{"id":19430,"date":"2007-10-08T12:59:40","date_gmt":"2007-10-08T12:59:40","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19430"},"modified":"2007-10-08T12:59:40","modified_gmt":"2007-10-08T12:59:40","slug":"os-mitos-da-imprensa-liberal-denuncia-e-alternativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19430","title":{"rendered":"Os mitos da imprensa liberal: den\u00fancia e alternativa"},"content":{"rendered":"<p><em>Resenha do livro The Problem of the Media &#8211; U.S. communication politics in the 21st century, de Robert W. McChesney, publicado em 2006 pela <\/em><span><em>Monthly Review Press.<\/p>\n<p><\/em><\/span><span><em>*<\/p>\n<p><\/em><\/span><span>No mundo inteiro, as empresas jornal&iacute;sticas justificam sua exist&ecirc;ncia a partir da id&eacute;ia de que, sem elas, n&atilde;o existe democracia. Por esse racioc&iacute;nio, a imprensa &eacute; necess&aacute;ria para cumprir tr&ecirc;s tarefas: 1) fiscalizar os governantes e os que aspiram a essa posi&ccedil;&atilde;o; 2) separar as verdades das mentiras; 3) proporcionar aos cidad&atilde;os o acesso &agrave;s opini&otilde;es relevantes sobre os temas de interesse p&uacute;blico.<\/p>\n<p><\/span><span>Na avalia&ccedil;&atilde;o de Robert McChesney, um dos mais importantes analistas de m&iacute;dia dos Estados Unidos, essas inten&ccedil;&otilde;es nunca estiveram t&atilde;o distantes da realidade quanto no momento atual. Esse autor demonstra como a forma&ccedil;&atilde;o de grandes conglomerados no setor de comunica&ccedil;&otilde;es, as pol&iacute;ticas de gest&atilde;o voltadas para a redu&ccedil;&atilde;o dos custos e a &quot;hipercomercializa&ccedil;&atilde;o&quot; do mercado editorial se somaram para fazer da m&iacute;dia contempor&acirc;nea uma institui&ccedil;&atilde;o que contradiz, ponto por ponto, os pressupostos democr&aacute;ticos que legitimam sua exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><\/span><span>McChesney busca na hist&oacute;ria dos EUA argumentos s&oacute;lidos para desmontar os mitos que alicer&ccedil;am o discurso liberal sobre a m&iacute;dia. Seu livro assinala a presen&ccedil;a, em toda a trajet&oacute;ria do pa&iacute;s desde a independ&ecirc;ncia, de &quot;uma tens&atilde;o crucial entre o papel dos &oacute;rg&atilde;os de imprensa como empreendimentos comerciais e sua necessidade para a forma&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os bem informados&quot;. A id&eacute;ia, t&atilde;o cara aos liberais de hoje, de que Estado e imprensa livre n&atilde;o se misturam &eacute; apenas um mito. Na fase inicial da democracia norte-americana, a pluralidade de pontos de vista s&oacute; foi poss&iacute;vel gra&ccedil;as a um vasto sistema de incentivos estatais &#8211; desde os subs&iacute;dios ao papel e &agrave; importa&ccedil;&atilde;o de impressoras at&eacute; a franquia do envio postal. At&eacute; hoje, as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o continuam a se beneficiar de pol&iacute;ticas governamentais que favorecem os seus interesses.<\/p>\n<p><\/span><span>A imprensa norte-americana dos primeiros tempos era assumidamente partid&aacute;ria. Isso n&atilde;o constitu&iacute;a um problema na medida em que, numa mesma comunidade, podiam circular at&eacute; 15 jornais diferentes. &quot;Se algu&eacute;m estivesse insatisfeito com a linha editorial de todos esses 15, n&atilde;o precisaria ser um milion&aacute;rio para criar um 16&ordm;&quot;, comenta McChesney. A grande mudan&ccedil;a ocorreu no final do s&eacute;culo XIX, quando a imprensa caiu sob o dom&iacute;nio de grandes empresas e a venda de publicidade passou a exercer um peso econ&ocirc;mico cada vez maior. A press&atilde;o dos anunciantes for&ccedil;ou uma situa&ccedil;&atilde;o em que, na maioria das cidades, apenas um ou dois jornais sobreviveram. Com exce&ccedil;&atilde;o de grandes metr&oacute;poles, como Nova York, e de &aacute;reas suburbanas antes inexistentes, nenhum novo jornal foi lan&ccedil;ado nos EUA desde 1910.