{"id":19470,"date":"2007-10-11T12:33:41","date_gmt":"2007-10-11T12:33:41","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19470"},"modified":"2007-10-11T12:33:41","modified_gmt":"2007-10-11T12:33:41","slug":"plebiscito-da-vale-reafirma-divorcio-entre-a-grande-midia-e-o-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19470","title":{"rendered":"Plebiscito da Vale reafirma div\u00f3rcio entre a grande m\u00eddia e o pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><span>Os movimentos sociais e entidades organizadoras do plebiscito popular da campanha &quot;A Vale &eacute; Nossa&quot; divulgaram nessa segunda (08\/10) os resultados do pleito, que mobilizou mais de 100 mil volunt&aacute;rios em quase 3.200 munic&iacute;pios do pa&iacute;s. Foram 3.729.538 votantes, sendo que 94,5% deles disseram n&atilde;o &agrave; perman&ecirc;ncia da Companhia Vale do Rio Doce nas m&atilde;os do capital privado.<\/p>\n<p><\/span><span>Embora a imensa maioria dos votantes &#8211; trocando em &quot;mi&uacute;dos&quot;, mais de 3,5 milh&otilde;es de brasileiros &#8211; tenha expressado sua contrariedade &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o da empresa, o cidad&atilde;o que tenha acompanhado a cobertura do tema pela m&iacute;dia corporativa durante os dias do plebiscito, no in&iacute;cio de setembro, teria a impress&atilde;o de que o questionamento &agrave; venda da empresa era uma exce&ccedil;&atilde;o. Esta &eacute; a conclus&atilde;o do levantamento exclusivo realizado pelo Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o sobre a cobertura da m&iacute;dia comercial na semana de realiza&ccedil;&atilde;o do plebiscito popular.<\/p>\n<p><\/span><span>Como visto nas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 2006, em que o hist&oacute;rico do PSDB de privatiza&ccedil;&otilde;es das empresas pertencentes ao povo brasileiro teve peso decisivo na vit&oacute;ria de Lula, mais uma vez a popula&ccedil;&atilde;o demonstrou no plebiscito um saud&aacute;vel esp&iacute;rito de na&ccedil;&atilde;o e de defesa de um Estado presente e atuante. A grande imprensa, por sua vez, reafirmou em sua cobertura a contrariedade em rela&ccedil;&atilde;o a um Estado que planeje e colabore com o desenvolvimento e o crescimento do Brasil e que atue em diversas &aacute;reas da economia e da sociedade de modo a promover a supera&ccedil;&atilde;o de desigualdades hist&oacute;ricas.<\/p>\n<p><\/span><span>Ainda que a cartilha do governo Lula em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s privatiza&ccedil;&otilde;es tenha mudado substancialmente do discurso das elei&ccedil;&otilde;es de 2006 para as a&ccedil;&otilde;es do segundo mandato, iremos aqui nos ater a outro div&oacute;rcio: o verificado entre o que a popula&ccedil;&atilde;o expressou como opini&atilde;o e vontade de mudan&ccedil;a e o que a grande imprensa buscou reportar em rela&ccedil;&atilde;o ao plebiscito. E veremos que, apesar de a m&iacute;dia corporativa n&atilde;o ter a capacidade de inventar de fato um outro povo e um outro pa&iacute;s, a cobertura da mobiliza&ccedil;&atilde;o sobre a Vale foi mais uma tentativa de criar uma vers&atilde;o dos fatos e da hist&oacute;ria em evidente desacordo com a realidade.