{"id":19391,"date":"2007-10-02T16:52:30","date_gmt":"2007-10-02T16:52:30","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19391"},"modified":"2007-10-02T16:52:30","modified_gmt":"2007-10-02T16:52:30","slug":"direito-autoral-aquele-abraco-como-unica-moeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19391","title":{"rendered":"Direito autoral: aquele abra\u00e7o como \u00fanica moeda"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>A recente pol&ecirc;mica entre o ministro Gilberto Gil e seu parceiro e amigo Caetano Veloso em torno da prote&ccedil;&atilde;o dos direitos de propriedade dos criadores art&iacute;sticos vai muito al&eacute;m dos interesses imediatos dos que vivem da produ&ccedil;&atilde;o cultural. Caetano acusou Gil de estar criando um ambiente de &quot;vale-tudo&quot;, em que os interesses dos artistas seriam seriamente feridos com a ren&uacute;ncia &agrave; prote&ccedil;&atilde;o. O compositor Fernando Brant, hoje presidente da Uni&atilde;o Brasileira de Compositores, manifestou-se abertamente contra o Creative Commons, iniciativa para desenvolver uma s&eacute;rie de licen&ccedil;as que permitem aos indiv&iacute;duos que produzem informa&ccedil;&atilde;o, cultura e conhecimento definir o que os outros podem fazer com seus trabalhos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; &oacute;bvio que Caetano e Brant n&atilde;o representam o ponto de vista conservador de defesa da propriedade e dos interesses das grandes gravadoras contra uma suposta posi&ccedil;&atilde;o irrespons&aacute;vel de Gil, j&aacute; assentado em reputa&ccedil;&atilde;o internacional e, por isso, alheio aos direitos autorais. Tal polaridade n&atilde;o faz jus &agrave; intelig&ecirc;ncia desses g&ecirc;nios da ra&ccedil;a. O que est&aacute; em jogo no debate &eacute; aquilo que o &uacute;ltimo livro de Yochai Benkler, professor da Entrepreneurial Legal Studies da Harvard Law School, considera a mais importante for&ccedil;a de mudan&ccedil;a das sociedades contempor&acirc;neas: a nova economia da informa&ccedil;&atilde;o em rede. Parodiando Adam Smith, Benkler escreveu &quot;The Wealth of Networks&quot;, publicado pela Yale University Press e dispon&iacute;vel na internet por licen&ccedil;a da Creative Commons.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>O trabalho de Benkler n&atilde;o consiste em propor um irrealista desprendimento material aos produtores de informa&ccedil;&atilde;o, cultura e conhecimento, como se, com a ades&atilde;o ao Creative Commons, pudessem viver do ar azul do c&eacute;u. Seu ponto de partida &eacute; que bens culturais s&atilde;o diferentes daquilo que caracteriza o conjunto da produ&ccedil;&atilde;o social. Conforme ensina a microeconomia, bens culturais s&atilde;o n&atilde;o rivais, isto &eacute;, seu consumo por algu&eacute;m em nada prejudica o consumo simult&acirc;neo ou posterior por outra pessoa. Ma&ccedil;&atilde;s e laranjas s&atilde;o bens rivais. Depois de eu consumir uma laranja, mais recursos ter&atilde;o de ser alocados &agrave; sua produ&ccedil;&atilde;o para atender a um novo consumidor. Com a informa&ccedil;&atilde;o, a cultura e o conhecimento, n&atilde;o. Por isso, s&atilde;o fortes candidatos &agrave; produ&ccedil;&atilde;o fora das leis do mercado.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>A pol&iacute;tica de prote&ccedil;&atilde;o de bens n&atilde;o rivais s&oacute; poderia ser justificada por duas raz&otilde;es. Em primeiro lugar, para garantir os direitos que v&atilde;o permitir a difus&atilde;o da cultura por parte de empresas, compensando os investimentos em m&aacute;quinas para imprimir jornais, antenas de televis&atilde;o e est&uacute;dios de cinema. Sem pagamento, n&atilde;o responder&atilde;o &agrave; necessidade de difundir a cultura, o que justifica, socialmente, os direitos autorais. Em segundo lugar, a prote&ccedil;&atilde;o garantiria aos autores que possam viver de sua produ&ccedil;&atilde;o intelectual, sem o que a sociedade sairia prejudicada, pela aus&ecirc;ncia de suas obras.