{"id":19420,"date":"2007-10-05T11:59:28","date_gmt":"2007-10-05T11:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19420"},"modified":"2007-10-05T11:59:28","modified_gmt":"2007-10-05T11:59:28","slug":"globo-vive-crise-historica-de-publico-poder-e-credibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19420","title":{"rendered":"Globo vive crise hist\u00f3rica de p\u00fablico, poder e credibilidade"},"content":{"rendered":"<div id=\"lead\" align=\"left\">A TV Globo amarga um desgaste hist&oacute;rico. Nenhum executivo da emissora chega a temer pela n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o das cinco concess&otilde;es que expiram nesta sexta-feira (5). Mas nem essa convic&ccedil;&atilde;o atenua a crise de uma Globo que: 1) perde audi&ecirc;ncia sem parar; 2) &eacute; cada vez mais contestada por movimentos da sociedade civil; e 3) j&aacute; n&atilde;o ostenta tanto poder e credibilidade diante da opini&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>N&atilde;o d&aacute; para dizer que, em curto prazo, a hegemonia da fam&iacute;lia Marinho na televis&atilde;o brasileira esteja sob risco. At&eacute; a Record &#8211; que desbancou o SBT do posto de principal concorrente da Globo &#8211; assume que precisa de pelo menos cinco anos para alcan&ccedil;ar a lideran&ccedil;a de audi&ecirc;ncia. Ainda assim, dia ap&oacute;s dia, estat&iacute;stica a estat&iacute;stica, a Globo decai.<\/p>\n<p>Essa constata&ccedil;&atilde;o fica expl&iacute;cita na Grande S&atilde;o Paulo &#8211; &aacute;rea mais disputada pelas emissoras, onde cada ponto abrange 55 mil domic&iacute;lios. A TV Globo encerrou o m&ecirc;s de setembro com vantagem de 11 pontos sobre a Record (18 x sete). Em rela&ccedil;&atilde;o a setembro de 2006, esses n&uacute;meros revelam que audi&ecirc;ncia global despencou 11,8%, enquanto a Record ganhou 50,2%.<\/p>\n<p>A guerra entre os dois canais se acirrou com a inaugura&ccedil;&atilde;o da Record News, na &uacute;ltima semana, em cerim&ocirc;nia realizada em S&atilde;o Paulo. Visivelmente preocupada, a Globo apelou para o governo federal na tentativa de impedir a estr&eacute;ia da emissora de not&iacute;cias. Evandro Guimar&atilde;es, vice-presidente de Rela&ccedil;&otilde;es Institucionais das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo, teve audi&ecirc;ncia com o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, e com outras autoridades ligadas ao Pal&aacute;cio do Planalto. Sua miss&atilde;o era impedir que a Record News entrasse no ar devido a &quot;ilegalidades&quot;. Fracassou.<\/p>\n<p>O vexame maior se deu no dia da cerim&ocirc;nia da inaugura&ccedil;&atilde;o. Segundo informou Paulo Henrique Amorim no site Conversa Afiada, &quot;a Globo fez uma press&atilde;o violent&iacute;ssima, de &uacute;ltima hora, sobre o Pal&aacute;cio do Planalto, para impedir que o Presidente Lula fosse &agrave; festa de lan&ccedil;amento da Record&quot;. As armas da Globo: &quot;detalhes t&eacute;cnicos minuciosos, que continha o argumento de que a lei impede uma rede de ter dois canais na mesma &aacute;rea&quot;.<\/p>\n<p>Como se viu horas depois, o ataque final foi infrut&iacute;fero, e o presidente da Rep&uacute;blica inaugurou a emissora. As &quot;press&otilde;es de bastidores&quot; perderam o peso que tinham nos tempos em que a Globo era capaz de arquitetar resultados eleitorais e guiar a&ccedil;&otilde;es do Congresso.<\/p>\n<p><strong>Programas em baixa<\/p>\n<p><\/strong>S&atilde;o vis&iacute;veis os sinais de que o p&uacute;blico depende menos da Globo para se informar e se distrair. A debandada atinge novelas (carro-chefe da audi&ecirc;ncia global), futebol (sobretudo sele&ccedil;&atilde;o brasileira), seriados, atra&ccedil;&otilde;es semanais (como Linha Direta, Fant&aacute;stico e Esporte Espetacular) e a programa&ccedil;&atilde;o da manh&atilde;.