{"id":19456,"date":"2007-10-10T11:23:45","date_gmt":"2007-10-10T11:23:45","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19456"},"modified":"2007-10-10T11:23:45","modified_gmt":"2007-10-10T11:23:45","slug":"imprensa-e-liberdade-a-qualidade-da-cobertura-da-agenda-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19456","title":{"rendered":"Imprensa e Liberdade: a qualidade da cobertura da agenda social"},"content":{"rendered":"<p><em>(Terceiro de uma s&eacute;rie de quatro artigos sob o t&iacute;tulo geral &quot;A imprensa e o dever da liberdade &ndash; A responsabilidade social do jornalismo em nossos dias&quot;. Leia tamb&eacute;m &quot;A miss&atilde;o de servir ao cidad&atilde;o e vigiar o poder&quot; e &quot;A liberdade de imprensa entendida como um dever&quot; )<\/p>\n<p><\/em>Um dos indicadores mais comumente adotados para a verifica&ccedil;&atilde;o do cumprimento da responsabilidade social do jornalismo tem sido a cobertura dos movimentos sociais, entendidos como aqueles movimentos organizados cujos protagonistas pertencem &agrave;s camadas mais pobres do pa&iacute;s. Pesa, tamb&eacute;m, nesse tipo de avalia&ccedil;&atilde;o, a cobertura dos debates suscitados por esses movimentos dentro do Estado, ou no contato entre as estruturas do Estado com a sociedade civil, como nas recentes confer&ecirc;ncias nacionais &ndash; com milhares de participantes, primeiro nos Estados e depois em plen&aacute;rias nacionais em &aacute;reas como cultura, cidades ou meio ambiente. Numa vis&atilde;o um tanto linear, acredita-se que, quanto maior a cobertura em qualquer tipo de &oacute;rg&atilde;o de imprensa, maior o compromisso do jornalismo com a sua responsabilidade social. H&aacute; outros indicadores, mas esse tem se sobressa&iacute;do.<\/p>\n<p>De in&iacute;cio, &eacute; bom saber que existe a&iacute; uma cobran&ccedil;a tipicamente militante. Proposital ou inadvertidamente, alguns d&atilde;o o nome de responsabilidade social ao engajamento do jornalista nas reivindica&ccedil;&otilde;es desses que tamb&eacute;m s&atilde;o chamados de movimentos populareslitantes, que aqui precisam ser desprezadas. . O que os adeptos do engajamento postulam n&atilde;o &eacute;, portanto, uma imprensa livre, mas uma imprensa submissa ao discurso desses setores organizados. Claro que quando o jornalista aceita cumprir tal papel renuncia &agrave; sua liberdade e &agrave; sua responsabilidade social &ndash; que n&atilde;o se realiza pelo engajamento, mas pelo seu contr&aacute;rio, quer dizer, pelo desengajamento em rela&ccedil;&atilde;o aos discursos prontos que buscam se infundir no seu relato. <\/p>\n<p>A cobran&ccedil;a militante n&atilde;o leva em conta que, a despeito de valora&ccedil;&otilde;es subjetivas que comparecem a qualquer enunciado, jornal&iacute;stico ou n&atilde;o, o jornalismo almeja prover a sociedade de informa&ccedil;&otilde;es objetivas e, portanto, &uacute;teis ao debate p&uacute;blico; por isso, procura apurar, editar e veicular conte&uacute;dos tendo em vista as necessidades, as demandas e os direitos do seu p&uacute;blico, ao qual informa e com o qual dialoga. Logo, para fins de an&aacute;lise da boa ou m&aacute; cobertura dos movimentos sociais, a cobran&ccedil;a militante em nada ajuda. Deve ser descartada sumariamente.