<\/p>\n<p><\/span><span>As empresas de comunica&ccedil;&atilde;o encontraram no tipo-ideal do jornalismo &quot;independente&quot; e &quot;objetivo&quot; um meio eficaz de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; nova realidade. N&atilde;o h&aacute; inconveniente em existirem poucos jornais, dizia-se, desde que eles ofere&ccedil;am informa&ccedil;&otilde;es isentas, ganhando assim a confian&ccedil;a de um universo heterog&ecirc;neo de leitores. Para garantir a independ&ecirc;ncia das publica&ccedil;&otilde;es, surgiu a norma da &quot;separa&ccedil;&atilde;o entre Igreja e Estado&quot; &#8211; o princ&iacute;pio sagrado de que o conte&uacute;do editorial deve permanecer imune aos interesses comerciais da empresa. Disseminou-se entre os jornalistas uma mentalidade de &quot;profissionalismo&quot; que d&aacute; suporte a essa concep&ccedil;&atilde;o. Na pr&aacute;tica, como muit&iacute;ssimos estudos j&aacute; demonstraram, a propalada autonomia editorial sempre esbarrou em limites concretos. A submiss&atilde;o da imprensa aos interesses das elites pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas foi garantida por mecanismos como a sele&ccedil;&atilde;o dos assuntos (&ecirc;nfase nas pautas geradas pelos poderosos) e das fontes (exclus&atilde;o das vozes cr&iacute;ticas ao establishment).<\/p>\n<p><\/span><span>Na atual era de neoliberalismo, mesmo essa imprensa falsamente objetiva est&aacute; desmoronando diante da gan&acirc;ncia incontrol&aacute;vel e da extrema competi&ccedil;&atilde;o. Nos EUA, a derrubada das leis anti-monopolistas (a &quot;desregulamenta&ccedil;&atilde;o&quot;) abriu caminho para um processo fren&eacute;tico de fus&otilde;es e incorpora&ccedil;&otilde;es nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, hoje concentrados nas m&atilde;os de gigantescos conglomerados. Para permanecer nesse jogo bilion&aacute;rio, os capitalistas precisam recuperar rapidamente seus investimentos e, para isso, tratam de modificar as regras e os acordos informais que vigoraram por mais de um s&eacute;culo.<\/p>\n<p><\/span><span>A&iacute; reside, segundo o autor, a explica&ccedil;&atilde;o para o rebaixamento brutal dos padr&otilde;es de qualidade amplamente apontado pelos analistas de m&iacute;dia. Em nome do enxugamento das despesas, um mesmo rep&oacute;rter agora produz mat&eacute;rias para jornais, revistas, TV aberta e a cabo, website, telefonia celular e o que mais venha a ser inventado. &quot;A reportagem investigativa entrou para a lista das esp&eacute;cies amea&ccedil;adas&quot;, escreve McChesney. &quot;Ficou mais barato contratar jornalistas inexperientes para preencher o espa&ccedil;o com as declara&ccedil;&otilde;es dos poderosos. Os rep&oacute;rteres investigativos se tornaram suspeitos, pois as empresas de m&iacute;dia t&ecirc;m pouco incentivo para produzir reportagens que possam irritar seus anunciantes, acionistas e parceiros de neg&oacute;cios.&quot;<\/p>\n<p><\/span><span>A antiga &quot;muralha da China&quot; desabou com a invas&atilde;o das reda&ccedil;&otilde;es pelos interesses comerciais. A penetra&ccedil;&atilde;o se d&aacute; por diversas portas de entrada, segundo McChesney. Uma delas &eacute; a influ&ecirc;ncia crescente das assessorias de imprensa. Com as reda&ccedil;&otilde;es desfalcadas e povoadas por profissionais sem preparo, os releases s&atilde;o publicados como se fossem informa&ccedil;&otilde;es isentas. Outro meio de captura das reda&ccedil;&otilde;es pelo interesse financeiro s&atilde;o as &quot;fontes de receita n&atilde;o-tradicionais&quot;, mat&eacute;rias-pagas produzidas pelos mesmos &oacute;rg&atilde;os de imprensa que, segundo o figurino liberal, deveriam fiscalizar as companhias. Para n&atilde;o desagradar os anunciantes, os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o evitam os assuntos pol&ecirc;micos e se voltam, cada vez mais, para futilidades, para a vida mundana dos ricos e famosos. O &quot;hiper-comercialismo&quot; tamb&eacute;m empurra a m&iacute;dia a dar destaque aos temas e aos interesses do p&uacute;blico endinheirado, de classe &quot;alta&quot; e &quot;m&eacute;dia-alta&quot;, mais atraente para os anunciantes. Desaparece, assim, a no&ccedil;&atilde;o do jornalismo como um servi&ccedil;o p&uacute;blico.