{"id":19435,"date":"2007-10-08T13:28:33","date_gmt":"2007-10-08T13:28:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19435"},"modified":"2007-10-08T13:28:33","modified_gmt":"2007-10-08T13:28:33","slug":"tv-publica-um-olhar-dos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19435","title":{"rendered":"TV P\u00fablica, um olhar dos brasileiros?"},"content":{"rendered":"<p><!-- ### inicio_olho --><!-- ### fim_olho --><\/p>\n<p><!-- ### inicio_texto -->&ldquo;Quem &eacute; dono da flauta d&aacute; o tom.&rdquo; A TV P&uacute;blica come&ccedil;a a nascer sob um tom menor, pois o Poder Executivo, o dono da flauta, d&aacute; todas as pistas de que a emissora, planejada para ser a voz plural da brasilidade, ter&aacute; um forte vi&eacute;s estatal. N&atilde;o se justifica a ado&ccedil;&atilde;o de uma medida provis&oacute;ria para implantar a rede TV Brasil. Onde est&atilde;o os crit&eacute;rios de relev&acirc;ncia e urg&ecirc;ncia inerentes a esse instrumento excepcional? O presidente da Rep&uacute;blica indicar&aacute; os membros do Conselho Curador da nova cadeia, com suporte na estrutura da Radiobr&aacute;s, que tem selo chapa-branca e possui o maior complexo de transmissores e antenas de radiodifus&atilde;o em ondas m&eacute;dias e curtas da Am&eacute;rica Latina. Os executivos que definir&atilde;o a melodia tamb&eacute;m s&atilde;o escolhidos pelo ministro da Comunica&ccedil;&atilde;o Social. Sob esta concep&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&atilde;o e mando, forja-se o aparato para vitaminar a comunica&ccedil;&atilde;o governamental, mesmo que se perceba o esfor&ccedil;o dos gestores do sistema em dizer que o Poder Executivo n&atilde;o influenciar&aacute; a programa&ccedil;&atilde;o. Um ente gerado com o sangue do doador tende a replicar seu DNA.<\/p>\n<p>Em se tratando do atual governo, h&aacute; raz&otilde;es para acreditar que a marca do lulismo permear&aacute; a condu&ccedil;&atilde;o da TV P&uacute;blica, indicando pautas, induzindo atitudes, marcando posi&ccedil;&otilde;es. Remanesce a lembran&ccedil;a de sua recente tentativa de impor amarras aos sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o e cultura. Ademais, o presidente, escudado na aura do carisma e na confian&ccedil;a que ainda desperta, principalmente na base da pir&acirc;mide social, n&atilde;o parece inclinado a flexibilizar posi&ccedil;&otilde;es e a ponderar sobre escolhas e rumos. Ao dizer que o novo &oacute;rg&atilde;o pretende manter os diversos &ldquo;sotaques&rdquo; do Pa&iacute;s e refor&ccedil;ar o debate, Lula olha mais para si do que para outros, porque sabe que, na Babel nacional, o &ldquo;sotaque&rdquo; que reverbera &eacute; o dele.<\/p>\n<p>Na Hist&oacute;ria da humanidade s&atilde;o raros os casos de governantes que constru&iacute;ram imp&eacute;rios sem amparo na for&ccedil;a da comunica&ccedil;&atilde;o. Da antiguidade ao s&eacute;culo 15, os mandat&aacute;rios usavam o gog&oacute; e os gestos. Na passagem do Estado-cidade para o Estado-na&ccedil;&atilde;o, a express&atilde;o ganhou mais f&ocirc;lego, saindo da gal&aacute;xia de Gutenberg &#8211; livro e imprensa &#8211; para a de Marconi, a era do r&aacute;dio. Foi este canal de comunica&ccedil;&atilde;o, primeira experi&ecirc;ncia da implos&atilde;o eletr&ocirc;nica, que garantiu a Hitler estreito contato com as massas. A personaliza&ccedil;&atilde;o do poder avan&ccedil;ou nas ondas do r&aacute;dio. Na seq&uuml;&ecirc;ncia, chegou a vez da televis&atilde;o, que funciona, hoje, como palco central da telepol&iacute;tica. A&iacute;, os atores se esmeram na maximiza&ccedil;&atilde;o da performance. Kennedy costumava dizer que a TV era a sua melhor arma, pois &ldquo;o eleitor reage &agrave; imagem, e n&atilde;o ao homem&rdquo;. Voltemos aos nossos tumultuados tr&oacute;picos. Lula atira com todas as armas, mas o gog&oacute; &eacute; a principal. Freq&uuml;enta a gal&aacute;xia de Marconi nas segundas-feiras, ao dar recado &agrave;s margens sociais, abusando da &ldquo;telecracia&rdquo; ao perorar para plat&eacute;ias sob os holofotes da televis&atilde;o. Ali&aacute;s, a TV comercial &eacute; que promove os maiores com&iacute;cios eletr&ocirc;nicos do Pa&iacute;s. S&atilde;o 21 emissoras abertas, convocadas para fazer chegar a 1.561 retransmissores, 2.911 munic&iacute;pios e 40 milh&otilde;es de lares que contam com aparelhos de TV os gargarejos das nossas autoridades. Este ano, 12 integrantes do primeiro escal&atilde;o governamental usaram a telinha comercial para a cerim&ocirc;nia de autoglorifica&ccedil;&atilde;o. Vale lembrar que a administra&ccedil;&atilde;o federal j&aacute; disp&otilde;e da Rede Governo, exclusiva para enaltecer seus feitos.<\/p>\n<p>A nova proposta televisiva cair&aacute; como uma luva na forma lulista de governar. Sob o conceito de que ser&aacute; o &ldquo;olhar dos brasileiros&rdquo;, expresso pelo futuro presidente do Conselho Curador, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, defender&aacute; um ide&aacute;rio plural: valores &eacute;ticos e sociais da fam&iacute;lia, regionaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica e est&iacute;mulo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente. Estar&aacute; imune &agrave;s press&otilde;es do Executivo? N&atilde;o. Os gestores nomeados pelo governo ter&atilde;o coragem de critic&aacute;-lo? O mais destacado exemplo mundial de TV p&uacute;blica, a BBC n&atilde;o escapa das press&otilde;es do governo ingl&ecirc;s. Mas resiste com bravura. L&aacute;, quem d&aacute; o tom s&atilde;o os contribuintes, que garantem &agrave; rede uma receita anual de 2,5 bilh&otilde;es de libras, equivalentes a R$ 12 bilh&otilde;es. A fragilidade do modelo brasileiro de TV P&uacute;blica come&ccedil;a na origem dos recursos. Os &ldquo;donos do poder&rdquo; se acham no direito de, ao conceder as verbas, declinar os verbos. A programa&ccedil;&atilde;o focada na promo&ccedil;&atilde;o da cidadania passar&aacute; pelos pal&aacute;cios, raz&atilde;o pela qual a independ&ecirc;ncia e a autonomia s&oacute; ser&atilde;o vi&aacute;veis sob ordenamento jur&iacute;dico adequado, participa&ccedil;&atilde;o efetiva da sociedade no processo decis&oacute;rio, defini&ccedil;&atilde;o de custeio e conte&uacute;do.<\/p>\n<p>&Eacute; utopia imaginar que a TV P&uacute;blica brasileira estar&aacute; imune &agrave;s press&otilde;es do governo. N&atilde;o por acaso, dedica-se intenso esfor&ccedil;o para estatizar meios e recursos voltados para a meta de desenvolvimento de um projeto de poder de longa dura&ccedil;&atilde;o. Essa modelagem se assenta em alguns eixos, a saber: consolida&ccedil;&atilde;o da estabilidade econ&ocirc;mica, refor&ccedil;o &agrave; pol&iacute;tica social-distributivista de renda, amplia&ccedil;&atilde;o do tamanho do Estado, partidariza&ccedil;&atilde;o da administra&ccedil;&atilde;o e fortalecimento dos movimentos sociais. A comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica &eacute; o fecho do circuito. Ainda mais quando se tem no comando do Pa&iacute;s um comunicador por excel&ecirc;ncia. Lula j&aacute; se comparou a Get&uacute;lio e Juscelino. No quesito comunica&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, seu modelo est&aacute; mais para Napole&atilde;o, que adorava ver-se como Narciso. Bonaparte recorria &agrave; imprensa para embelezar o perfil. Lula parece sonhar com a mesma id&eacute;ia. <!-- ### fim_texto --><\/p>\n<p><!-- ### inicio_pe -->* Gaud&ecirc;ncio Torquato, jornalista, &eacute; professor titular da USP e consultor pol&iacute;tico<strong><font size=\"+0\"><!-- ### fim_pe --><\/font><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Quem &eacute; dono da flauta d&aacute; o tom.&rdquo; A TV P&uacute;blica come&ccedil;a a nascer sob um tom menor, pois o Poder Executivo, o dono da flauta, d&aacute; todas as pistas de que a emissora, planejada para ser a voz plural da brasilidade, ter&aacute; um forte vi&eacute;s estatal. 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