<\/p>\n<p><strong>Atendimento parcial<\/p>\n<p><\/strong>O problema da cobertura, contudo, persiste. Se for verdade que a imprensa ignora, ainda que apenas em parte, os movimentos sociais, ser&aacute; tamb&eacute;m verdade que ela fecha os olhos para uma parcela significativa da realidade com que lida. Por certo, seria um destempero pretender que todos os &oacute;rg&atilde;os de imprensa falassem do assunto do mesmo modo, assim como seria pouco sensato esperar de todos, indistintamente, not&iacute;cias iguais sobre astronomia, golfe, futebol ou agropecu&aacute;ria. Cada um tem o seu repert&oacute;rio pr&oacute;prio, sua agenda pr&oacute;pria, sua audi&ecirc;ncia pr&oacute;pria, mas, se &eacute; fato que o cidad&atilde;o n&atilde;o disp&otilde;e de ve&iacute;culos que o informem com qualidade sobre os movimentos sociais, algo n&atilde;o vai bem.<\/p>\n<p>Costuma-se dizer que a cobertura dos movimentos sociais &eacute; insuficiente. Ainda que n&atilde;o tenhamos estat&iacute;sticas exaustivas &agrave; m&atilde;o, admitamos que a postula&ccedil;&atilde;o seja verdadeira, nem que seja para efeito de racioc&iacute;nio. Sem cobran&ccedil;as militantes, &eacute; o caso de refletir sobre as raz&otilde;es da poss&iacute;vel insufici&ecirc;ncia. Por que, afinal de contas, a cobertura seria escassa? Talvez pela falta de p&uacute;blico interessado. Ser&aacute;? Haveria p&uacute;blico para essa cobertura? H&aacute; demanda? <\/p>\n<p>Admitindo, pois, a possibilidade de insufici&ecirc;ncia da cobertura, eu gostaria de suscitar uma hip&oacute;tese que ajudasse, se n&atilde;o a explic&aacute;-la, ao menos a considerar a plausibilidade de sua veracidade. A minha hip&oacute;tese diz respeito, de in&iacute;cio, ao jornalismo impresso: eu diria, ent&atilde;o, que a cobertura &eacute; d&eacute;bil porque, em parte, os personagens dos chamados movimentos sociais n&atilde;o est&atilde;o entre os leitores das principais publica&ccedil;&otilde;es do pa&iacute;s. Ou seja: os movimentos sociais n&atilde;o figuram tanto na pauta porque seus protagonistas n&atilde;o figuram entre os consumidores do pacote jornal&iacute;stico (que &eacute; a mercadoria comercializada por jornais e revistas).<\/p>\n<p>A cobertura deixaria a desejar n&atilde;o porque os jornalistas s&atilde;o t&eacute;cnica ou culturalmente despreparados, embora a vari&aacute;vel n&atilde;o possa ser desprezada &ndash; assim como n&atilde;o pode ser desprezada a origem social dos jornalistas que, em sua imensa maioria, s&atilde;o filhos de classe m&eacute;dia que, em sua hist&oacute;ria de vida, tiveram pouco ou nenhum contato com integrantes dos movimentos sociais e as &aacute;reas em que estes moram &ndash;, mas porque seus p&uacute;blicos leitores ainda s&atilde;o quantitativamente reduzidos e qualitativamente pouco heterog&ecirc;neos, n&atilde;o refletindo a composi&ccedil;&atilde;o da sociedade inteira. Dessa forma, os jornalistas, ao prestar servi&ccedil;os aos seus p&uacute;blicos habituais, cumprindo, portanto, o seu papel de servir ao leitor, atendem apenas a uma parte da sociedade, a parte que os l&ecirc;. O p&uacute;blico com que dialogam &eacute; parcial &ndash; da&iacute; a parcialidade da pauta com que trabalham.<\/p>\n<p><strong>Baliza do consumo<\/p>\n<p><\/strong>Um ve&iacute;culo jornal&iacute;stico, se bem-sucedido, tem menos a cara do seu editor e mais a cara do p&uacute;blico ao qual se dirige. A ele presta servi&ccedil;os. &Eacute;, pois, explic&aacute;vel, ainda que n&atilde;o seja desej&aacute;vel, que os jornais di&aacute;rios, no intuito de ser &uacute;teis a seu leitorado, falem da realidade das pessoas que os l&ecirc;em como sendo toda a realidade imediata que interessa. <\/p>\n<p>O ponto &eacute; que, nos grupos de leitores dos di&aacute;rios