<\/p>\n<p><\/span><span>A situa&ccedil;&atilde;o verificada em rela&ccedil;&atilde;o ao plebiscito da campanha &quot;A Vale &eacute; Nossa&quot; reafirma, assim, a necessidade de uma profunda democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es e da cria&ccedil;&atilde;o de um efetivo sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. <\/span>Ambas s&atilde;o iniciativas que fortalecer&atilde;o outras vozes, leituras e atores de nossa sociedade. E que certamente contribuir&atilde;o para que a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja mais ref&eacute;m das constru&ccedil;&otilde;es da realidade produzidas por uma m&iacute;dia divorciada de seu pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>A cobertura<\/p>\n<p><\/strong>N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel afirmar que o Plebiscito Popular sobre a Anula&ccedil;&atilde;o do Leil&atilde;o da Vale do Rio Doce esteve fora do notici&aacute;rio, pelo menos nos ve&iacute;culos impressos. Na TV, sim, a cobertura foi escassa. Por&eacute;m, tamb&eacute;m &eacute; fato que esta cobertura de forma alguma teve a inten&ccedil;&atilde;o de instaurar o debate p&uacute;blico sobre o m&eacute;rito da consulta, ou seja, a reestatiza&ccedil;&atilde;o da mineradora e de suas jazidas.<\/p>\n<p>Quando n&atilde;o se limitou a usar o plebiscito como mote para criar uma confus&atilde;o de identidade entre os movimentos populares e o governo, buscou oferecer claramente argumentos que apontam que a privatiza&ccedil;&atilde;o foi respons&aacute;vel pela moderniza&ccedil;&atilde;o da empresa.<\/p>\n<p>O notici&aacute;rio di&aacute;rio nos principais jornais apostou de forma constante na primeira estrat&eacute;gia, ora colocando movimentos e governo como pr&oacute;ximos (afirmando que as idiossincrasias dos primeiros atrapalham o segundo), ora criando um abismo entre os dois (mostrando que o segundo n&atilde;o iria sequer considerar a quest&atilde;o).<\/p>\n<p>J&aacute; as revistas fizeram largo uso de suas p&aacute;ginas para defender as benesses da privatiza&ccedil;&atilde;o. Na TV, o plebiscito apenas existiu durante a realiza&ccedil;&atilde;o do Grito dos Exclu&iacute;dos.<\/p>\n<p>De maneira geral, a imagem constru&iacute;da pela m&iacute;dia sobre o plebiscito foi a de que se tratava de iniciativa anacr&ocirc;nica e restrita a uma pequena e pouco representativa parcela da sociedade, que seriam os movimentos sociais ou os setores de uma esquerda mais radical.<\/p>\n<p><strong>Jornais di&aacute;rios<\/p>\n<p><\/strong>Durante a semana de realiza&ccedil;&atilde;o do Plebiscito Popular sobre a Anula&ccedil;&atilde;o do Leil&atilde;o da Vale do Rio Doce, a iniciativa foi citada todos os dias pelos principais jornais di&aacute;rios, ainda que diversas vezes de forma muito discreta &ndash; em colunas de cartas do leitor ou em frases perdidas no meio de textos de colunistas.<\/p>\n<p>A cobertura, por&eacute;m, centrou-se, basicamente, em fatos relacionados ao plebiscito, n&atilde;o ao processo de consulta em si. &Eacute; sintom&aacute;tico que o plebiscito s&oacute; tenha entrado, de fato, na pauta dos jornais a partir da aprova&ccedil;&atilde;o &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o da consulta pelo Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT). De modo geral, o notici&aacute;rio e as colunas de opini&atilde;o viram no plebiscito um tipo de evento exemplar da esquerda folcl&oacute;rica, cuja &quot;import&acirc;ncia&quot; s&oacute; se deveu ao fato de que a quest&atilde;o posta pela consulta poderia criar certo desconforto &agrave; parte da esquerda que assumiu o pragmatismo do governo.<\/p>\n<p>Assim, o plebiscito em si e, especialmente, o tema posto em quest&atilde;o pela iniciativa ficaram em &uacute;ltimo plano. Por exemplo, boa parte das mat&eacute;rias sequer citava que o plebiscito j&aacute; estava em andamento.