<\/p>\n<p>Do primeiro ao &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, Para&iacute;so Tropical &#8211; que foi ao ar at&eacute; s&aacute;bado (29\/9) &#8211; teve m&eacute;dia geral de 42,8 pontos. Entre as &quot;novelas da 8&quot; que a emissora exibiu nesta d&eacute;cada, trata-se do segundo pior desempenho &#8211; o t&iacute;pico &quot;fiasco de p&uacute;blico&quot;. N&atilde;o atingiu a meta m&iacute;nima de 45 pontos, estipulada pela Globo. Mais inferior ainda foi a sucessora, Duas Caras, que teve a pior estr&eacute;ia da d&eacute;cada, com 40,3 pontos no primeiro cap&iacute;tulo &#8211; e caiu mais quatro pontos no cap&iacute;tulo seguinte.<\/p>\n<p>&quot;A compara&ccedil;&atilde;o das audi&ecirc;ncias regionais da Globo evidencia que a novela da oito, l&iacute;der na m&eacute;dia nacional e nas principais capitais, n&atilde;o &eacute; uma unanimidade&quot;, explicou Daniel Castro na Folha de S.Paulo. Segundo o jornalista, Para&iacute;so Tropical teve &quot;rejei&ccedil;&atilde;o nas cidades do interior&quot; &#8211; situa&ccedil;&atilde;o com que poucas vezes a Globo teve de lidar.<\/p>\n<p>Malha&ccedil;&atilde;o &eacute; outro exemplo de programa global em queda livre. Na m&eacute;dia, foram 32 pontos em 2004, 31 em 2005, 29 em 2006 e apenas 25 em 2007 (janeiro a setembro). O despencar da atra&ccedil;&atilde;o levou a Globo a antecipar o final da temporada de janeiro para novembro.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o Fant&aacute;stico, l&iacute;der de audi&ecirc;ncia aos domingos,&nbsp;decresce programa a programa &#8211; j&aacute; caiu cinco pontos de agosto a setembro. O cen&aacute;rio mudou. Reportagens &quot;especiais&quot; foram feitas na reta final da novela das 8. Nada resolveu. &quot;Deve haver uma soma de fatores influenciando esse relativo desinteresse do p&uacute;blico&quot;, escreveu a cr&iacute;tica de TV Bia Abramo. &quot;Mas ser&aacute; que para isso tamb&eacute;m n&atilde;o concorre simplesmente um envelhecimento fatal da f&oacute;rmula?&quot;<\/p>\n<p>E a&iacute; est&aacute; o segredo da TV Record. A emissora do bispo Edir Macedo chupa o &quot;padr&atilde;o Globo de qualidade&quot;, seja no jornalismo, seja na teledramaturgia. Mas tempera isso com ousadia e ritmo pr&oacute;prios, aproximando-se do interesse dos jovens espectadores.<\/p>\n<p><strong>A rea&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong>Uma verdade: a Globo, no c&ocirc;mputo geral, ainda tem mais p&uacute;blico que a soma de Record e SBT. A diferen&ccedil;a, no entanto, vai diminuindo. Em 2000, metade dos espectadores sintonizava a Globo. Atualmente, sua audi&ecirc;ncia n&atilde;o passa de 43% &#8211; e a emissora j&aacute; come&ccedil;a a correr para reverter o decl&iacute;nio.<\/p>\n<p>No come&ccedil;o de setembro, mandou a anunciantes um documento de 14 p&aacute;ginas exclamando uma &quot;destacada lideran&ccedil;a em todo o Brasil&quot;. Segundo Daniel Castro, a iniciativa foi interpretada no mercado &quot;como uma demonstra&ccedil;&atilde;o da Globo de preocupa&ccedil;&atilde;o com o marketing e com o crescimento de audi&ecirc;ncia e comercial da Record&quot;.<\/p>\n<p>Uma semana depois, o 7&ordm; Encontro Globo de Cria&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se restringiu a seu tema habitual &#8211; o estudo de programas novos para especiais de fim de ano. O principal ponto em debate foi justamente a audi&ecirc;ncia perdida para outras emissoras, outras m&iacute;dias e at&eacute; para a apatia do espectador. <\/p>\n<p>A disputa pelo p&uacute;blico matutino &eacute; a prova maior do desprest&iacute;gio da Globo, amea&ccedil;ada pelos desenhos do SBT e pelo interessante programa Hoje em Dia, da Record. A emissora carioca j&aacute; patinou v&aacute;rias vezes num terceiro lugar no per&iacute;odo da manh&atilde;, expondo a decad&ecirc;ncia de estrelas como Ana Maria Braga e Xuxa.