tradicionais do Brasil, ao menos como regra, n&atilde;o entram a maior parte dos ativistas dos movimentos sociais &ndash; estes n&atilde;o s&atilde;o assinantes, raramente s&atilde;o compradores de exemplares avulsos e tamb&eacute;m n&atilde;o consomem os produtos anunciados nas p&aacute;ginas de publicidade. Se &eacute; mesmo assim, por que &eacute; que se vai se falar, vejamos, de um movimento de favelas num jornal que &eacute; lido nos bairros elegantes? A resposta &eacute; simples: s&oacute; se falar&aacute; disso quando esse movimento afetar a normalidade dos habitantes dos bairros onde se concentram os leitores.<\/p>\n<p>De acordo com a minha hip&oacute;tese, os participantes dos movimentos sociais, em sua maioria, s&atilde;o retratados meramente como terceiros distantes, comparecendo &agrave;s reportagens como amea&ccedil;as externas &agrave; rotina dos leitores. Considerando ainda que as fontes mais habituais dos jornais emergem do grupo daqueles que os l&ecirc;em, ou seja, considerando que o conjunto das fontes pertence ao conjunto dos leitores, v&ecirc;-se tamb&eacute;m que o di&aacute;logo estabelecido, nas p&aacute;ginas dos jornais, entre os agentes do debate p&uacute;blico, tamb&eacute;m exclui, ao menos como regra, se n&atilde;o todas as lideran&ccedil;as, ao menos os participantes dos movimentos sociais. Nesse ambiente, eles surgem como seres long&iacute;nquos e estranhos, mais ou menos como os rebeldes das cercanias de Bagd&aacute; ou os fam&eacute;licos da &Aacute;frica. Com uma distin&ccedil;&atilde;o: podem atirar uma pedra no telhado dos leitores e, por isso, tangenciam mais de perto a agenda desses leitores.<\/p>\n<p>A ser v&aacute;lida a hip&oacute;tese que apresento, as conseq&uuml;&ecirc;ncias se projetam para al&eacute;m dos meios impressos. Como as reda&ccedil;&otilde;es de jornais di&aacute;rios e de revistas t&ecirc;m sido escolas para gera&ccedil;&otilde;es sucessivas de profissionais, que depois migram para outros ve&iacute;culos, a mentalidade que nelas se cultiva interfere tamb&eacute;m nos outros meios. Os par&acirc;metros, os valores e, por vezes, os preconceitos que se verificam nas reda&ccedil;&otilde;es dos meios impressos viram refer&ecirc;ncias &ndash; n&atilde;o necessariamente dominantes &ndash; para a pr&aacute;tica do jornalismo em geral. <\/p>\n<p>Com efeito, sem cair na armadilha das generaliza&ccedil;&otilde;es, podemos observar que, &agrave;s vezes, at&eacute; nos notici&aacute;rios de televis&atilde;o os movimentos sociais ainda aparecem como um &quot;movimento deles&quot;, como se seus protagonistas n&atilde;o compusessem sequer o p&uacute;blico telespectador.<\/p>\n<p>H&aacute; um elemento perverso nessa exclus&atilde;o que alcan&ccedil;aria os meios de radiodifus&atilde;o, a TV em especial. Os agentes dos movimentos sociais, quando pertencentes a camadas sociais que n&atilde;o t&ecirc;m acesso aos bens de consumo, a despeito de integrarem o amplo espectro de telespectadores, n&atilde;o fazem parte da audi&ecirc;ncia com poder de compra m&iacute;nimo. Como o consumo serve de baliza para o modo como a publicidade na TV dialoga com o telespectador, esse p&uacute;blico que n&atilde;o chega a ser consumidor potencial termina por se ver estigmatizado, diante da tela, como sendo uma subplat&eacute;ia: os mais pobres n&atilde;o s&atilde;o vistos como compradores pelo anunciante. Por desdobramento, quase que autom&aacute;tico, por mais que os editores de televis&atilde;o creiam no contr&aacute;rio, esses segmentos n&atilde;o s&atilde;o convidados a ser interlocutores do discurso jornal&iacute;stico da TV.