoje, na m&iacute;dia que consomem, uma interlocu&ccedil;&atilde;o horizontal. Dezenas de milhares de produtores e radiodifusores mostraram com estardalha&ccedil;o, na grande feira de televis&atilde;o deste ano, que a televis&atilde;o que eles est&atilde;o pensando j&aacute; foi para outro lugar. A garotada pode n&atilde;o saber escrever muito bem, mas acaba de sinalizar que, para poder respeitar, tem que ser respeitada.<span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Cannes (Fran&ccedil;a). A maior feira de conte&uacute;do audiovisual do mundo, o Mipcom, ocorreu em Cannes de 8 a 11 deste outubro. Estavam l&aacute; 13 mil pessoas, inclusive cerca de 60 brasileiros, entre os quais donos e principais executivos de todas as grandes redes de televis&atilde;o do pa&iacute;s. 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