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>Os computadores e a internet fazem parte de um conjunto de mudan&ccedil;as institucionais e tecnol&oacute;gicas que jogam por terra essas duas justifica&ccedil;&otilde;es. Os padr&otilde;es que dominaram a produ&ccedil;&atilde;o cultural no s&eacute;culo XX e se materializaram no poder de Hollywood, das grandes redes de gravadoras e de telecomunica&ccedil;&otilde;es respondiam a uma l&oacute;gica de fabricar relativamente poucos produtos e ganhar de maneira extraordin&aacute;ria com sua distribui&ccedil;&atilde;o massiva. Dos 3 mil discos editados na Fran&ccedil;a em 2001, apenas 30 figuram entre os mais tocados nas emissoras de r&aacute;dio e 10 responderam por 80% das vendas. Isso quer dizer que a difus&atilde;o cultural promovida pela economia industrial da informa&ccedil;&atilde;o &eacute; extremamente restrita e pouco diversificada, j&aacute; que se trata de maximizar alguns poucos produtos, com base em sua massifica&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Quanto &agrave; prote&ccedil;&atilde;o dos direitos dos autores, ela tem uma contrapartida que foi apontada por Josh Lerner numa pesquisa sobre mudan&ccedil;as nos direitos de propriedade em 60 pa&iacute;ses ao longo de 150 anos. Os resultados s&atilde;o desconcertantes para os adeptos da id&eacute;ia de que sem a prote&ccedil;&atilde;o ao direito de autor n&atilde;o h&aacute; inova&ccedil;&atilde;o: a prote&ccedil;&atilde;o por patentes n&atilde;o aumenta o n&iacute;vel de inova&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses, por duas raz&otilde;es b&aacute;sicas. A primeira est&aacute; no chamado efeito &quot;sobre os ombros de gigante&quot; e se refere &agrave; c&eacute;lebre tirada de Newton, segundo a qual n&atilde;o poderia ter escrito sua teoria se n&atilde;o estivesse apoiado em Cop&eacute;rnico e Galileu. A segunda refere-se &agrave; n&atilde;o-rivalidade: os custos do acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o protegida s&atilde;o freq&uuml;entemente maiores do que os benef&iacute;cios com seu uso. Portanto, do ponto de vista social, restringir o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, ao conhecimento e &agrave; cultura por meio de direitos autorais amea&ccedil;a o vigor dos processos inovadores.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; aqui que Benkler mostra que seu trabalho n&atilde;o consiste em propor um modelo, mas em constatar algo que j&aacute; est&aacute; francamente em processo de constru&ccedil;&atilde;o. O surgimento da internet fortaleceu um ambiente no qual emergem formas de a&ccedil;&atilde;o coletiva que n&atilde;o se baseiam nem no sistema de pre&ccedil;os nem na coordena&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica das firmas ou dos grupos de firmas. A internet oferece uma plataforma de comunica&ccedil;&atilde;o que fortalece a a&ccedil;&atilde;o em rede dos indiv&iacute;duos.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>Mas, se &eacute; assim, como sobrevivem os criadores de cultura e conhecimento neste mundo em que a produ&ccedil;&atilde;o partilhada, avaliada e certificada pelos pares, &eacute; cada vez mais importante, inclusive na estrat&eacute;gia de grandes grupos econ&ocirc;micos como a IBM? A partilha dos direitos do autor e sua permiss&atilde;o de uso (como, por exemplo, na pr&aacute;tica do &quot;copyleft&quot;) n&atilde;o v&atilde;o conduzir ao aniquilamento da energia criativa que se localiza em alguns indiv&iacute;duos de maneira especial? Benkler mostra como a economia da informa&ccedil;&atilde;o em rede fortalece a mistura entre rela&ccedil;&otilde;es mercantis e n&atilde;o mercantis: o produtor cultural que estimula a venda livre de suas obras em CDs (como no caso, por exemplo, do tecnobrega paraense) vai ampliar suas chances de ganho em shows e festas ou em confer&ecirc;ncias ou ainda com publicidade.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>O livro de Benkler rompe com a id&eacute;ia, t&atilde;o comum nos dias de hoje, de que a vida c&iacute;vica contempor&acirc;nea est&aacute; afundando com a mercantiliza&ccedil;&atilde;o do mundo, a corrup&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;tica e a crise na representa&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica. Ele constata a emerg&ecirc;ncia de uma nova esfera p&uacute;blica, fora do mercado e das hierarquias. O que escapa aos objetivos de Benkler, mas vai na mesma dire&ccedil;&atilde;o que ele aponta, s&atilde;o os resultados mais recentes dos trabalhos inspirados na nova sociologia econ&ocirc;mica que mostram a import&acirc;ncia crucial das redes sociais nos mais variados dom&iacute;nios da vida econ&ocirc;mica.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p><span><em>* Ricardo Abramovay &eacute; professor titular do departamento de economia da FEA e do Programa de Ci&ecirc;ncia Ambiental (PROCAM) da USP<\/em>&nbsp; <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recente pol&ecirc;mica entre o ministro Gilberto Gil e seu parceiro e amigo Caetano Veloso em torno da prote&ccedil;&atilde;o dos direitos de propriedade dos criadores art&iacute;sticos vai muito al&eacute;m dos interesses imediatos dos que vivem da produ&ccedil;&atilde;o cultural. 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