<\/p>\n<p>Apenas no dia 5, passada j&aacute; a metade dos dias para coleta de votos, a Folha de S. Paulo registra, em um pequeno box, informa&ccedil;&otilde;es sobre quem organizava o plebiscito, onde poderiam ser encontradas outras informa&ccedil;&otilde;es e como votar. Nos demais jornais analisados &ndash; O Estado de S. Paulo e O Globo &ndash; n&atilde;o h&aacute; qualquer indica&ccedil;&atilde;o neste sentido. Os textos chegam a dar a impress&atilde;o de que a consulta ocorreria apenas meses depois.<\/p>\n<p>A repercuss&atilde;o da decis&atilde;o do Congresso do PT durou pelo menos quatro dias e, embora n&atilde;o tenha havido uma declara&ccedil;&atilde;o oficial do governo federal, os jornais apressaram-se em repercutir a decis&atilde;o do partido junto a fontes do governo ou membros do PT pr&oacute;ximos a Lula.<\/p>\n<p>Registraram, assim, que a parte governista do PT estava insatisfeita e deram t&iacute;tulos que ressaltavam que, para o presidente Lula, o apoio ao plebiscito era uma forma de &quot;fazer m&eacute;dia&quot; com uma parte dos movimentos sociais.<\/p>\n<p>A &uacute;nica not&iacute;cia de fato sobre o plebiscito em si foi a discuss&atilde;o entre deputados por conta da instala&ccedil;&atilde;o de uma urna da consulta dentro do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>As discuss&otilde;es de m&eacute;rito a respeito da reestatiza&ccedil;&atilde;o da Vale s&oacute; foram registradas de forma aberta em artigos de opini&atilde;o assinados por apoiadores do plebiscito: na Folha de S. Paulo, artigo de F&aacute;bio Konder Comparato apontou as quest&otilde;es judiciais a respeito do leil&atilde;o; em O Globo, Jo&atilde;o Pedro St&eacute;dile e D. Dem&eacute;trio Valentini fizeram um apanhado das raz&otilde;es que levaram &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o do plebiscito. A Folha, cinco dias depois de publicado o artigo de Comparato, publicou artigo de Adilson Dallari respondendo &agrave;s quest&otilde;es jur&iacute;dicas e defendendo a validade do leil&atilde;o.<\/p>\n<p>Em alguns outros artigos de opini&atilde;o publicados naquela semana, o tema da reestatiza&ccedil;&atilde;o &eacute; tratado como um &quot;passo atr&aacute;s&quot;, como andar na &quot;contra-m&atilde;o&quot;, como &quot;anacronismo&quot;. Interessante notar que nenhum destes artigos tratava diretamente do tema do plebiscito ou da anula&ccedil;&atilde;o do leil&atilde;o: as cr&iacute;ticas apareceram a esmo, como para compor um quadro do qu&ecirc; &quot;atrapalha o Brasil&quot;, do qual faz parte tanto o governo Lula com seus erros, quanto as esquerdas que n&atilde;o deixam de cercar Lula (e a&iacute; &eacute; importante ressaltar como &eacute; propositadamente criada uma confus&atilde;o sobre a proximidade e os distanciamentos entre o governo e os movimentos sociais).<\/p>\n<p>No dia 4, por exemplo, o economista Ilan Goldajn, escrevendo sobre a crise dos mercados internacionais, registra: &quot;No Brasil, na contram&atilde;o, o governo baseia seu or&ccedil;amento em receitas cada vez maiores, para financiar gastos crescentes. E o 3&ordm; Congresso do PT, partido do governo, em vez de delinear as reformas que considera necess&aacute;rias para sustentar um crescimento sustentado, prioriza a revis&atilde;o do que deu certo no passado: a privatiza&ccedil;&atilde;o da Companhia Vale do Rio Doce.