<\/p>\n<p>Quem dera fosse s&oacute; de manh&atilde;. Na noite de 12 de junho deste ano, a Globo estreou a esperada micross&eacute;rie A Pedra do Reino &#8211; uma das apostas da emissora, e um sucesso de cr&iacute;tica. Ficou novamente atr&aacute;s da Record (22 pontos com O Aprendiz) e do SBT (16 com o filme Lara Croft &#8211; A Origem da Vida). A micross&eacute;rie registrou 14 pontos.<\/p>\n<p><strong>Sob ataques<\/p>\n<p><\/strong>O desgaste da maior emissora do pa&iacute;s se reflete no Congresso Nacional e nos movimentos sociais. L&aacute; como c&aacute;, as manifesta&ccedil;&otilde;es e os discursos anti-Globo se multiplicam. Em defesa do canal, pode-se dizer que houve protestos contra outros ve&iacute;culos, como o ato do Movimento Sem-M&iacute;dia &agrave; frente da Folha de S.Paulo e da UJS (Uni&atilde;o da Juventude Socialista) diante da Editora Abril. A Globo, ainda, assim, &quot;lidera&quot; o ranking da indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em 19 de setembro, o deputado federal Fernando Ferro (PT-PE) foi &agrave; tribuna da C&acirc;mara e, de forma ir&ocirc;nica, prop&ocirc;s a cria&ccedil;&atilde;o do Partido da Imprensa &#8211; com Arnaldo Jabor de presidente, Miriam Leit&atilde;o como secret&aacute;ria-geral e Diogo Mainardi na tesouraria. O mesmo parlamentar voltou ao plen&aacute;rio neste m&ecirc;s de outubro e acusou o diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, de &quot;falsificador&quot; de informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>As queixas generalizadas contra a emissora da fam&iacute;lia Marinho culminam, nesta sexta-feira, em manifesta&ccedil;&otilde;es lideradas pela Coordena&ccedil;&atilde;o dos Movimentos Sociais (CMS) &#8211; A Jornada Nacional de Lutas pela Democratiza&ccedil;&atilde;o dos Meios de Comunica&ccedil;&atilde;o. Com eventos marcados em 15 capitais, entidades como CUT, UNE e MST exigir&atilde;o mais rigor e controle p&uacute;blico na renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV.<\/p>\n<p>S&atilde;o as grandes redes &#8211; Globo &agrave; frente &#8211; que est&atilde;o no centro da contesta&ccedil;&atilde;o. Uma manifesta&ccedil;&atilde;o cultural chamada Globo Mente tomar&aacute; o Rio de Janeiro. No Rec&ocirc;ncavo Baiano e no Recife, comunidades quilombolas sair&atilde;o &agrave;s ruas para denunciar as difama&ccedil;&otilde;es promovidas pela emissora. Os quilombolas da Bahia incentivar&atilde;o o povo a n&atilde;o ver a programa&ccedil;&atilde;o da Globo durante o dia.<\/p>\n<p>&Eacute; dif&iacute;cil que as cinco afiliadas globais percam sua licen&ccedil;a. Um decreto de 1963 permite a renova&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica das concess&otilde;es enquanto o Congresso n&atilde;o aprecia a quest&atilde;o. Mesmo que o caso chegue l&aacute;, dois quintos do Congresso Nacional precisam aprovar a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o em vota&ccedil;&atilde;o nominal. Mas, legisla&ccedil;&atilde;o &agrave; parte, a confiabilidade da TV Globo nunca esteve t&atilde;o &agrave; prova.<\/p>\n<p><em>* Andr&eacute; Cintra &eacute; jornalista e membro da equipe do Portal Vermelho.<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A TV Globo amarga um desgaste hist&oacute;rico. Nenhum executivo da emissora chega a temer pela n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o das cinco concess&otilde;es que expiram nesta sexta-feira (5). 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