<\/p>\n<p><\/span><span>Nesse cen&aacute;rio, o &quot;mundo corporativo&quot; &eacute; quem ocupa o centro. As oscila&ccedil;&otilde;es rotineiras da Bolsa de Valores s&atilde;o tratadas com tema de vital import&acirc;ncia, apesar da indiferen&ccedil;a da maioria da popula&ccedil;&atilde;o por esse assunto. Os temas trabalhistas sumiram do notici&aacute;rio. <\/p>\n<p>Lamentavelmente, observa McChesney, o boom do jornalismo de neg&oacute;cios n&atilde;o provocou um aumento da vigil&acirc;ncia sobre os empres&aacute;rios. Ao contr&aacute;rio, a acumula&ccedil;&atilde;o de riqueza &eacute; cultuada como um valor em si mesmo. Em qualquer assunto, as fontes empresariais t&ecirc;m prioridade.Os magnatas e os altos executivos s&atilde;o tratados com defer&ecirc;ncia servil, ao mesmo tempo em que se descartam os portadores de opini&otilde;es cr&iacute;ticas. Os efeitos nefastos desse processo de deteriora&ccedil;&atilde;o se desnudaram no megaesc&acirc;ndalo que envolveu, em 2002, algumas das maiores corpora&ccedil;&otilde;es empresariais dos EUA, entre as quais a Enron e a WorldCom. A imprensa fracassou vergonhosamente em seu papel de vigil&acirc;ncia. &quot;Apesar dos enormes recursos destinados ao jornalismo de neg&oacute;cios na d&eacute;cada de 90, a imprensa deixou passar em branco todas as evid&ecirc;ncias das falcatruas que eram praticadas nos altos escal&otilde;es da Enron&quot;, escreve McChesney. Ele lembra que a prestigiada revista Fortune premiou a Enron como &quot;a empresa mais inovadora dos EUA&quot; em todos os anos entre 1995 e 2000. <\/p>\n<p><\/span><span>Diante desse panorama sombrio, o que fazer? McChesney tem o grande m&eacute;rito de propor solu&ccedil;&otilde;es vi&aacute;veis &#8211; ou, ao menos, dignas de discuss&atilde;o. Segundo ele, &quot;n&atilde;o podemos ficar prisioneiros da id&eacute;ia de que n&atilde;o h&aacute; alternativa com exce&ccedil;&atilde;o do Gulag&quot;. Ou a tirania stalinista ou a op&ccedil;&atilde;o igualmente antidemocr&aacute;tica de um &quot;pensamento &uacute;nico&quot; sob o controle dos Berlusconis, Murdochs e Marinhos. Sua proposta de democratiza&ccedil;&atilde;o prev&ecirc; duas vias convergentes. De um lado, investimento maci&ccedil;o do Estado em apoio a meios de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-comerciais &#8211; empreendimentos sem fins lucrativos, geridos por cooperativas de jornalistas, entidades comunit&aacute;rias, municipalidades, grupos religiosos etc. Ao mesmo tempo, as autoridades devem instalar um amplo sistema p&uacute;blico de m&iacute;dia, com tecnologia moderna e recursos que o tornem capaz de competir com as redes comerciais.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/p>\n<p>Tanto os problemas analisados por McChesney quanto as solu&ccedil;&otilde;es por ele propostas v&atilde;o muito al&eacute;m, como se percebe, do &acirc;mbito dos EUA. Pela sua relev&acirc;ncia e atualidade, seu livro merece uma tradu&ccedil;&atilde;o brasileira, urgente.<\/p>\n<p><em>* Igor Fuser &eacute; jornalista.<br \/><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha do livro The Problem of the Media &#8211; U.S. communication politics in the 21st century, de Robert W. McChesney, publicado em 2006 pela Monthly Review Press. * No mundo inteiro, as empresas jornal&iacute;sticas justificam sua exist&ecirc;ncia a partir da id&eacute;ia de que, sem elas, n&atilde;o existe democracia. 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