&quot;<\/p>\n<p>Por outro lado, os colunistas fixos dos jornais optaram basicamente por refor&ccedil;ar a estrat&eacute;gia do notici&aacute;rio, comentando o apoio do PT ao plebiscito. Nos coment&aacute;rios, de forma muito taxativa, a id&eacute;ia da anula&ccedil;&atilde;o do leil&atilde;o da Vale ganha qualifica&ccedil;&otilde;es como &quot;absurdo&quot;, &quot;retrocesso&quot;.<\/p>\n<p>Poucos citaram abertamente o m&eacute;rito da reestatiza&ccedil;&atilde;o, ou os desdobramentos do plebiscito em si. A rara exce&ccedil;&atilde;o foi Ancelmo G&oacute;is, que no dia 4 registra nota sobre a rea&ccedil;&atilde;o da Vale do Rio Doce e comenta a realiza&ccedil;&atilde;o da consulta: &quot;A Vale acompanha discretamente a campanha para anular a sua privatiza&ccedil;&atilde;o. Por enquanto, h&aacute; mais espuma do que chope. Mas nunca se sabe. A maior preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; com as 67 a&ccedil;&otilde;es populares que pipocam por todo o pa&iacute;s contra o leil&atilde;o. A defesa est&aacute; com o escrit&oacute;rio Siqueira Castro.&quot; No dia 9, G&oacute;is ainda falou do plebiscito, mas j&aacute; em outro tom: desqualifica os argumentos pr&oacute;-anula&ccedil;&atilde;o dizendo que os funcion&aacute;rios que investem nos fundos de pens&atilde;o que hoje controlam a empresa (inclusive os que j&aacute; eram empregados da Vale estatal) seriam prejudicados pela reestatiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No 7 de setembro, apenas Folha e Estad&atilde;o registraram a realiza&ccedil;&atilde;o do Grito dos Exclu&iacute;dos. Sintomaticamente, o registro da manifesta&ccedil;&atilde;o &eacute; feito pelo Estad&atilde;o em um &uacute;ltimo par&aacute;grafo de uma mat&eacute;ria sobre ocupa&ccedil;&otilde;es realizadas pelo MST no dia anterior. Como chap&eacute;u (pr&eacute;-t&iacute;tulo), o jornal escolheu a express&atilde;o &quot;Terra sem lei&quot;.<\/p>\n<p>Na edi&ccedil;&atilde;o do dia 8, h&aacute; registro razo&aacute;vel do Grito tanto na Folha, como no Estad&atilde;o. Enquanto a primeira destaca a realiza&ccedil;&atilde;o do plebiscito na S&eacute; e a n&atilde;o-realiza&ccedil;&atilde;o na Bas&iacute;lica de Aparecida, o segundo fala apenas de passagem na consulta e d&aacute; mais import&acirc;ncia em descrever &ndash; com certo ar carnavalesco &ndash; as bandeiras diversas que tiveram vez na manifesta&ccedil;&atilde;o. J&aacute; O Globo escreve apenas 3 par&aacute;grafos, registrando o n&uacute;mero de pessoas presentes no Rio, SP e Recife.<\/p>\n<p>No dia 9, foram registradas as &uacute;ltimas refer&ecirc;ncias ao plebiscito, apenas nas colunas de opini&atilde;o. Na mais curiosa de todas, Elio Gaspari (publicado em O Globo e no Estad&atilde;o) ataca ambos os lados: denuncia o arremate da Vale &quot;com dinheiro da Vi&uacute;va&quot;, para depois dizer que a reestatiza&ccedil;&atilde;o poderia servir para os petistas conseguirem uma &quot;boquinha&quot;.<\/p>\n<p><strong>TVs privadas<\/p>\n<p><\/strong>O plebiscito e o Grito dos Exclu&iacute;dos s&oacute; existiram no pr&oacute;prio dia 7 para as principais redes de televis&atilde;o do pa&iacute;s. Segundo levantamento das edi&ccedil;&otilde;es dos maiores telejornais da Globo, SBT, Record e BAND, o tema s&oacute; foi pautado no feriado de 7 de setembro. Entre 30 de agosto, data da coletiva de imprensa dos movimentos sociais sobre as mobiliza&ccedil;&otilde;es, e 9 de setembro, &uacute;ltimo dia do plebiscito, a &uacute;nica exce&ccedil;&atilde;o a essa regra foi o &quot;SBT Brasil&quot;, que trouxe coment&aacute;rio de Carlos Chagas, no dia 4 de setembro, referente ao Congresso do PT e ao plebiscito da Vale, apoiado pelo encontro do partido.