<\/p>\n<p><strong>Desafio editorial<br \/><\/strong><br \/>Guardadas as propor&ccedil;&otilde;es de praxe, pode-se considerar a mesma hip&oacute;tese para uma an&aacute;lise do radiojornalismo. O n&atilde;o-consumidor tende a ser um n&atilde;o-interlocutor. Nessa medida, os par&acirc;metros estreitos herdados da tradi&ccedil;&atilde;o dos di&aacute;rios se converteriam, sempre em hip&oacute;tese, num tipo de preconceito inercial no jornalismo da TV e do r&aacute;dio, mas um preconceito perversamente l&oacute;gico, sustentado pela estratifica&ccedil;&atilde;o imposta pelo consumo.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria recente traz casos que refor&ccedil;am a hip&oacute;tese. O Movimento dos Sem-Terra, por exemplo, entrou na cobertura da televis&atilde;o um pouco tardiamente, em meados dos anos 1980. Adquiriu destaque nos notici&aacute;rios por ocasi&atilde;o do massacre do Eldorado dos Caraj&aacute;s, que foi ao ar em cenas trepidantes gravadas por amadores. [<em>Neste epis&oacute;dio, ocorrido em abril de 1996, 19 trabalhadores rurais foram assassinados pela pol&iacute;cia militar do Par&aacute;. As v&iacute;timas eram integrantes da Caminhada pela Reforma Agr&aacute;ria, que reunia 1.500 fam&iacute;lias de trabalhadores sem terra. De acordo com o Instituto M&eacute;dico Legal (IML) do estado, todos os mortos foram atingidos por balas, v&aacute;rias delas disparadas &agrave; queima roupa: o parecer final concluiu que muitas das v&iacute;timas foram dominadas e, em seguida, executadas. Apesar das provas contundentes, at&eacute; o momento de fechamento deste livro a Justi&ccedil;a n&atilde;o havia punido de forma efetiva os respons&aacute;veis pelos crimes.<\/em>] Foi por ter rendido imagens espetaculares, e n&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da identidade dos mortos, que o massacre ganhou destaque nos telejornais.<\/p>\n<p>Depois, principalmente pela novela O Rei do Gado, da Rede Globo, o drama dos sem-terra foi admitido na sala da fam&iacute;lia brasileira. Mesmo assim, at&eacute; hoje, &eacute; em regra como amea&ccedil;a externa, semelhante a uma gripe avi&aacute;ria, que as lutas sociais do campo irrompem na tela. Os trabalhadores da terra, talvez mais do que seus l&iacute;deres, ainda n&atilde;o desfrutam do status de interlocutores no &acirc;mbito da comunica&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica. O fato de n&atilde;o pertencerem ao grupo dos que se comunicam normalmente pelas p&aacute;ginas dos jornais e &agrave;s camadas sociais com acesso ao consumo &eacute; o que mais os segrega, muito mais do que os julgamentos morais ou pol&iacute;ticos que recebam de uns e outros.<\/p>\n<p>A responsabilidade social do jornalismo passa por assumir o desafio editorial de expandir e qualificar a base de leitores de not&iacute;cias, em meios impressos e eletr&ocirc;nicos. Do mesmo modo, passa por separar os crit&eacute;rios que filtram o acesso ao consumo dos crit&eacute;rios da admissibilidade do cidad&atilde;o &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de interlocutor do discurso jornal&iacute;stico.<font face=\"Times New Roman\" size=\"3\">&nbsp;<\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Terceiro de uma s&eacute;rie de quatro artigos sob o t&iacute;tulo geral &quot;A imprensa e o dever da liberdade &ndash; A responsabilidade social do jornalismo em nossos dias&quot;. 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