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s a chamada da apresentadora Cynthia Benini (&quot;Deputados e senadores estranharam as propostas feitas pelo PT no Congresso Nacional do partido&quot;), o comentarista Carlos Chagas afirma que &quot;os companheiros aprovaram propostas que seriam c&ocirc;micas, se n&atilde;o fossem tr&aacute;gicas&quot;. Para Chagas &quot;essa privatiza&ccedil;&atilde;o pode at&eacute; ter sido um crime de lesa-p&aacute;tria, mas foi um ato ato jur&iacute;dico perfeito&quot;. Ignorando a an&aacute;lise de importantes juristas e a exist&ecirc;ncia de mais de 100 a&ccedil;&otilde;es questionando o processo na Justi&ccedil;a, que aguardam pela decis&atilde;o do STJ, o comentarista cria uma vers&atilde;o simplesmente irreal para o fato: &quot;para revog&aacute;-lo, apenas com uma ditadura, com um Ato Insitucional&quot;.<\/p>\n<p>Se as tev&ecirc;s s&oacute; pautaram o tema do plebiscito e do Grito no dia 7, h&aacute; detalhes importantes a se apontar em rela&ccedil;&atilde;o a essa op&ccedil;&atilde;o. O primeiro deles &eacute; que a data apresenta uma forte carga de poss&iacute;veis not&iacute;cias e imagens, entre as mais relacionadas &agrave; pr&oacute;pria proclama&ccedil;&atilde;o da Independ&ecirc;ncia do Brasil, &agrave;s comemora&ccedil;&otilde;es e desfiles militares referentes ao tema e, ainda, &agrave; presen&ccedil;a das autoridades do pa&iacute;s &ndash; com as poss&iacute;veis vaias ou apoios &ndash; nos respectivos eventos. Ou seja, se as discuss&otilde;es propostas pelos movimentos s&oacute; s&atilde;o pautadas no dia 7, elas enfrentar&atilde;o a forte concorr&ecirc;ncia de temas relevantes, e no mais das vezes ser&atilde;o colocadas de forma secund&aacute;ria pelos telejornais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o &quot;Jornal da Band&quot; foi o que &quot;melhor&quot; representou tal tend&ecirc;ncia, ao noticiar o dia 7 em duas mat&eacute;rias (&quot;Renan Calheiros n&atilde;o foi ao desfile de 7 de setembro&quot; e &quot;Confus&atilde;o no desfile da independ&ecirc;ncia em Macei&oacute;&quot;), que sequer citaram as palavras &quot;plebiscito&quot; ou &quot;exclu&iacute;dos&quot;.<\/p>\n<p>O segundo detalhe fundamental diz respeito ao aprofundamento do tema: se os debates, constru&iacute;dos ao longo de meses pelos movimentos, s&oacute; se tornam pauta dos telejornais no dia 7, outra conseq&uuml;&ecirc;ncia &oacute;bvia &eacute; que pouco ou nenhum tempo haver&aacute; para os temas serem discutidos com a m&iacute;nima profundidade nos telejornais &ndash; e ainda menos com possibilidade de incentivar a popula&ccedil;&atilde;o a refletir e a participar das duas mobiliza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Juntando-se o primeiro fator ao segundo, tem-se que as not&iacute;cias sobre o Grito e o plebiscito na televis&atilde;o comercial brasileira acabam praticamente n&atilde;o dando voz &agrave;s pessoas que os constru&iacute;ram, tampouco &agrave;s id&eacute;ias que elas gostariam de apresentar. Tudo isso s&oacute; chega aos demais cidad&atilde;os brasileiros de forma intensamente mediada pelos rep&oacute;rteres, apresentadores e analistas dos telejornais, que pouca ou nenhuma liga&ccedil;&atilde;o possuem com a quest&atilde;o. Os jornalistas, afastados dos temas, afastam por sua vez os telespectadores.<\/p>\n<p>No &quot;Jornal Nacional&quot;, da Globo, a not&iacute;cia &quot;&#39;Grito dos Exclu&iacute;dos&#39; questiona reforma da previd&ecirc;ncia e privatiza&ccedil;&atilde;o da Vale&quot; trouxe o apresentador William Bonner resumindo os protestos: &quot;representantes de movimentos sociais e da Igreja Cat&oacute;lica realizaram hoje, em v&aacute;rias cidades, a 13&ordf; edi&ccedil;&atilde;o do Grito dos Exclu&iacute;dos&quot;, no que foi seguido por rep&oacute;rter da emissora anunciando que &quot;em todo o pa&iacute;s, o Grito dos Exclu&iacute;dos colheu votos em uma consulta popular sobre a reforma da Previd&ecirc;ncia e a reestatiza&ccedil;&atilde;o da Companhia Vale do Rio Doce, entre outros assuntos&quot;. Foi o m&aacute;ximo de profundidade que a maior emissora do pa&iacute;s dedicou ao tema. Esta foi a forma como a rede mais poderosa de comunica&ccedil;&atilde;o do Brasil explicou e desenvolveu sobre o que seriam os questionamentos &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o da Vale.<\/p>\n<p>O &quot;Jornal da Record&quot;, padecendo do mesmo mal de um &uacute;nico dia para o tema, dedicou maior espa&ccedil;o aos debates em si, aprofundando-os minimamente. Na mat&eacute;ria &quot;&#39;Grito dos Exclu&iacute;dos&#39; pede mais justi&ccedil;a social&quot;, a apresentadora Adriana Ara&uacute;jo resumiu: &quot;Mais justi&ccedil;a social e revis&atilde;o de uma privatiza&ccedil;&atilde;o de dez anos atr&aacute;s. Foi o que pediram as manifesta&ccedil;&otilde;es do &#39;Grito dos Exclu&iacute;dos&#39;&quot;. Relatando uma das cenas do Grito, o rep&oacute;rter da emissora inicia sua participa&ccedil;&atilde;o: &quot;nas m&atilde;os de crian&ccedil;as, jovens e adultos faixas e cartazes pedindo um pa&iacute;s mais justo&quot;, que &eacute; seguida por frases dos manifestantes reivindicando direitos fundamentais, como um entrevistado que afirmou &quot;precisamos de moradia que n&oacute;s n&atilde;o temos. &Eacute; dif&iacute;cil com o sal&aacute;rio que ganha&quot;. Logo depois, rapidamente, o rep&oacute;rter aproveita para explicar que &quot;o &#39;Grito dos Exclu&iacute;dos&#39; deste ano questionou a privatiza&ccedil;&atilde;o da Companhia Vale do Rio Doce. Os l&iacute;deres do protesto fizeram um abaixo-assinado pedindo a anula&ccedil;&atilde;o do leil&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Vale registrar, por fim, que para a imensa maioria da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, que se informa essencialmente por meio da TV, as a&ccedil;&otilde;es na Justi&ccedil;a, cuja an&aacute;lise por parte do STJ pode at&eacute; mesmo declarar a nulidade do leil&atilde;o de privatiza&ccedil;&atilde;o, simplesmente n&atilde;o existem.<\/p>\n<p><strong>Revistas semanais<\/p>\n<p><\/strong>Aprofundando a linha apontada indiretamente pela cobertura dos jornais, as revistas semanais que inclu&iacute;ram o tema do plebiscito em suas pautas o fizeram para apontar o suposto &quot;anacronismo&quot; da id&eacute;ia e ressaltar as benesses da privatiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na Isto&Eacute; Dinheiro que chegou &agrave;s bancas no dia 1 de setembro, artigo assinado por Oct&aacute;vio Costa atira em duas dire&ccedil;&otilde;es: desqualificar o m&eacute;rito do plebiscito e tamb&eacute;m o processo da consulta em si. A sanha pela desqualifica&ccedil;&atilde;o do plebiscito j&aacute; no primeiro dia da coleta de votos fica evidente pela pr&oacute;pria escolha do opinador de puxar o assunto pelo apoio ao plebiscito aprovado pelo Congresso do PT. Quando escreve seu artigo, o Congresso n&atilde;o havia come&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Para atacar o m&eacute;rito do plebiscito &ndash; a anula&ccedil;&atilde;o da privatiza&ccedil;&atilde;o &ndash;, faz uma apologia aos resultados da Vale privatizada e diz que s&oacute; o &quot;ran&ccedil;o ideol&oacute;gico&quot; explicaria o fato dos &quot;militantes do PT&quot; ainda &quot;perderem as estribeiras diante da simples men&ccedil;&atilde;o da palavra privatiza&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Ao citar apenas &quot;os militantes do PT&quot;, o opinador da Isto&Eacute; Dinheiro refor&ccedil;a a escolha pela desqualifica&ccedil;&atilde;o das entidades que organizaram o plebiscito apontada no primeiro par&aacute;grafo do texto: as entidades &agrave;s quais o PT (&quot;partido esquizofr&ecirc;nico&quot;) se somou s&atilde;o tomadas como nanicas, inexpressivas ou desconhecidas.<\/p>\n<p>A &Eacute;poca publica no final de semana seguinte (8 de setembro), quando j&aacute; se encerrava a coleta de votos, o que chega a parecer um release da Vale do Rio Doce.<\/p>\n<p>A mobiliza&ccedil;&atilde;o &eacute; apresentada como &quot;uma esp&eacute;cie de plebiscito&quot; organizado por um &quot;grupo de entidades de esquerda&quot;, que &quot;ganhou import&acirc;ncia&quot; pelo &quot;apoio&quot; recebido do Congresso do PT.<\/p>\n<p>Apesar de a consulta ser o gancho da mat&eacute;ria (a informa&ccedil;&atilde;o que introduz o tema), os argumentos pr&oacute;-anula&ccedil;&atilde;o cabem em uma frase. O restantes das 3 p&aacute;ginas da revista s&atilde;o dedicados a descrever como a Vale cresceu e se tornou a 3&ordf; maior mineradora do mundo.<\/p>\n<p>Diz a mat&eacute;ria em seu segundo par&aacute;grafo: &quot;Os defensores da reestatiza&ccedil;&atilde;o consideram que a volta do controle do governo traria mais benef&iacute;cios para o pa&iacute;s.&quot; A frase seguinte introduz com clareza a inten&ccedil;&atilde;o do restante da mat&eacute;ria: &quot;A hist&oacute;ria da Vale, no entanto, n&atilde;o endossa essa opini&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Considerando que a Vale do Rio Doce n&atilde;o emitiu uma &uacute;nica nota oficial sobre o plebiscito ou apresentando argumentos contr&aacute;rios &agrave; anula&ccedil;&atilde;o, pode-se considerar que esta mat&eacute;ria foi, na pr&aacute;tica, esta resposta devida pela empresa.<\/p>\n<p>J&aacute; a Veja publica mat&eacute;ria que poderia ser tomada como artigo de opini&atilde;o. No entanto, o foco da mat&eacute;ria n&atilde;o est&aacute; sobre o plebiscito ou a privatiza&ccedil;&atilde;o da Vale, mas trata dos resultados do Congresso do PT. A aprova&ccedil;&atilde;o do apoio ao plebiscito pelo partido &eacute; inclu&iacute;da no rol das esquizofrenias do PT, que segundo a revista viveria em uma esp&eacute;cie de &quot;realidade virtual&quot;. O contraponto a esta virtualidade em que navega o partido viria do &quot;mundo real&quot; do governo Lula. O presidente &eacute; citado na mat&eacute;ria, que lembra que Lula disse que o apoio ao plebiscito era &quot;jogar para a plat&eacute;ia&quot;. E Veja registra ainda que o presidente &quot;garantiu que n&atilde;o quer a reestatiza&ccedil;&atilde;o nem pretende discutir a id&eacute;ia&quot;.<\/p>\n<p><span><br \/><em>*Antonio Biondi e Cristina Char&atilde;o s&atilde;o integrantes do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os movimentos sociais e entidades organizadoras do plebiscito popular da campanha &quot;A Vale &eacute; Nossa&quot; divulgaram nessa segunda (08\/10) os resultados do pleito, que mobilizou mais de 100 mil volunt&aacute;rios em quase 3.200 munic&iacute;pios do pa&iacute;s. 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